No
divã com a taça de vinho - Parte final
Martinho Junior

De
fato, fui
fitado, e bem fitado no dia de hoje. Mas, é complicado
em relatar sem ser confundido com um paciente de algum sanatório
municipal, sobretudo porque não se trata de uma pessoa.
O que sei, é que já aconteceu e foi inconteste,
fui olhado de maneira maravilhosa por um inesperado viés.
Ainda na amargura, quase não mais noite, resolvi vasculhar
os armários da cozinha em busca de uma bebida alcoólica
para me livrar daquele sentimento solitário que já
me perturbara a ponto de me flagrar parado, pensando em absolutamente
nada, como se estivesse imóvel sem poder me mexer por
algum motivo que ainda é desconhecido, como em um filme
de Buñuel. É aquela mesma sensação
que já tinha ocorrido da qual estava inserido durante
toda a semana, e também para sanar o lado prático
da sede. Não tão prático, já que
queria uma extravagância que não fosse a vitaminada
água do lavabo.
E lá estava quase que clamando pelo meu nome, uma garrafa
de um belo tinto que deve ter ficado no fundo do armário
por algum engano, ou esquecimento há meses, já
que não gasto mais dinheiro com álcool, ao menos
não para beber cultivando o mal estar da solidão.
Isto é coisa do passado, mas hoje posso fazê-lo,
pois estou clinicamente preparado, ainda me lembro das conversas
com a terapeuta das quais distinguia muito bem uma diferença
entre apenas beber – compulsivamente, e beber conscientemente.
É evidente que não se trata de conscientemente
regrado, sabendo a hora de parar etc., mas, de maneira que se
torna claro os motivos dos prazeres do álcool e em especial
do vinho, que vagueia pela língua mostrando suas diversas
tonalidades de sabor. Isto sim é beber conscientemente.
Agora que estava ali, precisava atender aos
anseios da minha extravagância, queria uma taça.
Sempre fui muito cuidadoso com o receptáculo do vinho.
Lembro até hoje quando, ainda criança, visitei
vinícolas no sul do país em Bento Gonçalves,
aprendi algumas coisas bem inúteis sobre a bebida, mas
também algumas coisas interessantes, como o uso pragmático
do vinho. O que de certa forma pode ser comparado aos elementos
químicos que inserimos no processo de revelação
e ampliação das fotografias, pois ali cada elemento
anula o outro. Na composição química do
vinho serve para, por exemplo, tirar o gosto de faisão
da boca e prepará-la para o sabor adocicado de um pimentão
recheado.
Coloquei o vinho na taça. O barulho
denunciava minha vontade de beber; o vinho entrava no copo como
uma torneira que lava a escova de dente pela manhã, o
que poderia segundo muitos chatos do vinho, distorcer o sabor.
Repeti a operação umas quatro ou cinco vezes em
menos de 30 minutos. Sede saciada e consciência um pouco
já alterada, comecei a realmente beber o vinho, degustá-lo.
Coloquei um pouco mais de vinho na taça, sem enchê-la
e o jeito que o vinho caía na taça revelava seu
aroma seco e cortante. A taça, revestida de um vermelho
intenso até a metade me trouxe um belo conforto, indescritivelmente
me acalmava a tal ponto que me punha a contemplá-la enquanto
a mexia infinitamente da esquerda para direita. Foi adorável
perceber de que não estava só ali; passara uma
semana tentando um isolamento utópico para no fim perceber
que era uma tentativa vã. Quando tinha mirado mais uma
vez na taça, percebi que tinha alguém lá,
indo e vindo, de acordo com o balançar que eu proporcionava
à taça. Por certo não se tratava de um
reflexo, como podem sugerir alguns, tratava-se de algo dotado
de tanta vida como eu.

Era
um outro eu, um duplo que me fitava bem nos olhos. Ele estava
tranqüilo, aparentava cansaço nas feições
do rosto, o que ia de encontro com seu olhar, impávido
e curioso. Como raposas espreitando a próxima vítima,
colocamos-nos a um mórbido reconhecimento de um olho
mágico de uma porta, e em pouco tempo, eu já sabia
que aquele a me olhar estava com a barba por fazer, de pijama
e mostrou-se pouco amigável ao esboçar um sorriso
que não se completou. Dediquei os minutos seguintes a
imaginar o que ele via em mim, como ele me observava. Lembrei
que havia tempo de que não me importava com cuidados
pessoais, certamente me deu por desleixado. Mas como? Como poderia
ele, sem sequer me conhecer e sem tomar conhecimento de minhas
razões, reduzir-me a um desleixo de que não me
é peculiar.
Por um instante fiquei nervoso com a capacidade
do ser humano em reduzir tudo em uma simples definição
precipitada, estava sentido isso na pele. Continuamos nos mirando
até que eu decidi quebrar o silêncio, que nessa
altura já era incomodo, com certeza, aos dois. Precisava
de alguma forma me defender da imaginação daquela
criatura. “Aposto que você me acha um desleixado,
certo?” Perguntei mirando direto nos olhos dele enquanto
ele sumia de vista, por alguns segundos, durante um outro gole
que dava naquele vinho. “Talvez, mas isso realmente é
importante para você? Reparo nisto agora, e vejo que realmente
está um pouco desleixado”. Fiquei um tanto mais
constrangido, não por ter precipitado em um comentário,
mas por não saber qual a imagem que ele construía
de mim. “Sim, e como o Sr. me via antes do meu comentário
então?”. Ele afastou-se um pouco e respondeu: “Certamente
como uma pessoa normal, como outra qualquer, com absolutamente
nada de importante, nem bom nem ruim”. “Então”,
disse eu, um pouco enervado “o Sr. prostra seus olhos
em mim por minutos e não pensa em nada?”. “Você
está enganado, eu não o fitava, estava com o olhar
perdido pensando na minha incapacidade de me mover, para falar
a verdade, não saio de casa há uma semana”.
Cinco minutos depois a taça misteriosamente espatifou-se
violentamente no chão. Ainda me pergunto se fui realmente
eu quem fez aquilo. Talvez, não tenha agüentado
escutar as mesmas lamurias que eu já tinha me feito ou
então a taça realmente teria se espatifado sozinha.
Não isso não, seria uma respostas mística
demais para mim. Provavelmente o ocorrido se deu por vontade
daquele Sr. que trocou algumas poucas palavras comigo e que
por algum motivo, não gostou da conversa travada. Porém,
imediatamente depois disto, me coloquei a dormir, compulsivamente,
pois queria acordar logo e ver o dia raiar, para por fim às
minhas férias. Tinha muito a contar para minha terapeuta
desde nosso último encontro.