O
tempo como criação humana, produto da imaginação
aplicada, que, por sua via, daria ao homem a emancipação
da natureza. Eis uma idéia que circunda o livro Os
Descobridores, de Daniel Boorstin (3ª edição,
Civilização Brasileira, 1989), a respeito da evolução
da noção de tempo (calendário, astrologia,
relógios e outras formas de medidas) na humanidade. Baseado
em pesquisas e citando ostensivamente exemplos que comprovam
essa dita evolução do tempo (mas nenhuma fonte
é citada, não há referências bibliográficas
em notas de rodapé, o que, para um trabalho histórico
mais rigoroso, é de difícil aceitação),
facilmente se chega à conclusão de que o tempo,
mesmo subjetivo como objeto, é uma criação
científica.

“A ciência é utilizada para satisfazer às
necessidades humanas e como instrumento para estabelecer um
controle prático sobre a natureza”. (José
Carlos Koche, Fundamentos de Metodologia Científica,
21a edição, Vozes, 1997, p. 43). Esta afirmação
parece ser o cerne da questão desenvolvida por Boorstin
nesse primeiro “livro” sobre o tempo de Os Descobridores.
Para o autor, controlar o tempo (no sentido de saber medi-lo
e não de manipulá-lo) parece ter sido uma das
obsessões humanas desde a Antigüidade, desde os
antigos babilônios – os primeiros a estabelecer
um calendário lunar – até os egípcios
(os primeiros a descobrir a duração do ano solar
e a defini-la de uma maneira útil e prática).
Mas, para tanto, o homem teria que se libertar das amarras da
natureza – observá-la era a forma primitiva e padrão
inicial de se sentir a passagem do tempo (nascer do sol e anoitecer,
envelhecimento, crescimento das plantas, mudanças climáticas
etc.).
Escreve Boorstin: “Enquanto o homem regeu a sua vida apenas
pelos ciclos da natureza, permaneceu prisioneiro dela. Se queria
seguir o seu próprio caminho e encher o seu mundo de
novidades humanas, teria de criar as suas próprias medidas
de tempo”. Foi na busca dessas novas medidas de tempo
que o homem se embrenhou no decorrer da história, e dessa
procura nasceu a astrologia.
O tempo contabilizado era, inicialmente, medido pela luz solar.
Boorstin narra uma linha evolutiva da história do relógio
que é, também, a própria história
do homem. O relógio de sol media o tempo pela sombra
projetada no solo de algum objeto vertical. Do sol o homem passou
a medir a passagem do tempo pela água. Os relógios
de água ficaram muito populares na Roma antiga e possibilitaram
o cálculo do tempo em regiões com pouco sol e,
mais importante, durante a noite. O homem ainda criaria o relógio
de areia – as ampulhetas – e o pêndulo até
chegar ao mecanismo que abriu espaço para os relógios
modernos atuais. O relógio mecânico nasceria durante
o Renascimento e, ironicamente, foi concebido inicialmente não
para mostrar o tempo, mas sim para soá-lo.
Segundo o autor, tal relógio mecânico feito para
soar o tempo apontaria o caminho para uma nova maneira de pensar
o próprio tempo. Não só isto, mas também
a relação do homem com o tempo, algo que estimulou
novos tipos de compreensão e imaginação.
A
tentativa de captar o tempo pode ser encarada como uma forma
de ir além do plano terrestre. A racionalidade humana,
o que diferencia o homem do animal, possibilitou a evolução
da espécie – através das técnicas
de sobrevivência dos homens primitivos e das ‘evoluções’
consideradas na escala humana, como o fogo, a manufatura de
armas e utensílios manuais e a agricultura, entre outras.
Claro que nessa escala podemos, num momento posterior, incluir
a escrita, a roda, a pólvora, a ciência, a eletricidade
e todo o aparato técnico decorrente da tecnologia, que
viria a estabelecer o homem como espécie dominante. O
tempo da natureza, dos astros – amplo, indomável,
inatingível – agora estaria “encaixotado”
e trabalhando para o homem. O homem, enfim, se aproximaria de
Deus?
Toda a descrição contida nessa primeira parte
de Os Descobridores pode indicar algo que não
seria descabido concluir: o homem, desde o princípio,
quis se comparar aos deuses.
Seja
na forma de afronta (que poderia encontrar respaldo no relato
bíblico da queda do Homem do Paraíso, o que faria
dessa afronta uma forma de vingança e transformaria o
Homem em novos-Lúcifers; ou no mitologia grega, de semideuses
e homens que desafiaram os deuses e foram condenados, como Prometeu
e Sísifo), seja na forma de louvação (como
festas a divindades e construções para homenagear
os respectivos deuses, mesmo que encarnados em homens considerados
reis), o fato é que o homem sempre buscou o impossível,
a grandiosidade digna apenas dos deuses. E essa busca grandiosa
foi capaz de resultados estupendos, inventos capazes de coisas
maravilhosas, mas também de aberrações.
