A politica e o novo lacerdismo
Lucas Rodrigues Pires

         O cenário político do primeiro governo Lula lembrou muito àquele dos anos 1950, quando o presidente era Getúlio Vargas. O mesmo presidente popular com as classes populares, as mesmas denúncias e acusações de corrupção, a mesma tentativa de criar um clima de golpismo e os mesmos adversários a desestabilizar e tentar reverter uma eleição perdida. Vargas e Lula, bons de voto. Oposição, golpismo e desespero.

          Para quem viveu ou estudou a história política brasileira do século XX, a repetição de certas mazelas nacionais pairaram no ar. Lula lá no alto nas pesquisas de popularidade. Vitória folgada na reeleição, já que seu adversário político tinha pouco ou quase nenhum carisma, tendo sua campanha só decolado depois do tiro no pé do PT com o tal do dossiê. Mas o mote da corrida presidencial de 2006 foi um partido de oposição que tentou de tudo para atingir a pessoa do presidente, pois este conseguiu descolar seu nome do de seu partido, este já bem enlameado. Definitivamente, desde que interessou à reeleição de Lula, Lula e PT não eram mais sinônimos.

          Enquanto o PT se sujava e deixava cair sua estrela, a oposição, essencialmente PSDB já que os demais partidos são coadjuvantes e inofensivos, teve uma recaída no tempo e encarnou com fervor a velha UDN, de fileiras elitistas e “ruim de voto”. As velhas raposas udenistas das décadas de 1940 e 1950 tiveram ressonância no século XXI através de depoimentos e artigos. Se nos anos 50 cada frase dita por um alto militar já virava bomba contra o governo, em 2006 a coisa foi muito similar, só que, felizmente, os militares permaneceram nos quartéis. Coube a velhos políticos da elite burguesa nacional, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, traçar cenários e estratégias de luta contra o “diabo barbudo”.

          Na imprensa, então, a coisa foi generalizada e descarada. Viu-se um grande complô a favor de certo candidato anódino, por isso apelidado com maestria de “Picolé de Xuxu”. Não faltou o veneno destilado cheio de ranço por parte de colunistas de grandes veículos de comunicação a pregar uma cruzada contra “a imoralidade e a corrupção”. Pergunto a eles? Só agora que temos de nos inflar? Antes desse governo não? Antes era tudo maravilhoso?

          Enfim, tivemos diversos colunistas posando de Carlos Lacerda, reivindicando o trono de golpista, difamador e articulado. O velho esquerdista Arnaldo Jabor, hoje do lado contrário da trincheira (é bem nisso que ele se sente), versou artigos dignos de apocalipse, mas não tem como negar que o homem da vez do golpismo é oriundo das páginas que exigem sangue governamental de Veja, Diogo Mainardi. Ambos lideraram a ofensiva contra o PT, Lula, a corrupção e a imoralidade do Brasil. Ao final, perderam (ou ganharam, se pensarmos em termos de repercussão e nome).

          Mas é interessante notar como esses dois guerreiros do jornalismo ativista e pseudo-opinativo montaram suas estratégias. Ambos bebem em um ponto comum: o uso da ironia. Jabor é mais articulado, usa um estilo próximo ao poético para criar um cenário apocalíptico, faz referências históricas ao passado de petistas ilustres, como se ainda vivêssemos no período da Guerra Fria e como se toda a trupe esquerdista hoje no poder fossem estritamente fiéis ao que eram nos anos 60 e 70. Jabor ignora a guinada ao centro do governo, e caçoa de Lula como se fosse um inimigo de infância. Mainardi é o típico “bêbado do boteco da esquina”, ou, para voltar no tempo e mudar de sistema, ele é uma espécie de bobo da corte, aquele indivíduo contratado pelos reis para diverti-los, mas que, por seu caráter brincalhão, pode fazer as perguntas básicas e dizer aquilo que os outros esquecem de perguntar ou tem vergonha de falar. É a voz livre para entregar os pontos, expor o que acha errado, tudo em tom galhofeiro, com certo teor de deboche, de governos, do Brasil, de si. mas, assim como o bobo da corte, acaba por ressoar, causar constrangimento ou raiva, e mais nada...

