Regina Silveira e o diálogo com a contemporaneidade
Martinho Junior

          As diversas discussões sobre a trajetória da produção artística de Regina Silveira parecem enaltecer de forma produtiva o dialogo entre esta produção e o discurso contemporâneo das artes plásticas.

           Para esse pequeno estudo, tomemos como referência a obra In Absentia (M.D.). Trata-se da projeção de uma enorme sombra exibida na bienal de São Paulo de 1983 e em 1998 no Museu de Arte da Universidade de Texas, para a série Masterpieces.

          É válido ressaltar que durante as últimas décadas, a artista vem explorando a questão da representação em sua obra com grande rigor e com diversas facetas. O inicio se deu com uma carreira promissora de pintora, conforme nos atesta, com ar profético, Carlos Scarinci em um texto de 1965:

“Esta arte séria de Regina Silveira representa um dos resultados mais maduros da criação no Rio Grande do Sul. Ela alcança resultados, que explorados em toda a sua profundidade e riqueza, contribuirão decisivamente para a nossa compreensão do mundo moderno e do drama da consciência em que vivemos”.

          Entretanto, seu lugar de destaque na arte não viria da pintura, a artista abandona essa carreira após uma viagem para a Espanha nesta mesma década de 60. Tal viagem serviu como estopim para que Regina Silveira reestruturasse sua concepção do fazer artístico. De fato, houve um movimento de desconstrução, pois segunda a própria artista, ela teve de reaprender a arte a partir do que tinha visto. Sua produção volta-se então para questões conceituais da obra de arte. Nessa época suas obras são predominantemente geométricas e, em algumas peças, assemelhava-se aos “bichos” de Lygia Clark, porém tratavam-se de madeiras com dobradiças. Talvez nesse pequeno período (do qual muito coisa se perdeu) suas obras sejam puramente estéticas, o que, com efeito, é incomum no conjunto de sua obra.

          A obra de arte tomaria uma nova roupagem na década de 70 para Regina Silveira. Agora dentro de um contexto conceitual e crítico, ela concentraria sua produção na serigrafia. Diversas intervenções em fotografias da mídia impressa. Aqui a artista inicia pesquisas sobre a perspectiva e de maneira crítica conjuga tais pesquisas com essas reproduções. Procurando a não-artisticidade do objeto. Artisticidade essa que voltaria com outra significação em meados da década de 80, quando a artista amplia sua visão à crítica dos códigos de representação e sobre a materialidade na obra de arte.

           Podemos indicar sua dissertação de mestrado Anamorfas de 1980, como uma guinada nessa direção. A partir de desenhos de objetos do cotidiano, a artista os distorce até o limiar da percepção transfigurando-os a outras interpretações. Assim uma simples xícara pode ser “convertida” em uma unha, por exemplo. A utilização de silhuetas anamórficas em forma de sombra se inicia já em 1982, momento em que realizava uma primeira instalação intitulada de In Absentia. Tratava-se da projeção de uma sombra de um cavalete que não estava lá, sua presença era marcada por sua própria ausência. Essa problemática apareceria mais intensamente em sua obra depois da sua tese de doutoramento, Simulacros, de 1984. Não são mais apenas os objetos que são distorcidos ao limiar da percepção, agora, suas sombras também o são. Esticadas, tornam-se sombras paradoxais em que muitas vezes assumem uma função inversa; ao invés de velar elas desvelariam características de um determinado objeto. Inúmeros trabalhos foram concebidos dessa maneira.

           Em In Absentia (M.D.), Regina Silveira coloca uma conotação, ou melhor, retira uma conotação. Vale ressaltar que essa sombra dita aqui poderia figurar entre aspas, pois ela mesma não é uma sombra, é a distorção da silhueta da Roda de Bicicleta pintada no chão e na parede ocupando aproximadamente 350 x 800 cm. Assim como no caso da primeira obra intitulada In Absentia, nos parece que aquelas silhuetas exploradas sobre papel, ganham certa tridimensionalidade ao se utilizarem de um espaço real.

