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A
Arquitetura do Impossível de Paula Sertório
Martinho Junior
Trata-se
de uma tela; daquelas com tinta sobre tela e materiais outros
pregados ou colados. Certamente uma arte outrora condenada,
tida como exaurida pelas investidas modernistas (e não
devemos ver esta crítica tanto negativa, já que
telas tinham sido perfuradas, queimadas, oxidadas, rasgadas
etc.), e que assim tirariam toda a validade para novos apontamentos
artísticos por meio deste tradicional suporte. Porém,
na conhecida geração 80, artistas relutaram a
favor do retorno da pintura de cavalete, o que de certa forma
foi conquistado. Mas, esta volta à pintura (que não
foi um fato isolado aqui no Brasil) endossou ainda mais a sua
morte preconizada, pois se ainda restava algo a ser dito por
ela, o fato tinha se consumado, de modo que poderíamos
enterrá-la sem ter a impressão do fantasma de
uma letargia. Mas, felizmente (?) não é o que
aconteceu, as telas continuam exercendo uma dupla função.
A primeira, e talvez a mais conhecida, é aquela que contempla
o mercado, ou seja, a pintura servida como um bom motivo burguês
decorador. A segunda, por sua vez, remete-nos aos antigos anseios
da pintura, contestadora e semanticamente prenhe. Seguindo este
nosso pensamento rasteiro, estamos diante de qual pintura? Certamente
tendenciosa ao segundo tipo, sem deixar de deslizar-se pelo
primeiro.
Os
prédios, cinzentos e aglomerados uns nos outros, estão
dispostos em um ritmo vertiginoso de uma arquitetura impossível;
sim, impossível aos olhos inflexíveis que teimam
identificar em trabalhos visuais relações diretas
com o mundo que conhecemos, e bem aceito, como real. Aqui a
cidade não é apenas graficamente desproporcional,
mas está imersa à impossibilidade de si, tentemos
ser um tanto mais claro. O espaço está cada vez
mais confinado a ser extinto, logo o único lugar disponível
ao crescimento civilizacional é o fálico
vertical; pela falta de espaço horizontal os edifícios
debatem-se num crescimento aéreo e se digladiam como
numa queda de braços, dessa vez visando quem detém
mais o capital. A artista, desse modo, não se contenta
apenas na exibição de um mundo por meio das tintas,
sua arquitetura do impossível é impossível
somente graficamente, vista com um pouco mais de deferência
é denunciativa, e descortinada de sua visualidade (trata-se
de uma pintura, sobretudo inteligível), é a arquitetura
mais possível em cidades megalomaníacas (ao menos
em seus projetos arquiteturais) como São Paulo. Talvez
na modernidade (ou seria nossa contemporaneidade?), culturalmente
das grandes metrópoles de crescimento frenético,
não há espaço para outra coisa a não
ser a si mesma. Nesta tela só a cidade aparece como protagonista,
e por isso é mostrada como clinicamente interferida,
há certa melancolia naquela cidade, uma cidade doente.
Na paisagem não vemos árvores ou casas, pessoas
ou outros animais e o céu parece contaminado por este
ambiente sombrio; o que seria só azulado (no caso um
límpido céu) está rodeado de cinza; um
cinza que não provém de nuvens sedentas por tempestades,
mas, sem sombra de dúvidas, das construções.
Nesta tela de Sertório, fica difícil discernir
o que contamina o que, se é a cidade que influiu no meio
e, por conseguinte na arquitetura, ou o seu contrário.
Mas, o que temos é exatamente a cidade, sua arquitetura
e seu design, interferindo de modo direto nas relações
inter e intra-subjetivas de uma população que
é desconhecida, ou melhor, que não se pode enxergar;
talvez sua maior patologia. Estamos diante de uma cidade da
qual sua supremacia se quer tão férrea que seus
moradores tornam-se segundo plano, e, portanto insignificantes
sem sequer necessitar de uma representação, nem
a mais pífia e longínqua possível; deles
não temos absolutamente nada senão os traços
de seus feitos. Poderíamos resgatar o mundo desalmado
de que nos fala James Hilman, tão pertinente a este gênero
e que de certa forma, e mesmo sem sabê-lo, faz parte do
mesmo caminho trilhado pela artista. Para Hilman, as mais recentes
patologias apresentadas pelos cidadãos não estão
mais apenas nas relações com a família,
casais, filhos etc. É preciso olhar o “lá
fora”, já que o “mundo é agora, diz
Hilman, objeto de imenso sofrimento, exibindo sintomas agudos
e grosseiros pelos quais se defende contra o colapso”.
