Televisão nos anos 50: de eletrodoméstico a elemento vinculador
Fabiana Grieco Cabral de Mello

          A introdução da televisão na sociedade paulistana nos anos 50 foi um processo já muito explorado por estudiosos interessados em mapear os principais acontecimentos ligados ao desenvolvimento deste meio de comunicação no país. Temos acesso aos diversos livros e teses inteiramente dedicados a este tema, desde sua implantação iniciada por Assis Chateaubriand em 49, até o debate sobre a mais nova forma de televisão digital. No entanto, uma abordagem que tem por base a história e extrapola os acontecimentos tais como fatos isolados ao longo do tempo, ainda cabe ser feita. Proponho neste ensaio especial para a revista Conjecturas uma sucinta relação entre os fatos da história e a questão comportamental trazida pela televisão na primeira década de sua implantação.


Chateaubriand na inauguração da primeira emissora de TV da América Latina, 1950.

          Quando consideramos apenas os fatos que marcaram a história da televisão no Brasil, deixamos para trás uma complexa cadeia de acontecimentos. É necessário partir do princípio de que a introdução de um novo meio de comunicação na sociedade não é um fator isolado. Em todo o mundo havia uma movimentação em torno do advento da televisão. Diversos países tinham interesse em implantar toda a estrutura de antenas, cabos de transmissão, estúdios e estabelecer um número de profissionais necessários para o bom desempenho deste meio. Acontece que o Brasil, especificamente a cidade de São Paulo, era um dos poucos locais em que já se via uma grande organização em torno de um meio de comunicação. O bom desempenho e a estrutura do rádio foram fundamentais para o processo de surgimento da TV.

          O início das transmissões ocorreu em 1950, período em que a TV Tupi Difusora de São Paulo foi inaugurada, tornando-se a primeira emissora do Brasil e da América do Sul. Esse é um dos fatores preponderantes para o despontar da cidade como um pólo de comunicação, já que todo um cenário é montado a fim de dar condições para o desenvolvimento desse novo aparato. Desta forma, observamos o primeiro fenômeno relacionado à introdução da televisão em São Paulo, quando os profissionais do rádio que trabalham neste setor desde a década de 30 migram para os estúdios de televisão. O número de profissionais é relativamente pequeno, mas proporcional ao caráter inicial de experimentação.

          Talvez, o segundo aspecto fundamental para a compreensão desse processo seja a programação apresentada naquele período, principalmente a telenovela. Por meio desse caráter de experimentar um novo meio que apresenta uma forma diferente de comunicar, é que surgem os primeiros programas de TV. O que merece maior destaque, considerando a temática a ser trabalhada neste ensaio, é a transmissão da primeira telenovela brasileira chamada “Sua vida me pertence” pela TV Tupi em dezembro de 1951. A telenovela escrita e interpretada por Walter Forster representou um marco histórico, pois, apesar da falta de recursos técnicos que limitaram sua exibição em dois capítulos semanais durante três meses, mostrou o primeiro beijo da televisão com Walter Forster e Vida Alves.

          Começamos a identificar um processo que em muito modificou as estruturas sociais da época e que traz conseqüências até os dias de hoje. A primeira década de implantação da televisão no país contou com uma forma de disseminação que estabeleceu novos padrões sócio-econômicos culturais. A telenovela não foi simplesmente a exibição de uma história dividida em capítulos com personagens que tiveram identificação junto às pessoas, mas representou a chegada de uma nova era da comunicação em que o público tinha interesse de acompanhar o andamento de um determinado programa.

          Para se ter acesso ao conteúdo desse meio que unia som e imagem ao mesmo tempo, era necessário possuir um aparelho que estivesse apto a desempenhar tais funções. Assim, o aparelho televisor surgiu como um aparato que dava suporte a uma nova forma de comunicação que contava com os profissionais preparados, o fôlego do rádio e o investimento dos visionários, como é o caso de Assis Chateaubriand, e das empresas envolvidas no processo de produção. O aparelho televisor foi ganhando status a partir do interesse no acompanhamento de uma programação diferente de tudo que havia sido visto e do empenho em desenvolver um novo setor industrial.

          A televisão surgiu como um eletrodoméstico que além de exercer sua função como meio de comunicação, representava a ascensão social de uma classe. De fato esse raciocínio faz muito sentido se analisarmos que durante a fase elitista, após três anos do início das transmissões, um aparelho chegava a custar 25 mil cruzeiros, quantia equivalente à parcela de entrada de um apartamento na Avenida Ipiranga. O fenômeno de poder ascender socialmente através da posse de um eletrodoméstico transformou a TV em um objeto de desejo de grande parte da população.

