Nos
primeiros anos do século 20, Franz Kafka escreveu tais
enfadonhas linhas, as que introduzem os leitores às respectivas
obras. Mal supunha ele que estivesse traduzindo em palavras
o zeitgeist de sua época. Identificar e compreender
a característica fulcral do universo do autor, em especial
no romance O Processo, coloca-se como missão
obrigatória para os interessados no emaranhado de significados
que permeia as primeiras décadas do século passado.
A herança recebida
do século 19 não inspirava grandes especulações
de alívio. Por volta de 1850, uma parcela dos artistas,
europeus e não europeus, já exprimia a crise de
valores que assolaria o mundo ocidental, no fim desse mesmo
século. Baudelaire, Flaubert, Edgar Alan Poe e Huysmans,
entre outros, foram homens que tiveram olhos para o século
20. A filosofia pessimista de Schopenhauer já apontava
um mundo irracional e caótico, sem ordem, valores ou
sentido. Assim, Kafka, seus antecessores e o homem fragmentado
que nascia anteciparam, de certo modo, o século 20, era
das guerras mundiais e matanças generalizadas, dos regimes
autoritários e da manipulação das massas.
Anatol Rosenfeld lembra-nos que o autor tcheco não pode
ser arrancado de seu contexto histórico e, assim, considerado
um “monstro surgido dos famosos abismos do nada".
Pelo contrário, seria preciso “integrar Kafka numa
linha de tradição e renovação, vê-lo
como herdeiro e pioneiro” (Rosenfeld,
1996: 229).

Kafka era também um sonhador que se fechava em si, ou
melhor, que encontrou refúgio numa imaginação
desordenada, atormentada, ansiosa e nervosa. Em Kafka, um agravante
a mais – a crise pessoal psicológica com a presença
castradora do pai. Se seu mundo era órfão de sentidos,
sua figura pessoal estava sufocada pela repressão paterna
(exemplar dessa relação conflituosa e repressora
é a carta escrita por ele ao pai, lançada em livro
com o nome de Carta ao Pai, mas nunca entregue ao destinatário).
Ambos órfãos (pior que órfãos, rejeitados),
o escritor e seu mundo.
Sendo o mundo moderno povoado de subjetivismos, chega-se à
conclusão de ser o conhecimento reflexo desses mil e
um sujeitos. Portanto, a verdade não existiria, haveria
apenas pontos de vista. Kafka representaria um deles, com sua
literatura que faz a estranheza de um acontecimento absurdo
aparentar ser “perfeitamente natural”, como informa
a orelha da edição de A Metamorfose.
Apresenta um mundo criado, resultante de um processo de redução,
atuação unilateral, que deforma tempo, espaço,
causalidade, substância e mesmo a realidade corriqueira.
O resultado de uma crise generalizada, desde a razão
aos valores, desde os conceitos históricos aos do conhecimento.
Neste final de século 19, havia mesmo essa visão
de mundo em crise (cf. estudos posteriores que apontam a decadência
do Ocidente, como a obra de Oswald Spengler). O positivismo
se via em crise, e tal doutrina filosófica se desdobrou
em várias tendências no campo historiográfico.
Duas visões de mundo se confrontavam – a romântica
e a mecanicista. Uma oriunda da emoção e outra
da razão e da ciência que se fazia forte com as
descobertas e teorias científicas. O modernismo surgiria
filosoficamente deste ponto – do esforço de unir
esses conceitos opostos. Por que separar razão de emoção?
O modernismo seria essa busca de fusão entre as visões
de mundo mecânica e intuitiva.

Tendia-se ao irracional, obra confessa do subjetivismo agudo,
pois com a perda de sentido da verdade, da moral e dos valores,
as ações humanas também não adquirem
sentido algum. Rosenfeld acentua o caráter irracional
do período: “O moderno irracionalismo, conseqüência
de um desequilíbrio social, econômico e psicológico,
contribui, por sua vez, para intensificar o caos do nosso tempo”
(Op. cit. 1996:65). Mata-se,
corrompe-se – um niilismo ético levado às
últimas conseqüências. A subjetividade leva
a temporalidades, e a fragmentação da vida e do
tempo é marca característica do mundo moderno.
Os primeiros modernos apresentam claramente esse residual, como
aponta Frederik Karl em O Moderno e o Modernismo – A Soberania
do Artista 1885-1925, com o fluxo de consciência. “A
vanguarda, em toda cultura modernista, é representada
pelo fluxo de consciência. (...) o fluxo não podia
ter existido sem a ênfase ao ego que mostramos ser tão
essencial ao desenvolvimento do modernismo. As pressões
da vida moderna que podiam levar à perda do ego ou à
desumanização do ego resultaram no protesto do
ego. Isso significava não a sua aniquilação,
mas a sua expressão, em formas entre as quais o fluxo
talvez seja a mais pura” (Karl, 1985:339).
O fluxo, o mergulho no ego, na subjetividade dita anteriormente.
É através de si que o homem veria o mundo, enxergaria
por seus olhos, por suas lentes filtradoras. Kafka ecoou nessa
toada e escreveu textos imbuídos de modernismo em sua
essência. Afinal, sua imagem é, ao mesmo tempo,
“da humanidade e da fragilidade do escritor moderno diante
do poder e do espírito de angústia que caracteriza
nossa época” (Bradbury,
1989:216).
