O
Grafite
Martinho Junior
Ok,
eu confesso! Sempre fui um tipo considerado esquisito, eu mesmo
me considero um. Quando adolescente, por exemplo, adorava flagrar
brigas de casais, me enchia de alegria ver e principalmente
escutar as mazelas alheias. De todos os tipos. Orgulho ferido:
“então fique com aquela vaca!”; a fadiga
do cotidiano: “cansei, já te disse, não
dá mais, acabou!”; e mesmo esparsas: “já
falei que o seu mascar chiclete me incomoda profundamente?”.
Especialmente se tais brigas acontecessem dentro dos ônibus;
é sempre uma situação estranha, pois todos
estão evidentemente olhando e paradoxalmente sem centrar
os olhos no casal, tentando respeitar algo íntimo, mesmo
que tenham tornado o evento público. Foi assim que conheci
minha ex-mulher. Como de hábito peguei o ônibus
às 7:30hs para ir ao colégio (naquela época
freqüentava o primeiro ano do ensino médio). O trânsito
era sempre horrível e quando chovia, como era o caso,
este transporte coletivo transformava-se em algo indizível,
em silêncio. Mas, vejam que, no vazio desse silêncio
está tudo aquilo que não disse. Por vezes sentia
falta de ar, creio que eram coisas da minha cabeça, já
que a falta de ar, a impaciência e, sobretudo a raiva
vinham quando eu olhava para a janela fechada e via apenas um
vidro embaçado.
Sim, foi neste clima azedo que a conheci. Na verdade, nesta
época olhava indiscriminadamente para todas as mulheres
das quais encontrava algum vestígio de beleza. Um olhar
todo capcioso e por vezes indecente. Mas quando a vi sabia que
era diferente. Não, sem mentiras, já basta os
últimos anos; eu a olhei do mesmo modo que olhei para
minha amiga que sentava ao lado dela, mas isso não vem
ao caso. Mentira também, o ciúme dela não
me deixava nem mais falar “oi!” a esta amiga, o
que me animava ainda mais para fazê-lo. Entretanto, voltemos
à linearidade.

Bem neste dia, quando o ônibus estava já na Av.
Matarazzo (ou seja, no fim do percurso, já que desceria
na frente do Metrô Marechal Deodoro) começo a escutar
gritos, verdadeiros gritos, tão reais que pareciam teatrais.
Para minha infelicidade, dessa vez não era briga de nenhum
casal e sim algum descontrolado que se utilizou da super lotação
para agraciar-se com uma morena. Inclusive, amiga de um amigo.
Ficamos todos consternados, mas é claro que ficamos do
lado dela, afinal de contas não era a primeira vez que
tal situação acontecia naquela mesma linha, naquela
mesma hora. Mas, enquanto ela, esta amiga de um amigo, contava
alto para todo o ônibus ouvir (certamente para o sujeito
se sentir um lixo execrável e pular fora na próxima
parada) eu trocava olhares compromissados com minha futura ex-esposa.
Logo, me aproximei: “Que coisa, né?”. Até
hoje gasto tempo me perguntando como fui capaz de iniciar uma
conversa com um “que coisa, né?”, certamente
não podia dar certo. Com um pontapé inicial destes,
não tinha muito que fazer.
Para minha surpresa a resposta veio doce:
Terrível,
não sabia do que se tratava, fiquei uns bons anos para
saber que aquilo era um trecho de uma poesia, e outros tantos
para descobrir, quase por acaso (quando folheava um livro sem
compromisso na casa de um amigo) que se tratava de Rilke. “Rilke?,
prazer”, pensei ao descobrir de quem se tratava, mais
uma novidade. Na capa tinha uma data “1875-1926”,
provavelmente o tempo de vida do referido, 51 anos, portanto.
Acredito que vá viver mais do que eu. Entretanto, comecei
a refletir que mesmo ela não sabia direito de quem se
tratava, percebi isso tempos depois, ela tinha essa abominável
mania de citação. Ainda acho que os anos de convivência
me contaminaram também, pois para tentar ser igual à
pessoa amada tudo é válido, até imitá-la,
assumindo a si as coisas que ela gosta.
Naquele ônibus, não trocamos nada mais, eu, idiota
e infeliz nas escolhas das palavras fiquei restrito às
minhas magistrais “que coisa, né?”. Mas,
por coincidência ou sina, descemos no mesmo ponto, ambos
em frente ao Metrô. Descemos praticamente colados, e já
me direcionava para me despedir:
“Veja!”, com espanto ela apontava para a transversal.
