As barreiras do mundo em Babel
Lucas Rodrigues Pires

        Mas o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíam os filhos dos homens. “Eis que são um só povo”, disse ele, “e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro” (BÍBLIA, capítulo Torre de Babel)

        Babel, o filme de Alejandro González Iñarritu, advém da idéia da torre de Babel da Bíblia, do momento em que o Senhor percebe a ganância dos homens e sua ambição de chegar aos céus e decide por “misturá-los”, a fim de criar a incompreensão entre os homens. Sábio o Senhor, pois facilmente se conclui que sem a compreensão entre os seres humanos dificilmente haverá união de forças e objetivos. Sem entender um ao outro, como bem quis o Senhor, os homens acabam por se separar e se isolar. Afinal, não compreendendo o outro, como e por que dividir com ele algo que se considera seu?

        É com essa idéia que o diretor mexicano de Amores Brutos e 21 Gramas retoma a forma das três histórias que se cruzam. Se nos dois primeiros filmes eram dramas e tragédias pessoais que ligavam três personagens, desta vez a dupla diretor/roteirista resolve ir além, inserindo mais personagens na trama que os une. E não qualquer personagem, mas sim de nacionalidades diferentes, povos distintos, justamente aqueles que desceram da torre de Babel. Temos ali norte-americanos, mexicanos, marroquinos, japoneses, todos vivendo relações de conflito interculturais, expondo a (in)tolerância e a (in)capacidade de compreensão dos homens.

        Nesse sentido, Babel pode ser lido como um filme metonímico, que expõe por esses conflitos pessoais – o casal norte-americano no Marrocos, as crianças americanas com a babá mexicana no México e a juventude japonesa que se droga nas boates – estabelecidos nos três continentes (América, África e Ásia) as esferas de poder do mundo atual. Isto quer dizer que os próprios personagens representam suas nações e seu papel atual no mundo. O indivíduo como extensão de sua nação. Daí termos em Babel o desenvolvimento do tiro acidental na turista norte-americana por parte de dois garotos filhos de camponeses nas montanhas marroquinas um desenlace para um caso de possível ataque terrorista. Da mesma forma, a ida para um casamento no México, em que a babá das crianças as leva sem a permissão dos pais (justamente aquele casal no Marrocos que passa o drama da mulher ter levado o tiro), ganha relevo de pesadelo no retorno aos Estados Unidos, quando devem cruzar a fronteira.

          Convém estender a idéia de fronteira neste ponto, pois ela significa uma separação, um limite entre dois lados. Geralmente fronteiras servem para isolar lados opostos. A intenção do filme parece ser justamente esta – mostrar como os EUA contemporâneo criaram em torno da fronteira a idéia de oposição, quase de um inimigo. Mas aqui a fronteira deixa de ser meramente física para se tornar também social. Ao mesmo tempo em que se constroem muros e grades para separar dois territórios, constroem-se culturalmente muros e barreiras sociais que impedem a relação entre os povos. E tais barreiras são as formas como cada povo enxerga o Outro, a idéia que se faz e se representa o Outro. São os preconceitos, os estereótipos que se criam em torno dos povos.

          A idéia de fronteira/barreira é explicitada na trajetória dos “chicanos” nos Estados Unidos. A babá e o sobrinho, ambos mexicanos, vivem no país com certa liberdade de ação e trabalho. Ali são úteis para a economia norte-americana. Ao colocar o episódio da fronteira, quando, no retorno do casamento, os policiais acabam por forçar uma reação de fuga do motorista, o que coloca em risco as crianças, há uma espécie de volta às origens da fronteira, da fronteira dos faroestes, que impõe limites de território e é defendida a bala. Enfim, a fronteira implica confronto.

          Mas o caráter de confronto é estabelecido em apenas um dos sentidos. Enquanto no sentido EUA-México há grande fluência no trânsito, no sentido inverso a situação é oposta. E Iñarritu coloca isso nas imagens, ao filmar a entrada no México num dia ensolarado, música mexicana típica e o trânsito de pessoas e carros que fluem, algo que indica movimento, liberdade. Em compensação, a construção do retorno aos Estados Unidos adquire tensão e se aproxima de um suspense. A cena é noturna e há apenas o som ambiente. Sem pessoas ou carros por perto, tem-se apenas o encontro do Eu com o Outro, o americano com o mexicano. Ali o choque se torna inevitável, e a explosão se dá pela fuga acelerada do carro na rodovia escura com a conseqüente perseguição dos policiais. O choro das crianças, o desespero da babá, o medo do sobrinho. Adentram o espaço do Outro em caráter ilegal, sem permissão. E por isso irão pagar o preço da transgressão. Não há espaço para hesitações quando a tolerância não é cultivada e as barreiras são não só físicas como sociais.