          O desejar o aparelho confere uma força de consumo que não cabia aos meios de comunicação, já que os símbolos de diferenciação entre as classes sociais eram, principalmente, o carro e a casa. Passamos a ter dois aspectos sobre o mesmo evento, pois se de um lado está o interesse em possuir o aparelho que possibilita a ascensão social, por outro há o desenvolvimento de toda uma mentalidade que quer consumir os próprios produtos gerados pela televisão.

          Ora, seria impossível agregar valor a um aparelho se por trás dele não estivessem fatores diretamente associados ao conceito da cultura como criação de uma segunda realidade [1] . A televisão era cara, pois havia poucos aparelhos disponíveis no mercado, no início eram apenas 200 televisores [2] . Além disso, de acordo com a publicidade da época, possibilitava uma alta fidelidade de som e imagem que pareciam transportar o público para o próprio estúdio de televisão em que a atração estava sendo elaborada.

          A promessa de ver e ouvir com alto grau de realismo através dos receptores de TV representou a passagem do ouvinte para o tele-espectador. Havia um convite sendo feito pela publicidade da época que garantia a participação do público ao compactuarem com essa nova realidade proposta pela possibilidade de ver além de seu cotidiano. Essa construção entre a produção de aparelhos cada vez mais modernos e a possibilidade do alcance de um mundo novo, formaram a união perfeita para transformar o objeto de desejo em necessidade.

          A televisão deixou de ser tão somente um objeto de desejo e ganhou um caráter de necessidade social, em que o eletrodoméstico nos levaria a conhecer uma realidade outra, que parecia ser até mais importante do que a nossa própria. Por trás deste corpo que se forma em torno à televisão, e do cenário estabelecido com o passar dos anos, está a incorporação de um hábito. Sentar-se todos os dias para acompanhar a transmissão de uma programação é a aquisição de um hábito que impõe ritmo à vida dos telespectadores.

          Em menos de uma década, o eletrodoméstico receptor de TV deu um salto no que se refere à participação no cotidiano das pessoas porque foi, em primeira instância, um objeto de desejo, depois se tornou uma necessidade social e, através de sua programação e apelo junto ao telespectador, se tornou um sincronizador [3] de tempo.

          O que pôde ser visto é que o ato de assistir à televisão foi a incorporação de um hábito que modificou a dinâmica dos ambientes da casa: houve a introdução do aparelho de TV na sala de estar. A partir deste momento, a televisão começa a exercer um papel muito importante dentro dos lares dos brasileiros. De um modo mais específico, podemos dizer que a família paulistana dos anos 50 sofreu um grande impacto sobre sua estrutura, pois foi na cidade de São Paulo que estava localizada a maior parte das lojas de eletrodomésticos e das emissoras.

          Aparentemente, o surgimento e a disseminação dos aparelhos de TV traziam a possibilidade do ponto de encontro da família para desfrutar de sua programação. No entanto, a introdução deste meio de comunicação que propunha momentos de lazer e o estabelecimento do ponto de encontro dos familiares em torno de seu suporte físico, acabou por modificar a estrutura do ritual da comunicação que existia anteriormente.


Clique na imagem para ampliá-la - O Estado de São Paulo, 1956

          Se antes os familiares se encontravam às seis horas da tarde para jantar e posteriormente conversar na sala de estar, depois do advento da televisão o encontro passou a ser em torno dela. Os momentos de lazer, que contavam com a escuta do rádio e da leitura dos folhetins, passaram a contar com a estética dos programas exibidos pela TV. Além disso, a exibição de uma realidade-ficção das telenovelas e dos programas em geral, juntamente com a publicidade, divulgou uma outra escala de valores.

          Ao longo da década de 50, e principalmente nos anos 60, a família começa a se deparar com uma situação nova dentro de seus lares, de acordo com a mudança do ritual da comunicação, e fora deles, com a apresentação de diferentes valores sociais que eram apresentados pela TV. Esse complexo jogo entre a esfera familiar e a televisão é um grande emaranhado de relações que ora pendem para a ampliação da capacidade comunicativa de seus membros, ora se vêem arruinadas pela incomunicação gerada por tal convivência.



[1] Utilização do conceito de segunda realidade elaborado pelo professor e cientista político Ivan Bystrina.

[2] Dado encontrado no livro História da televisão brasileira – Uma visão econômica, social e política, de Sérgio Mattos.

[3] A idéia de que a mídia “estabelece uma pontuação própria – sincronizadora – ao impingir um ritmo à vida representada” é da professora Malena Segura Contrera e está no livro O mito na mídia: a presença de conteúdos arcaicos nos meios de comunicação.