| |
Só
o aforismo, a paródia e o paradoxo nos unem
Silvio Mieli
No
filme The Edukators (2004), dirigido por Hans Weingartner,
há um ritual que se repete. Dois jovens ativistas escolhem
casas da alta burguesia berlinense e, graças ao bloqueio
dos aparatos de vigilância, invadem as mansões,
mudam tudo de lugar e deixam uma mensagem grafitada: "os
dias de fartura estão chegando ao fim; assinado: edukators".
Em seguida, partem sem nada levar. Não se trata de uma
ameaça ou uma revolta contra o sistema. A dupla de "educadores",
Jan e Peter, propõe uma pedagogia baseada na construção
de um contra-senso, de um absurdo, de um disparate. A ação
é clara: criar uma instabilidade dos sujeitos e dos objetos.
O mundo do bom-senso e do senso comum, expresso na ordem e no
gosto das casas burguesas abastadas, uma vez revirado pelo avesso,
se torna instável e estranho (aparelhos de som na geladeira,
porcelanas chinesas no vaso sanitário, móveis
empilhados, o sofá boiando na piscina…).

O
ato de invadir propriedades particulares é considerado
ilegal. Mas no contexto de um estado de exceção,
quando os direitos estão suspensos no ar, o que fazer?
Embaralhar os códigos. Criar um pensamento que passe
por debaixo das leis, recusando-as, por debaixo das relações
contratuais, desmentindo-as, por debaixo das instituições,
parodiando-as (Deleuze, 1985: 59). "A
contestação hoje ficou um pouco mais complicada",
diz Jan à amiga Jule num dos diálogos do filme.
Posteriormente, através da intervenção
da própria Jule, emerge um choque de gerações
inevitável. The Edukators coloca frente a frente
a geração 68 e os ativistas do novo milênio.
Nômades,
libertários e anarquistas, de ontem e de hoje, têm
em comum o fato de instalarem o paradoxo no pensamento e na
vida política. O paradoxo tem uma função
desautomatizadora da percepção do mundo, na medida
em que transforma a permanência em puro devir. E se por
um lado é tão difícil tratar historicamente
os movimentos paradoxais, ao mesmo tempo podemos aproximar muitos
teóricos que nunca se definiram anarquistas (Nietzsche,
Foucault, Deleuze) da "máquina de guerra" anárquica
contra o poder.
Inspirado
pela pedagogia dos Edukators, pretende-se aqui apenas e tão
somente mapear algumas reverberações paradoxais
de matriz nietzscheana nas manifestações contemporâneas
de midiativismo, termo assim definido por Matteo Pasquinelli:
O
midiativismo não é só um fenômeno
social e político, representa um laboratório
de inovações e experimentações
que veremos surgir na sociedade do futuro. Trata-se de um
protótipo ou de uma oficina de uma nova cultura e de
uma nova mentalidade: dos fóruns sociais ao hacktivismo,
do orçamento participativo à economia solidária,
da desobediência social à intervenção
pacífica nos territórios da guerra global. É
uma nova atitude, um modelo cultural, uma forma mental que
consideramos central no humanismo do mundo que está
por vir. Um protótipo mental que ainda é embrionário,
mas carregado de potencialidades radicalmente inovadoras,
que já arranharam a superfície das pirâmides
imperiais do poder, dos meios de comunicação,
da economia… (Pasquinelli, 2002: 12).
Comecemos
por uma pista fornecida por Michel Foucault, em 1973, numa inusitada
entrevista concedida à Revista Manchete. Foucault, em
sua segunda e última visita ao Brasil, autodefinia-se
um jornalista. "O que me interessa é a atualidade,
o que se passa em nosso redor, o que somos, o que acontece no
mundo" (Leite, 1973: 147), declarou.
Em seguida, arrematou:
A
filosofia, até Nietzsche, tinha como razão de
ser a eternidade. O primeiro filósofo-jornalista foi
Nietzsche. Ele introduziu o hoje no campo da filosofia. Antes,
o filósofo conhecia o tempo e a eternidade. Mas Nietzsche
tinha uma obsessão pela atualidade. Penso que o futuro
somos nós que fazemos. O futuro é a maneira
como reagimos ao que se passa, é a maneira como transformamos
em verdade um movimento, uma dúvida. Se nós
quisermos ser mestres do nosso futuro, devemos colocar fundamentalmente
a questão do hoje. Por isso, para mim, a filosofia
é uma espécie de jornalismo radical (Leite,
1973: 147).
