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Quem
tem medo de Glauber Rocha?
Lucas Rodrigues Pires
Perdão,
leitores, mas esse texto poderá estar como a maioria
das pessoas imagina um filme de Glauber Rocha: longo, incompreensível
e por demais chato. Mas não desistam, pois esse que é
o maior nome do cinema brasileiro merece sua atenção.
Por que Glauber Rocha causa ojeriza
ainda hoje? Por que a juventude e seu gosto pelo cinema de hoje
fogem dele sem mesmo o conhecer? Por que combatê-lo, defenestrá-lo
sem olhar atentamente a sua obra e buscar nela algo de útil
e substancial para o cinema e para o Brasil?
Ofereço a vocês,
caros, a chance de conhecer um pouco mais de Glauber Rocha e,
assim, poder surrá-lo à exaustão. E não
se importem se o texto está enaltecendo Glauber: órfãos
de Glauber sempre vão existir, assim como saudosos da
ditadura e eleitores do Maluf. Afinal, a democracia é
feita da pluralidades de opiniões e pensamentos.
Genialidade
e loucura, eis Glauber Rocha

Para
Glauber, cinema era política. Sua obra pode ser dividida
em três fases: num primeiro momento, a fase revolucionária,
que abarcaria o início da carreira, quando filma o curta
O Pátio ainda no Colégio Central de Salvador,
até a conclusão de Terra em Transe, que
seria a reavaliação de Glauber para as esquerdas
no Brasil e sua relação com o Golpe Militar de
1964; uma segunda fase que se pode chamar de estrangeira, começando
com o curta de estética marginal Câncer,
passando por seu maior êxito comercial, O Dragão
da Maldade contra o Santo Guerreiro e desembocando nas
produções estrangeiras realizadas no exílio
– Cabeças Cortadas, O Leão
de Sete Cabeças, História do Brasil
e Claro; finalmente, a volta do exílio, a fase
final de sua trajetória, mais voltada ao experimentalismo.
O curta Di-Glauber, o média-metragem Jorjamado
no Cinema e seu filme derradeiro, o mais radical de todos,
A Idade da Terra.
Da crítica cinematográfica,
iniciada em Salvador no final dos anos 50, passaria às
filmagens em 1960, já enturmado com a turma do cinema,
quando prepara a produção de Barravento,
a ser dirigida pelo amigo Luiz Paulino dos Santos. Mas nos primeiros
dias de filmagens o gênio forte de Glauber viria à
tona e um desentendimento entre eles leva Glauber a destituir
o amigo do cargo e, assim, assumir a direção deste
que seria seu primeiro longa-metragem. Barravento já
dava mostras de seu cinema, uma obra voltada ao oprimido e que
pregava abertamente a revolução. O filme narra
a história de um grupo de pescadores em Buraquinho, na
Bahia, que é explorado pelo dono da rede de pesca, mas,
mesmo assim, mantém-se passivos diante do fato. O conflito
nascerá quando Firmino, recém-chegado da cidade,
tenta, a todo custo, libertar a população de sua
condição passional e incitar uma revolta. Ao final,
vemos que o povo não estava preparado para a revolução,
mas havia traços de que poderia vir a estar.
Em 1963, já no Rio de Janeiro,
publica seu primeiro livro, Revisão Crítica
do Cinema Brasileiro, onde, faz uma abordagem crítica
da história do cinema brasileiro, criticando filmes que
foram grande sucesso, como O Cangaceiro, as chanchadas
e o esquema de produção industrial da Vera Cruz.
Ao mesmo tempo, evoca os ideais que regeriam o Cinema Novo,
fazendo um histórico desse movimento. Ainda, em Revisão
Crítica, Glauber elege dois cineastas como modelo
de verdadeiros autores do cinema: resgata Humberto Mauro, o
grande nome do cinema brasileiro desde os fins dos anos 20,
e aponta o cinema social recente de Nelson Pereira dos Santos
como uma tendência a ser seguida. Elogia abertamente Rio
40 Graus e o coloca como a faísca para o surgimento
dos cinemanovistas.
Com esse pensamento que Glauber
filma Deus e o Diabo na Terra do Sol, considerada sua
obra máxima ao lado de Terra em Transe. Na verdade,
ambos os filmes formam uma única obra em seu todo –
caminham da esperança revolucionária demonstrada
ao final de Deus e o Diabo ao desencanto niilista com
o que foi da revolução após o golpe militar
em Terra em Transe.

