A manifestação, representada pela passeata, estava
absolutamente tranqüila, portanto perigosa. Havia coral
cantando “Fora Bush! Fora Bush!”, faixas, cartazes,
muitos improvisados, mas outros tantos bem confeccionados. Nestes
podíamos ler: “Cuidado, terrorista à solta”,
com a tradicional imagem de Bush transfigurado em Hitler, com
direito a suástica e tudo mais; dizeres específicos
da luta feminista com suas reivindicações (não
nos esqueçamos que estamos em um 8 de março);
havia até mesmo idosos vestidos de palhaços. Com
efeito, um espaço aberto às vindícias oprimidas,
que, aproveitando a aglomeração e dezenas de câmeras,
liberam também o seu grito contido, para quem sabe ser
escutado.
Havia também faixas como: “Fora Bush do Iraque”
e “Fora Lula do Haiti!”. Aliás, a questão
envolta do Haiti parece que esteve com uma boa porcentagem na
preferência daqueles que resolveram portar uma faixa.
Não raro víamos tais dizeres seguidos de enérgicos
cantos protestando contra a atuação brasileira
no Haiti, na missão de paz naquele país que já
consumiu uma grande soma dos cofres públicos e a vida
de soldados. Quanto a mim, estava tranqüilo e pude fotografar
o quanto quis: por dentro da passeata, por fora, por cima, por
baixo. Da massa indistinta à particularidade de um rosto
gritando: “Ei, pode posar para uma foto?”, perguntava
eu a uma jovem de cabelos espetados de camisa branca com um
símbolo anarquista. Sem resposta, a moça simplesmente
levantou o cartaz. Apenas seus olhos eram visíveis, como
quem diz “pronto, assim você pode”. Sem hesitar,
mais um clique. Afoito e ansioso disparei diversas vezes sobre
um mesmo tema.

Quando percebi que meu filme estava acabando vi uma estranha
movimentação. A previsão era a ocupação
de apenas um lado da Paulista. Entretanto, sabemos o quão
difícil é respeitar tais limites, dada à
grande aglomeração de pessoas e ao espírito
revolucionário de alguns. É sabido, e não
de hoje, da paciência e treinamento de nossa segurança,
tanto Federal quanto Estadual. Comigo estava um amigo, que também
realizava algumas fotos. No caso dele, fotos artísticas.
Vindo da Itália, encarou com facilidade a manifestação,
a única coisa que o preocupava e o amedrontava era a
polícia paulista, cuja fama já está bem
adiante do espaço limítrofe brasileiro. Logo,
aquela passeata pacífica que vinha com uma tranqüilidade
preocupante transformou-se noutra coisa, que ainda procuro um
nome. Show pirotécnico talvez.
Me afastei, o filme tinha acabado e precisava trocá-lo
(sim, estava com máquina à película, ainda
prefiro a alquimia à simulação), fiquei
poucas centenas de metros distante, de onde registrei mais alguns
fogos de artifício da polícia. Neste momento o
trânsito já estava totalmente comprometido, já
que a atuação da polícia parece ter complicado
um bocado mais a situação.


De filme novo vi o “choque” chegar em sua conhecida
fileira, com seus escudos armados, em uma espécie de
cordão cujo objetivo equipara-se a uma vassoura de piaçaba,
limpando um lado da Avenida Paulista.
Junte a um número bem limitado de soldados do “choque”
algumas dezenas, ou poucas centenas (não sei ao certo),
de policiais militares. Assim, formou-se uma enorme aglomeração
de uniformes cinzas, misturados com outros vermelhos, alguns
brancos e também pretos. Pouco depois muita gente foi
embora, a extremidade dianteira que formava a passeata, por
exemplo, composta unicamente por um grupo feminista, dissipou-se.
Assustadas pelas bombas de efeito moral da polícia, misturado
com cenas violentas, não sobraram muitas mães,
crianças e outros (que, antes de tudo, são seres
humanos), numa violência que, a meu ver, seria facilmente
contornada.
Depois do show pirotécnico, ou seja, algumas bombas e
outros tantos cassetetes e garrafas voando e alguns feridos,
a passeata perdeu força e aos poucos todos se foram (talvez
não todos, mas grande parte).

Todos manifestaram, mas neste 8 de março, a visita de
Bush ofuscou e muito quem realmente deveria falar. Assim, o
grito anti-Bush ganhou o primeiro lugar dos fotógrafos
e das atenções em geral, e o grito das mulheres
ecoava lá longe em segundo plano.
Até nisso Bush, e aquilo que ele representa, consegue
ter mais atenção do que realmente merece aqui
nos trópicos. Sorte da mídia que tem repercussão,
carne nova, por pelo menos mais uma semana, inclusive esta coluna,
oportunista e calculista.