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Transcendentes
Martinho
Junior
Tão
prazeroso quanto ver Kandinsky é lê-lo. Sobretudo
sua obra inicial Do Espiritual na Arte de 1910. É
evidente que ele clamava em nome dessa guinada espiritual
na arte, que longe de ser uma arte pela arte, é a apresentação
de um dado momento histórico. E assim ele começa:
“Toda obra de arte é filha de seu tempo e, muitas
vezes mãe dos nossos sentimentos”, e continua
de maneira análoga “cada época de uma
civilização cria uma arte que lhe é própria
e que jamais se verá renascer”. O grau de atualidade
nesse discurso beira ao espantoso. Em alguns pontos parece
indicações de um Jacques Aumont, O olho
interminável, em outros Arthur Danto em Após
o fim da arte. Não me hesitarei em citar este
último. Se toda obra é filha de seu tempo, como
quer Kandinsky, os valores estéticos não voltariam,
estariam em contínua mudança. Parece-me uma
idéia bastante coerente. Para Danto, hoje estamos num
momento em que “tudo é possível”.
Tudo, menos a transcendência histórica. E de
certo modo, Kandinsky já em 1910 preconizava tal fenômeno.
Os valores do século XIV jamais serão os nossos,
e Didi-Huberman ao pensar em algo semelhante, indica que a
especificidade de um vitral medieval, por exemplo, estaria
em um conjunto de elementos distintos e complexos tais como,
o cozimento do vidro e o monge que se prostrou por muitas
e muitas horas para a cópia de um manuscrito. Mas Kandinsky
está interessado em validar uma arte não-realista,
ou abstrata (termos totalmente discutíveis que já
passaram por imensas altercadas). Em suas telas, muitas vezes
nos figura um mundo outro, talvez um espiritual.
Na
tela Céu Azul, parece que estamos diante de
um mundo microscópico, de partículas invisíveis,
de certo modo um universo a parte. Uma tela que anda em consonância
com seu tempo, com idéias vinculadas em todas as esferas,
como mais tarde apontaria Aumont na já referida obra.
Céu Azul, anda na sombra, no sentido de que
uma sociedade tecnicista não estaria visando tais aventuras
interiores e pulsionais. Poderíamos, a partir disto e
de Danto nos perguntar sobre uma obra, contemporânea,
que revele anseios semelhantes, mas que não deixe de
ser fruto de seu tempo e que não esteja na orla de um
outro momento histórico, em um descompasso. Vejamos um
desenho de Monisa Fleming.

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para ampliar a imagem
Parece-nos
que também um mundo está em ebulição,
uma nascente não geométrica que possui o despretensioso
título de Bolinas e Espirais, veja bem, não
são aquelas bolinhas. Uma grande série
que se expande e aprimora-se diariamente. Decoração?
Inegável que também, mas redutor limitar a isto.
Um mundo que poderia ser também microscópico,
de um orgânico todo particular. Claro uma aproximação
totalmente desproporcional, trata-se de peças distintas.
Mas, mais uma vez, vejamos um trecho de Do Espiritual
na Arte: "Não é nem um homem, nem
uma maçã, nem uma árvore, que Cézanne
quer representar; ele serve-se de tudo isso para criar uma
coisa pintada que proporciona um som bem interior e se chama
imagem". Frase poética e musical, que é
também ela uma obra de sua época, a imagem despida
de suas intencionalidades figurativas, a imagem como motivo.
E no caso é Céu Azul, é Bolinhas
e Espirais e ponto. Deleitar-se com a imagem, deixar
as formas curvilíneas penetrar e tomar conta: brincos,
piercings, arames, símbolos de notas músicas
perdidas e nunca usadas, um universo particular e coletivo
ao mesmo tempo, pouco importa. A brincadeira com formas continua
viva, e se isso é verdade é também verdade
que existem latências que merecem ser descortinadas,
e que talvez pela força hipnótica da imagem,
que me olha diariamente, continuarei andarilho em busca...

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