No
divã com a taça de vinho - Parte 2
Martinho Junior

De
repente, me
levantei e bruscamente apertei com muita força os rasos
braços da analista e com furor pus-me a beijá-la
com a vontade, desejo e excitação que me atormentavam
naquela tarde. Menos de um minuto depois já me encontrava
na esquina da praça em que fica a sala dela. Violentamente
tinha fugido, envergonhado certamente, mas convicto que tinha
feito a coisa certa. Mas, quando entrei no carro para voltar
pra casa, suado e esbaforido, percebi que meu arranque em disparada
impedira-me de saber as intenções da analista.
Por mais que eu já tinha identificado suas volições,
não consegui analisar psicologicamente sua reação
ao meu beijo. Foi tão violento, rápido e anárquico
que não pude nem sequer sentir os lábios dela
nos meus, a única coisa que senti foi minha boca amassada
contra aqueles lábios imóveis e rachados certamente
pela secura como se carecessem de água há muito
tempo. Porém, o fato no qual me apego é que ela
não gritou, não mordeu minha boca e nem deu uma
bela joelhada no meu saco (ela estava numa posição
privilegiada para fazer isto e, entretanto não o fez),
então suspirei tanto aliviado como satisfeito e desatei
a rir.
Cheguei em casa e não tive escolhas, fui
correndo ao banheiro satisfazer minhas vontades arredias. Toda
esta história tinha me levado aos pícaros do tesão,
de um tesão que não tinha sentido nem mesmo no
auge da minha puberdade. Entretanto, ao fim da masturbação,
que não durara 5 minutos, arrebatou-me uma tristeza muito
forte, um desânimo
fora
do comum. Enquanto lavava minhas mãos, primeiramente
tirando os excessos com a outra mão e depois afogando
o que tinha sobrado em uma toalha, fitava-me no espelho, tinha
uma péssima aparência, fui ao quarto apaguei a
luz e fui dormir.
No outro dia, não vi as horas, porém devia ser
algo em torno das 7h30, pois o vizinho como todas as sextas-feiras
nesse horário liga a TV num noticiário que predita
o que acontecerá no fim de semana, só nunca entendi
o porquê deixar o volume tão acima do recomendável.
Mas, não liguei, de certa forma o agradeci, pois poupou-me
o serviço de precisar olhar no relógio o que me
deixou aliviado tamanha a preguiça. Descalço,
sentia a frieza do chão da cozinha e percebi que estava
extremamente exausto. Simplesmente peguei o cereal, pus na tigela
e comi. Sem leite, pois procurei na geladeira e nada achei,
por um instante pensei em ir à padaria que fica a menos
de uma quadra de casa para comprá-lo, mas não
passou de um pensamento sem nenhum nexo, tinha tudo o que precisava
naquele momento. Acabei meu café e fui à sala,
lá sentei e permaneci o restante do dia quase paralisado,
moribundo esperando não se sabe o que. Neste dia dormi
na sala mesmo, tinha me levantado poucas vezes daquele sofá.
De qualquer modo, durante a noite tentei vasculhar
nos meus arquivos mentais, alguma relação entre
o acontecido no consultório terapêutico e aquela
situação patética que me encontrava. Nada
encontrei, entretanto, ao comparar a situação
ao ato masturbatório tudo fazia sentido. Não sabia
qual sentido, mas me parecia óbvio demais a relação
entre o desprazer que tinha sentido depois de uma ótima
guinada imaginativa com minha terapeuta e minha estagnação
ocorrida exatamente depois. Pensei em vergonha, mas longe disso,
sentia-me tranqüilo em relação ao forte beijo,
sem gosto é verdade, que emplaquei corajosamente nela;
depois pensei em depravação, pois se tratava de
mim, Atan, um homem de bem, pouco modesto é verdade,
mas de bem, porém também não, lembrem-se
de que foi ela que começou desvelando-me seus dotes,
não havia depravação nisso. Quando saí
daquela sala ela deve na verdade ter ficado contrariada por
eu ter fugido, aposto o que quiserem que ela me queria lá,
despindo-a e fazendo tudo aquilo que minha alucinação
fez no banheiro ontem. Amanheceu de novo, e permaneci na mesma
posição.
Deitado, com os olhos remelosos, decidi que tiraria férias,
não precisaria avisar ninguém, férias absolutas
e incondicionais, férias não premeditadas, apenas
férias e ponto. De fato, não queria mais nada
além de ficar paralisado enquanto todo o resto atrofiava,
seria engraçado ficar parado escutando o silêncio
de meus membros atrofiando. Não me parecia um sentimento
atroz, muito pelo contrário, uma atitude corajosa e louvável,
já que faria o que realmente estava com vontade de fazer,
poderia até parecer bizarro aos olhos de alhures, mas
quem precisaria ficar sabendo de minhas férias além
de mim mesmo? E foi o que aconteceu. A partir de então,
resolvi passar os dias como tinha previsto, longe de todos e
perto de mim.
Um “mim” que me era estranho, completamente
desconhecido e imprevisível que se tornara o primeiro
plano das minhas inúmeras agruras, das quais vivia reclamando.
E então uma semana passou, e não posso dizer que
esse “mim” que ainda persiste foi desvendado. Aliás,
ele me dominou, pois nem sequer procurei saber sobre ele, penso
agora que as férias que tinham o intuito de “ficar
perto de mim” eram uma grande desculpa para agonizar a
minha tristeza, um raro prazer de agonizar, como um pênis
moribundo que acaba de gozar, mostrando que possui uma vida
a parte do resto do corpo daquele que o detêm. Já
que ele fica ereto ou desfalecido sem nosso consentimento; apenas
às vezes, as mais supérfluas é verdade,
podemos alegrar-nos de possuir algum papel mediador entre nossa
vontade e a vontade do pênis.
Mas, nesta sexta-feira vigorava-me certa vontade de cometer
algumas extravagâncias. Temos que perceber que extravagâncias
no sentido da última semana que levei, ou seja, qualquer
coisa que ultrapassasse atos para continuar subsistindo já
podia ser perfeitamente considerada como uma boa extravagância.
Na madruga, da qual não pregado o olho um minuto sequer,
sentia minha boca profundamente seca, mas não queria
mais tomar água da torneira do lavabo. Queria sentir
um gosto outro, um gosto como experiência dessa última
semana, estava limpo o suficiente para tornar a sentir um gosto
diferente, já que minha boca estava num estado quase
virginal. Ela já não se lembrava de alguns gostos,
de outros, porém tinha a vaga lembrança, e outros,
mais fortes, é como se a semana não tivera algum
efeito. Isto tinha me feito pensar sobre o fato de não
ter sido fitado ao longo do dia, evidentemente que isto se deu
pela enorme sede que me assolava, primeiramente isso me deixou
perplexo e emburrado, mas agora contesto veementemente, creio
sim que fui fitado, olhado de espreita, senão encarado
com força e vitalidade que desconhecia.