No divã com a taça de vinho - Parte 1
Martinho Junior

        Hoje, uma sexta-feira à noite, ninguém me olhou, nenhuma fitada sequer. É nessas horas que me sinto ainda mais sozinho, onde a solidão parece ser minha única companhia. Evidentemente que tive uma grande parcela de culpa nisto, uma vez que não saí de casa. E isso certamente não é novidade, pois hoje completa uma semana que nem para trabalhar tiro o cadeado do portão e muito menos para visitar minha psicanalista que religiosamente há um ano, todas as quintas-feiras, conto principalmente minhas frustrações com muita dedicação, e ela reciprocamente sempre me foi muito atenciosa.

      Minha analista, há dois meses vem tentando mostrar minhas falibilidades como ser humano, diz que se trata de um comportamento depressivo, digno de quem forçosamente empurra-se ao isolamento. E sabiamente já predizia esta situação eremítica atual da qual ela me é partícipe. Malditas sejam a medicina e a psicologia contemporânea que teimam em classificar todos nossos sentimentos que não sejam politicamente corretos como “patologias” clinicamente diagnosticáveis e passíveis de um comprimidinho para disfarçar nossa “dor”. Só de pensar que hoje uma simples tristeza, dependendo da interpretação do médico, pode-se reverter num grave quadro depressivo com direito a comprimidos de cloridatos de fluoxetina de manhã e o mesmo em gotas à noite, me deixa profundamente inervado; o que de certa forma, algum médico vendo-me inervado sentirá no seu dever de me “curar”, e haja DSM para justificar tanto remédio. Até eu já decorei algumas páginas inteiras desse compêndio e facilmente poderia indicar um conhecido do bairro como portador de um transtorno de conduta, pelo seu arredio comportamento com seus animais do qual ele insiste em dizer que os ama incondicionalmente.

       Alias é um livro em que o nome já amedronta quem o encara: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. Eis um grande exercício, mesmo se você se considera uma pessoa normal, eu o convido a folhear algumas páginas ao acaso do chamado DSM-IV (depois que chegou à famosa quarta edição misteriosamente mantém esse número no nome), após essa experiência única, com certeza você se enquadrará em alguma patologia psicossomática entre os milhares existentes, e com sorte seu médico lhe recomendará um supan, um tranquinal ou algo parecido para resolver o problema instaurado. Afinal não é todo dia que descobrimo-nos em um mato psicossomático, a partir de então podemos sofrer conscientemente.

      Retomando o que dizia, o verbo é mais do que adequado, pois, esses comprimidos, apenas disfarçam o problema, a verdadeira dor continua lá guardada e crescendo, e quando menos esperamos, ou quando o remédio acaba ela retorna renovada, mais forte e viril. O problema é que ignoram a gente como pessoa que tem uma história e que provavelmente irá segui-la de alguma maneira, reduzindo-nos a um receptáculo de testes pré-concebidos e perguntas, que em sua essência não chegam nem próximo de nosso interior, apelidado a algum tempo de inconsciente. Precisaríamos varrer as generalidades – na procura desenfreada à facilitação, deixou-se de lado a complexidade na qual estamos imersos – e protestar a favor de uma atenção, que não seja impostora, e sim específica, resgatando nossa memória e, por conseguinte nosso entorno. Até mesmo os psicólogos, que a priori não receitariam remédios, tentam por meio de algum psiquiatra receitas milagrosas para ressuscitar seus pacientes. É bom realçar que minha analista jamais tentou me medicar. Não, isto não é verdade, logo no primeiro mês de terapia ela me disse para procurar um médico de confiança que poderia me receitar algo para minha “melancolia aguda” que era desconhecida por mim até então. Não dei muita bola, e ela, para minha alegria (ou será que ela estava me testando?), aceitou minha decisão de permanecer apenas em corriqueiras conversas entre aspectos do meu comportamento e as metáforas mitológicas de Freud, que por sinal sempre fui muito desconfiado.

       Entretanto, o importante é que foi uma mentira deslavada aquilo que contei à analista – da última vez em que lá estive – durante uma hora perdida de terapia. Vale dizer que não a enganei, pelo contrário enganei a mim mesmo, pois ocultando fatos, deixei de aproveitar uma hora que por sinal é muito bem paga; e pensando bem se é para não falar o que aconteceu, fico em casa, como agora. Ela, a analista, estava lá como sempre, vestida sobriamente com cores claras e com seus óculos que pareciam não ter graus, até aí sem nenhuma novidade aparente, tudo seguia conforme o habitual, como todas as quintas-feiras. Entretanto, de frente para mim seu olhar revestido e estendido pelos óculos me intimidou, não pela primeira vez, mas de um jeito completamente diferente. Ela estava terrivelmente bela, seu decote (acredito eu, inaceitável pela posição que uma terapeuta ocupa), deixava transparecer a suntuosidade de seus seios, que me pareceram de tamanho médio, de uma maciez invejável e prontos a serem arrebatados por mim, nunca percebera como ela tinha seios tão metricamente saudáveis. Aqueles seios – frutos da minha imaginação guinada pelo decote indevido –, juntamente com a nova cor que seu cabelo absorvera, sem dúvida de alguma tinta embelezadora muito eficiente de mulheres, deixaram-me perplexo. Só podia se tratar de duas coisas: ou ela estava querendo aproveitar-se da minha frágil situação seduzindo-me, ou eu estava enganado. Mas, como nunca me engano, adotei como verdadeira a primeira opção. A partir deste momento não prestei atenção em mais nada do que sua terna e vistosa boca expelia, apenas alguns poucos comentários foram perceptíveis, como: “você precisa olhar o que fomenta em você”, ou: “a solidão é combatida enxergando o que se teima em velar”. A situação tornou-se inconcebível, feria-me no âmago da minha criação fortemente masculina, e ela, minha terapeuta há mais de um ano, sem dúvidas já se apercebera deste fato, logo, realmente as peças encaixavam-se com uma rara perfeição e eu não podia deixar a chance escapar-me, não estava enganado. Hipnotizado, faminto de coragem para examinar a certeza do início de um laço afetivo, saí da desconfortável posição que ocupava diante dela para enfim aproximar-me, satisfazendo assim, não aos meus, mas os desejos que estavam repelidos atrás de sua máscara analítica. Seguindo este meu raciocínio, estava ajudando-a, agindo por ela, que insisto em dizer, estava imobilizada pelo fato de acreditar que estava me analisando, pobre criatura, nesse momento mal podia imaginar que eu já sabia de todos os seus mirabolantes anseios, que no mínimo tinham conotações sexuais.

       Hesitei por um estante, em frações de segundos voltei para minha condição de paciente. Ao menos aparentemente tinha voltado para aquela condição, pois fervia o desejo de acabar com a fantasia de uma análise; profundamente excitado, não conseguia mover-me, pois naquele momento era todo desejo e o sangue que esquenta nessa hora parece que estanca em um único lugar, dentro das calças. Felizmente as cuecas que tinha acostumado a comprar, bem apertada e de um algodão que não era apenas macio como também grosso, de certa forma ajudou a disfarçar. “Parece que você nem me escuta hoje, deve ser o seu inconsciente querendo fugir de nossa conversa”, disse-me ela, e logo em seguida completou: “Será que encerramos mais cedo hoje”. “Não!” Repeti três vezes, assumindo que meu inconsciente me traíra e que precisava mesmo da continuação da terapia, não podia perder a oportunidade, tinha que resgatar minhas forças para poder completar o que vinha sendo certo em minha rápida análise dela.

fim da parte 1