O
cenário político do primeiro governo Lula lembrou
muito àquele dos anos 1950, quando o presidente era Getúlio
Vargas. O mesmo presidente popular com as classes populares,
as mesmas denúncias e acusações de corrupção,
a mesma tentativa de criar um clima de golpismo e os mesmos
adversários a desestabilizar e tentar reverter uma eleição
perdida. Vargas e Lula, bons de voto. Oposição,
golpismo e desespero.
Para
quem viveu ou estudou a história política brasileira
do século XX, a repetição de certas mazelas
nacionais pairaram no ar. Lula lá no alto nas pesquisas
de popularidade. Vitória folgada na reeleição,
já que seu adversário político tinha pouco
ou quase nenhum carisma, tendo sua campanha só decolado
depois do tiro no pé do PT com o tal do dossiê.
Mas o mote da corrida presidencial de 2006 foi um partido de
oposição que tentou de tudo para atingir a pessoa
do presidente, pois este conseguiu descolar seu nome do de seu
partido, este já bem enlameado. Definitivamente, desde
que interessou à reeleição de Lula, Lula
e PT não eram mais sinônimos.

Enquanto
o PT se sujava e deixava cair sua estrela, a oposição,
essencialmente PSDB já que os demais partidos são
coadjuvantes e inofensivos, teve uma recaída no tempo
e encarnou com fervor a velha UDN, de fileiras elitistas e “ruim
de voto”. As velhas raposas udenistas das décadas
de 1940 e 1950 tiveram ressonância no século XXI
através de depoimentos e artigos. Se nos anos 50 cada
frase dita por um alto militar já virava bomba contra
o governo, em 2006 a coisa foi muito similar, só que,
felizmente, os militares permaneceram nos quartéis. Coube
a velhos políticos da elite burguesa nacional, como o
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, traçar cenários
e estratégias de luta contra o “diabo barbudo”.
Na
imprensa, então, a coisa foi generalizada e descarada.
Viu-se um grande complô a favor de certo candidato anódino,
por isso apelidado com maestria de “Picolé de Xuxu”.
Não faltou o veneno destilado cheio de ranço por
parte de colunistas de grandes veículos de comunicação
a pregar uma cruzada contra “a imoralidade e a corrupção”.
Pergunto a eles? Só agora que temos de nos inflar? Antes
desse governo não? Antes era tudo maravilhoso?
Enfim,
tivemos diversos colunistas posando de Carlos Lacerda, reivindicando
o trono de golpista, difamador e articulado. O velho esquerdista
Arnaldo Jabor, hoje do lado contrário da trincheira (é
bem nisso que ele se sente), versou artigos dignos de apocalipse,
mas não tem como negar que o homem da vez do golpismo
é oriundo das páginas que exigem sangue governamental
de Veja, Diogo Mainardi. Ambos lideraram a ofensiva contra o
PT, Lula, a corrupção e a imoralidade do Brasil.
Ao final, perderam (ou ganharam, se pensarmos em termos de repercussão
e nome).

Mas
é interessante notar como esses dois guerreiros do jornalismo
ativista e pseudo-opinativo montaram suas estratégias.
Ambos bebem em um ponto comum: o uso da ironia. Jabor é
mais articulado, usa um estilo próximo ao poético
para criar um cenário apocalíptico, faz referências
históricas ao passado de petistas ilustres, como se ainda
vivêssemos no período da Guerra Fria e como se
toda a trupe esquerdista hoje no poder fossem estritamente fiéis
ao que eram nos anos 60 e 70. Jabor ignora a guinada ao centro
do governo, e caçoa de Lula como se fosse um inimigo
de infância. Mainardi é o típico “bêbado
do boteco da esquina”, ou, para voltar no tempo e mudar
de sistema, ele é uma espécie de bobo da corte,
aquele indivíduo contratado pelos reis para diverti-los,
mas que, por seu caráter brincalhão, pode fazer
as perguntas básicas e dizer aquilo que os outros esquecem
de perguntar ou tem vergonha de falar. É a voz livre
para entregar os pontos, expor o que acha errado, tudo em tom
galhofeiro, com certo teor de deboche, de governos, do Brasil,
de si. mas, assim como o bobo da corte, acaba por ressoar, causar
constrangimento ou raiva, e mais nada...
