8 de Março de 2007
Martinho Junior - Da sucursal do vão do MASP

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     Punks, hippies, iraquianos, gays, socialistas, israelenses, anarquistas, capitalistas, feministas, professores, desocupados, estudantes, aposentados, vendedores, sem-terras, repórteres, jornalistas, comunistas, guerrilheiros. Estavam todos reunidos na tarde de 8 de março deste ano de 2007 numa passeata que teve início no começo da Avenida Paulista e fim no meio da mesma, no já tradicional local de manifestações, o vão livre do MASP.

     Como todos sabem, 8 de março é o dia Internacional da Mulher. Mas esta manifestação, de longe, não se limitou à factual data comemorativa. Neste ano, o grande motivo de tanto furor se deu em razão da visita do excelentíssimo senhor, o presidente dos Estados Unidos, George Walker Bush, ou simplesmente Bush. De fato, Bush chegou nesse dia a São Paulo (se a manifestação foi no período da tarde, o presidente, por sua vez, desembarcou no crepúsculo) onde deve ficar menos de 24hs. O assunto a se discutir parece tanger o combustível, ou as tendências que a falta dele acarreta (lê-se petróleo na mão dos instáveis mercados do Iraque e da Venezuela), uma vez que o Brasil tem avançado no Biodiesel e mantém uma boa exploração da cana de açúcar (muitas vezes indevida e exploratória, mas que por hora fornece o etanol). Mas, descortinadas as aparências – juntamente com os acenos e sorrisos –, o que parece, na pálida visão que possamos ter da situação, é um grande esforço americano em direção a uma possível diminuição do anti-americanismo/imperialismo que cada vez mais torna-se lugar-comum na atual América Latina de Chávez e Morales.

    A manifestação, representada pela passeata, estava absolutamente tranqüila, portanto perigosa. Havia coral cantando “Fora Bush! Fora Bush!”, faixas, cartazes, muitos improvisados, mas outros tantos bem confeccionados. Nestes podíamos ler: “Cuidado, terrorista à solta”, com a tradicional imagem de Bush transfigurado em Hitler, com direito a suástica e tudo mais; dizeres específicos da luta feminista com suas reivindicações (não nos esqueçamos que estamos em um 8 de março); havia até mesmo idosos vestidos de palhaços. Com efeito, um espaço aberto às vindícias oprimidas, que, aproveitando a aglomeração e dezenas de câmeras, liberam também o seu grito contido, para quem sabe ser escutado.

      Havia também faixas como: “Fora Bush do Iraque” e “Fora Lula do Haiti!”. Aliás, a questão envolta do Haiti parece que esteve com uma boa porcentagem na preferência daqueles que resolveram portar uma faixa. Não raro víamos tais dizeres seguidos de enérgicos cantos protestando contra a atuação brasileira no Haiti, na missão de paz naquele país que já consumiu uma grande soma dos cofres públicos e a vida de soldados. Quanto a mim, estava tranqüilo e pude fotografar o quanto quis: por dentro da passeata, por fora, por cima, por baixo. Da massa indistinta à particularidade de um rosto gritando: “Ei, pode posar para uma foto?”, perguntava eu a uma jovem de cabelos espetados de camisa branca com um símbolo anarquista. Sem resposta, a moça simplesmente levantou o cartaz. Apenas seus olhos eram visíveis, como quem diz “pronto, assim você pode”. Sem hesitar, mais um clique. Afoito e ansioso disparei diversas vezes sobre um mesmo tema.

 

   

      Quando percebi que meu filme estava acabando vi uma estranha movimentação. A previsão era a ocupação de apenas um lado da Paulista. Entretanto, sabemos o quão difícil é respeitar tais limites, dada à grande aglomeração de pessoas e ao espírito revolucionário de alguns. É sabido, e não de hoje, da paciência e treinamento de nossa segurança, tanto Federal quanto Estadual. Comigo estava um amigo, que também realizava algumas fotos. No caso dele, fotos artísticas. Vindo da Itália, encarou com facilidade a manifestação, a única coisa que o preocupava e o amedrontava era a polícia paulista, cuja fama já está bem adiante do espaço limítrofe brasileiro. Logo, aquela passeata pacífica que vinha com uma tranqüilidade preocupante transformou-se noutra coisa, que ainda procuro um nome. Show pirotécnico talvez.

      Me afastei, o filme tinha acabado e precisava trocá-lo (sim, estava com máquina à película, ainda prefiro a alquimia à simulação), fiquei poucas centenas de metros distante, de onde registrei mais alguns fogos de artifício da polícia. Neste momento o trânsito já estava totalmente comprometido, já que a atuação da polícia parece ter complicado um bocado mais a situação.

  

      De filme novo vi o “choque” chegar em sua conhecida fileira, com seus escudos armados, em uma espécie de cordão cujo objetivo equipara-se a uma vassoura de piaçaba, limpando um lado da Avenida Paulista.

      Junte a um número bem limitado de soldados do “choque” algumas dezenas, ou poucas centenas (não sei ao certo), de policiais militares. Assim, formou-se uma enorme aglomeração de uniformes cinzas, misturados com outros vermelhos, alguns brancos e também pretos. Pouco depois muita gente foi embora, a extremidade dianteira que formava a passeata, por exemplo, composta unicamente por um grupo feminista, dissipou-se. Assustadas pelas bombas de efeito moral da polícia, misturado com cenas violentas, não sobraram muitas mães, crianças e outros (que, antes de tudo, são seres humanos), numa violência que, a meu ver, seria facilmente contornada.

      Depois do show pirotécnico, ou seja, algumas bombas e outros tantos cassetetes e garrafas voando e alguns feridos, a passeata perdeu força e aos poucos todos se foram (talvez não todos, mas grande parte).

  

      Todos manifestaram, mas neste 8 de março, a visita de Bush ofuscou e muito quem realmente deveria falar. Assim, o grito anti-Bush ganhou o primeiro lugar dos fotógrafos e das atenções em geral, e o grito das mulheres ecoava lá longe em segundo plano.

     Até nisso Bush, e aquilo que ele representa, consegue ter mais atenção do que realmente merece aqui nos trópicos. Sorte da mídia que tem repercussão, carne nova, por pelo menos mais uma semana, inclusive esta coluna, oportunista e calculista.