Deus e o Diabo trazia
à tona a revolução, preparava o povo para
a tomada de poder (o filme fora lançado dias antes do
Golpe de 31 de março de 1964). O filme buscava tirar
o povo de sua condição submissa e colocá-lo
à frente da revolução. O mesmo que fez
Manuel vaqueiro ao ser passado para trás pelo fazendeiro.
O mesmo que fez Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros,
ao acabar com o transe alienante – o cangaço e
o misticismo – em que Manuel e Rosa se meteram em sua
trajetória rumo à conscientização.
Depois de tudo isso, o povo poderia correr livre em direção
ao mar, quando o mar viraria sertão e o sertão
viraria mar.
Quando se deu o Golpe Militar
no Brasil, Glauber estava em Cannes para a exibição
do filme no festival. Receoso em voltar, passa uma temporada
na Europa, quando apresenta seu mais famoso texto, o manifesto
Estética da Fome. O colonialismo dependente
latino estaria gerando a fome, e esta moveria o Cinema Novo.
Escreve Glauber: “nossa originalidade é a nossa
fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo
sentida, não é compreendida”. Seria essa
fome que levaria a legitimar uma reação violenta:
“... a mais nobre manifestação da fome é
a violência. (...) somente conscientizando sua possibilidade
única, a violência, o colonizador pode compreender,
pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto
não ergue as armas o colonizado é um escravo...”.
Essa violência estaria no que seria retratado –
a verdade da miséria –, mas também no formato,
no como seria filmada determinada história.
No final de 1965, Glauber volta
ao Brasil e é preso, juntamente com outros seis intelectuais,
quando protestavam contra a ditadura durante uma reunião
da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ele
fica detido por 23 dias. No começo de 1966, vai ao Norte
do país e filma Maranhão 66, um curta
documental sobre a posse do governador José Sarney em
que o diretor faz uma montagem paralela entre as cenas da posse
e a miséria do povo. Cenas desse documentário
seriam usadas em Terra em Transe.
Terra em Transe nasceu
do questionamento a respeito da passividade da classe média
e do povo diante do Golpe Militar e se transformaria no balanço
da sua própria geração. Paulo Martins é
o poeta e militante que trafega pelos dois lados da política.
Ora o vemos ao lado do populista Vieira ora ao lado de Porfírio
Diaz, o homem de direita com tendência ditatorial. O filme
é narrado em flashback, pois logo no início temos
a perseguição da polícia a Paulo Martins,
quando este é ferido e agoniza relembrando sua história.
O filme se passa em um país fictício – Eldorado
–, mas facilmente identificado como o Brasil.
O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro,
filmado em 1968 e lançado no ano seguinte, é o
primeiro filme a cores e a obra de maior sucesso comercial de
sua carreira. O filme recupera o personagem Antônio das
Mortes, criado em Deus e o Diabo, numa saga de perseguição
ao cangaceiro Coirana que, no fundo, não era nenhuma
ameaça. O problema estaria no coronel, que mantém
as terras e a miséria na região. Antônio
das Mortes adquire essa consciência e passa a lutar contra
esse dragão da maldade.
Os
anos que vão de 1968 a 1970 são, sem dúvida,
os de maior produtividade do cineasta. Enquanto se preparava
para filmar O Dragão da Maldade, problemas burocráticos
imobilizaram toda a equipe e, nesse intervalo, Glauber realizou
Câncer, sua experiência no campo da estética
do Cinema Marginal. Mal termina aquele e viaja para a África,
onde realizaria O Leão de Sete Cabeças,
com produção francesa. Se seu cinema estava de
alguma forma ligado ao Brasil e sua situação política,
a partir de O Leão de Sete Cabeças sua
preocupação com a situação do povo,
se amplia, chegando à África, à América
Latina e se estendendo a todo o mundo subdesenvolvido.
Desse seu novo horizonte nasce,
em 1970, Cabeças Cortadas, produção
espanhola filmada na Catalunha. Retrata o tirano Diaz II em
seu final de vida, quando relembra suas crueldades e a situação
do povo. O cinema de poesia está aqui em altas doses,
não havendo uma história linear nem as formas
clássicas de fundir som e imagem. Glauber expõe
as ruínas das ditaduras, tanto latinas quanto ibéricas
e subverte a relação do som com a imagem, assim
como a montagem, para chegar à idéia de delírio
e decadência que levaria à revolução.
O teor revolucionário deixa de ser alegórico para
ser explícito, com frases de impacto, tais como “não
há fortuna sem sangue” e “não temas,
se matar o rei, herdarás a coroa e serás rei”.
Em 1971, Glauber deixa o Brasil.
Esse exílio “voluntário” marcaria-o
por suas andanças por Europa, Cuba e Estados Unidos,
países onde tentaria agilizar fundos para outros filmes.