“Que lindo grafite!”. Faço um apelo neste
momento: Acreditem em mim, foi a melhor coisa de nosso relacionamento,
estou certo disso. Descobrir aquele desenho foi algo que me
enche de alegria – isso até hoje. É uma
pena, lastimável que, quando o grafite me vem à
cabeça, vem junto com todo meu relacionamento. Eu costumava
ir ao centro da cidade aos sábados, e na volta sempre
andando, passava por debaixo do minhocão. Então,
eu conhecia (ao menos acreditava) todos aqueles desenhos. Mas
a verdade é que, do lado oposto eu só passava
de ônibus, de modo que aquele desenho me era uma grande
novidade. Este local, sempre me foi de passagem, nunca fui nele,
apenas passei por ele. Atravessamos a rua, ficamos bem na frente
do desenho, em uma das vigas que sustenta o elevado. Era um
desenho demasiadamente simples, com traços “primitivistas”.
“Me lembra até Basquiat”. Ela me disse baixo,
perto do ouvido. “É, lembra um pouco”, repliquei,
mesmo não sabendo o que era aquilo.
O desenho, para ser bem sincero, não me falava nada daquilo
de Basquiat, arte moderna, Warhol, e todas aquelas coisas que
ouvia pacientemente dela. Pelo contrário, só via
ali a cidade viva, a cidade pulsante com aquelas cicatrizes
de concreto. Achava aquele desenho tão íntimo
do elevado que não acharia estranho se me afirmassem
que aquele desenho tivesse, como num show de ilusionismo, aparecido
no concreto, como se tivesse sido realizado pelo próprio
minhocão.
Depois de uns 5 minutos, voltamos a atravessar a rua. Eu iria
ao metrô e ela subiria a rua ao lado. Despedi-me, com
vontade de beijá-la, mas tinha sido vencido pela timidez,
e dei-lhe apenas um pequeno abraço com um beijo raquítico
em sua maça madura e rosada. Essa coisa de timidez é
interessante, se eu fosse um acadêmico, ou algo parecido,
defenderia uma tese de psicologia sobre isto. A primeira coisa
a ser feita seria analisar por que sempre pensamos que temos
coragem e apenas na hora, na bendita hora de realizar a situação,
a timidez avança de modo descomunal, implodindo o plano
inicial. O jeito era aceitar a situação e tomar
o metrô.
No caminho de volta, na parte da tarde, parei por mais alguns
segundos na frente do desenho, e voltei para casa. Ao chegar
em casa, percebo que a imagem, uma reprodução
de uma fotografia, que tínhamos na sala era do minhocão.
Até este momento nada havia nela que me chamasse atenção,
tanto que nunca tinha sequer me perguntado de onde era aquelas
coisas estranhas, vigas, fortes luzes e rastros de luzes vermelhas,
provavelmente de veículos. Minha mãe tinha me
dito que ela achara a foto já emoldurada na casa de um
tio meu, achou bonita e resolveu colocá-la em nossa sala.
Aproximou-se da reprodução, lendo os pequenos
caracteres na parte inferior direita e exclamou com um sorriso
em minha direção: “É isso mesmo!
Elevado Costa e Silva, o minhocão visto por baixo”.
Embora tenha reconhecido, achei a foto extremamente falsa, não
tinha nada de pulsante, vivo, como senti naquele mesmo dia.
Sei que depois desse dia, tive de esperar uma semana e meia,
para poder rever minha futura ex-esposa. Ainda bem que era em
um aniversário, com mais gente, todos rindo e felizes,
seria uma boa oportunidade e não sabia se teria outra
do mesmo calibre por um bom tempo.
Deste ponto de vista realmente foi uma oportunidade reluzente.
Chegando lá, não demorou muito para trocarmos
algumas palavras, poucas. Lembro que olhei com cuidado para
o pescoço bem desenhado (quase um Modigliani, ela diria
se estivesse narrando), quando me dei conta ela também
me olhava, portanto de três a cinco segundos depois estávamos
nos beijando. Parece, analisando hoje, que foi uma iniqüidade
por parte de minha timidez, que sempre me acompanhava, ter me
abandonado, não a perdôo, jamais.
