Entrevista com Daniel Galera
Daniel Galera

Segundo Lucas Rodrigues Pires (veja o texto Resignação e redenção no universo de Galera nesta mesma edição), a obra de Daniel Galera tem pontos de encontro com Carlos Heitor Cony e também Chico Buarque, isso devido ao modo com que as temáticas são tratadas. O autor que lançou seu terceiro livro (e primeiro romance), Mãos de Cavalo pela Companhia das Letras recentemente, vê seu nome ganhar notoriedade e respeito nos debates literários. Seu livro Até o dia em que o cão morreu foi adaptado para o cinema, dirigido por Beto Brant e tem lançamento previsto para junho (em São Paulo).

Abaixo, em uma entrevista cedida à Conjecturas, o autor fala, entre outros assuntos, sobre literatura, Livros do Mal (selo pelo qual lançou seus dois primeiros livros) e reconhecimento.


Conjecturas - Ao mesmo tempo em que percebemos uma evolução literária, há uma perda substancial de ousadia em sua obra. O Galera de Dentes Guardados é menos comportado do que o de Mãos de Cavalo?

Daniel Galera - Acho que os contos que escrevi anos atrás são mais arriscados porque são experiências, minhas primeiras tentativas de produzir ficção. Mas eu não acho que meu último livro seja mais comportado que o primeiro. Ele é mais calculado, tem mais rigor formal, isso sim. Não entendo bem o que seria essa "perda de ousadia". Se esclarecer melhor, posso tentar comentar.

Con. - E, para você, o que mais mudou neste percurso literário?

D.G. - Pouca coisa mudou do meu ponto de vista, fora a exposição um pouco maior que meu trabalho e minha pessoa têm hoje em comparação a 2001, quando publiquei o Dentes Guardados. A exposição do trabalho me alegra, a da pessoa me incomoda um pouco. Na hora de escrever, nem uma coisa nem outra influi.

Con. - A composição de Mãos de Cavalo assemelha-se a contos e, na medida em que o romance avança, tais contos são encadeados. Você acredita que esta literatura esteja posicionada entre o conto e o romance?

D.G. - Na minha opinião, o livro é um romance e foi pensado dessa forma. Ao mesmo tempo, tentei aplicar algumas características do conto em cada capítulo. Queria que cada um tivesse um pequeno subtexto próprio e uma tensão de narrativa curta. Tive como modelo Winesburg Ohio, de Sherwood Anderson, que é um livro de contos encadeados de tal forma que não é absurdo encará-lo como um romance. Mas inverti essa lógica.

Con. - Assim como no conto Amor Perfeito, a literatura perfeita é aquela em que o autor escreve o que seu público espera?

D.G. - Não sei o que é uma literatura perfeita, supondo que tal coisa exista, mas com certeza não é isso. Até a literatura mais poderosa não passa de uma tentativa.

Con. - Em Manual para atropelar cachorros, o personagem atropela cães, mas o cão caolho lhe gera arrependimento e compaixão. Mas morre. Até o dia em que o cão morreu, de certa forma, é uma continuação daquela "redenção" do sentimento do personagem?

D.G. - Não vejo conexão entre o conto e a novela, exceto pelo fato de que vira-latas sempre me fascinaram. Eles surgem na minha imaginação como símbolos de coisas que às vezes nem eu mesmo sei o que são. Para o personagem do conto, os cães não significam nada. Já em Até o dia em que o cão morreu, o cachorro é objeto do único vínculo possível para o protagonista naquele momento de sua vida. Isso vai mudando ao longo da história, e quando o cachorro morre, de certa forma é como se ele não fosse mais necessário, ou como se sacrificasse pelo dono.

Con. - Livos do Mal era um grupo com ideal literário ou foi uma manobra para edições independentes?

D.G. - Nínguem faz cultura independente sem um ideal qualquer. A Livros do Mal foi fruto do nosso entusiasmo pela literatura e pelos novos autores que estavam mostrando a cara na internet numa época em que pouca gente dava atenção a isso.

Con. - Na sua obra, o conto seria um espaço maior do "descompromisso" enquanto o romance um espaço mais próximo da "seriedade"?

D.G. - Não vejo assim. Comecei com contos e, apesar de ter aproveitado a brevidade do gênero para experimentar à vontade, sempre os levei muito a sério. Depois fui brincar com a narrativa longa e ela me exigiu um pouco mais de planejamento e rigor formal, mas o nível de seriedade foi o mesmo. Minha obra é curta, então acho difícil esquematizar as coisas dessa forma. Quero voltar a escrever contos um dia, e ainda não faço a mínima idéia de como serão.

Con. - Você percebe que Dentes Guardados aproxima mais de uma estética e temática da cultura de massa – e aqui falamos da força do livro em nos instigar com imagens surreais, fortes e no aspecto rápido, de consumo rápido, próprio do cinema e da TV – enquanto em Mãos de Cavalo há um trabalho maior da linguagem e de reflexão, mais voltado ao universo literário?

D.G. - Concordo que o Mãos de Cavalo tem linguagem e reflexões mais trabalhadas, mas não acho que seja mais voltado ao universo literário - é uma história que tento apresentar aos leitores de maneira envolvente, tentativa idêntica às que guiaram os contos de Dentes Guardados ou a breve narrativa longa de Até o dia em que o cão morreu. O conto é um gênero mais impactante por natureza, mas não faz sentido dizer que ele se aproxima mais da cultura de massa. Basta olhar as listas de mais vendidos. Contra todos os prognósticos, o romance ainda é o gênero literário mais consumido, disparado.

      

Con. - A mão guia o guidom de uma bicicleta, o volante de um automóvel e também os bisturis de um cirurgião plástico. As mãos "armadas" são elementos centrais em Mãos de Cavalo. Este "armamento" é uma espécie de esconderijo que priva o protagonista de um contato direto com o real?

D.G. - Hermano, o protagonista de Mãos de Cavalo, é dividido em dois, como todos nós: há uma metade real, corporal, inegável, e outra metade heróica, ou que pelo menos aponta para modelos de heroísmo com os quais o personagem não consegue lidar de forma satisfatória, e daí vem seu principal conflito.

Con. - "Assim como ele [o cão], eu só queria me adaptar à civilização na medida em que isso era necessário à minha sobrevivência", vc escreve ao final de Até o Dia em que o Cão Morreu, quando o protagonista volta pra casa. Esse personagem está praticamente à deriva, solto e deslocado na sociedade atual. Dentro do esquema da competitividade contemporânea, sem emprego fixo e vida cotidiana, ele é o que podemos chamar de derrotado. Ao final do livro, a volta pra casa dos pais adquire esse sentido de derrota. Sua vida com Marcela e o cão é um rito de passagem para uma vida adulta, à "sua adaptação à civilização". Seriam a derrota e a resignação elementos primordiais da sua literatura?

D.G. - São elementos importantes, sim, embora "primordiais" me pareça exagerado. Para o narrador de Até o dia em que o cão morreu, o deslocamento e o isolamento não são uma derrota, são uma escolha que trará a felicidade. Claro que essa convicção do personagem logo desmorona, e esse é um dos temas do livro. Para Hermano, em Mãos de Cavalo, a resignação adquire um outro sentido. Ele escolhe um heroísmo mundano em detrimento do heroísmo turbulento e violento que o fascina de verdade. Mesmo alcançando seus objetivos e se saindo vitorioso, ele descobre que a felicidade está longe de chegar. A história o acompanha nesses dois momentos de crise: primeiro a decisão de como quer viver sua vida, depois a constatação de que, mesmo tendo chegado lá, o tumulto da existência está longe de ser atenuado.