Ora,
o projeto mais geral de Nietzsche, ensina-nos Gilles Deleuze,
consiste em introduzir no universo filosófico os conceitos
de sentido (a relação de alguma coisa para com
a força que dela se apodera) e valor (a hierarquia de
forças que se exprimem no objeto). É como se o
"hoje" e a "atualidade" de que nos fala
Foucault na citação acima passassem a ganhar um
novo sentido e um renovado valor (ou transvalor), que só
podem ser entendidos diante de uma crítica radical do
jogo de forças contemporâneas. Uma filosofia, conforme
Nietzsche dizia, realizada a "marteladas". Mas que
tipo de jornalismo radical, ao mesmo tempo crítico e
criativo, despontaria a partir das marteladas de Nietzsche?
Imediatismo
Posto
que não se pode falar em jornalismo sem aludir a uma
linguagem subjacente, trata-se de buscar em Nietzsche a novidade
discursiva, uma nova narrativa, capaz de iluminar "a aurora
de uma contracultura" (Deleuze, 1985: 57)
e de uma contrafilosofia. É exatamente isso que o filósofo
Gilles Deleuze aprofunda na sua fala "Pensamento nômade",
no Centro Cultural Internacional de Cerisy-la-Salle (Normandia),
durante o colóquio "Nietzsche hoje?", em julho
de 1972.
Na
tradição filosófica, a relação
com o exterior sempre foi mediada e dissolvida numa interioridade
(a alma, a consciência, a essência ou o conceito).
Nietzsche, ao contrário, funda o pensamento, a escritura,
sobre uma relação imediata com o exterior através
do aforismo (sentença breve, máxima), da poesia,
da paródia, da ironia e do paradoxo.
Miguel
Angel de Barrenechea insiste na exaltação enfática
que Deleuze faz do estilo nietzscheano:
…
o aforismo é saudado como uma nova forma de escrita,
uma fala radial e revolucionária, oposta às
construções tradicionais da filosofia. O aforismo,
para Deleuze, possui um caráter absolutamente inovador,
colocando em xeque todos os meios de expressão anteriores
(Barrenechea, 200: 105).
Para
Gilles Deleuze, conectar o pensamento ao exterior é o
que os filósofos nunca fizeram, mesmo quando falavam
de política. Não basta falar do exterior para
conectar o pensamento diretamente e imediatamente ao exterior.
Os textos de Nietzsche são atravessados por um movimento
que vem de fora, que não começa na página
do livro nem nas páginas precedentes, que não
cabe no quadro do livro, e que é absolutamente diferente
do movimento imaginário das representações
ou do movimento abstrato dos conceitos. Alguma coisa salta do
livro, entra em contato com um puro exterior e, o que é
mais importante, abre-se para as pluralidades e diferenças
deste exterior. "Friedrich Nietzsche afirmou que o habitat
dos grandes problemas é a rua", anotou certa vez
o escritor Oswald de Andrade. (Oswald de Andrade, apud
Borges).
Este
imediatismo Nietzscheano, inspirou, por exemplo, Hakim Bey,
o codinome de Peter Lamborn Wilson, anarquista americano estudioso
do sufismo (corrente mística do Islã). Bey é
o teórico das Zonas Temporárias Autônomas,
que seriam áreas ou dimensões sociais liberadas
temporariamente do capitalismo globalitário. O conceito
de TAZ, assim como as noções de "imediatismo",
tiveram uma influência fundamental nas experiências
telemáticas alternativas. Bey chegou a escrever um manifesto
do imediatismo. Em seu oitavo item lê-se o seguinte:
Computadores,
vídeo, rádio, impressoras, sintetizadores, máquinas
de fax, gravadores de fita, fotocopiadoras - essas coisas
representam bons brinquendos, mas terríveis vícios.
Finalmente, nós percebemos que não podemos alcançar
e tocar em ninguém que não esteja presente em
carne e osso. Essas mídias podem ser úteis a
nossa arte, mas elas não devem nos possuir, tampouco
devem permanecer "entre", mediando ou nos separando
de nosso "eu" anímico/animal. Nós
queremos o controle de nossa mídia, não sermos
controlados por ela. Gostaríamos de lembrar de certa
arte marcial que acentua a idéia de que o corpo é,
em si mesmo, a menos mediada de todas as mídias (BEY,
imediatismo, site Sabotagem/Contra-Cultura).