Mainardi
tem um texto simples e fácil, que dialoga com uma classe
média um tanto reacionária que crê quer
ouvir exatamente o que ele tem a dizer. Ele é debochado,
usa da autodepreciação para atingir seus objetivos,
muitas vezes envolve seu lado pessoal e coloca no holofote as
dezenas de processos judiciais que responde por dizer “a
verdade”. Assim, cria em torno de si a imagem de um Quixote
contemporâneo lutando contra os moinhos de vento comandados
pelo PT que lavam dinheiro e surrupiam o brasileiro. Mainardi,
como colunista, tenta fazer o papel de brasileiro questionador,
sendo para seus leitores a voz pública que estes não
têm, a consciência a tocar-lhes a mente semanalmente.
Lacerda
escrevia em seu jornal (Tribuna da Imprensa) contra Vargas,
contra Juscelino, contra tudo que fosse contra seu credo de
cristão e conservador. E, diferentemente do neolacerdismo
de araque atual, acreditava piamente no que dizia. Comunista
na juventude, mas um cristão fervoroso toda a vida, pregou
abertamente o golpismo e se expunha de peito aberto. Apesar
do excesso de agressividade e impetuosidade, seus textos panfletários
transmitiam seriedade, de sua caneta escorria combatividade,
“campanhas contra a politicagem, contra a corrupção
político-administrativa, denunciando negociatas, fraudes,
imoralidades, e contra a subversão” (O Estado de
S.Paulo, 22/5/1977). Claro que essas campanhas tinham interesses
pessoais e se aproximavam do discurso fascista. Lacerda queria
ser presidente da República, sonhava com isso e por isso
se meteu na política após a queda de Vargas em
1945. A ambição do “Corvo”, como foi
apelidado pelo jornal Última Hora de Samuel Weiner quando
numa briga entre eles, tinha razão política, e
se tornou impossível distinguir o Lacerda jornalista
do Lacerda político. Um era outro, e vice-versa.
Os
escritos pelos atuais herdeiros têm outra dinâmica.
Os de Jabor parecem escritos pensando na coletânea de
artigos num livro sobre a política atual que logo muito
provavelmente ele reunirá e lançará por
uma editora grande. Ou seja, parece escrito para ser admirado
como obra, não como idéia. Em síntese,
tem cara de best-seller e isso que parece importar a seu autor.
Já Mainardi é o provocador por excelência,
parece escrever pelo vício da polêmica, não
por convicção. Seu ímpeto não parece
ser o de propor idéias e mostrar o quanto o atual governo
está errado. Pelo contrário, para ele, que já
escreveu um livro detonando o país, quanto pior melhor.
Seu sucesso se deve justamente a isso. De voluntário
a exilado medíocre passou a colunista mais lido do Brasil
por ser um encrenqueiro de primeira, ou segunda linha, escrevendo
muitas vezes coisas em que não acredita mas sabe que
vai gerar polêmica. Vestiu a roupa certa na hora certa,
pegando carona no vácuo deixado por Paulo Francis, e
hoje colhe os frutos de falar a uma classe que quer ouvir os
mesmos discursos para legitimar qualquer coisa que não
seja ter de mudar algo, a não ser tirar Lula e o PT do
poder.
E
assim é o Brasil. Lula segue firme com o apoio das classes
populares, tal qual Vargas em seu tempo. Num país polarizado,
Lula caiu para o lado das camadas populares à medida
que seu mandato foi se esgotando, o que lhe garantiu a reeleição.
Foi nas eleições que se mostrou que o Davi conhecido
por povo foi capaz de derrotar Golias, também lembrado
como mídia e classe empresarial. O discurso de que brasileiro
não sabe votar voltou à tona, mas isso é
algo comum desde sua criação nos anos 50, quando
a UDN (de Lacerda, aliás) elegeu o povo de bode expiatório
para sua incapacidade de conquistar votos. A história
ensina aqueles que querem aprender com ela. Há aqueles
que cismam em reeditar erros passados. A história se
repete, os discursos se repetem, e as coisas continuam sempre
como sempre foram, há 10, 50 ou 500 anos.