O filho da puta
Lucas Rodrigues Pires

um roteiro de curtíssima-metragem

o filme dura um minuto e a imagem é apenas um fundo preto, com a voz-over narrando a história abaixo

(Voz de uma criança de aproximadamente 12 anos)

Pierre Soulages, Pintura, 1966

          Minha mãe era uma pessoa muito alegre, brincalhona. Vivia me carregando no colo até meus quatro ou cinco anos. Ela sempre me punha pra dormir cedo, me dava beijo de boa noite, trancava a porta e daí ficava acordada a noite toda, conversando com alguns amigos que sempre vinham em casa. Cheguei a perguntar a ela quem eram, se algum dos que aqui vinham era meu pai, mas ela nunca respondia ou então fazia eu me calar engolindo meus gemidos.

          Certa noite, já capaz de entender certas coisas, consegui abrir a porta do quarto e fui ver o que acontecia no andar de baixo da casa. Do topo da escada vi minha mãe seminua a dançar e se esfregar num senhor barrigudo, de cabelos brancos apenas nas laterais da cabeça, o que realçava sua careca redonda e lisa. Fiquei chocado e soltei um esgar de surpresa e espanto. Minha mãe me viu e correu ao meu encontro com os olhos relampeando. Voltei para meu quarto chorando e não tive muito tempo para raciocinar – ela rasgava o quarto gritando enlouquecida. Bateu-me, me surrou e, para terminar, furou meus olhos para eu aprender a não querer ver o que não deveria.

          A partir daquele dia, só enxergo uma mancha negra. Não vejo mais minha mãe, nem seus amigos, mais nada. Nem a foto que ela me deu dizendo que esse era meu pai.