A
atualização do jornalismo radical, imediato e
aforístico de Nietzsche, nos compele a vivenciar a comunicação
como uma prática ativa, ao invés de sermos meros
receptores de informação. Ensina também
que os meios de comunicação não são
apenas MEIOS, mas campos de batalhas políticas, teatros
do imaginário coletivo, espelhos de projeções
da estrutura e da construção social (Pasquinelli,
2002: 15). Não basta olhar para os meios pelo
viés instrumental, assim como não é mais
possível desconsiderar o fato de que estamos imersos
numa midiascape (paisagem midiática).
Jogo
de forças
Seguindo
as características que Gilles Deleuze dá aos aforismos
nietzscheanos, temos uma mapa, não para analisar ou categorizar
a contracultura dos anos 60 ou 70 (que tem mais a ver com Freud
e Marx), mas para continuar a estudar as ações
paradoxais na esfera comunicacional, que emergem na era pós-Seattle
(1999), e que parecem estabelecer um diálogo muito rico
com Nietzsche.
Ora,
num mundo onde, como bem demonstra Toni Negri, não existe
mais o fora, Nietzsche sugere tratar o aforismo, esta centelha
de linguagem, como um fenômeno à espera de novas
forças que venham "subjugá-lo", ou fazê-lo
funcionar, ou então fazê-lo explodir (Deleuze,
1985: 62). Já sabemos que cada inovação
estética, tecnológica e comunicacional é
imediatamente absorvida pelo sistema. Mas, diante desse mar
revolto de forças, é preciso mais do que nunca
saber avaliar, pesar, conferir sentidos e significados. Talvez
seja exatamente este o método nietzscheano,
…
que faz do texto de Nietzsche não mais alguma coisa
a respeito da qual seria preciso se perguntar "é
fascista, é burguês, é revolucionário
em si?", mas um campo de exterioridade onde se defrontam
forças fascistas, burguesas e revolucionárias.
E a resposta conforme ao método seria: encontre a força
revolucionária (Quem é além-do-homem?)!.
(Deleuze, 1985: 62).
É
preciso considerar este jogo de forças a partir da noção
de sentido em Nietzsche:
Nós
nunca encontraremos o sentido de alguma coisa (fenômeno
humano, biológico ou mesmo físico), se não
sabemos qual é a força que se apropria da coisa,
que a explora, que dela se apodera ou que nela se exprime.
Um fenômeno não é uma aparência
(imagem), nem mesmo uma aparição, mas um signo,
um sintoma que encontra o seu sentido numa força atual.
A inteira filosofia é uma sintomatologia e uma semiologia.
As ciências são um sistema sintomatológico
e semiológico. (Deleuze, 1997: 3)
Leia-se
o seguinte aforismo de Nietzsche:
Não
se baseia precisamente a divindade em haver deuses, e não
deus?. (Nietzsche, 1977: 139).
A
interpretação que Deleuze faz do aforismo merece
destaque. Para ele, os deuses morreram, mas na verdade eles
morreram de rir, quando ouviram um Deus falar que ele era o
único. E a morte deste Deus que se dizia o único
é, também, um evento plural: a morte de Deus é
um acontecimento onde cada sentido é múltiplo.
É PORQUE "NIETZSCHE NÃO ACREDITA NOS GRANDES
EVENTOS RUIDOSOS, MAS NA PLURALIDADE SILENCIOSA DE SENTIDOS
DE CADA EVENTO".
Se
ouvirmos outro intérprete afiado de Nietzsche, o filósofo
italiano Gianni Vattimo, perceberemos que, Nietzsche e Heidegger
nos fizeram ver que devemos transformar a idéia de que
a verdade não é objetiva numa disciplina do diálogo.
Não existem princípios absolutos, objetivos, mas
apenas opiniões, pontos de vista, forças. Se eu
sei que a verdade não é definitiva, procuro um
acordo, procuro escutar os outros, corrigir-me (Pinto,
2002).
Intensidades
(qualidades)
A
intensidade não remete nem a significados que seriam
como a representação das coisas, nem a significantes
que seriam como a representação das palavras.
