Sempre
tive dificuldades ao falar ou ao me expor sobre mulheres. Claro
que dar conta da multiplicidade complexa da natureza humana,
e em particular da natureza feminina, é uma tarefa de
muito fôlego que deve recobrir muitas áreas dos
saberes. Da antropologia à história, da sociologia
à arte, no mínimo. Entretanto, para me esquivar,
ou melhor, para não me sentir tão incorreto e
desleal, resolvi aqui restringir-me apenas às mulheres
que amo. Não todas, pois a lista seria um tanto grande
e descabida para um ensaio deste porte, mas aquelas que em especial
sempre de uma forma ou de outra mexeram comigo. São mulheres
que eu nunca conheci mas que ao mesmo tempo sempre me foram
muito íntimas, graças às lentes famintas
de alguns cineastas. Tais mulheres são como Érato,
Euterpe, Calíope ou Polímnia de alguns dos maiores
cineastas da história do cinema que, por capricho ou
fragilidade de prontidão, me apaixonei por elas.

Gostaria
de começar pela primeira que com seus trejeitos e seu
jeito forte de falar abalou aos olhos que brilharam de chofre.
Trata-se de Giulietta Masina. De fato, ela está em muitos
filmes do lendário Federico Fellini. Não há
como pensar em Fellini sem pensar em Masina, sendo seu contrário
também verdadeiro. Diferentemente do que pensam, meu
começo de relação com Giulietta foi de
descoberta. Eu, inexperiente às investidas de Fellini
(era a primeira vez que amava uma italiana), já ela,
mulher madura, vívida com muito a ensinar. Já
tinha sido prostituta com o codinome de Cabíria, mulher
de trapaceiro como Iris, atriz de teatro de uma trupe de saltimbancos
nomeada de
Melina
Amour e muito mais. Suas performances sempre me foram de agrado,
a verdade é que teve uma época em que assistia
aos filmes de Fellini simplesmente para ver Masina, o que não
se sucedeu depois de Ginger e Fred. Não pelo
fato de que Ginger estava com a idade um tanto diversa de Cabíria,
o que seria desprezível, já que aquilo que me
atrai nela não tem ligação com nada carnal.
Mas o filme me parece bastante aquém do que esperava,
de fato um musical, que em minha opinião não demonstra
todo o potencial da prostituta mais humana que conheci. É
neste momento, aliás, que mais tenho apreço. Depois
de ver alguns desenhos de Fellini volto ao filme, a Cabíria
desenhada de Fellini ganha corpo, alma e beleza na atuação.
Chama-me particular atenção a cena na qual ela
aparece com seu guarda-chuva (e me reporto mais uma vez ao desenho)
e um homem de posses a leva numa espécie de dia dos sonhos.
Foi minha primeira vez, com uma prostituta italiana. Não
se escolhe por quem se apaixonar.
Em seguida desejo falar sobre uma mulher diabólica,
talvez venha daí seus encantos. Foi o primeiro filme
que vi de Claude Chabrol, Mulheres diabólicas,
e lá estava ela, Isabelle Huppert. Por certo ela já
traiu, fez filmes de sucesso com diversos diretores, basta lembrar
de Augustine de 8 mulheres, filme teatral e irônico
do cineasta francês François Ozon. Todavia, pretendo
me limitar às relações estreitas de filmes
realizados por um único diretor. Provavelmente a avidez
do cineasta por uma mesma atriz seja a verdadeira válvula
mágica que me faz um homem apaixonado por diversas mulheres.
No caso, a culpa é de Claude Chabrol e de seus
filmes
intrigantes. No filme já referido, ela trabalha no serviço
postal, e simplesmente junto com a empregada que de vez em quando
lá aparecia por causa da patroa, planeja um assassinato
da família burguesa e consumista de produtos unicamente
“culturais”. Mulher de garra, de força, destemida,
com um olhar penetrante e pele macia (nunca a toquei, é
verdade, mas já experimentei através das lentes
de Chabrol, que proporcionam um passeio único por essa
maciez), em sua boca há alguma coisa de mistério,
e isto é um charme inigualável. Meu amor se concretizou
com Madame Bovary. A célebre história
de Flaubert é o alvo certeiro para uma atuação
digna, que não deixaria a Emma Bovary do romance irritada
com seu duplo da tela. Não me preocupo com críticas
à atuação de Huppert, tais como: “Huppert
is too pragmatic and cold to play this role”. No meu modo
de ver, é um papel que demandava certo pragmatismo e
frigidez por parte da atriz. Emma sempre esteve cercada por
uma sociedade que para ela não era outra coisa senão
enfadonha. É exatamente neste ponto que Huppert torna-se
surpreendente. A situação já começa
tediosa, e depois do casamento com Charles Bovary as coisas
só pioram e o papel levado a cabo por nossa atriz é
de fundamental importância para no desenrolar da narrativa,
que soube apresentar uma verdadeira patologia do bovarismo.
Depois de morrer por causa de dívidas, Isabelle Huppert
encantou-me como uma trapaceira (do filme Negócios à
Parte) digna do famoso A Trapaça do mestre italiano.
