Baudrillard, filósofo crepuscular
Michel Thevoz

        A seguir um texto de Michel Thevoz sobre o sociólogo e filósofo Jean Baudrillard. É oportuno revisitar um texto expressivo sobre o autor, não tanto por sua morte (ocasionada no dia 6 de março deste ano), mas pelo olhar crítico e feroz direcionado a nossa sociedade. Este artigo foi originalmente publicado no Le Monde e os direitos de publicação foram gentilmente cedidos em especial para Conjecturas e outras verdades pelo departamento responsável deste Jornal, ao qual somos extremamente agradecidos.

       Baudrillard coloca-se de chofre do lado do mais forte, ou seja, duma virilidade generalizada que está em vias de infectar o que ele convencionou chamar de real. O vírus é aquele de um humanismo fundamentalista baseado sobre os valores de transparência, de identidade e de liberdade, que nos leva a acossar a morte, a obscuridade, a ausência, a negatividade. Ora, este mundo inteiramente positivo, interativo, translúcido, operacional, acaba por se esvaecer em sua própria simulação: a hiperrealidade como solução final ao real. Se é verdade que a história pode se repetir sob a forma de farsa, segundo a fórmula de Marx, trata-se de uma outra espécie de farsa que, hoje, se repetindo, constitui nossa história. Tanto então se divertir, toma partido do pior, praticar deliberadamente o pensamento viral, enfrentar a desmoralização de uma extensão por uma imoralidade filosoficamente despercebida e jubilada – o que o autor considera como uma “transferência poética de situação”.

     
         É como camponês que Baudrillard mede a progressão do Mal, mas como camponês pervertido, fascinado pela catástrofe, diretamente a medir a extensão. Um punhado de boa terra, isto pesa na mão. Mas o que pesa a Terra? Não saberíamos avaliá-lo senão tautologicamente, em referência a uma atração que continua desesperadamente terrestre. Ora, nós passamos além de nossos reparos, em uma incerteza catastrófica de todos os valores. Baudrillard, que lamenta não ter presenciado o Big Bang, acha uma compensação vantajosa no fato de poder assistir, senão ao fim do mundo, ao fim de um mundo, aquele do real, do sentido, das oposições regradas, do determinismo, etc.