O melhor pecado de Saramago
Lucas Rodrigues Pires

          Se Saramago é hoje um autor que dizem ultrapassado, ele já esteve na crista da onda e para seus fãs ele continua firme e forte. Claro que o Nobel há pouco mais de 10 anos lhe renderia uma popularidade pouco vista em se tratando de escritor de língua portuguesa (com exceção de Paulo Coelho), e a adaptação de Ensaio sobre a Cegueira para o cinema no ano passado só ajudou a repô-lo nas páginas culturais. E hoje, octogenário, Saramago continua o mesmo autor complexo e falante, conquistando a admiração e o repúdio de parcelas tão distintas e ecléticas. Mas o que fez com que fosse tão querido e odiado ao mesmo tempo? Qual as suas marcas traçadas na literatura mundial?

         Seu livro mais bem-sucedido e com o qual obteve amplo reconhecimento foi Memorial do Convento, escrito em 1982. Fantasia e história se mesclam nessa narrativa da construção do Convento de Mafra. Sem dúvidas, este o levou a ser conhecido mundialmente, mas foi em 1991, com seu O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que Saramago apareceu aos olhos até daqueles que o ignoravam. Ateu e comunista convictos, escreveu sua versão da vida de Jesus Cristo, causando muita polêmica e escândalo entre a Igreja católica e seus seguidores. Tanto é que foi proibido pelo Vaticano e até mesmo censurado pelo então governo de centro-esquerda português. Depois desse incidente com o executivo de seu país, decidiu abandonar Portugal e, desde então, mora na Ilha Canária de Lanzarote com sua esposa e tradutora, Pilar del Rio. Contudo, afirmava com orgulho: “Sou português e nada mais que português, mas, por força de meu trabalho, minha pátria cresceu tanto que tenho também pátria na Argentina e no México”.

         E o que fez tanto o romancista para que muitos se voltassem contra seus livros e sua pessoa? Saramago reconta a história de Jesus Cristo – o filho de Deus enviado à terra. É a mesma história se só levarmos em conta as personagens e as fábulas. Ele parece penetrar na consciência do ser humano Jesus e nos mostra seus sentimentos em relação a tudo e a todos, principalmente quanto a ser o escolhido a receber a missão de pregar e morrer na cruz. Seus medos, suas ambições, suas revoltas e até mesmo seus ressentimentos estão à tona nesse evangelho. Daí o nome do livro: ser um evangelho – como foram o de Lucas, Mateus, Marcos e João –, só que encarado pela óptica do próprio centro da história, da personagem principal que foi Jesus Cristo.

         É interessante ver como um ateu coloca os milagres e as aparições de Deus. Este é colocado como um ser extremamente autoritário e impiedoso, capaz dos mais cruéis atos para aumentar seu rebanho na Terra. Um Deus que defende o Diabo e suas ações, e que chega a negar a este a desistência de praticar o mal – justamente porque do Diabo depende o poder e a força de Deus.

         Desse Deus nasceu Jesus de Nazaré. O menino preocupado e aflito com sua importância e seu destino para a história do mundo. Um garoto como outro qualquer, revoltado, religioso, humano, homem, que vai em busca de respostas e vive parte de sua adolescência na companhia do Diabo, mas também ao lado de Deus. Enfim, o Bem e o Mal juntos nesse homem destinado a morrer por seu Deus e Pai – não por querer, como ele deixa bem claro na quarentena passada no meio do mar e não no Monte das Oliveiras, mas por ser obrigado, porque aquele era seu destino traçado por... Deus. E isso explica sua atitude perante Judas à véspera de sua crucificação e suas últimas palavras, proferidas voltadas ao céu em tom de piedade.

         Depois desse livro, vieram outros, como Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes e A Caverna. O século 21, outros mais, como O Homem Duplicado, Ensaio sobre a Lucidez e As Intermitências da Morte, além do livro de memórias As Pequenas Memórias. Quando foi anunciado como ganhador do Nobel, tal prêmio levantou polêmicas na alta hierarquia católica. O Vaticano, através do jornal “L’Observatore Romano”, lamentou que o prêmio tivesse sido dado a um “comunista recalcitrante”; a qual o português respondeu: “O Vaticano se escandaliza muito facilmente, sobretudo com as pessoas de fora. Que trate de suas orações e deixe a gente em paz. Respeito muito a quem tem convicção, mas pela instituição que representam não tenho muito respeito”. Anos depois, Saramago romperia com o regime cubano, mas não deixaria de ser um defensor das minorias socialistas, participando de eventos e encontros.

         Escritor atípico, antes de seu romance de estréia, Levantado do Chão, de 1980, apenas escrevera algumas poesias e cadernos de viagens, além de uma novela (Terra do Pecado) publicada em 1947. Foi só aos 58 anos de idade que realmente ingressou no campo dos romances e da literatura. Sua temática é sempre constante: a reflexão em torno da luta solitária contra a autoridade. Basicamente e inseridos cada qual no seu contexto, seus livros apresentam essa característica. Não só o tema, mas principalmente o estilo de escrever, Saramago se diferencia e se torna inconfundível. Seus parágrafos demasiados longos e o uso corrente de vírgulas e pontos para separar diálogos, frases, interrogações e tudo o mais, confundem os mais chegados na simplificação. Além de tudo isso, a antítese história – ficção está quase sempre presente. Várias obras suas são originárias de fatos históricos. O que ele faz é recontá-las, a seu modo, como se fosse um Deus onipresente e onisciente, como o Deus dos homens em que ele mesmo não crê.