Na Itália, em 1975, Glauber voltaria a filmar –
surge Claro. Após uma fracassada tentativa nos
Estados Unidos de conseguir recursos para a produção
de A Idade da Terra, cujo roteiro fora escrito em seus
anos de exílio, e/ou de uma adaptação de
The Wild Palms, de William Faulkner, Glauber retorna
ao Brasil em junho de 1976. Sua volta seria conturbada, principalmente
na relação com o ambiente cultural nacional, quase
todo ele formado por indivíduos de esquerda, devido a
uma carta escrita por Glauber e publicada por Zuenir Ventura
em 1974 na revista Visão em que o diretor elogiava
os militares e acreditava que Geisel levaria a uma democratização
do país.
Como escreveu o jornalista Geraldo
Mayrink em “Citizen Glauber”, texto publicado na
Playboy em 1981 e revisto para a coletânea Obrigado
pela Lembrança (Unimarco Editora, 2001), “quando
foi embora, era quase um santo da revolução, uma
espécie de mártir. Quando voltou, era um apóstata
que renegava suas origens revolucionariamente santas”.
Tal postura, as declarações bombásticas
contra antigos amigos e companheiros e o fato de escrever artigos
para jornais governistas, como o Correio Braziliense, aumentaram
ainda mais seu isolamento do cenário cultural e sua fama
de que voltara louco do exílio. A situação
só piorou com a morte da irmã Anecy, em março
de 1977, que caíra num poço de elevador. O choque
foi tamanho em Glauber que este, no romance Riverão
Suassuna, escreve sobre investigações que
fizera e de suspeitas que tinha de que a irmã fora assassinada
pelo marido, o colega de cinema Walter Lima Júnior, assistente
de Glauber em Deus e o Diabo. Mais, dizia que o próximo
a ser morto seria ele.

Nesse ambiente de desgosto o cineasta
ainda filmou o enterro do amigo artista Di Cavalcanti. Di
Cavalcanti, ou Di-Glauber recebeu prêmio
especial em Cannes e até hoje permanece inédito
e censurado por ação da família Cavalcanti,
que conseguiu na Justiça impedir sua exibição.
Também em 1977 ele entrevista
Jorge Amado diante das câmeras e monta Jorjamado no
Cinema, média-metragem produzido pela Embrafilme
idealizado para a divulgação televisiva. No início
de 1978, depois de uma briga e polêmica com a Embrafilme,
personificada na figura de seu presidente, o também cineasta
Roberto Farias, Glauber começa as filmagens de A
Idade da Terra, lançado apenas em 1980 e considerado
seu pior filme.
A volta ao Brasil reacendeu em
Glauber a chama do experimentalismo. A Idade da Terra
é uma história que se passa em três cidades
– Salvador, Rio de Janeiro e Brasília – em
que não há uma narrativa compreensiva ou linear,
apenas a anarquia barroca e histérica de imagens, sons
e discursos, estes proferidos contra o Golpe Militar numa entrevista
inserida dentro do filme. Além desse exercício
metalingüístico, temos a cena em que ouvimos Glauber
aos berros por detrás das câmeras gritar a Danuza
Leão: “Danuza, mais alto, fala mais alto!!!”.
Sobre o filme, Glauber afirmou: “É um novo cinema,
anti-literário e metateatral, que será gozado
e não visto e ouvido como o cinema que circula por aí.
(...) É um filme que fala das tentativas do Terceiro
Mundo, do mundo em que vivemos. Não dá para ser
contado, só dá para ser visto” .
Após os conflitos em razão
de A Idade da Terra, e por ter torrado uma grana alta
da Embrafilme, acaba por ir a Paris e pretende mudar-se para
Portugal. Era 1981 e em agosto acaba por ter problemas sérios
de saúde. É internado e trazido para o Brasil
em 21 de agosto, falecendo no dia seguinte aos 42 anos, conforme
profetizara durante a vida toda a amigos. Seu enterro foi filmado
por Silvio Tendler e, ironia das ironias, impedida de ser veiculada
qualquer imagem por Lúcia Rocha, mãe do cineasta.
Só recentemente que tais imagens foram liberadas e estão
contidas no documentário Glauber, O Filme –
Labirinto do Brasil, do próprio Silvio Tendler.
Morreu o cidadão Glauber
Pedro de Andrade Rocha, sobreviveu o mito Glauber Rocha. Até
hoje, algo a ser decifrado e reavaliado. Ou ignorado, combatido,
depende de cada um de nós. Posicionemo-nos.
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