A sensibilidade moderna e o processo de criação de Franz Kafka
Lucas Pires


“Certamente alguém havia caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem que tivesse feito mal algum”
O Processo

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”
A Metamorfose

      Nos primeiros anos do século 20, Franz Kafka escreveu tais enfadonhas linhas, as que introduzem os leitores às respectivas obras. Mal supunha ele que estivesse traduzindo em palavras o zeitgeist de sua época. Identificar e compreender a característica fulcral do universo do autor, em especial no romance O Processo, coloca-se como missão obrigatória para os interessados no emaranhado de significados que permeia as primeiras décadas do século passado.

      A herança recebida do século 19 não inspirava grandes especulações de alívio. Por volta de 1850, uma parcela dos artistas, europeus e não europeus, já exprimia a crise de valores que assolaria o mundo ocidental, no fim desse mesmo século. Baudelaire, Flaubert, Edgar Alan Poe e Huysmans, entre outros, foram homens que tiveram olhos para o século 20. A filosofia pessimista de Schopenhauer já apontava um mundo irracional e caótico, sem ordem, valores ou sentido. Assim, Kafka, seus antecessores e o homem fragmentado que nascia anteciparam, de certo modo, o século 20, era das guerras mundiais e matanças generalizadas, dos regimes autoritários e da manipulação das massas. Anatol Rosenfeld lembra-nos que o autor tcheco não pode ser arrancado de seu contexto histórico e, assim, considerado um “monstro surgido dos famosos abismos do nada". Pelo contrário, seria preciso “integrar Kafka numa linha de tradição e renovação, vê-lo como herdeiro e pioneiro” (Rosenfeld, 1996: 229).

      Kafka era também um sonhador que se fechava em si, ou melhor, que encontrou refúgio numa imaginação desordenada, atormentada, ansiosa e nervosa. Em Kafka, um agravante a mais – a crise pessoal psicológica com a presença castradora do pai. Se seu mundo era órfão de sentidos, sua figura pessoal estava sufocada pela repressão paterna (exemplar dessa relação conflituosa e repressora é a carta escrita por ele ao pai, lançada em livro com o nome de Carta ao Pai, mas nunca entregue ao destinatário). Ambos órfãos (pior que órfãos, rejeitados), o escritor e seu mundo.

      Sendo o mundo moderno povoado de subjetivismos, chega-se à conclusão de ser o conhecimento reflexo desses mil e um sujeitos. Portanto, a verdade não existiria, haveria apenas pontos de vista. Kafka representaria um deles, com sua literatura que faz a estranheza de um acontecimento absurdo aparentar ser “perfeitamente natural”, como informa a orelha da edição de A Metamorfose. Apresenta um mundo criado, resultante de um processo de redução, atuação unilateral, que deforma tempo, espaço, causalidade, substância e mesmo a realidade corriqueira. O resultado de uma crise generalizada, desde a razão aos valores, desde os conceitos históricos aos do conhecimento.

      Neste final de século 19, havia mesmo essa visão de mundo em crise (cf. estudos posteriores que apontam a decadência do Ocidente, como a obra de Oswald Spengler). O positivismo se via em crise, e tal doutrina filosófica se desdobrou em várias tendências no campo historiográfico. Duas visões de mundo se confrontavam – a romântica e a mecanicista. Uma oriunda da emoção e outra da razão e da ciência que se fazia forte com as descobertas e teorias científicas. O modernismo surgiria filosoficamente deste ponto – do esforço de unir esses conceitos opostos. Por que separar razão de emoção? O modernismo seria essa busca de fusão entre as visões de mundo mecânica e intuitiva.

      Tendia-se ao irracional, obra confessa do subjetivismo agudo, pois com a perda de sentido da verdade, da moral e dos valores, as ações humanas também não adquirem sentido algum. Rosenfeld acentua o caráter irracional do período: “O moderno irracionalismo, conseqüência de um desequilíbrio social, econômico e psicológico, contribui, por sua vez, para intensificar o caos do nosso tempo” (Op. cit. 1996:65). Mata-se, corrompe-se – um niilismo ético levado às últimas conseqüências. A subjetividade leva a temporalidades, e a fragmentação da vida e do tempo é marca característica do mundo moderno. Os primeiros modernos apresentam claramente esse residual, como aponta Frederik Karl em O Moderno e o Modernismo – A Soberania do Artista 1885-1925, com o fluxo de consciência. “A vanguarda, em toda cultura modernista, é representada pelo fluxo de consciência. (...) o fluxo não podia ter existido sem a ênfase ao ego que mostramos ser tão essencial ao desenvolvimento do modernismo. As pressões da vida moderna que podiam levar à perda do ego ou à desumanização do ego resultaram no protesto do ego. Isso significava não a sua aniquilação, mas a sua expressão, em formas entre as quais o fluxo talvez seja a mais pura” (Karl, 1985:339).

      O fluxo, o mergulho no ego, na subjetividade dita anteriormente. É através de si que o homem veria o mundo, enxergaria por seus olhos, por suas lentes filtradoras. Kafka ecoou nessa toada e escreveu textos imbuídos de modernismo em sua essência. Afinal, sua imagem é, ao mesmo tempo, “da humanidade e da fragilidade do escritor moderno diante do poder e do espírito de angústia que caracteriza nossa época” (Bradbury, 1989:216). Vendo o mundo através de sua consciência, subjetividade por excelência, passa-se a impressão de sonho e pesadelo. Talvez daí a constante sensação de devaneios em textos de Kafka, devaneios que passam por outra característica moderna apontada por Karl – a clausura. Ainda para Karl, a imagem de clausura constitui-se no esforço de capturar fisicamente a interioridade que o fluxo de consciência tentou captar em palavras (Karl, 1985:340).

