“Apagão” no MASP?
Martinho Junior

maio/2006

        Hoje me deparei com uma notícia um tanto constrangedora. O Museu de Arte de São Paulo ficou sem iluminação, luz cortada pela Eletropaulo que alegou inadimplência por parte do museu. Segundo a Folha de São Paulo, em nota publicada hoje em sua versão on-line, o museu bateu a casa dos 3 milhões em dívida!!! Impressionante, é muito dinheiro.

        Todos sabem que este museu não está nada bem financeiramente – para tanto, basta retrocedermos nosso olhar e constatar que há algum tempo não há uma exposição temporária de peso lá – e, no entanto ninguém faz nada. Evidentemente que é sabido também que neste local, que tem seu valor beirando ao culto, está inserido o mais importante acervo da humanidade da América Latina, para citar apenas os mais populares, temos: Delacroix, Boch, Rafael, Ticiano, Manet e Holbein, sem contar a riqueza da arte brasileira e das peças fundamentais da chamada idade média.


           O Museu possui potentes geradores, ufa!, As obras, apesar da falta de energia, continuarão, por enquanto, repousando na temperatura que lhe são devidas, mas, insisto no fator “vergonha” que um museu, do porte do Masp, teve de enfrentar hoje, nem mesmo a nota divulgada de prontidão à imprensa conseguiu reverter este sentimento, nela simplesmente dizia que “as últimas 11 contas mensais referentes ao consumo de energia foram devidamente pagas e quitadas”; muitos visitantes atônitos encontraram as portas fechadas pelo motivo referido, ou seja, “Hoje o museu não funciona porque não temos dinheiro para pagar a conta de luz”.

       Podemos nos perguntar, o que acontece? Ninguém ajuda esta instituição, que é verdadeiramente de todos nós, posto que o acervo bem como o prédio são tombados, com méritos, como patrimônios da humanidade. A resposta talvez não seja negativa, mas fica clarificado que aquilo que está entrando não é o suficiente. Este episódio me lembra imediatamente uma coluna crítica de Ferreira Gullar publicada há algumas poucas semanas. Nela, o poeta, crítico, ensaísta entre muitas outras coisas, atenta para o fato do fechamento do histórico teatro carioca Opinião. Ao ler a crítica de Gullar, a sensação primeira que nos vem é de desgosto, pois fica nítido o descaso com tal patrimônio de nossa história. Gullar vivenciou aquele teatro, ajudar a concebê-lo – inclusive o espetáculo que deu o nome ao teatro – o que de certa forma dá maior autoridade ao poeta ao relatar os fatos.

        Opinião foi palco de uma importante resistência frente à ditadura militar que assolava o país e sua importância é inconteste. Se eu, que acompanhei longinquamente a situação fiquei perplexo, imaginem Gullar que em sua história mantinha uma relação quase carnal com aquele espaço. Ele encerra o artigo desta maneira: “O governo do Estado e a prefeitura, que tanto dinheiro gastam com propaganda e shows de ‘pop stars’, nada fizeram para evitar a morte de mais um teatro no Rio e, desta vez, um teatro que fazia parte da história do país, entre cujas paredes se travou uma pequena parte da luta pela democracia brasileira.”

         De fato, não podemos fechar os olhos ao ponto de ignorar a fala de Gullar, muito se tem gastado com propagandas maciças na vinda de grandes shows internacionais ao Brasil, acham patrocinadores por todas as partes; um dos grandes shows que aconteceu no Rio de Janeiro, chegou a ser gratuito graças aos amigos patrocinadores. “Tudo bem”, podemos pensar, e logo completar “e daí, o que eles procuram é dinheiro”, sim, mas isto não é motivos para aceitarmos tudo. Se sob a insígnia da “responsabilidade social”, empresas criam e fortalecem sua identidade perante seu target – diga-se com justiça que muitas vezes é só para criar uma imagem de uma empresa politicamente engajada em propostas sociais, mas que sua responsabilidade social restringe-se à criação de malas diretas e em milhões de folders espalhados pela cidade – há um brecha que devia ser tratada com maior rigor e vigor pelos responsáveis competentes. Se esta responsabilidade fosse levada a séria, a morte do Opinião e a vergonha do MASP poderiam ter sido evitadas, mas as prioridades parecem ser outras.

         O que fazer então? Enquanto nada é feito, deixar nosso acervo padecer à visitação da escuridão, ou melhor, doá-lo a um país mais evoluído do que o Brasil, que saberia tratá-lo de forma adequada! (Dizem que o Haiti poderia sê-lo, ao menos no quesito educação parece que eles estão na nossa frente). Mas, claro que a energia no MASP vai voltar, a Eletropaulo irá restabelecê-la, mas a ferida vai ficar; ao menos em mim este apagão perpetuará por um tempo e a voz de Ferreira Gullar ecoará criticamente igualmente em mim. O MASP foi apagado, e garanto-lhes que não foi o único. Pois é, às vezes é melhor fechar a porta com a chave para não ver o que acontece no país; como diz aquela maravilhosa canção do nosso ministro da cultura e compositor (ou compositor e ministro, não sei): “Se não eu caio/ Nesse mundo e fico louco/ E por pouco, muito pouco / Eu me perco até de mim”.