          Mainardi tem um texto simples e fácil, que dialoga com uma classe média um tanto reacionária que crê quer ouvir exatamente o que ele tem a dizer. Ele é debochado, usa da autodepreciação para atingir seus objetivos, muitas vezes envolve seu lado pessoal e coloca no holofote as dezenas de processos judiciais que responde por dizer “a verdade”. Assim, cria em torno de si a imagem de um Quixote contemporâneo lutando contra os moinhos de vento comandados pelo PT que lavam dinheiro e surrupiam o brasileiro. Mainardi, como colunista, tenta fazer o papel de brasileiro questionador, sendo para seus leitores a voz pública que estes não têm, a consciência a tocar-lhes a mente semanalmente.

          Lacerda escrevia em seu jornal (Tribuna da Imprensa) contra Vargas, contra Juscelino, contra tudo que fosse contra seu credo de cristão e conservador. E, diferentemente do neolacerdismo de araque atual, acreditava piamente no que dizia. Comunista na juventude, mas um cristão fervoroso toda a vida, pregou abertamente o golpismo e se expunha de peito aberto. Apesar do excesso de agressividade e impetuosidade, seus textos panfletários transmitiam seriedade, de sua caneta escorria combatividade, “campanhas contra a politicagem, contra a corrupção político-administrativa, denunciando negociatas, fraudes, imoralidades, e contra a subversão” (O Estado de S.Paulo, 22/5/1977). Claro que essas campanhas tinham interesses pessoais e se aproximavam do discurso fascista. Lacerda queria ser presidente da República, sonhava com isso e por isso se meteu na política após a queda de Vargas em 1945. A ambição do “Corvo”, como foi apelidado pelo jornal Última Hora de Samuel Weiner quando numa briga entre eles, tinha razão política, e se tornou impossível distinguir o Lacerda jornalista do Lacerda político. Um era outro, e vice-versa.

          Os escritos pelos atuais herdeiros têm outra dinâmica. Os de Jabor parecem escritos pensando na coletânea de artigos num livro sobre a política atual que logo muito provavelmente ele reunirá e lançará por uma editora grande. Ou seja, parece escrito para ser admirado como obra, não como idéia. Em síntese, tem cara de best-seller e isso que parece importar a seu autor. Já Mainardi é o provocador por excelência, parece escrever pelo vício da polêmica, não por convicção. Seu ímpeto não parece ser o de propor idéias e mostrar o quanto o atual governo está errado. Pelo contrário, para ele, que já escreveu um livro detonando o país, quanto pior melhor. Seu sucesso se deve justamente a isso. De voluntário a exilado medíocre passou a colunista mais lido do Brasil por ser um encrenqueiro de primeira, ou segunda linha, escrevendo muitas vezes coisas em que não acredita mas sabe que vai gerar polêmica. Vestiu a roupa certa na hora certa, pegando carona no vácuo deixado por Paulo Francis, e hoje colhe os frutos de falar a uma classe que quer ouvir os mesmos discursos para legitimar qualquer coisa que não seja ter de mudar algo, a não ser tirar Lula e o PT do poder.

          E assim é o Brasil. Lula segue firme com o apoio das classes populares, tal qual Vargas em seu tempo. Num país polarizado, Lula caiu para o lado das camadas populares à medida que seu mandato foi se esgotando, o que lhe garantiu a reeleição. Foi nas eleições que se mostrou que o Davi conhecido por povo foi capaz de derrotar Golias, também lembrado como mídia e classe empresarial. O discurso de que brasileiro não sabe votar voltou à tona, mas isso é algo comum desde sua criação nos anos 50, quando a UDN (de Lacerda, aliás) elegeu o povo de bode expiatório para sua incapacidade de conquistar votos. A história ensina aqueles que querem aprender com ela. Há aqueles que cismam em reeditar erros passados. A história se repete, os discursos se repetem, e as coisas continuam sempre como sempre foram, há 10, 50 ou 500 anos.