     Escrito durante a Primeira Guerra Mundial, O Processo traz toda essa angústia, toda essa insensatez e sentimento de absurdo que acompanhariam a guerra. Reina desarmonia, aspiração oposta à realização, permanente frustração. Como a epígrafe aqui citada, algo deve ter acontecido para a detenção de Josef K., mas ele não sabe o que fez (nem nós, leitores), do que é acusado, por que o prendem, quem o prende e muito menos quem o julga ou o condena à morte. Talvez como soldados na guerra, sem consciência concreta pelo que lutam; talvez o homem moderno em sua encruzilhada – fim da vida ou fim da história? K. pagou, e morreu, por algo que não soube o que era. Mas, no final, perante a faca que lhe tiraria a vida, K. acaba por aceitar o destino que lhe é imposto, quando espera pacientemente por seus algozes. Absorve a culpa, apesar de afirmar haver objeções que tinham sido esquecidas – se há um tribunal que me condenou, quem sou eu para contrariá-lo? K., em seus últimos instantes de vida, pensa: “A lógica, na verdade, é inabalável, mas ela não resiste a uma pessoa que quer viver”. Resiste, sim, senhor K.; a faca enfiada em seu coração e virada duas vezes prova isso mais que tudo. O homem moderno assume sua culpa perante a crise, e da morte de K. renasceria um novo modelo a ser seguido. Iniciado do zero, como os modernistas queriam.

      E é no período entre guerras que a sensação de nenhum senso ético e moral toma maior fôlego. Após a derrota da Alemanha na guerra, discute-se seu futuro. Tratado de Versalhes é um dos requisitos da paz, e a Alemanha encontra-se em “prejuízo”. Neste vácuo de liderança e poder, Hitler surge e aponta um significado para seu país. Mussolini faz o mesmo na Itália. Se a história, em crise como as demais ciências, não apresenta nenhum sentido, estabelece-se um e a impõe às massas. Eis aqui um conceito – massa – que surge nesse período e que explora bem o niilismo ético pairante no ar. Elias Canetti (Canetti, ?:?) debruçou-se sobre ela, assim como diversos autores no decorrer do século. A massa é a ausência absoluta de sentido. Manipulável, irracional, esperando um líder que a leve ao lugar de destaque. O vácuo de significantes se preenche com regimes autoritários – fascismo e nazismo ascendem rapidamente e impõem seus valores.

      Apesar de morrer em 1924, Kafka reflete o que viria a ser os demais anos de século 20. Bradbury (Bradbury, 1989:224-25) aponta algumas características do Kafka escritor que se mistura ao Kafka sujeito: “seu diário revela a sensibilidade exata de sua angústia e de seu exílio interior, sua tendência a se autodenegrir constantemente”. Vai além: “é um escritor que constantemente define o pessimismo, a depressão, a auto-acusação e o sentimento de culpa como condições essenciais da criação”.

      Sem dúvida, O Processo traz à tona tudo isso, mais a sensação de insignificância do homem em relação ao mundo e mesmo uma sensação de vazio – seja de ética, moralidade, identidade ou valores. K. é a vítima do sistema; o resultado prático da crise imanente que vivia o período; a criatura que floresceu de um mundo fragmentado, sem razão, ausente de significados. Um homem que, como Kafka, viveu na eterna sensação de exílio. Não pertencer a um mundo em que não se enxerga razão não pressupõe não seguir suas regras. O personagem K. quer fazer parte do sistema, procura entrar na lei e seguir a ordem, mas é impossibilitado pela burocracia, pelos entraves na comunicação e também porque a própria ordem se tornou absurda e irracional. Kafka está à margem de sua época, assim como esteve à margem dos sentimentos do pai. É o Gregor Samsa metamorfoseado, fora dos padrões que ruíram na crise. Ele também desperta e enxerga um mundo nebuloso, com o estranhamento gerado neste momento indefinido entre a consciência e a obscuridade do sono. Se Max Brod, o herdeiro de Kafka em relação à sua obra, disse que este “tinha o dom de transformar o surreal em corriqueiro”, não seria à toa que a concepção de conhecimento em Kafka se perfila pelo sujeito. A consciência expressa uma verdade e uma perspectiva. Assim sendo, o conhecimento estaria debilitado de crédito, pois todas as verdades do sujeito estão relacionadas a sua trajetória e a seu contexto.

      Bradbury relata uma frase escrita por Kafka em seu diário. “Eu represento os elementos negativos de minha época”. Queira ou não, ele tinha consciência de sua literatura ser reflexo daquele mundo em decadência, desarmonia e desordem. Talvez por isso, antes de morrer, pedira a seu amigo Max Brod que queimasse todos seus escritos.


BIBLIOGRAFIA

BRADBURY, Malcolm. O Mundo Moderno – Dez Grandes Escritores. São Paulo, Cia. das Letras, 1989.

KAFKA, Franz. O Processo. São Paulo, Brasiliense, 1989.

_______ A Metamorfose. São Paulo, Cia. das Letras, 1999.

KARL, Frederik. O Moderno e o Modernismo – A Soberania do Artista 1885-1925. Rio de Janeiro, Imago, 1985.

ROSENFELD, Anatol. Texto e Contexto. São Paulo, EDUSP, 1996.

SPENGLER, Oswald. A Decadência do Ocidente. Brasília. Ed. Universidade de Brasília