          A presença dos objetos, aqui a Roda de Bicicleta de Marcel Duchamp, é marcada pela sua ausência, nas palavras da própria artista “uma situação insólita, na qual uma sombra projetada existe sem seu parceiro inseparável, o elemento real gerador da projeção”. Sabemos que é A roda de bicicleta de Duchamp exatamente porque ela não está presente, apenas sua sombra a revela. O confronto é direto, a sensação de que algo está faltando, de um vazio, traz o estranhamento. Este estranhamento também ocorreu quando Duchamp levou sua “Roda de bicicleta” em exposição. Nesse caso, ele questionava e dessacralizava o valor do objeto de arte. O “belo”, não estava presente na forma nem no conteúdo, mas era, resgatando Leonardo, cosa mentale. Neste simples gesto, as bases da arte, sua história e mesmo a concepção do que venha a ser um objeto artístico foram extremamente postos em xeque pelas diversas investidas de Duchamp.

          Na instalação de Regina Silveira, o estranhamento se faz pela falta do objeto que tanto causou estranhamento por sua presença no início do século XX. A artista nos indica que o uso das peças de Marcel Duchamp é uma “alusão à parcela ilusionista da obra do artista”, mas que poderiam “ser quaisquer outros objetos, artísticos ou não”. Mas na análise de Teixeira Coelho, são sombras de “uma outra utopia desta arte moderna, a utopia de Duchamp, vê-se a sombra que ela espalhou sobre a arte do século e a sombra sob a qual vive, na penumbra, o homem moderno que poderia ser, ou ter sido, o homem dessa utopia. Utopia invisível”. Nesta análise poderosa, as sombras podem marcar aqui o legado deixado por Duchamp, suas investidas para a arte conceitual, a sombra como metáfora do que se vê hoje na arte contemporânea, mesmo aquele objeto causador de estranhamento não estando presente, sua obra (a sombra dela, por impossibilidade de estar) está presente causando outros estranhamentos na arte hoje.

          Nessas últimas décadas inúmeros ensaios foram dedicados à exploração da crise da representação, que talvez tenha começado justamente com Marcel Duchamp, de um possível estado estanque da arte. O ideal compartilhado era de um esgotamento das possibilidades da arte, que começara a partir do impressionismo, em um caminho sem volta do qual a desmaterialização era iminente. Porém o que, de fato, nos traz a obra de Regina é a superação dessas discussões. Em muitas obras a artista consegue sintetizar essa superação. Quando o objeto, o que seria a própria obra de arte, é marcado pela ausência, como já dito aqui. Marcar a presença pela ausência, como em Lúmen (instalação principal na exposição Claraluz), que embora a fragmentação da clarabóia do Centro Cultural Banco do Brasil seja visível, ela não está lá, são apenas luzes. Assim a artista em sua superação da crise da representação não cria soluções para o suposto problema e apenas o evidencia, o problematiza ainda mais.

          Com isso verifica-se que a arte possivelmente se tornou prepotente ao se perguntar “o que ainda há para ser representado?”. Toda a produção artística de Regina Silveira refaz a pergunta e indica que a arte talvez esteja em seu estado embrionário de representação, em um processo infinito: “O que é representação? Podemos representar?”. É como se a arte de Regina Silveira partisse do pressuposto dessa superação. Não se trata de neo-expressionismo, nem mesmo a Transvanguardia de Achille Bonito Oliva, a arte de Regina Silveira volta-se não ao singular, aos símbolos de uma dada região, mas ao específico e singular em uma obra de arte, nos códigos estruturais de uma obra de arte.

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Referências Bibliográficas:

COELHO NETTO, José Teixeira. Arte e Utopia: Arte de Nenhuma Parte. 2.ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987. Cap. 32, p. 179-186.

JAMESON, Fredric. Pós-modernidade e sociedade de consumo. In Revista Novos Estudos CEBRAP, julho de 1985, p. 16-26.

MORAES, Angélica de. et al. Porque Duchamp? 1.ed. São Paulo: Ed. Itaú Cultural, 1999.

______. Angélica de (Org.). Regina Silveira: Cartografias da sombra. 1.ed. São Paulo: Ed. Edusp, 1995.

SILVEIRA, Regina. Cadernos do BACI. 1.ed. Washington: 1994.

______, Regina. Corredores para abutres. 1.ed. São Paulo: Ed. Ateliê Editorial, 2003.

WOLFGAN, Pfeiffer. “Simulacros”, Museu de Arte Contemporânea do Parque do Ibirapuera. São Paulo, novembro/dezembro de 1984.