A
Little Snake
Magali
Gallello
Relógio
digital. Como é que pode pensar que cabe tudo em 7 minutos?
Se descer até a garagem, com otimismo e vontade, o elevador
abocanha 2. No fundo tem noção do atraso, no entanto
leva a sério a possibilidade das atitudes de borracha.
Entra logo no carro, vai! Ah, não contava com a delícia
de roubar a si próprio! E olha que sempre cai na mesma
pífia surpresa: o relógio do carro é o
único que está certo, o da casa é instrumento
de pressão. Tcharam! Você acaba de ganhar de volta
os 2 minutos que ficaram presos na escada de emergência.
É, porque além de tudo, a luz afogou na chuva.
Em nome das portas do paraíso, dentro do carro supersônico
restam agora 7 mágicos minutos. Começa assim.
É o tal do atraso sistemático e crônico.
Planeja, planeja, planeja, executa tudo a tempo e invariavelmente
chega depois. É tanta dispersão reunida em um
só indivíduo que em algum momento da trajetória
retilínea desuniforme, o porquinho rosa da economia de
foco arrebenta e aí as moedas acabam rolando para alguma
fresta mínima da distração. Quando vai
ver, puf! Perdeu a hora, bem vindo à vida real.
Pronto pra encarar os olhos da serpente – ei, semáforos
da Amaral Gurgel, vocês ficarão para a próxima,
mais uma vez! Luzes na passarela, desliga o mundo lá
atrás, rodas a galope, em meio minuto, por um minuto
a mais, a boca nos olhos da namorada. Até que essa coisa
assim tão chinfrim da metáfora da artéria
oeste-leste também tem um quê de alegria fria e
um senão de desencontro. Na curva mais acentuada em que
se reduz a velocidade, os atrasados também sentem poesia.
O amor tem as mãos geladas.

Já perdeu as contas de quantas vezes atravessou de um
lado a outro o viaduto mal construído, mal planejado,
mal querido por quem dorme o sono do asfalto engarrafado, a
buzina na janela do almoço, o pó na chuva do banho.
Que droga essa chuva de qual os carros têm medo e pisam
no freio. Parece que os acessórios da vida querem que
você esteja sempre do outro lado!
Ter que chegar logo! Ter que chegar logo! Ter que chegar! Sim,
ter que chegar! Ter que e não chegar. E pronto. A mão
desliza no banco do lado e não tem você, nem mesmo
em freqüência de onda: desmaiou vertiginosamente
o celular no bolso da calça, passada e repassada, por
mil vezes experimentada e posta de lado na indecisão
da gaveta sabotadora. Talvez você esteja a minha procura,
em vão, no guarda-roupa, e eu não vou chegar aí.
Um mal súbito, congestionamento na artéria, um
infarto do Minhocárdio, às 18h30 no sentido centro-bairro.
Chove. A cidade parou no corpo com pressa, fractal sem reserva
de nuvem ou holograma possível, um corpo só, impassível
de movimento e de objetivo, trovejando por dentro no banco do
carro-ilha, igual a tantos outros ali em cima, ou desigual.
Vai saber o que se passa em cada um desses carros. O relógio
já desabou, os ponteiros, parece, vão assim, deixando
o universo carbônico das injeções eletrônicas,
para escutar apenas a colisão de uma conta quando encosta
na outra, no liame do fio de anzol, ali no chão do apartamento,
apartado de você, mas ligado pela mesma artéria
entupida, só que no sentido transversal. Desdobram olhos
em outra direção, do lado direito. Eu ainda não
tinha me dado conta das vidas que não seguem em linha
reta. Uma ponte que atravessa a moradia de um quarto andar.
E lá, atrás da varandinha encardida, cercada de
vidros por todos os lados, refletiu-se uma moça com semblante
de quem escolhe da caixinha no chão as peças para
fazer um colar.