          Retomando o caráter representativo das personagens, é possível enxergar em Babel uma analogia à geopolítica atual. Ao final do filme, os personagens norte-americanos conseguem se salvar e acabam bem, enquanto os “terceiro-mundistas” – leia-se, mexicanos e marroquinos – terminam deportados, presos ou mortos. O mais significativo dessa constatação é que o sentimento de proteção, solidariedade e humanidade – tida como a idéia central do filme – era praticamente um predicado apenas do dito Terceiro Mundo. Enquanto as crianças norte-americanas passam de um estado de medo (ao entrar no México, elas comentam que os pais disseram que era um país perigoso; o personagem de Gael Garcia Bernal complementa ironicamente: “Sim, está cheio de mexicanos”) para um de euforia e completa alegria em terras mexicanas – representado pela integração com os demais na festa de casamento – seus pais, cuja mãe fora baleada na excursão no deserto do Marrocos, sofrem com a ausência de compreensão e solidariedade dos passageiros ditos do Primeiro Mundo que viajavam com eles. Diante do drama do casal, partem com o ônibus e os abandonam.

           A mão que os ajuda e que de fato os salva é a local, ou seja, a do Outro, a do guia marroquino, que consegue um médico veterinário e permanece com eles até a hora da chegada do helicóptero que os resgatará. Essa forma de solidariedade é pouco compreensiva para o homem moderno norte-americano, acostumado a um cotidiano de tensão e disputa profissionais, publicidade e consumo exacerbados e uma filosofia da individualidade que está na própria base religiosa do país. São dois mundos deveras distintos. O americano, ao entrar no helicóptero, abre a carteira e oferece dinheiro ao guia marroquino. Sua única forma de contribuição é material, como se uma demonstração de humanidade fosse passível de conversão monetária ou fosse algo que precisasse ser “comprado” e não dado naturalmente. Impossível não lembrar aqui do protagonista Lourenço do recente O Cheiro do Ralo, que não consegue estabelecer relação com ninguém que não seja intermediada pelo dinheiro, ou seja, através da compra e venda de algo.

           Essa mercantilização de quase tudo no mundo, inclusive das emoções, oriunda da dominação do capitalismo liberal, fez com que a moeda de troca do mundo, a forma de se estabelecer relações, se tornasse quase que exclusivamente o capital (novamente vem à lembrança O Cheiro do Ralo). Aí a surpresa quando se vê alguém ajudar outro alguém pelo simples fato de ajudar. A humanidade que une os indivíduos está abaixo da relação estabelecida pelos homens com o capital. Quando não há dinheiro envolvido, as relações acabam por se esvaecer. Mais do que isso, sem o dinheiro envolvido, as relações humanas tornam-se incompreensíveis, passíveis de erros de interpretação e entendimento.

            Herdeiro da torre de Babel, o homem contemporâneo vive o dilema de estar num mundo em que não reconhece o Outro, apesar de conviver com ele. Eis uma era babélica, eis a mensagem de Babel: a incapacidade de compreensão dos homens que leva à incomunicação. Como se comunicar se não compreendemos? Se se comunicar é uma via de mão dupla, o mundo atual pouco comunica, pois as ações tendem a ser unilaterais, de caráter autoritário, ou então intermediadas pelo preconceito, que gera o receio/medo/pavor de entrar em contato com o Outro (Crash – No Limite é um filme que trabalha exatamente no limite desse preconceito e suas conseqüências). Mas em Babel, em que quatro línguas são faladas (mais a linguagem surdo-mudo), a verdadeira forma de se comunicar não é pela língua, mas por gestos e ações. Daí ser a solidariedade uma forma de comunicação em extinção no mundo, algo que o filme parece clamar aos espectadores. E o preconceito surge como uma forma de intolerância, de incomunicação, de afastamento do contexto. No mundo de Babel, em que a pluralidade de línguas impede a comunicação, as pessoas esquecem que há outras formas de se comunicar e de se relacionar. Esquecem que o toque, o olhar humanizado, o amor, são formas de comunicação primária do ser humano.

           Eis que a metáfora perfeita para este mundo surge na figura da menina japonesa surda. Num mundo repleto de imagens, sons e cores psicodélicas, como o mostrado em Tóquio e na boate em que ela e seus amigos freqüentam, o homem se coloca como nada além de um observador na multidão que não é capaz de ouvir (como ela), de interagir e nem de estabelecer relações além das superficiais e fragmentadas, por mais que desejem o contrário. Muito disso decorre do próprio mundo, desalmado diante da degradação do meio e das relações humanas, soterrado pelas barreiras sociais criadas culturalmente. Solidão, incomunicação e intolerância parecem formar a tríade que sustenta a visão de mundo de Babel.