O que fizeram de ti, Cuba?
Patrícia Cassi

       A história da Revolução Cubana parece chegar ao fim com seu líder Fidel Castro? Sim ou não, pouco importa, certo é que a Cuba da época do alvorecer da Revolução – 1959 –, a Cuba das décadas de 1960 e 1970, que estudamos nos livros, não é definitivamente a Cuba real da atualidade. A jornalista Patrícia Cassi passou um mês em Cuba (com visto de turista) descobrindo a ilha do Dr. Fidel que ela achava conhecer por suas leituras. Sua conclusão? A Cuba que encontrou está longe daquela que ela estudou e aprendeu a admirar com a Revolução. Definitivamente, os livros sobre Cuba estão defasados no tempo.

          Abaixo, texto especial sobre suas impressões e andanças por Havana. Lá, entre cubanos descrentes de esperança e desprovidos de dinheiro, ela constata a degradação física de um país, fruto da prévia degradação ideológica do regime de Fidel Castro.

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         Antes de chegar a Havana, viajei a Cuba por intermédio dos livros. Através deles conheci minúcias de importantes fases da história cubana. Acontecimentos que facilmente atraem qualquer um que se disponha a entendê-los. Assim, da paixão proporcionada pelos livros à concretização da viagem não se passou muito tempo.

         Às vezes, leia-se na maioria delas, o melhor a ser feito é desvendar o até então desconhecido sem cultivar a menor expectativa. Quando cheguei a Havana tinha resposta para tudo o que saía contra a revolução cubana estampado em muitos dos jornais brasileiros. Ao me deparar com a ilha, no entanto, cada argumento meu não alcançava a complexidade da Cuba contemporânea. Um a um, aos poucos, eles foram se desmoronando, assim como, em quase 50 anos, as conquistas do governo revolucionário.

           O assunto Cuba é demasiadamente complexo, cheio de ramificações. Por isso, aos que queiram conhecer fragmentos da vida em Cuba, captados por uma aspirante a jornalista, paciência é o que vos peço. Andar pela periferia de Havana (sim, lá existem bairros conhecidos como marginais), hoje, é quase como andar por entre as casas de favelas ou mesmo dos bairros mais carentes brasileiros. A impressão é de estar num lugar antigo, desolado. Casas rústicas, baixas, pequenas e desgastadas pela ação do tempo. Ruas estreitas e pouco iluminadas. O asfalto que deixa à mostra suas entranhas. Buracos de tamanhos e formatos variados. Vejo remendos disformes: um tapete de pedregulho. Fendas corroem a rua em toda sua extensão e alcançam profundidades inimagináveis. Terra. Lixo por toda parte: copos de plástico, papel, sacola plástica, papel amassado, bituca de cigarro...

         Mas, afinal, em que nossas favelas e a periferia de Havana se diferem? Dentre outros aspectos, em Cuba, as pessoas têm mais facilidade de acesso à educação e à saúde gratuitas, porém... (sim, conquistas da Revolução Cubana agora contam todas com um “porém”). Continuemos. Porém, a partir dos cinco anos, as crianças entram na escola primária em período integral – das 7h30 às 17h – e devem, agora, pagar sete pesos cubanos pela alimentação. Os pais que trabalham e não têm como deixar seus filhos menores de cinco anos sob os cuidados de outra pessoa podem deixá-los nos chamados círculos infantis. O preço destes é de vinte pesos cubanos mensais.

         Quando parecia que o único empecilho era o bloqueio externo imposto pelos Estados Unidos a Cuba e considerando que a média salarial equivale a aproximadamente 10 dólares, uma taxa aqui e outra acolá apenas fazem aumentar as dificuldades do povo cubano. Há ainda outro porém: professores recebem em torno de 300 pesos cubanos, o equivalente a 12 pesos conversíveis e, como não se sentem muito estimulados pelo salário oficial a darem o melhor de si, alguns pais pagam um estímulo em peso conversível para que os professores dêem mais atenção aos alunos. Alejandro, de 18 anos, um dos cubanos que conheci em Havana, confessou-me ter comprado sua aprovação – em determinada matéria – ao presentear a professora com uma garrafa de óleo. Em outra ocasião, deu a outro professor uma lata de molho de tomate.

        Não se pode generalizar, mas muitos professores ficam agradecidos quando recebem tais “estímulos materiais”. Menos ainda alguém pode culpá-los de mercenários, já que um peso conversível equivale a 25 pesos cubanos, e o salário pago pelo Estado continua a fingir que os habitantes só têm gastos utilizando a fraca moeda nacional. Tudo é feito e criado pelos nativos para ser revertido pelo peso conversível. A carona em Cuba, por exemplo, algo que simbolizava, para mim, o pensar no coletivo, não passa de apurações superficiais de jornalistas que se conformaram com a imagem de pessoas estendendo suas mãos e carros parando para atender a estes sinais. Não quero parecer pretensiosa, mas não há carona em Cuba. Ou melhor, existe como em qualquer outro país: aquela cedida entre amigos. A explicação é simples: todos aqueles que têm a sorte de ter um carro passam a utilizá-lo como táxi. Então, as pessoas que dão sinal a carros comuns pagam ao dono destes uma quantia em peso conversível. Geralmente, de 1 CUC (peso convertible). E assim tudo gira em Cuba. Todos em busca da moeda que tudo compra.

