Conjecturas
- Ao mesmo tempo em que percebemos uma evolução
literária, há uma perda substancial de ousadia
em sua obra. O Galera de Dentes Guardados é
menos comportado do que o de Mãos de Cavalo?
Daniel Galera
- Acho que os contos que escrevi anos atrás são
mais arriscados porque são experiências, minhas
primeiras tentativas de produzir ficção. Mas eu
não acho que meu último livro seja mais comportado
que o primeiro. Ele é mais calculado, tem mais rigor
formal, isso sim. Não entendo bem o que seria essa "perda
de ousadia". Se esclarecer melhor, posso tentar comentar.
Con. - E,
para você, o que mais mudou neste percurso literário?
D.G. - Pouca
coisa mudou do meu ponto de vista, fora a exposição
um pouco maior que meu trabalho e minha pessoa têm hoje
em comparação a 2001, quando publiquei o Dentes
Guardados. A exposição do trabalho me alegra,
a da pessoa me incomoda um pouco. Na hora de escrever, nem uma
coisa nem outra influi.
Con. - A
composição de Mãos de Cavalo assemelha-se
a contos e, na medida em que o romance avança, tais contos
são encadeados. Você acredita que esta literatura
esteja posicionada entre o conto e o romance?
D.G. - Na
minha opinião, o livro é um romance e foi pensado
dessa forma. Ao mesmo tempo, tentei aplicar algumas características
do conto em cada capítulo. Queria que cada um tivesse
um pequeno subtexto próprio e uma tensão de narrativa
curta. Tive como modelo Winesburg Ohio, de Sherwood
Anderson, que é um livro de contos encadeados de tal
forma que não é absurdo encará-lo como
um romance. Mas inverti essa lógica.
Con. - Assim
como no conto Amor Perfeito, a literatura perfeita
é aquela em que o autor escreve o que seu público
espera?
D.G. - Não
sei o que é uma literatura perfeita, supondo que tal
coisa exista, mas com certeza não é isso. Até
a literatura mais poderosa não passa de uma tentativa.
Con. - Em
Manual para atropelar cachorros, o personagem atropela cães,
mas o cão caolho lhe gera arrependimento e compaixão.
Mas morre. Até o dia em que o cão morreu,
de certa forma, é uma continuação daquela
"redenção" do sentimento do personagem?
D.G. - Não
vejo conexão entre o conto e a novela, exceto pelo fato
de que vira-latas sempre me fascinaram. Eles surgem na minha
imaginação como símbolos de coisas que
às vezes nem eu mesmo sei o que são. Para o personagem
do conto, os cães não significam nada. Já
em Até o dia em que o cão morreu, o cachorro
é objeto do único vínculo possível
para o protagonista naquele momento de sua vida. Isso vai mudando
ao longo da história, e quando o cachorro morre, de certa
forma é como se ele não fosse mais necessário,
ou como se sacrificasse pelo dono.

Con. - Livos
do Mal era um grupo com ideal literário ou foi uma
manobra para edições independentes?
D.G. - Nínguem
faz cultura independente sem um ideal qualquer. A Livros
do Mal foi fruto do nosso entusiasmo pela literatura e
pelos novos autores que estavam mostrando a cara na internet
numa época em que pouca gente dava atenção
a isso.
Con. - Na
sua obra, o conto seria um espaço maior do "descompromisso"
enquanto o romance um espaço mais próximo da "seriedade"?
D.G. - Não
vejo assim. Comecei com contos e, apesar de ter aproveitado
a brevidade do gênero para experimentar à vontade,
sempre os levei muito a sério. Depois fui brincar com
a narrativa longa e ela me exigiu um pouco mais de planejamento
e rigor formal, mas o nível de seriedade foi o mesmo.
Minha obra é curta, então acho difícil
esquematizar as coisas dessa forma. Quero voltar a escrever
contos um dia, e ainda não faço a mínima
idéia de como serão.
Con. - Você
percebe que Dentes Guardados aproxima mais de uma estética
e temática da cultura de massa – e aqui falamos
da força do livro em nos instigar com imagens surreais,
fortes e no aspecto rápido, de consumo rápido,
próprio do cinema e da TV – enquanto em Mãos
de Cavalo há um trabalho maior da linguagem e de
reflexão, mais voltado ao universo literário?
D.G. - Concordo
que o Mãos de Cavalo tem linguagem e reflexões
mais trabalhadas, mas não acho que seja mais voltado
ao universo literário - é uma história
que tento apresentar aos leitores de maneira envolvente, tentativa
idêntica às que guiaram os contos de Dentes
Guardados ou a breve narrativa longa de Até
o dia em que o cão morreu. O conto é um gênero
mais impactante por natureza, mas não faz sentido dizer
que ele se aproxima mais da cultura de massa. Basta olhar as
listas de mais vendidos. Contra todos os prognósticos,
o romance ainda é o gênero literário mais
consumido, disparado.

Con. - A
mão guia o guidom de uma bicicleta, o volante de um automóvel
e também os bisturis de um cirurgião plástico.
As mãos "armadas" são elementos centrais
em Mãos de Cavalo. Este "armamento"
é uma espécie de esconderijo que priva o protagonista
de um contato direto com o real?
D.G. - Hermano,
o protagonista de Mãos de Cavalo, é dividido
em dois, como todos nós: há uma metade real, corporal,
inegável, e outra metade heróica, ou que pelo
menos aponta para modelos de heroísmo com os quais o
personagem não consegue lidar de forma satisfatória,
e daí vem seu principal conflito.
Con. - "Assim
como ele [o cão], eu só queria me adaptar à
civilização na medida em que isso era necessário
à minha sobrevivência", vc escreve ao final
de Até o Dia em que o Cão Morreu, quando
o protagonista volta pra casa. Esse personagem está praticamente
à deriva, solto e deslocado na sociedade atual. Dentro
do esquema da competitividade contemporânea, sem emprego
fixo e vida cotidiana, ele é o que podemos chamar de
derrotado. Ao final do livro, a volta pra casa dos pais adquire
esse sentido de derrota. Sua vida com Marcela e o cão
é um rito de passagem para uma vida adulta, à
"sua adaptação à civilização".
Seriam a derrota e a resignação elementos primordiais
da sua literatura?
D.G. - São
elementos importantes, sim, embora "primordiais" me
pareça exagerado. Para o narrador de Até o
dia em que o cão morreu, o deslocamento e o isolamento
não são uma derrota, são uma escolha que
trará a felicidade. Claro que essa convicção
do personagem logo desmorona, e esse é um dos temas do
livro. Para Hermano, em Mãos de Cavalo, a resignação
adquire um outro sentido. Ele escolhe um heroísmo mundano
em detrimento do heroísmo turbulento e violento que o
fascina de verdade. Mesmo alcançando seus objetivos e
se saindo vitorioso, ele descobre que a felicidade está
longe de chegar. A história o acompanha nesses dois momentos
de crise: primeiro a decisão de como quer viver sua vida,
depois a constatação de que, mesmo tendo chegado
lá, o tumulto da existência está longe de
ser atenuado.