Ainda
me lembro da memória, parceira indigesta, que guarda
para si, seletivamente, aquilo que a convém. Dessa maneira,
depois de altercadas infundadas com uma antiga namorada, algumas
fotos tiveram como destino o fósforo aceso de um dedo
raivoso. Ainda me lembro desta memória, melhor assim,
seletiva, do que uma que nem ao nada esquece, tal qual a de
Funes, o memorioso. Num determinado momento da descrição
de Irineu Funes, vemos que suas lembranças “não
eram simples; cada imagem visual estava ligada às sensações
musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os
sonhos, todos entressonhos. Duas ou três vezes havia reconstruído
um dia inteiro; nunca havia duvidado, cada reconstrução,
porém, já tinha requerido um dia inteiro”.

Imagino
como Funes não devia ficar empanturrado e mesmo nauseado
diante desta memória impiedosa. Felizmente posso dormir
tranqüilo com a certeza de que não lembrarei de
cada batimento cardíaco conjugado com a muriçoca
que atravessa meus ouvidos e o suor das mãos resultado
de um dia quente, tudo armazenado diante da memória,
de milésimo a milésimo de segundo. Mas, mesmo
seletiva, me lembro que é impossível apagá-la,
ao menos completamente de um modo físico. Vejamos o fato
de queimar fotos, por exemplo, é por si só um
elemento forte, digno de possuir um espaço cativo na
memória. Aquilo que era para ser consumido juntamente
com o fogo, fica impregnado duplamente. Uma primeira pela própria
vivência, o momento preciso em que o aparelho flagrou
a fugacidade, o cheiro da relva, o perfume do chocolate acabado
de comer e ainda persistente na saliva. Um chocolate que é
todo único, pela relação que mantenho com
ele, que é fundamentalmente diferente da sua relação,
do outro etc. Uma invisibilidade que a foto certamente não
capta, mas que a memória retém, a foto “dispara”
esses elementos na memória. Noutro momento, o fogo queimando
a imagem, é na verdade uma morte simbólica de
todo aquele entorno já descrito. Mas nas entranhas do
fogo, me vem à memória tudo de novo, e a cada
vez que vejo algo parecido, a seletiva memória me põe
imagens do referido evento.
É vivo quem já morreu, em mim, nas veias, em uma
teia gigante.
Quando leio um determinado autor, já falecido há
décadas, sinto a presença em cada letra, cada
palavra e parágrafo, é vivo quem já morreu.
Nada de original, basta lembrar de Haroldo de Campos, Marcel
Proust, Jorge Luis Borges e tantos outros que ainda vivem. Mas
muitas vezes os encontro mortos, nas estantes escondidas de
algum sebo esperando uma mão divina que lhes dará
uma vez mais a vida.

É
morto quem já morreu. Bem como nossa história,
tão seletiva quanto minha companheira indigesta. Se se
ilumina um determinado campo, outros tantos ficaram no escuro.
Mataram quem já morreu. Um exemplo lindo é finamente
contado por Didi-Huberman relatando a morte que o silêncio
da história acarreta. No caso ele dizia restritamente
de história da arte, de seu nascimento das mãos
de Giorgio Vasari. O que o autor renascentista faz é
trazer ao bojo da memória as vidas dos mais notáveis
pintores, escultores e arquitetos (segundo o título de
seu livro), mas ao fazer tal empreitada é silenciado
um monte de outras vidas talvez tão instigantes e pertinentes
quanto Cimabue, Leonardo ou Michelangelo. No caso, a memória
não teve nem tempo de sequer ter a oportunidade de esquecer.
É morto quem nunca nasceu. Volto à literatura.
Diários em especifico. Retenção de memória,
a memória passada a limpo. Entretanto, é longe,
muito longe de ser memória, já passou antes por
diversos caminhos. Mesmo em Em busca do tempo perdido
a memória de nosso Marcel, que mais parece um labirinto
de fios, está fadada à distorção
imagética da escrita. Eis um paradoxo. Se para reter
a memória é preciso escrever, ela é alterada
substancialmente. Talvez se transforme em literatura.

A palavra latina medium, que tem como princípio
o significado meio, aquilo que está entre duas coisas,
foi consumida pela doutrina francesa do espiritismo. Muito bem,
já que o medium espírita é exatamente
o que está entre este mundo material com o mundo daqueles
que perderam sua capa matérica. Chover no molhado falar
neste caso de é vivo quem já morreu. Entretanto,
esta mesma palavra ainda serve para designar a exteriorização
dos fenômenos de comunicação, sobretudo
em sua versão mídia, que nada mais é do
que o plural de medium, media, que foi americanizada
com a sonoridade de mídia. Simplesmente por birra, nos
manteremos com a grafia latina, media.
E
chegamos assim à comunicação, e não
apenas à limitação imposta pelo conceito
de “comunicação de massa”. O corpo
e tudo o que ele acarreta com todos seus sinais e amplificações,
faz parte das media. Ora, é um fenômeno
no mínimo curioso o da comunicação, este
entre alguma coisa que faz a passagem com a qual iniciamos o
texto. Imaginem um beijo (exemplo mais cabal de um fenômeno
de comunicação), o primeiro, por exemplo, quando
é bem feito (como se deve, mas que depende de fatores
múltiplos das duas partes envolvidas), fica impregnado,
e ele que morre pouco tempo depois, continua vivo, com sabor
e tudo o mais. É sob este fenômeno também
que podemos nos prostrar diante dos livros e da literatura.
Estas media também geram vida de mortos, matam
mortos e mesmo aqueles que nunca nasceram podem padecer da morte.
Eu mesmo não sou nada senão o acúmulo de
mortos, sem eles nunca poderia escrever um texto, ou mesmo digitar,
desenhar, pintar, fotografar, etc., tudo fincado na memória
que pulou para um patrimônio cultural num movimento mútuo.
Deste modo, todos, mesmo os que não conheci e nunca virei
a conhecer estão conjugados em mim. Não há
como não lembrar de Cabimento, canção
ímpar de Arnaldo Antunes, que dizia: “hoje eu caibo
nesse mesmo / corpo que já coube / na minha mãe
/ minha mãe, minha avó / e antes delas minha tataravó
/ e antes delas um milhão / de gerações
distantes / dentro de mim”.
É vivo todos que já morreram, sem exceção.

Minha memória de anjo esqueceu-se de como terminar este
texto. Recapitulemos então. Primeiramente, é vivo
quem já morreu. Depois é morto quem já
morreu, e também mataram quem já morreu. E finalmente
é morto quem nunca nasceu. Poderíamos nos estender,
nas mortes não consumadas e outras precocemente anunciadas,
mas tudo isto volta à memória. Segundo nosso oráculo:
“Faculdade de reter as idéias, impressões
e conhecimentos adquiridos anteriormente”. Não
se morre, se vive, se retém. A não ser que a gente
passe por cima da memória, companheira indigesta, que
falha e fala nos momentos indevidos.