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Resignação
e redenção no universo de Galera
Lucas
Rodrigues Pires
Meu
primeiro contato com Daniel Galera foi através de uma
nota na revista CartaCapital falando sobre a editora
Livros do Mal, união de alguns “moleques”
gaúchos aspirantes a escritor. Em viagem ao Sul do país,
acabei por comprar alguns livros dessa turma. O primeiro que
li foi o do Galera, chamado Dentes Guardados. Acabou
sendo o único que me chamou mais a atenção.
Dentes
Guardados é um pequeno livro de contos, contos notadamente
apressados, de linguagem jovem, cheio de gírias. Galera
flerta com o bizarro, com o estranho, em histórias como
“A escrava branca”, “Manual para atropelar
cachorros” e o surreal “Subconsciente”. Em
razão da pequena tiragem e do relativo sucesso, Dentes
virou artigo raro (minha edição deve valer uns
bons trocados atualmente), obra inicial de um escritor que surgiu
no cenário nacional em seu terceiro livro, o primeiro
romance, Mãos de Cavalo, editado pela Cia das
Letras. Certamente ele terá maior visibilidade com o
lançamento do filme Cão Sem Dono, de
Beto Brant, uma adaptação de sua novela Até
o Dia em que o Cão Morreu. Não por acaso,
relançado recentemente pela Cia das Letras (mas a edição
da Livros do Mal continua imbatível).

O
forte de Galera nos contos guardados é a alta dose de
criatividade, que o aproxima de situações dignas
do cinema de Buñuel. Fruto de uma juventude bem vivida
em Porto Alegre e Caxias do Sul, Galera extrapola nos temas
recorrentes da indústria de massa que trabalham com o
instinto humano animal – o sexo, a juventude porra-louca,
as relações sociais fragmentadas, o desejo, a
mutilação. Tudo em textos curtos, cheio de diálogos.
Em poucas linhas Galera expunha um conflito maior com a naturalidade
que só os jovens possuem. Vejam “Intimidade”,
em que uma discussão sobre o uso da escova de dentes
do parceiro é a brecha para uma relação
sexual entremeada por uma narrativa de alimentação
de um casal de tartarugas. Em seguida, uma saída ao cinema,
desencontro e o final com a compra de 28 escovas de dente. O
rancor de uma discussão que explode, de forma irônica,
ao final.
Ao
mesmo tempo que trabalha com assuntos mais “populares”,
se é que podemos chamar assim o sexo e o sangue, o texto
de Galera indica uma preocupação um tanto filosófica.
O conteúdo está ali não para o choque,
ou para criar um elemento de atração ou repulsa
meramente ilustrativo. Tais contos abordam tais questões
porque estão de fato presentes talvez em seu cotidiano
de jovem, em seu cenário de vida e que, para quem começa
a escrever, nada mais desafiador e excitante do que tratar dessa
realidade. Ainda mais quando se escreve para a internet (os
contos de Dentes foram publicados na rede virtual antes
de virar livro) e se sabe do tanto que se tem ali em termos
de texto e de concorrência. Não que Galera tenha
escrito isso visando atenção e público,
a ação do verdadeiro autor vai além da
de dar o que o público acha que quer (eis o erro da televisão
e mesmo da imprensa, dão ao público o que acreditam
ou fazem crer que é o que ele busca). Torna-se um círculo
vicioso que apenas alimenta o medíocre.

Galera
pode trabalhar com tais temas, mas transforma o medíocre
em individuação. Coloca seu estilo naquilo e daí
a força de seus contos. O mesmo vai acontecer com sua
obra seguinte, o intermédio entre o conto e o romance,
a novela Até o Dia em que o Cão Morreu.
Neste, a presença do sexo ainda transborda, mas de uma
maneira muito mais comportada, sem a crueza (ousadia, quem sabe?)
da de Dentes. O protagonista é um Eu como o
próprio autor. Situada em Porto Alegre, dividido entre
biscates que lhe rendem algum dinheiro, a mesada dos pais e
a vida desregrada marcada pelo sexo e pelo álcool. Sua
relação com o mundo acaba por se resumir a Marcela,
uma namorada com quem mantém uma relação
um tanto estranha, muito baseada no sexo, e a um cachorro que
ele encontra certo dia na rua e resolve acolhê-lo.