O desenvolvimento de armas nucleares com a potência de
aniquilar pessoas na casa dos muitos milhares e a recente e
incessante pesquisa para realizar clones são bons exemplos.
Com o livre-arbítrio, o homem fez da ciência uma
faca de dois gumes. Nunca a frase “brincar de ser Deus”
coube tão bem, e a conquista do tempo, seu enclausuramento,
é parte desse caminho rumo ao Olimpo.
Voltemos à questão do tempo. Boorstin não
toca nisso, mas devemos lembrar que a noção de
tempo só existe em razão do homem. Sem o homem
para medi-lo haveria o tempo? E, sem a razão, haveria
a consciência da noção de tempo? Onde quero
chegar está justamente no conceito de memória,
que é, indubitavelmente, onde desemboca a razão
e possibilita ao homem a percepção do tempo. Sem
a memória não haveria história nem ciência
e nenhuma forma de conhecimento. As coisas simplesmente aconteceriam
e se esvairiam, tal qual o som pelo ar. Assim, poderíamos
dizer que tempo é memória, é história,
é criação humana, é resultado científico.
Ao mesmo tempo, devemos separar a idéia de tempo em duas
imagens distintas: uma é o tempo em si e outra é
a representação que o homem faz dele. A primeira
é independente, faz-se notar fisicamente pela atuação
nas coisas, na natureza, é violento, voraz, porque inexorável.
[“... o tempo e suas águas inflamáveis,
esse rio largo que não se cansa de correr, lento e sinuoso,
ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando
de vária direção o caldo turvo dos afluentes
e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a
razão mítica da história, sempre tolerante
(...) com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe
o curso, não cabendo com ele o leito em que há
de fluir, cabendo menos ainda a cada correr contra a corrente,
aí daquele que tenta deter com as mãos seu movimento:
será consumido por suas águas; aí daquele,
aprendiz de feiticeiro, que abre a camisa para o confronto:
há de sucumbir em suas chamas, que toda mudança,
antes de ousar proferir o nome, não pode ser mais que
insinuada...” – Raduan Nassar, Lavoura Arcaica,
3a edição, Cia das Letras, 1999, pp. 184-85].
A segunda é sua representação, criada e
elaborada pelo homem, é mecânico, passível
de erros e de manipulação. Produto da atuação
direta do homem e não do fluir natural das coisas.
Diante da evolução do homem – de onde a
noção do tempo é apenas um passo –
fica nítido que nossa espécie está imbuída
não apenas da racionalidade característica, mas
também de um espírito desbravador, que o impulsiona
a buscar o desconhecido, o misterioso, o sobrenatural. Algo
como uma ânsia de conhecimento, o que não quer
dizer, necessariamente, sabedoria. Tal espírito se acentuou
no Renascimento, nas artes e nas ciências, com as grandes
navegações, quando, em decorrência dessa
expansão marítima, o mundo acabou se tornando
maior e menor simultaneamente. Maior pelo descobrimento de novos
continentes e regiões antes nunca exploradas pelo homem
europeu. Com isso, chegou-se ao veredicto final do tamanho do
planeta. Menor porque a tecnologia desenvolvida desde então
passou a encurtar distâncias, facilitar acessos e a possibilitar
a comunicação e o comércio intercontinentais.
Remetendo-se novamente a Koche, afirma ele: “O motivo
básico que conduz a humanidade à investigação
científica está em sua curiosidade intelectual,
na necessidade de compreender o mundo em que se insere e na
de se compreender a si mesma. Tão grande é essa
necessidade que, onde não há ciência, o
homem cria mitos”. (idem, pág. 44)
Muitos formularam conceitos para essa curiosidade intelectual,
esse espírito incansável, e chegaram a termos
como ‘orientação’ e ‘filobatismo’.
São expressões diferentes que, no final das contas,
querem dizer a mesma coisa. Ambas estão ligadas à
postura do homem frente ao mundo e é inegável
que foi (e é) esse impulso irracional (fina ironia) que
move os grandes descobrimentos científicos e tecnológicos
da humanidade. Se a razão foi o que possibilitou ao homem
dominar o planeta e a natureza, também foi esse espírito
descobridor, um tanto irracional, que moveu o homem para o caminho
de obter os meios.
A conquista do tempo é resultado da racionalidade humana
aliada ao espírito de descobridor. Dizer qual deles guia
o outro já é uma questão mais complexa,
mas Boorstin, em Os Descobridores, parece apontar para
uma resposta.