O aforisma é intenso porque nasce do fluxo vital de um
indivíduo, concreto, encarnado, de um nome próprio,
de um corpo próprio. Ele está presente em todas
as manifestações midiativistas que clamam por
um processo de reapropriação do corpo, do corpo
público, do corpo social.
O
aforismo procura intensidades e, por sua vez, intensidades são
diferenças. Este conceito próprio da diferença
Deleuze buscará mergulhando profundamente nas teorias
do Eterno Retorno e da Vontade de Potência de Nietzsche.
Pensando em termos de invenção e não de
origem do conhecimento, entendendo sua relação
de poder com as coisas a conhecer, tirando o papel de protagonista
do sujeito do conhecimento, enfim, Nietzsche nos aproxima de
uma forma de esquecimento revolucionária para a tradição
da filosofia ocidental. É uma quebra desconcertante em
relação ao que vinha sendo dogmatizado, ensinado,
demonstrado, exemplificado e incutido: de que o conhecimento
é semelhante à natureza humana e ao mundo, de
que o mundo é perfeito, ordenado e imita o homem, de
que tudo é belo, harmônico e tem uma origem que,
invariavelmente, culminava no "E o Verbo era Deus..."
Mas Nietzsche retira a figura deste Deus único (início
e fim de tudo) do mundo, bem como a busca angustiada das origens
das coisas; quer esquecer ambos os caminhos, já que representam
um fardo pesado demais para se carregar. Seu mundo está
além da moral, além do bem e do mal. Seu Universo
é "um processo circular do todo", é
a "Teoria do Eterno Retorno". Nesse anel, nesse círculo
fechado que seria o universo, a quantidade de força existente
seria determinada. Nele tudo é eterno, nada veio a ser.
Diferentemente de outros cursos circulares, o do universo é
uma lei originária onde os acontecimentos se repetem:
"Seja
qual for o estado que esse mundo possa alcançar,
�"ele tem de tê-lo abraçado, e
não uma vez, mas inúmeras "vezes...Homem!
Tua vida inteira, como uma ampulheta, ""será
sempre desvirada outra vez e sempre se escoará ""outra
vez, um grande minuto de tempo no intervalo, "até
que todas as condições, a partir das quais
vieste a "ser, se reunam outra vez no curso circular
do ""mundo...Esse anel, em que és um grão,
resplandece ""sempre outra vez. E, em cada anel
da existência ""humana,...emerge o mais
poderoso dos pensamentos, o ""pensamento do eterno
retorno de todas as coisas: é ""cada vez,
para a humanidade, a hora do meio-dia (Nietzsche, 1978,
aforismo 25: 389-90).
Decorre
da Teoria do Eterno Retorno a Teoria da Vontade e Potência.
Uma vontade mais forte leva a melhor; não há nenhum
projeto anterior. É a teoria de um mundo que eternamente
se cria e se destrói a si mesmo, um mundo de volúpia,
sem objetivos:
"...força
por toda parte...mar de forças tempestuando e ""ondulando
em si próprias, eternamente mudando (Nietzsche, 1978,
aforismo 1067: 97).
Não
há equilíbrio, nada é definitivo. Nós
mesmos somos, segundo Nietzsche, essa vontade de potência,
e nada mais. A leitura que Gilles Deleuze faz do Eterno Retorno
nietzscheano opõe o "caos-errância" à
"coerência da representação",
excluindo a possível pertinência de um sujeito
que se representa indefinidamente e de um objeto representado,
em nome de uma eterna repetição que receptaria
uma potência informal, capaz de desfazer cada representação
das coisa através da diferença:
O
díspar é o último elemento da repetição
que se opõe à identidade da representação.
O círculo do eterno retorno, o da diferença
e da repetição (que desfaz o do idêntico
e do contraditório), é um círculo tortuoso
que só diz o Mesmo daquilo que difere (Deleuze, 1988:
108).
Deleuze
procurará nos despertar através do "Eterno
Retorno" para toda e qualquer remoção dos
entraves que mediatizam a relação entre o ser
e a diferença dos fenômenos. Ao assumir a postura
de que cada fenômeno é uma eterna cópia
de outras cópias das quais não há uma origem,
mas apenas eventos que só existem retornando, Deleuze
abre-se para o simulacro como "o verdadeiro caráter
ou a forma do que é "o ente" , quando o eterno
retorno é a potência do ser (o informal)".