Vendo o mundo através de sua consciência, subjetividade
por excelência, passa-se a impressão de sonho e
pesadelo. Talvez daí a constante sensação
de devaneios em textos de Kafka, devaneios que passam por outra
característica moderna apontada por Karl – a clausura.
Ainda para Karl, a imagem de clausura constitui-se no esforço
de capturar fisicamente a interioridade que o fluxo de consciência
tentou captar em palavras (Karl, 1985:340).
Escrito
durante a Primeira Guerra Mundial, O Processo traz
toda essa angústia, toda essa insensatez e sentimento
de absurdo que acompanhariam a guerra. Reina desarmonia, aspiração
oposta à realização, permanente frustração.
Como a epígrafe aqui citada, algo deve ter acontecido
para a detenção de Josef K., mas ele não
sabe o que fez (nem nós, leitores), do que é acusado,
por que o prendem, quem o prende e muito menos quem o julga
ou o condena à morte. Talvez como soldados na guerra,
sem consciência concreta pelo que lutam; talvez o homem
moderno em sua encruzilhada – fim da vida ou fim da história?
K. pagou, e morreu, por algo que não soube o que era.
Mas, no final, perante a faca que lhe tiraria a vida, K. acaba
por aceitar o destino que lhe é imposto, quando espera
pacientemente por seus algozes. Absorve a culpa, apesar de afirmar
haver objeções que tinham sido esquecidas –
se há um tribunal que me condenou, quem sou eu para contrariá-lo?
K., em seus últimos instantes de vida, pensa: “A
lógica, na verdade, é inabalável, mas ela
não resiste a uma pessoa que quer viver”. Resiste,
sim, senhor K.; a faca enfiada em seu coração
e virada duas vezes prova isso mais que tudo. O homem moderno
assume sua culpa perante a crise, e da morte de K. renasceria
um novo modelo a ser seguido. Iniciado do zero, como os modernistas
queriam.
E é no período entre guerras que a sensação
de nenhum senso ético e moral toma maior fôlego.
Após a derrota da Alemanha na guerra, discute-se seu
futuro. Tratado de Versalhes é um dos requisitos da paz,
e a Alemanha encontra-se em “prejuízo”. Neste
vácuo de liderança e poder, Hitler surge e aponta
um significado para seu país. Mussolini faz o mesmo na
Itália. Se a história, em crise como as demais
ciências, não apresenta nenhum sentido, estabelece-se
um e a impõe às massas. Eis aqui um conceito –
massa – que surge nesse período e que explora bem
o niilismo ético pairante no ar. Elias Canetti (Canetti,
?:?) debruçou-se sobre ela, assim como diversos
autores no decorrer do século. A massa é a ausência
absoluta de sentido. Manipulável, irracional, esperando
um líder que a leve ao lugar de destaque. O vácuo
de significantes se preenche com regimes autoritários
– fascismo e nazismo ascendem rapidamente e impõem
seus valores.
Apesar de morrer em 1924, Kafka reflete o que viria a ser os
demais anos de século 20. Bradbury (Bradbury,
1989:224-25)
aponta algumas características do Kafka escritor que
se mistura ao Kafka sujeito: “seu diário revela
a sensibilidade exata de sua angústia e de seu exílio
interior, sua tendência a se autodenegrir constantemente”.
Vai além: “é um escritor que constantemente
define o pessimismo, a depressão, a auto-acusação
e o sentimento de culpa como condições essenciais
da criação”.
Sem dúvida, O Processo traz à tona tudo
isso, mais a sensação de insignificância
do homem em relação ao mundo e mesmo uma sensação
de vazio – seja de ética, moralidade, identidade
ou valores. K. é a vítima do sistema; o resultado
prático da crise imanente que vivia o período;
a criatura que floresceu de um mundo fragmentado, sem razão,
ausente de significados. Um homem que, como Kafka, viveu na
eterna sensação de exílio. Não pertencer
a um mundo em que não se enxerga razão não
pressupõe não seguir suas regras. O personagem
K. quer fazer parte do sistema, procura entrar na lei e seguir
a ordem, mas é impossibilitado pela burocracia, pelos
entraves na comunicação e também porque
a própria ordem se tornou absurda e irracional. Kafka
está à margem de sua época, assim como
esteve à margem dos sentimentos do pai. É o Gregor
Samsa metamorfoseado, fora dos padrões que ruíram
na crise. Ele também desperta e enxerga um mundo nebuloso,
com o estranhamento gerado neste momento indefinido entre a
consciência e a obscuridade do sono. Se Max Brod, o herdeiro
de Kafka em relação à sua obra, disse que
este “tinha o dom de transformar o surreal em corriqueiro”,
não seria à toa que a concepção
de conhecimento em Kafka se perfila pelo sujeito. A consciência
expressa uma verdade e uma perspectiva. Assim sendo, o conhecimento
estaria debilitado de crédito, pois todas as verdades
do sujeito estão relacionadas a sua trajetória
e a seu contexto.
Bradbury relata uma frase escrita por Kafka em seu diário.
“Eu represento os elementos negativos de minha época”.
Queira ou não, ele tinha consciência de sua literatura
ser reflexo daquele mundo em decadência, desarmonia e
desordem. Talvez por isso, antes de morrer, pedira a seu amigo
Max Brod que queimasse todos seus escritos.