(Voz
de uma criança de aproximadamente 12 anos)

Minha
mãe era uma pessoa muito alegre, brincalhona. Vivia me
carregando no colo até meus quatro ou cinco anos. Ela
sempre me punha pra dormir cedo, me dava beijo de boa noite,
trancava a porta e daí ficava acordada a noite toda,
conversando com alguns amigos que sempre vinham em casa. Cheguei
a perguntar a ela quem eram, se algum dos que aqui vinham era
meu pai, mas ela nunca respondia ou então fazia eu me
calar engolindo meus gemidos.
Certa
noite, já capaz de entender certas coisas, consegui abrir
a porta do quarto e fui ver o que acontecia no andar de baixo
da casa. Do topo da escada vi minha mãe seminua a dançar
e se esfregar num senhor barrigudo, de cabelos brancos apenas
nas laterais da cabeça, o que realçava sua careca
redonda e lisa. Fiquei chocado e soltei um esgar de surpresa
e espanto. Minha mãe me viu e correu ao meu encontro
com os olhos relampeando. Voltei para meu quarto chorando e
não tive muito tempo para raciocinar – ela rasgava
o quarto gritando enlouquecida. Bateu-me, me surrou e, para
terminar, furou meus olhos para eu aprender a não querer
ver o que não deveria.
A
partir daquele dia, só enxergo uma mancha negra. Não
vejo mais minha mãe, nem seus amigos, mais nada. Nem
a foto que ela me deu dizendo que esse era meu pai.