outras textas:
1 | 2

 


02.05.2007:

- "Sim, eu estou curado!"
Hoje revi o famoso Laranja Mecânica. Sempre intrigante, perverso e instigante. As técnicas de condicionamento oferecidas para salvar Alex, o protagonista e narrador (com uma pitada política) mostram-se um fiasco depois da iminente queda, quase um suicídio, i'm right? right? right?. A repulsa à Beethoven (apenas à nona sinfonia) também não estavam nos planos da "salvação". Com tudo isso, ele ainda volta à sociedade, talvez pior do que quando saiu, emprego, dinheiro, poder: nada pode detê-lo. Tudo parte da engrenagem para fazer a grande máquina funcionar: Alex, a polícia, o hospital, as delegacias: a violência, a apatia, enfim tudo. Ele foi usado ou usou todos?

por MJ.

24.04.2007:

- Fome de quê?
Uma imagem me persegue (ou me devora?) desde quando a vi. Na verdade, não é uma imagem visual, mas sim uma imagem mental oriunda de uma peça de teatro. Em Dilúvio em Tempos de Seca (texto de Marcelo Pedreira), o protagonista conta de uma idéia para colocar Deus à prova (não lembro se aconteceu algo similar ou ele propõe): a humanidade fazer greve de fome. Todos, sem exceção, deixarem de comer até que Ele, o Todo-poderoso, aparecesse para nós e interferisse em nosso destino.
E eis que o personagem conta que um a um foram caindo os homens de inanição até o último homem. E Deus não apareceu.
Não sei por que essa imagem me voltou à cabeça essa semana, talvez porque tenha debatido em aula o conceito de iconofagia... Mas a dúvida que fica é a seguinte, quem devora quem aí? A imagem que faço dessa idéia dentro de mim me devora? Ou a greve de fome que devora os homens da fábula? Eita, só sei que me deu fome...

por LRP.

14.04.2007:

- One plus one
É uma canção: "One plus one, is one. I know it's crazy but it's true". A música nem é tão boa assim, mas a frase me lembra uma ótima poesia de John Donne, O êxtase. Ali, os corpos somados são um: "Mas que assim como as almas são misturadas / Ignoradas, o amor reamalgama / A misturada alma de quem ama, / Compondo duas numa e uma em duas". Sim, um mais um, é um. Para tanto,, basta pensarmos como Donne, na física do amor, das almas, do uno. Uma ciência outra na qual as outras são desafiadas, salve a poesia. Não há barreiras, i know it's crazy but it's true.

por MJ.

11.04.2007:

- penso, falo
Eu penso e falo. Falo também sem pensar. E melhor, penso sem falar. Pensar sem falar às vezes é complicado. Por exemplo, se convido você, leitor, para qualquer coisa social, talvez você me pergunte: "não vai falar nada". E talvez eu te responda: "Como não? estava falando até agora". E na verdade teria falado pouquíssimo, mas pensado muito. Mas não apenas pensado. Trata-se de um pensamento que se mistura com minha fala e que de fato não consigo mais distingüir o que é o que. Penso, logo não falo. Poderíamos ser telepáticos, resolveria meu problema, talvez.

por MJ.

- O tempo que passa
Passando em frente ao colégio que estudei, me deparei com um hiato de 12 anos. Ali, vi crianças de 7, 9, 12 anos perambulando e acabei por me tocar que existe vida depois de nós. Explico: vamos envelhecendo e nem nos tocamos do que vem depois, que a vida é um ciclo e depois que deixei o colégio outras crianças mais viriam e assim sucessivamente. Não sei quanto a vocês, mas é no lidar prático que acabamos por dar visibilidade às novas gerações.

Dar aulas é outra forma de “moldar” mentalmente os mais novos. Deparo-me diariamente com estudantes universitários, aprendizes de jornalista, e fico a imaginar a idade, o que gostam de ouvir, de fazer, como escrevem, se gostam de ler, se leram Kafka ou Calvino, se viram determinado filme, se gostaram de determinado filme... Enfim, é um confronto imaginário, uma guerra de suposições que travo internamente a respeito dos mais jovens. E fico a comparar como eu era no meu tempo de estudante com os de hoje. Talvez esta seja a prova de que estou ficando velho... E mais chato que o normal...

por LRP.


textas da segunda edição:

29.03.2007:

- A vidência do avesso
Às vezes penso que sou vidente, uma espécie de paranormal. Talvez sejam reminiscências da infância que ainda é nostálgica (momento em que eu acreditava que com a força do meu pensamento podia fechar portas e aproximar copos e chocolates de mim). Mas há controvérsias, ontem, por exemplo, fiz algo que não se deve e abri o jogo de tarô para mim mesmo (o que equivale a um terapeuta atender um ente muito próximo e querido). Mas enquanto tentava decifrar a combinação respeitando as latências de cada imagem, logo percebi que o jogo se enganara e que a resposta era outra. Antevi o erro do tarô; minha resposta era muito melhor, mais sadia: caminhos certos e tranqüilidade nas dificuldades. Dizem que eu vejo apenas aquilo que quero, porém aquilo visto não me parece mentira, se eu vejo, ou penso, ou penso que penso, em alguma instância, próxima ou distante trata-se de uma verdade, nem que seja o seu avesso.

por MJ.