É
no desenvolvimento dessas relações que temos a
composição de um personagem errante. Ao mesmo
tempo em que vive uma relação espelhar com o animal,
destoa dos paradigmas da sociedade em uma relação
amorosa sem muitos vínculos, de um cotidiano marcado
justamente pela falta de cotidiano, a ociosidade de uma geração
num país em que o emprego se extingue, assim como as
relações sociais vão se esvaindo. Dentro
do cotidiano de certa juventude, o único vínculo
possível é com um cão.
A
literatura de Galera, até este Até o Dia em
que o Cão Morreu, lembra muito a de Carlos Heitor
Cony, pela secura das palavras, o estilo sóbrio e econômico.
Em Galera, creio este estilo advir da internet, que pede certa
concisão devido ao suporte eletrônico. Mas não
podemos negar que ele bebe em fontes mais antigas, como o próprio
Cony (em especial seus romances iniciais, como Pilatos
e principalmente O Ventre). Mas talvez a maior influência
de Galera seja a sua própria vida, a sua observação
dessa neurose que é viver num centro urbano e ter de
sobreviver a ele do jeito que for possível. Os personagens
de Galera estão à deriva, não sabendo onde
aportar e nem se querem aportar.
A
mesma característica apresenta-se no livro seguinte de
Galera, Mãos de Cavalo. Ali o autor desenvolve
uma história em dois tempos, em capítulos que
surgem e que não fazemos imediatamente a ligação
entre eles. O romance abre com um acidente de bicicleta e em
seguida com um cirurgião plástico que resolve
escalar uma montanha não explorada para em seguida tratar
de uma quase briga num campinho de futebol. Só adiante
saberemos que Hermano é o protagonista das três
histórias e que aquelas situações-traumas
de infância e juventude irão aflorar na fase adulta,
na relação com a esposa, com o medo e com o passado.
Mesmo
sendo um personagem menos marginal, menos isolado do mundo,
Hermano carrega em si certa angústia presente no Eu de
Até o Dia em que o Cão Morreu, que por
sua vez se aproxima do Eu de Chico Buarque em Estorvo.
Mais significativamente os dois últimos estão
a exprimir o vazio existencial do homem contemporâneo,
que, no caso de Chico, declinou para a neurose obsessiva, enquanto
em Galera recai sobre momentos vãos de prazer e de ociosidade.
Tudo sem muito significado e ressonância em sua consciência,
tanto que o Eu de Galera prefere a convivência com o cachorro,
que o entende mais que qualquer ser humano que se relacione
com ele. Aí reside a diferença para o Eu de Chico,
que não encontra refúgio em nada e ninguém,
apenas na memória, na lembrança de uma infância
que não mais pode existir, sendo assim, portanto, uma
utopia.
Essa
presença da infância, do trauma interiorizado que
ali permanece com suas marcas e que esperam o momento certo
para desabrochar está também no protagonista de
Mãos de Cavalo. Esse estopim está ligado
à frustração e decepção com
a vida que ele escolheu. As escolhas parecem sempre ser as erradas
– e são tomadas por diversas razões –
e Hermano vai se ver na situação de “consertar”
erros do passado, de sua infância/adolescência,
de se curar daquele trauma que carregava dentro de si.

Se
em Estorvo a infância, o tempo passado, se impõe
como utópico, em Mãos de Cavalo o passado
se coloca como origem do trauma mas também como o local/tempo
de sua redenção/superação. É
assim que Hermano acaba por voltar ao bairro em que viveu sua
juventude, a Esplanada, para se ver na mesma situação
de 15 anos antes, quando, pela covardia e medo, acabou por deixar
o amigo Bonobo morrer. Desta vez o destino lhe prepara a possibilidade
de se redimir, de salvar um “novo Bonobo”, e ele
irá transpor a barreira que separa o covarde do herói.
Talvez herói não seja aquele que vence um combate
ou salva o país, mas sim aquele que consegue romper as
barreiras internas do medo e da indecisão. Ali Hermano
pôde finalmente “voltar no tempo”, como ele
sempre desejou, e fazer algo por aquele garoto/amigo que ele
queria ser igual.
