É vivo quem já morreu
Martinho Junior

        Ainda me lembro da memória, parceira indigesta, que guarda para si, seletivamente, aquilo que a convém. Dessa maneira, depois de altercadas infundadas com uma antiga namorada, algumas fotos tiveram como destino o fósforo aceso de um dedo raivoso. Ainda me lembro desta memória, melhor assim, seletiva, do que uma que nem ao nada esquece, tal qual a de Funes, o memorioso. Num determinado momento da descrição de Irineu Funes, vemos que suas lembranças “não eram simples; cada imagem visual estava ligada às sensações musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos entressonhos. Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro; nunca havia duvidado, cada reconstrução, porém, já tinha requerido um dia inteiro”.

Dante Gabriel Rossetti, Mnemosyne, 1881

       Imagino como Funes não devia ficar empanturrado e mesmo nauseado diante desta memória impiedosa. Felizmente posso dormir tranqüilo com a certeza de que não lembrarei de cada batimento cardíaco conjugado com a muriçoca que atravessa meus ouvidos e o suor das mãos resultado de um dia quente, tudo armazenado diante da memória, de milésimo a milésimo de segundo. Mas, mesmo seletiva, me lembro que é impossível apagá-la, ao menos completamente de um modo físico. Vejamos o fato de queimar fotos, por exemplo, é por si só um elemento forte, digno de possuir um espaço cativo na memória. Aquilo que era para ser consumido juntamente com o fogo, fica impregnado duplamente. Uma primeira pela própria vivência, o momento preciso em que o aparelho flagrou a fugacidade, o cheiro da relva, o perfume do chocolate acabado de comer e ainda persistente na saliva. Um chocolate que é todo único, pela relação que mantenho com ele, que é fundamentalmente diferente da sua relação, do outro etc. Uma invisibilidade que a foto certamente não capta, mas que a memória retém, a foto “dispara” esses elementos na memória. Noutro momento, o fogo queimando a imagem, é na verdade uma morte simbólica de todo aquele entorno já descrito. Mas nas entranhas do fogo, me vem à memória tudo de novo, e a cada vez que vejo algo parecido, a seletiva memória me põe imagens do referido evento.
É vivo quem já morreu, em mim, nas veias, em uma teia gigante.

         Quando leio um determinado autor, já falecido há décadas, sinto a presença em cada letra, cada palavra e parágrafo, é vivo quem já morreu. Nada de original, basta lembrar de Haroldo de Campos, Marcel Proust, Jorge Luis Borges e tantos outros que ainda vivem. Mas muitas vezes os encontro mortos, nas estantes escondidas de algum sebo esperando uma mão divina que lhes dará uma vez mais a vida.

       É morto quem já morreu. Bem como nossa história, tão seletiva quanto minha companheira indigesta. Se se ilumina um determinado campo, outros tantos ficaram no escuro. Mataram quem já morreu. Um exemplo lindo é finamente contado por Didi-Huberman relatando a morte que o silêncio da história acarreta. No caso ele dizia restritamente de história da arte, de seu nascimento das mãos de Giorgio Vasari. O que o autor renascentista faz é trazer ao bojo da memória as vidas dos mais notáveis pintores, escultores e arquitetos (segundo o título de seu livro), mas ao fazer tal empreitada é silenciado um monte de outras vidas talvez tão instigantes e pertinentes quanto Cimabue, Leonardo ou Michelangelo. No caso, a memória não teve nem tempo de sequer ter a oportunidade de esquecer. É morto quem nunca nasceu. Volto à literatura. Diários em especifico. Retenção de memória, a memória passada a limpo. Entretanto, é longe, muito longe de ser memória, já passou antes por diversos caminhos. Mesmo em Em busca do tempo perdido a memória de nosso Marcel, que mais parece um labirinto de fios, está fadada à distorção imagética da escrita. Eis um paradoxo. Se para reter a memória é preciso escrever, ela é alterada substancialmente. Talvez se transforme em literatura.

Frontispício das Vidas de Vasari, 1550

        A palavra latina medium, que tem como princípio o significado meio, aquilo que está entre duas coisas, foi consumida pela doutrina francesa do espiritismo. Muito bem, já que o medium espírita é exatamente o que está entre este mundo material com o mundo daqueles que perderam sua capa matérica. Chover no molhado falar neste caso de é vivo quem já morreu. Entretanto, esta mesma palavra ainda serve para designar a exteriorização dos fenômenos de comunicação, sobretudo em sua versão mídia, que nada mais é do que o plural de medium, media, que foi americanizada com a sonoridade de mídia. Simplesmente por birra, nos manteremos com a grafia latina, media.

       E chegamos assim à comunicação, e não apenas à limitação imposta pelo conceito de “comunicação de massa”. O corpo e tudo o que ele acarreta com todos seus sinais e amplificações, faz parte das media. Ora, é um fenômeno no mínimo curioso o da comunicação, este entre alguma coisa que faz a passagem com a qual iniciamos o texto. Imaginem um beijo (exemplo mais cabal de um fenômeno de comunicação), o primeiro, por exemplo, quando é bem feito (como se deve, mas que depende de fatores múltiplos das duas partes envolvidas), fica impregnado, e ele que morre pouco tempo depois, continua vivo, com sabor e tudo o mais. É sob este fenômeno também que podemos nos prostrar diante dos livros e da literatura. Estas media também geram vida de mortos, matam mortos e mesmo aqueles que nunca nasceram podem padecer da morte. Eu mesmo não sou nada senão o acúmulo de mortos, sem eles nunca poderia escrever um texto, ou mesmo digitar, desenhar, pintar, fotografar, etc., tudo fincado na memória que pulou para um patrimônio cultural num movimento mútuo. Deste modo, todos, mesmo os que não conheci e nunca virei a conhecer estão conjugados em mim. Não há como não lembrar de Cabimento, canção ímpar de Arnaldo Antunes, que dizia: “hoje eu caibo nesse mesmo / corpo que já coube / na minha mãe / minha mãe, minha avó / e antes delas minha tataravó / e antes delas um milhão / de gerações distantes / dentro de mim”.
É vivo todos que já morreram, sem exceção.

Lousa funerária, segunda metade do séc. XI

       Minha memória de anjo esqueceu-se de como terminar este texto. Recapitulemos então. Primeiramente, é vivo quem já morreu. Depois é morto quem já morreu, e também mataram quem já morreu. E finalmente é morto quem nunca nasceu. Poderíamos nos estender, nas mortes não consumadas e outras precocemente anunciadas, mas tudo isto volta à memória. Segundo nosso oráculo: “Faculdade de reter as idéias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente”. Não se morre, se vive, se retém. A não ser que a gente passe por cima da memória, companheira indigesta, que falha e fala nos momentos indevidos.