Parece-me que estamos comentando uma tela que está ligada
intimamente com essas questões, a doença da cidade
como seu espelho.
Por
meio desta psicologia moderna que transcende o próprio
corpo (talvez apenas alterando o corpo, pois na arquitetura
há um corpo, segundo esta via de pensamento, moribundo),
vemos na obra de Sertório a ausência de saída
deste mundo que perdeu sua alma. A máquina de morar que
exaltava Le Corbusier dá espaço para um inevitável
organismo de morar. Contudo, o design impossível
dos prédios não é o único fator
crítico que figura na tela; uma outra questão
de uma outra ordem e ao mesmo tempo intimamente ligada à
alma do mundo é posta em jogo.
Embora
só agora citado, não se trata de um elemento de
relevância menor na composição, apenas por
questões estruturais vamos passar a expor a consagração
da arquitetura do impossível que se expande além
de seus limites, ganhando contornos consideráveis. O
espectador atencioso, afoito e audacioso logo se questionará
sobre a fiação que cobre a tela de Sertório.
Aparentemente inofensivos, esses elementos revela-nos o que
consegue furar o bloqueio da super proteção dos
prédios emparelhados como em um front. Os fios, notadamente
de telefones, que na tela saltam aos olhos em uma materialidade
não de tintas ou colagens ao acaso, mas do emprego do
próprio material, transpassa todos os edifícios.
Note-se que estes fios estão cravados nas extremidades
dos prédios “acorrentando-os”, por assim
dizer; estão somente na parte inferior perto de seus
alicerces. Veja bem, se a fiação telefônica
que visa em primeiro lugar a comunicação, tem
seu papel invertido sendo alvo da própria incomunicação,
uma vez que serve, na obra, como elementos opressivos; é
aquilo que ao invés de libertar à comunicação
sem fronteiras, acorrenta em uma incomunicação
sem fronteiras. O telefone chega aos estabelecimentos assim
como toda e qualquer mídia: através de perfurações;
e por meio delas transforma a utopia da vida privada em ruínas.
É a terceira catástrofe de que fala Vílem
Flusser. O filósofo indica tais perfurações
como uma das grandes catástrofes que o homem sofreu em
sua pequena história. A primeira é quando o primata
cai das árvores e é obrigado a ser nômade,
toda sua realidade e percepção são substancialmente
alteradas; algum tempo depois aprende a ser sedentário
novamente, domesticando animais e cultivando a terra, e assim
ficou até pouco tempo, momento da segunda catástrofe,
na qual o homem vítima de seu sedentarismo aprisiona-se
em casas. No mundo contemporâneo, a terceira catástrofe,
da qual Flusser nem sequer nomeou, vê-se um retorno ao
nomadismo, de maneira especialmente diferente. Este neo-nomadismo
faz com que os homens vivam perambulando de um lado ao outro
como outrora, mas agora apenas imageticamente. A informação
invade a proteção do homem (sua casa, notadamente)
pelas perfurações e a transforma em um local inabitável,
pois há um bombardeio de informações por
todos os lados sem permissão ou consentimento. Acorrentado
por estes fios, o homem viaja sem sair de sua poltrona, por
meio das mídias.
A
mídia, furacão de nossa época, já
se acostumou em invadir a privacidade férrea dos prédios,
deteriorando as relações dessa vida e assim tornando-se
mais uma constituinte da arquitetura apresentada por Sertório,
que não por acaso, é uma arquiteta e como tal
se vê na obrigação de pensar não
apenas em projetos mirabolantes, mas também em seu próprio
trabalho que inevitavelmente está empregado nessas localidades
megalomaníacas.

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