A identidade, responsável pela modelação
formal dos fenômenos em função de um ideal
a ser representado, desfaz-se no simulacro, que longe de ser
uma cópia, procurará experienciar o real a partir
de uma seleção dos elementos divergentes, díspares:
Com
efeito, por simulacro não devemos entender uma simples
imitação, mas sobretudo o ato pelo qual a própria
idéia de um modelo ou de uma posição
privilegiada é contestada, revertida. O simulacro é
a instância que compreende uma diferença em si,
como duas séries divergentes (pelo menos) sobre as
quais ele atua, toda semelhança tendo sido abolida,
sem que se possa, por conseguinte, indicar a existência
de um original e de uma cópia. É nesta direção
que é preciso procurar as condições,
não mais da experiência possível, mas
da experiência real (seleção, repetição,
etc). É aí que encontramos a realidade vivida
de um domínio sub-representativo. Se é verdade
que a representação tem a identidade como elemento
e um semelhante como unidade de medida, a pura presença,
tal como aparece no simulacro, tem o "díspar"
como unidade de medida, isto é, sempre uma diferença
da diferença como elemento imediato (Deleuze, 1988:
124-125)).
Este
elogio da diferença, da intensidade e do simulacro soa
hoje como um libelo contra as leis de patentes e o fundamentalismo
das propriedades intelectuais.
O
senso de humor e a ironia

É
impossível não rir quando, no começo de
The Edukators, a família chega de férias
e encontra o mundo de cabeça para baixo. O humor é
um exercício de dissecação da realidade
tal como ela é e não como o bom senso ou o senso
comum gostariam que ela fosse. No senso comum, os diferentes
objetos igualizam-se "e os diferentes eus tendem a se uniformizar"
(Deleuze, 1988: 360). Logo, o que Deleuze
identifica no paradoxo como manifestação da filosofia
(ao contrário do bom senso), é válido também
para os efeitos paradoxais no humor:
"...o
paradoxo quebra o exercício comum e leva cada "
�"faculdade diante do seu próprio limite,
diante de seu ""incomparável, o pensamento
diante do impensável que, ""todavia, só
ele pode pensar, a memória diante do ""esquecimento,
que é também seu imemorial, a ""sensibilidade
diante do insensível, que se confunde com ""o
seu intensivo (Deleuze, 1988: 365).
Um
aforismo é um jorro de riso e alegria. "É
preciso ler Nietzsche rindo e gargalhando, caso contrário
não há leitura de Nietzsche. Isto não é
verdadeiro somente em relação à Nietzsche,
mas em relação a todos os autores que fazem precisamente
este mesmo horizonte da nossa contracultura" (Deleuze,
1985: 64). Não se pode deixar de rir quando se
embaralham os códigos (é exatamente isso que faz
o subvertisement e as ações de culture jamming
contemporâneas). O riso em Nietzsche remete sempre ao
movimento exterior dos humores e das ironias e este movimento
é o das intensidades, das qualidades, das diferenças
exteriores que ressoam continuamente.
Aqui
é preciso compreender que o humor e a ironia se contrapõe
ao peso dos valores platônicos, judaico-cristãos:
valores que condenaram a vida, postulando um utópico
mundo do além (as idéias ou idealismo platônico).
Portanto, nunca é demais ressaltar que um dos projetos
de Nietzsche é demolir o castelo metafísico, armadilha
na qual, segundo Oswaldo Giacoia Junior,
Nossa
alma ou espírito, nossa verdadeira essência, estaria
prisioneira do nosso corpo. Os sentidos induziriam nossa verdadeira
essência ao erro e ao engano pelos sentidos, que nos arrastam
continuamente para o planos das aparências, desviando-nos
do que seria a nossa verdadeira destinação: a
contemplação das formas puras…Todo conhecimento
verdadeiro seria, pois, uma espécie de recordação
do que outrora, antes do cativeiro de nossa alma pelo corpo
e no mundo terrestre, contempláramos do verdadeiro e
divino mundo das idéias. Um espírito, ou razão
pura, e um bem em si constituem as referências metafísicas
que dão sustentação tanto ao conhecimento
científico quanto às ações morais
do ser humano no mundo (Giacoia
Junior, 2000: 23).
Máquina
de guerra nomádica e intempestiva
Num trabalho
recém-lançado, Viviane Mosé mostra como
a nova política que nasce com Nietzsche passa por uma
transvaloração da linguagem. Ou seja, a desautorização
da linguagem, a desconstrução da lógica
da identidade (leis e gramática) e o investimento numa
relação afirmativa com os signos a partir de um
novo campo de forças interpretativo.