Tem também uma jarra azul de plástico. Onde sempre
tinha suco de limão sem açúcar, com finalidades
dogmáticas do tipo ‘toma-que-faz-bem’. Mas
a tal da jarra tinha que estar do outro lado do Minhocão,
na casa de quem me alcança com outro tipo de chamado.
Você já está chegando? Já, já
estou quase aí, vou descendo o Minhocão. Ah, então
tá bom, agora tá perto. Olha, vem com calma, não
corre não que aí é perigoso, chega a hora
que for, a gente não tem horário pra comer, papai
e eu acordamos tarde hoje, ninguém tem fome ainda. Vê
se vem devagar.
O que mais chamou a atenção mesmo é que
ela tinha cara de quem está criando um colar, centrada
só nisso. E foi só por isso que eu fui parar na
jarra azul. Acho que umas contas eram de vidro colorido, e tinha
também umas de plástico que ela ia passando pela
linha transparente, todas bem vindas, sem distinção.
Vez ou outra ela saía da entrega do chão e parava
em frente ao espelho, ajeitando o fio no pescoço, mirando
o futuro tesouro por todos os ângulos, e daí muda
de perfil, vira de lado, prende o cabelo pra contemplar melhor
o que ainda viria a ser um colar senão fosse a vontade
de mudar o fim da história. Daí ela tira umas
peças que voltam para a caixa, pega outras, reagrupa,
realinha, reordena, recria, remenda, rejeita, reajeita, recusa,
repara, religa, repõe, retém, reluz, relaça,
realiza, relança, reintegra, recupera, retira e retoca.
Agora sim, aquilo que queria! Então ela faz a boca sorrir
um singelo sorriso de quem tem nos olhos o reflexo do que buscava.
Ela tem um colar que eu vejo no espelho através da janela.

Já o vizinho tem um tapete, que ele põe para fora
e bate. Vão caindo assim os imperceptíveis restos
de uma história na marquise. E também na cabeça
de quem passa lá embaixo. Mas nem sequer passa pela cabeça
da fulana lá embaixo que agora ela tem uma história
alheia entre os cabelos. Quer dizer, pela cabeça, literalmente,
até passa, só que não entra nela. A história
que hoje ainda, ou amanhã quem sabe, vai escorrer pelo
ralo com os restos de shampoo e condicionador e creme restaurador
de pontas e mousse desembaraçante e creme nutritivo para
cabelos danificados por tintura. E o que não cair com
esse mundaréu de manteiga, vai morrer assado no secador
de cabelos, fisgado pela escova ou amassado na chapinha. Idéias
que somem. E esse trânsito que não sai do lugar
Deus do céu! Que não transita, na verdade.
Daí tem também a nesga. Sabe o que é? É
aquilo que deixa nãodeixandover. Um que insiste em botar
cortina pra tapar o vidro imundo do tipo fica-como-está-
porque-não-adianta-limpar e ter um pouco de privacidade
na hora do rush. Nesga é assim, um naco de verdade, um
furinho na rotunda, um vislumbre real. E aí vem todo
o resto. Como foi que eles chegaram ali? Sei lá, com
todos os pretextos, subtextos, hipertextos e texto algum de
que eu, você, qualquer um e todo mundo já se fartou,
farta e fartará. Agora ali, olho no olho é que
é - as palavras dançam no seu simétrico
simultâneo. Um par de olhos dos que estavam ali tresvariou
para o sorriso alheio, dentes bonitos de pulsação
extasiada. O outro par de olhos perdeu o rumo, desabotoou todos
os botões e depois os botõezinhos um a um, e então
sucedeu o zíper, os lacinhos, os fechinhos, com direito
a pausa, sílaba e tempo próprios. Daí o
corpo ficou ali, imóvel, vizinho e onipresente. Ficou
ali um tempão esperando uma ordem, subserviente, mas
não tinha ordem, só contemplação.