    

         O porém da saúde pública chega a ser mais nebuloso ainda: pessoas com condições de pagar aos médicos em peso conversível são atendidas na frente dos outros que esperam em filas. Estas são muito comuns em Cuba. Edília, por exemplo, minha primeira anfitriã em Havana, diz que há pouco tempo conseguiu colocar implante em seus dentes. No entanto, esperou dois anos para que chegasse sua vez. Caso tivesse pagado ao dentista “por la libre”, como os próprios cubanos costumam chamar este tipo de serviço, o implante poderia ser colocado no mesmo dia. Ambulâncias do próprio hospital são muitas vezes movidas, também, pelo CUC. Rosa, de 55 anos, conta que quando seu irmão esteve internado no hospital Calixto Garcia e precisou três vezes de ambulância para ser transferido de um prédio a outro, ela teve de desembolsar 10 CUC a cada vez que necessitava. Caso contrário, a central das ambulâncias dizia que todas estavam ocupadas e sabe-se lá quando estariam livres.

         Mas os leitores ainda devem estar se perguntando o que são estes pesos conversíveis? Com a derrocada da URSS em 1991, Cuba perdeu sua principal parceira (a parceria consistia em um apoio mútuo econômico-militar que assegurava, ao mesmo tempo, o sistema revolucionário na ilha de Fidel e a força do campo socialista pelo mundo), e o peso cubano, que até então era a única moeda permitida a circular no país, passou a dividir espaço com o dólar. O objetivo do governo cubano era obter divisas que não mais podiam ser obtidas pela venda superfaturada do açúcar à URSS e conseguir suprir de outra maneira a demanda de petróleo e de alimentos que antes era abastecida pela integração com outros países socialistas. Mas onde a poderosa moeda ganhava espaço? No turismo. Turistas eram obrigados a trocar suas moedas pelo dólar e tudo era gasto em dólar dentro do circuito turístico. Mercados oficiais passaram a cobrar em dólar pela venda de seus produtos. Estes serviam aos turistas, mas cubanos também compravam neles quando conseguiam o bastante na moeda americana.

         Já o mercado negro, responsável pela garantia de tudo o que não chegava às casas dos cubanos pela livreta, passou a girar movido pelo dólar ou o equivalente em moeda nacional. Muitos cubanos dependem deste mercado negro para o próprio sustento e sobrevivência. Sustento para os que vendem (difícil ver alguém na ilha que dependa apenas do salário oficial) e sobrevivência para os que por meio dele compram. Já que pela via ilícita o produto não chega a custar tão caro quanto os preços vistos em mercados oficiais. E onde entra o tal peso conversível nesta intrincada história? Há mais ou menos dois anos, o peso conversível substituiu, definitivamente, o dólar. Então, para tudo o que funcionava em dólar, agora funciona o peso conversível. Este desvalorizou a moeda americana em 20%. Assim, famílias cubanas que trocam seus dólares enviados por alguém da família que vive em Miami (quase todos os cubanos têm gente da família que vive nos EUA, principalmente em Miami, ou mesmo em outros países) são obrigadas a deixar 20% para o governo.

         E a famosa libreta? É uma espécie de caderneta de produtos que todas as famílias cubanas têm para obter uma espécie de cesta básica a baixo custo. Mas este símbolo da Revolução já mudou muito também. Se antes da desintegração da URSS até um par de sapatos era garantido anualmente a preço simbólico, agora o feijão não dura para mais de uma refeição. O leite pela libreta somente é permitido para crianças de até sete anos. Após isso, cada um que se vire com o mercado negro ou com as tendas oficiais. O que sai muito caro.

         Para manter o que em certa época foi qualificado como conquista social, o governo troca qualidade por quantidade, ou afiliação. Uma radical transformação começa a ser sentida: pessoas não necessariamente idôneas aos cargos que ocupam são mantidas por causa de participação em atividades ou programas do governo. Alguns professores mandados para a Venezuela, como parte do intercâmbio econômico entre o governo dos dois países, são substituídos pelos chamados maestros emergentes (alunos do pré-universitário, o equivalente ao colegial, são preparados durante um ano para lecionar aulas aos alunos da secundária – nível que antecede o pré-universitário). A isso, soma-se outra contradição: Cuba, o país que muitos dizem ter parado nos anos 50 (devido, dentre outros motivos, aos carros antigos daquela década que ainda circulam por todas as ruas), tem na secundária todas as disciplinas ministradas por um só professor – que, muitas vezes, é um daqueles maestros emergentes. E, como se não bastasse, a função do professor é garantir que a teleclasse seja assistida. Sim, todo o nível secundário é ensinado, ou melhor, transmitido via teleclasses.

         Deixei Cuba depois de ter absorvido todos esses contrastes. Impotente e desiludida, parecia ter passado por um pesadelo, mas sabia que havia recebido um banho dolorido de realidade. De fato, fragmentos de realidade duros demais para serem esquecidos a cada vez que desperto. Afinal, eles estão lá, imutáveis. Isso é o que mais incomoda em Cuba: essa imobilidade, essa incapacidade, que parece estrutural, de mudar sua triste realidade.