Betty, para mim, tem muito de Huppert, as características
eu já mencionei, é só resgatá-las,
uma mulher adocicada e ao mesmo tempo cínica, apaixonante
e melindrosa. Eis os ingredientes que trazem mistérios
e, por conseguinte esta mescla de paixão e amor. Nunca
soube ao certo se estive apaixonado ou verdadeiramente amando
Huppert, mas só a dúvida que ela me deixou já
é algo louvável e encantador.
Agora
vem um aparte: Ingrid Bergman. Sueca de nascimento, americana
financeiramente e italiana no coração. Nunca me
chamou muito a atenção, nunca fui verdadeiramente
apaixonado, nem mesmo senti vontade em ser seu amante. Entretanto,
um ato, um simples ato e pronto, ela está aqui, num relato
das mulheres que amo. Ela participou de vários filmes
de Roberto Rossellini, entre os quais Stromboli, Europa’51
e Viagem à Itália. Sem mais delongas:
depois de assistir a um filme de Rossellini, Bergman que naquele
momento era casada e tinha filhos, manda uma carta subitamente
ao grande cineasta do neo-realismo. Nesta carta, dizia algo
parecido com: “Prezado Rossellini, sou atriz sueca, portanto
falo sueco fluentemente, inglês também e compreendo
muito pouco italiano. Mas se me quiseres estou pronta para ir”.
Loucura? Desvario? Pouco importa. Rossellini disse “sim”
e pouco depois se esposaram, abdicando-se de suas respectivas
famílias. Amor estrondoso, que resultou em grandes filmes
e em uma grande paixão inesperada, peculiar às
grandes mulheres.

O motivo da existência desse texto talvez sejam também
os encantos de outra escandinava, mas dessa vez da Noruega.
Talvez, ainda não há certeza nisto, seja o grande
amor que jamais tive e sempre senti ao meu lado. Digo isto porque
a motivação em escreve este texto veio depois
de rever Persona. Evidentemente que falo de Liv Ullmann.
Antes de tudo é preciso dizer algo das atrizes: acredito
que um dos grandes trunfos de todas elas são seus lábios.
Eles praticamente tomam conta das câmeras em detalhe,
e mesmo no silêncio de Ullmann em Persona falam
de modo singular. A beleza é aproveitada com furor por
Ingmar Bergman, que, na opinião flácida deste
que escreve, este nome deveria ser seguido de “o grande”.
Se não fosse esta musa, quem mais poderia nos apresentar
um personagem que, frente a uma crise, decide simplesmente abdicar-se
de falar, tentando buscar a paz e o reencontro com a vida, sem
persona, sem representações? O filme
em sua estrutura já é algo incrível e inventivo,
mas só ganha o grau de complexidade e beleza com Ullmann.
O melhor a se fazer é entregar-se a outra musa (entretanto,
por ela não me apaixonei) de Bergman, Bibi Andersson,
na pele de irmã Alma, a enfermeira destinada a cuidar
de Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), quando no filme diz: “Quando
dorme, seu rosto fica relaxado; seus lábios inchados
e feios; você tem cheiro de sono e lágrimas”.
Filme como estes são realmente marcantes, e mesmo a atriz,
reconhecendo tal potencialidade em relação a Bergman,
nos relata: “Devo tudo a Bergman, comecei a ser eu mesma
a partir de nosso encontro”.

Persona
é o ponto alto da paixão, momento de furor e desejo
em que os amantes estão se conhecendo e tudo é
pura emoção, é preciso bem aproveitar momentos
de paixão como este, pois em seguida começa desavenças,
opiniões contrárias. A paixão cede um pouco,
mas o amor está estampado a cada sorriso, a cada mordida
nos lábios, a cada olhar que nem mesmo o tempo pode atravessar.
Saraband é o exemplo cabal, da beleza e força
de Ullmann. A mulher forte e sensível está lá,
e sua interpretação tão vigorosa quanto
antes, por certo o diretor é uma figura que conhece e
respeita as latências femininas, sobretudo de Ullmann,
que a acompanhando no legado de sua vida e carreira filmou-a
de modo simples e longo, de maneira que o espaço e o
silêncio fossem aproveitados pela atriz. Em uma entrevista
a Olivier Assayas, Bergman diz que não gosta muito de
seu filme Sonata de Outono (na verdade, ele não
gosta muito de seus filmes, com exceção de Persona,
Gritos e Sussurros e Luz de Inverno), acusa-se
de ter feito Bergman, um momento em que
Bergman
não fez nada além de Bergman. Não me oponho
à visão dele, mas ao mesmo tempo não posso
deixar Ullmann desamparada, nunca faço isso com uma mulher,
especialmente àquelas que mantenho enorme estima e carinho.