E nem lógica, graças ao bom senso da falta de
noção total. Dava até gosto de ver. E vontade
de te encontrar logo, porque eu já te perdi tantas vezes
nessa multidão de números e voltas do tempo, e
renúncias de atitude, e falta de sensibilidade. E agora
que eu te achei, e agora que eu estou aqui, quase perto, e você
deve estar querendo engolir todos estes ‘e’, ‘e’,
‘e’, ai, chega, até eu cansei de mim.
O bicho ali em cima também cansou. É tão
esquisitinho que eu não sei dizer se é cachorro,
se é gato, mas dorme com duas das patas penduradas pra
fora da janela, cruz credo! Deve ser cachorro, tem a orelha
meio caída, se bem que pode estar dobrada, gato adora
achatar a cara na parede. Ui! Agora levantou e deu aquela sacudida
com direito a pêlo para tudo o que é lado, até
parece que a pelagem era avulsa. O quê?! Vende-se empadinha?!
Ah, meu chapa, de você eu não compro não,
eu nem sei se é pêlo de gato ou de cachorro que
caiu ali na azeitona, eu hein... Veja só o que a gente
engole por dia... Uma história como a minha, por exemplo,
você não vai acreditar mesmo, eu também
não acreditaria, puro desleixo. E quem gosta de se sentir
‘desdeixado’ pelo seu amor? Lembra quando eu te
escrevi a história da minhoquinha na caíva, terra
imprópria? Se você quiser, posso te fazer outra
cópia.
E para a senhora, eu posso fazer uma réplica de paisagem
feliz com passarinho amarelo no meio e chafariz de anjinho ao
fundo. Assim tão pálida, o paninho tossindo, o
cabelo preso com falta de ar, de sol, por que não abre
essa janela? Eu sei, eu sei, mas pelo menos circula alguma coisa
viva por aí, uma corrente de ar mais sincera... Veja
como a gente se trai. Esse labirinto minotáurico onde
eu me meti, ainda que inconscientemente ou por pura covardia,
ao contrário do que se imagina, não quer me aproximar
de você. Agora parece que tudo vai andar, até a
psicanálise fluiu bem.
A primeira oportunidade de descer daqui é o caminho que
vai para o largo do Arouche, alcanço um telefone público
e daí marco um encontro. Será que você vem?
Pra mudar o jogo do eu-que-sempre-atrasa, agora cheguei primeiro
e estou a sua espera. É assim que sinto, não me
cobre ou a serpente nos dá o bote. Agora chove sorridentemente
na minha testa, embaixo do Minhocão. Uma criança
de colo baba uma goteira que alimenta rosas de papel e lata.
Me aceita? Quero encurtar distâncias e o meio do caminho
fica aqui, no repouso do cão na carroça. Aqui
se faz frio e assalto. O mundo é bem maior do que os
meus medos. Quer casar comigo? Na dúvida, eu transcrevo
de novo a história da minhoquinha:
“Caíva
No
meio do mato havia uma clareira de onde se ouvia o grito desesperado
de uma minhoca pequenininha.
Ela
estava escorregando para dentro de um buraco estreito e muito
fundo.
Ora,
é sabido que minhocas gostam de terra, gostam de profundidades
e naturalmente são escorregadias.
Pois
bem, antes mesmo da pergunta que cabe agora, ela gritava por
ela mesma e para o mundo, como se quisesse dizer assim: “Olha
mundo, você está me perdendo!”
Não
que isso fosse ruim para ela. Na verdade, escorregar era uma
delícia. Acontece que ela era uma minhoquinha muito dada,
um invertebradinho que amava, capaz de um amor pouco egoísta.
Ela esperava que Deus, de repente, fechasse o buraco, aflitíssimo.
Essa
atitude compensaria o sofrimento causado pela opção
de viver na aridez da superfície.
Ela
não queria ser perdida.”
Obs:
para ler o texto de Martinho Junior, que também tem como
foco a mesma região paulistana, clique em O
Grafite.