Dentro
deste contexto insere-se a questão do aforisma nomádico.
Deleuze intuia que o problema político seria o de encontrar
uma unidade das lutas pontuais sem recair na organização
despótica e burocrática do partido e do aparelho
de Estado: uma máquina de guerra que não reproduzisse
um aparelho de Estado, uma unidade nomádica em relação
com o exterior, que não reproduzisse a unidade despótica
interna. Nesse sentido, a nova política que começa
com Nietzsche inaugura uma máquina de guerra móvel
(nomádica e intempestiva). François Zourabichvili
dá uma interpretação prática ao
conceito deleuziano de máquina de guerra:
…em
lugar de depositar uma fé intacta e não crítica
na revolução, ou de convidar abstratamente para
uma "terceira via" revolucionária ou reformista,
ela permite precisar as condições de uma política
revolucionária não-bolchevique, sem organização
de partido, que disporia ao mesmo tempo de uma ferramenta
de análise para fazer face ao perigo de deriva "fascista"
próprio das linhas de fuga coletivas (Zourabichvili,
2004: 66).
Aqui
as linhas de fuga nietzcheanas e anarquistas se encontram. Os
aforismos nômades são aqueles que escapam aos códigos
(os marginais, os excluídos, os pensadores malditos).
O nômade não é necessariamente aquele que
se movimenta: existem viagens num mesmo lugar (a internet que
o diga), viagens em intensidade, e mesmo historicamente os nômades
não são aqueles que se mudam à maneira
dos migrantes, ao contrário, são aqueles que não
mudam, e põem-se a nomadizar para permanecerem no mesmo
lugar, escapando dos códigos (Deleuze,
1985: 66).
Para
quem ainda não viu The edukators fica um aviso.
No confronto entre a geração 68 e os ativistas
do novo milênio não jogue todas as fichas na alienação
da juventude contemporânea.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARRENECHEA,
Miguel Angel de. "Pensamento nômade": a leitura
deleuziana do aforismo de Nietzsche in Nietzsche e Deleuze; intensidade
e Paixão. Daniel Lins, Sylvio de Sousa Gadelha Costa
e Alexandre Veras organizadores. Rio de janeiro, Ed.Relume Dumará,
2000.
BEY,
HAKIM. Imediatismo, in site Sabotagem/Contra-Cultura:
http://www.inventati.org/sabotagem/database/article.php?id_article=208
BORGES,
FERNANDA CARLOS. "A Vontade de Mudança e o Medo
da Queda", in http://www.sinte.com.br/modules.php?name=Content&pa=showpage&pid=26&page=1
DELEUZE,
Gilles. Nietzsche hoje?; colóquio de Cerisy;
Org,Scarlett Marton. São Paulo. Editora Brasiliense,
1985.
DELEUZE,
Gilles. Diferença e Repetição.
Rio de Janeiro, Ed.Graal, 1988.
DELEUZE,
Gilles. Nietzsche et la philosophie. Paris, Quadrige/PUF,
1997.
GIACOIA
JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo, Publifolha,
2000.
LEITE,
Ricardo Gomes. "O mundo é um grande hospício",
in Revista Manchete, número 1104, de 16/06/73.
MOSÉ,
Viviana. Nietzsche e a grande política da linguagem.
Rio de Jneiro, Civilização brasileira, 2005.
NIETZSCHE,
Friedrich. Assim falava Zaratustra. São Paulo,
Hemus, 1977.
NIETZSCHE,
Friedrich. "Sobre o Niilismo e o Eterno Retorno",
in Os Pensadores. 2a ed., São Paulo, Editora
Abril, 1978, 25, pp.389-90.
PASQUINELI,
Matteo (org). Media Activism; strategie e pratiche della
comunicazione indipendente/mappa internazionale e manuale d¢
uso. Roma, Derive Approdi, 2002. Para fazer download da
versão original: http://www.rekombinant.org/media-activism/
PINTO,
Manuel da Costa. "O niilismo como resistência",
in Folha de S.Paulo, Caderno Mais, domingo, 02 de junho
de 2002.
ZOURABICHVILI,
François. O vocabulário de Deleuze. Rio
de Janeiro, Relume Dumará, 2004

|