O ponto máximo desse filme psicologizado é a fala
travada entre mãe e filha, Charlotte e Eva (Ingrid Bergman
e Liv Ullmann respectivamente). A força petrificante
das palavras secas e duras de Eva endereçadas a sua mãe
e o devido acerto de contas (que teve como gota d’água
uma sonata de Chopin, da qual a mãe acusa a filha de
não tocar com a devida emoção e razão
que tal composição pedia) possuem um apelo emocional
muito intenso. Trata-se de quase ódio o que vemos na
relação mãe-filha, relação
que é contraposta ao olhar doce e meigo de Ullmann. Dentro
de toda a aspereza da cena, emerge a figura cristalina e paradoxalmente
espinhosa da atriz em um contraste elegante e bem orquestrado.
Uma grande atriz, outra grande paixão, senão a
maior. Deixemos o comentário final por parte de Ingmar
Bergman: “... havia uma cena entre Erland Josephson e
Liv diante um espelho e depois a cena de amor atrás da
porta com o sol que queimava sobre seu rosto... Revi a cena,
e me disse: ‘Meu Deus, que atriz!’”.
Há
pouco tempo, não mais de cinco anos, venho cultivando
uma nova atração. O primeiro contato se deu numa
sessão de cinema organizada por uma escola de francês
da cidade de São Paulo. O filme, Sob a Areia
do diretor François Ozon, foi marcante e sedutor, e de
novo me via com o mesmo brilho nos olhos, peculiar aos apaixonados.
Desta vez tratava-se de uma atriz com uma carreira já
firmada, e coube a Ozon resgatá-la do ostracismo: Charlotte
Rampling. Seu papel neste filme, Marie Drillon, foi suficiente
para que eu tivesse uma incrível vontade de revê-la
filmada por Ozon. Em Sob a Areia, um drama, a Sra.
Drillon precisa conviver com o vazio do desaparecimento de seu
marido, que não se sabe ao certo se desapareceu ou morreu.
A dor da ausência do marido é equilibrada por um
estado de delírio. Mesmo depois da confirmação
da morte, ela continua sentindo, conversando e tocando Jean,
seu marido. Ao sermos testemunhas deste auto-engano ficamos
perplexos, mas a compreendemos e a entendemos, mesmo que transtornados,
a situação. Tudo isso só se torna perceptível
na confiança e simpatia de uma atriz madura, que conhece
os meandros das lentes e conhece tão bem também
o poder sedutor de seu olhar. Ao contrário do que poderíamos
imaginar, Marie continua em seus desvarios e decide lucidamente
(?) manter-se na ilusão da vida do marido. Com um olhar
esperançoso e sofrido, ela encanta a cada cena, mesmo
na última, da qual sabemos (embora não mostre
no filme) a desilusão que sucederá a corrida derradeira
em busca de um sujeito que muito a lembrava Jean. Depois de
Sob a Areia, a expectativa foi sanada, e Ozon traz
a musa novamente em Swimming Pool. Neste filme, ela
é uma famosa escritora, Sarah Morton, que se encontra
num momento infrutífero do qual um novo romance teima
em não germinar. Logo, seu editor prontifica-se em emprestar-lhe
sua casa no litoral francês, um retiro para inspiração.
Lá, ela se encontra com a filha do editor, Julie, que
por sua vez também é uma musa de Ozon, Ludivine
Sagnier. Esta
atriz
trabalhou nos filmes, Gotas d’água sobre pedra
escaldantes, 8 mulheres e o referido Swimming
Pool, mesmo com seu rosto angelical e corpo atraente, por
ela, não me apaixonei, não há química
entre nós. Mas agora é momento de Charlotte e
não de aventuras passageiras. A repulsa que Morton sente
por Julie aos poucos é transformada em uma atração
quase carnal, e a mulher de meia idade possui uma atitude e
um porte ainda muito sexuais. De fato, me parece que quando
Ozon quer uma mulher madura e ainda sexualmente atraente é
a Sra. Rampling que ele procura. Infelizmente até agora
são os dois únicos filmes que esta atriz de voz
cadente e macia participou das lentes do jovem cineasta francês.
É verdade que seu último longa, Angel,
já está pronto, e Charlotte tem um importante
papel neste filme. Entretanto, o filme acabou de participar
do festival de cinema de Berlim e até chegar ao Brasil
deve demorar um bocado. Assim, fico matando a ansiedade com
outros filmes do qual ela participa, como o forte drama As
chaves de casa ou o francês Em direção
ao Sul, mas não tem jeito, tem que ser filmada por
Ozon, a atriz que participa desses outros filmes não
é a Charlotte, ao menos não aquela que conheço.
Deve ser aquela mesma impostara que fez Orca, a baleia assassina
ou Instinto Selvagem 2.
Toda
essa reflexão sobre o amor a essas mulheres não
desvela outra coisa senão seus diretores. Ora, não
é por acaso que Masina, Ullmann, Huppert ou Charlotte
ganham vida nas lentes quase que exclusivamente de alguns diretores.
As qualidades, mesmo físicas, são conhecidas através
dos filmes. Assim, tudo isto faz parte da mágica, da
fantasia e da encenação. É evidente que
o amor relatado atravessa tudo isso, mas no fim desemboca no
cinema, paixão já declarada e assumida, que faz
emergir atrizes peculiares e diretores múltiplos. Viva
as mulheres, viva o cinema.