Assim,
ao contrário do personagem de Até o Dia,
o de Mãos de Cavalo encontra sua redenção,
sua catarse final, sua forma de extrapolação de
um sentimento que o corroía por dentro. A volta para
a casa dos pais ao fim de Até o Dia em que o Cão
Morreu acaba com a utopia do personagem de ter uma vida
isolada do mundo, ele deixa o apartamento alugado que representava
sua independência e desajuste para com o mundo. O cão
segue junto dele e, em seu velho quarto novamente, com o animal
a seu lado, ele pensa e reflete sobre sua “derrota”:
“Era a companhia ideal pra mim. Total ausência de
palavras. Apenas alguns olhares cúmplices, e mais nada.
Assim como ele, eu só queria me adaptar à civilização
na medida em que isso era necessário à minha sobrevivência”.
Para
o estopim do personagem, a morte do cão na calçada
é a própria morte daquele Eu que tentou ser diferente
e não conseguiu. A relação espelhar é
notória na descrição da morte do cachorro.
Voltou ao estado inicial, ao emprego tradicional, ao que todo
pai e mãe esperam de seus filhos. Até o dia em
que o cão morreu ele viveu o vazio de sua geração,
mas nada indica que esse vazio cessou quando ele deixou aquela
vida desregrada. Se no mundo de Chico a morte é o estopim
de um vazio, no universo de Galera (no de Cão) esse estopim
é a resignação e o acomodamento. Qual delas
seria o pior?
Acomodamento
e resignação também foram construções
em torno de Hermano por 15 anos. Depois da morte do amigo, um
rito de passagem entre a vida boa da juventude para um exílio
auto-imposto, a fuga para os estudos, para os exercícios
físicos, a vida social deixada de lado como um castigo
para a sua covardia. Como a pedra de Sísifo que teima
de rolar colina abaixo, aquele trauma sempre foi recalcado,
escondido dentro de si para esconder quem de fato ele era, mas
eis que a história se repete e são poucos os que
têm uma segunda chance para “consertar” algo
do passado. Ali Hermano pode libertar-se de seu passado que
o oprimia psicologicamente, pode retomar sua vida do ponto de
onde ela parou, quando viu o amigo ser espancado e não
fazer nada. A partir dali não teria mais por que fugir.
Acertara as contas com seu passado, com Bonobo, consigo mesmo
e com a vida. Por que continuar fugindo? De Até o
Dia em que o Cão Morreu a Mãos de Cavalo,
eis uma transposição da frustração
para a esperança. O elemento trágico presente
e vivo na memória de Hermano acaba por ser curado. O
trauma que o cutucava toda noite foi curado.
Em
pouco tempo Daniel Galera passou a acreditar e dar chance a
seus personagens, mas de uma forma não de final feliz.
Em Mãos, o trágico se entrelaça
com o heróico do cotidiano – e a construção
da narrativa, em dois tempos distintos da vida de Hermano, trabalha
paralelamente com o trágico e o heróico, com o
momento de construção do trauma e o de sua redenção.
Ao final, temos a união de ambos num desfecho não
impactante porque “abortado” do famoso “e
aí, que vem depois?”. Mas está aí
mesmo a força do desfecho, dois ritos de transformação
da pequena alma de Hermano – numa delas como o covarde
que se tranca dentro de si mesmo para não encarar sua
própria vergonha, noutra como o herói, como o
indivíduo que volta no tempo (para seu bairro de infância)
e tem a chance de fazer desabrochar, e curar, uma memória
traumática. Ali ele pode se transformar no que sempre
quis, ser o herói dos filmes e quadrinhos, o Mel Gibson
de Mad Max, ali, diante do grupo de moleques que espancavam
outro, Hermano se transformou no Bonobo, naquele que batia em
muitos outros ao mesmo tempo, naquele protótipo que ele
sempre sonhara em ser. Mas, ao mesmo tempo em que se transformava
em Bonobo, ratificava sua identidade como Hermano. Um novo Hermano
nasceu ali, desta vez livre da sombra de Bonobo, da morte, do
trauma. Um Hermano livre para voar e sentir, e se entregar à
vida.
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