28.03.2007:

- Eterno vs. Imortal
Hoje me perguntaram se eu era eterno. Evidentemente que respondi “não!”. Entretanto, se a pergunta fosse “você é imortal?” eu não saberia responder. Para responder eu precisaria antes morrer, até esse dia acontecer não posso categoricamente falar se sou ou não imortal, certeza absoluta não posso ter; e também não sinto vontade em testar. Mas a pergunta “você é eterno?”, é um absurdo maior do que minha explanação sobre a imortalidade. Já que a diferença um do outro consiste na pressuposição de que o primeiro possui um “desde sempre”, e pelo que me foi dito, meu ponto inicial se dá no dia 3 de agosto de 1979, logo não sou eterno. Por isso que quando nos referimos a algumas entidades divinas dizemos eterno: sempre existiu e sempre existirá. Não tem começo ou fim. E eu, um simples não eterno, quando abandonar nosso mundo, voltarei para me certificar e para avisar que não sou imortal, mas alma conta?

por MJ.

16.03.2007:

- Encontro Marcado
Acabo de ler O Encontro Marcado, de Fernando Sabino. Interessante notar como as grandes histórias são histórias de derrotas. Eduardo Marciano, mais um solitário na multidão, derrotado na vida pela procura incessante de algo que não lhe foi possível decifrar – seria a tal dita felicidade? Enfim, fato é que sua procura, que se confunde com sua trajetória de vida, é uma seqüência de perdas e saudades. Porres e melancolia. Literatura e burocracia. Desejos e acomodação. Intenção e imobilidade. Do tempo passado permanece a memória, que ele enxerga nele uma espécie de utopia de vida. Seria o passado, o tempo do impossível já que já transcorrido, o sonho inatingível do homem? Estará lá a utopia humana? Parece ser essa a gênese de O Encontro Marcado, a derrota como condição de vida, a batalha já perdida. E nada mais próximo disso do que o passado como anseio presente. Em certo momento, quando em Belo Horizonte para rever seu passado, Eduardo encontra Hugo, amigo de infância e juventude, e ouve dele o seguinte: “Não blefe. Jogue todas as cartas na mesa. Não fuja. Não tenha medo de perder. Nada mais digno do que, tudo feito, depois que não se poupa nada, saber dizer: perdi. Porque essa é a grande verdade: perdemos sempre...”

por LRP.

06.03.2007:

- Eita Contradição
Como é que pode inibir paralisações? Olhando de relance não há nada de estranho, contudo trata-se daquele mesmo Lula, que tanto brigou para que tivessem o direito da paralisação; da voz operária como forma de apreensão dos direitos. Eita contradição.

por MJ.


05.03.2007:

- “O verão tá bombando”
Estamos colado ao dia internacional da mulher, e ainda somos obrigados a conviver com propagandas de cunho machista e de muito mau gosto. Impressionante como tudo é jogado pela janela com rapidez e eficácia em nome de uma imagem distorcida tanto do homem como da mulher. Já que o importante, segundo um publicitário amigo meu, “é fixar na mente do receptor”, sem muito se importar como e o que é veiculado. Recentemente fiz uma tipologia de tais propagandas (um dia ponho no cerebrar) para afirmar o já sabido, com poucas exceções, tanto o homem como a mulher, seguindo estas propagandas, estão fadados à mediocridade e à indolência.

por MJ.


textas da primeira edição:

12.02.2007:

- Carnaval e a cidade quase paulistana
Enfim Carnaval! Não posso não lembrar da canção do Pato Fu que dizia assim: “Eu não gosto dos G.R.E.S; Mas em fevereiro; Tenho que suportar os G.R.E.S.; O carnaval; Com seu espírito de festa; Suas cabrochas na avenida; churrasquinho podro; É uma imposição absurda...” Não que não goste de Carnaval, talvez o problema é a não possibilidade de escolha. A cidade fica não tão cheia, e para mim assim melhor, entretanto, as peças teatrais não conseguem competir, e logo não permanecem em cartaz na semana fatídica. A cidade que se manifesta por suas incursões culturais, derrete-se para o Carnaval (também ele uma festa cultural) num tom exagerado que é longe, muito longe mesmo, de ser o Carnaval stricto senso. Não dá pra encarar, não sou forte assim, alias nunca fui forte. Mas, no Carnaval, se perguntarem por mim, diz que fico! Fico na cidade quase paulistana (é assim que eu a sinto no Carnaval). Não quero mais falar, não quero não seguir o que eu quero, na falta de opções, vou seguindo com esse meu texto carregado de “não”. Não é mesmo?

por MJ.


10.02.2007:

- Estudando Física
Minha área de atuação é a humanidades. Mas nada como visitar outra das áreas do saber de vez em quando. Por exemplo, toda semana entro nas Exatas, mais exatamente na Física. Meu estudo versa sobre força, velocidade, espaço percorrido, aceleração. V = V inicial + a.t. Estudo as bolas, que entram em choque com outra e esta adquire a velocidade da anterior, que por sua vez passa ao estado da bola inicial, ou seja, velocidade nula. Meu estudo é mais prático que teórico. Alguns o chamam de sinuca. Mas eu ainda prefiro Física. Alguém se arrisca na Física comigo?

por LRP.