Depois disso só restou a saudade (um exagero, é
verdade. Mas, como a ferida está aberta e ainda posso
sentir o seu latejo constante, me sinto no direito de cometer
tal capricho). Saudade daquela manhã de puras descobertas,
daquele desenho, metonímia da cidade, dela mesma, que
naquele momento me figurava apenas como imagem, e, portanto
era digna das venerações. Ela devia ter continuado,
ao menos para mim, uma imagem, sempre uma presença de
uma ausência, intocável, distante e, desta forma,
fora do meu alcance.
O problema não foram as brigas constantes que assolavam
a relação (mentira, também foram as brigas
sim, tanto que tornei-me um sujeito irascível demais),
e sim, seguramente, as citações intermináveis,
diárias, constantes e enfadonhas. Certa vez, numa reunião
de amigos em casa (depois, muito tempo depois, quando já
morávamos juntos) começamos a falar de família.
Um tanto levando na brincadeira, falando de linhagem, como era
o caso entre os cavaleiros medievais (como também peguei
essa doença da citação, lembro agora do
Cavaleiro Inexistente de Calvino), e estava curtindo
aquela reunião, o clima estava bom. Mas ai ela começou
a levar muito a sério, dizendo que sua família
era muito importante, de descendência italiana, até
neste ponto tudo muito normal. Então, ela me cita um
quadro de Botticelli, sim, este mesmo, o renascentista. Lembro
bem desta história, pois me deixou profundamente irritado.
A obra em questão era A adoração dos
Reis Magos, do século XV. Neste quadro podemos ver
toda a corte dos Medicis e também o próprio Botticelli,
olhando de soslaio para o observador. Ela começou a insistir
que o penúltimo retratado à direita da composição
era alguém de sua família, um tataravô distante,
alguém muito bem influente naquela corte. A veemência
com a qual ela afirmava, deixou todos constrangidos, e brigou
comigo ali mesmo na sala, quando disse: “acalme-se”.
Ela retrucou: “você deve ficar do meu lado quando
estou falando essas coisas”. A mania de grandeza era tanto
e tão irritante que ela começou exaltar-se quando
falava que, o fato deste suposto parente estar escondido na
obra, era fruto de uma pequena artimanha do pintor para deixá-lo
em posição privilegiada, próxima da virgem
Maria.

Conhecendo-me (pouco é verdade) como conheço,
até que suportei muito este tipo de situação,
o que me deixa amedrontado, pois não quero em hipótese
alguma ser passivo em casos como este. Tampouco importa agora
falar essas coisas, achar explicações inúteis
para coisas que não valeriam nem um conto sequer da mão
de um escritor moribundo.
Não agüento mais ficar sentado neste banco. Às
vezes me prostro neste banco, na frente do metrô Marechal
Deodoro, e olho em direção ao minhocão.
Lamentavelmente não há mais aquele desenho que
tanto me fascinara, passei até mesmo ter menos aversão
às artes. No lugar há um outro desenho, como em
quase toda a extensão do elevado, mas não quero
ver de perto, o vejo apenas entrecortado por uns cartazes, acho
que são de uma peça teatral qualquer. Hoje o dia
estava tão aberto, mas agora uma tempestade me parece
iminente, vai entender os trópicos. Mas vejo que preciso
ir, estou sem carro hoje e preciso pegar o ônibus, e como
já sabem, não gosto de ônibus quando chove,
me faz mal, falta de ar. Quem sabe não conseguirei visualizar
alguma briga como naquela época. Eu já procurei
um apartamento aqui mesmo entre a Amaral Gurgel e a Gal. Olímpio
da Silveira, um lugar muito bom para morar, estou convencido.
Acho que até ano que vem eu consigo trazer as tralhas
para cá.
Não faz muito tempo que me separei, não sem sofrimento,
uma dor prometéica. Mas isso eu sei que passa. Entretanto,
para minha grande infelicidade, o que não passa é
quando vejo o minhocão; tudo aquilo me volta com uma
força desgastante. Eu sei, agora devem se perguntar:
“o que então está fazendo neste banco, olhando
pro dito cujo?”. A resposta é simples, não
sei por que gosto de relembrar aquele exato momento, agüento
até a dor de relembrar do resto. Porém, aquele
momento vale por tudo. O momento em que ela falava baixinho
perto do meu ouvido e, eu olhava aquele desenho, é formidável
lembrar disto. A relação devia ter acabado naquele
momento, pois a cidade já tinha ganhado mais um admirador;
eu devo ser um cara esquisito mesmo.
Obs:
para ler o texto de Magali Gallello, que também tem como
foco a mesma região paulistana, clique em A
Little Snake.