Devorando Norval Baitello Jr.
Entrevista

A expansão do pensamento de Norval Baitello Jr. talvez nos impeça de delimitá-lo em alguma especificidade. Assim, podemos seguir seus passos rumo às "ciências da comunicação", que englobariam uma multiplicidade complexa de disciplinas para a qual a comunicação não deve fechar os olhos. Se a comunicação, ao menos a partir dos conceitos de Claude Shannon, foi encarada de maneira mecânico-matemática, os esforços desse pesquisador ligado à PUC-SP visam uma retomada da teoria na qual o corpo possui um lugar privilegiado, sem as amarras de esquemas lógicos. Pensar comunicação, desse modo, significa (assim como fizeram no Colégio Invisível, a escola de Palo Alto) resgatar elementos da comunicação que ficaram renegados a outras disciplinas, como a psicologia, a antropologia e a sociologia. Neste conjunto teórico podemos vislumbrar pensadores como Dietmar Kamper, Harry Pross, Ivan Bystrina, Hans Belting, Aby Warburg e Vilém Flusser, quase todos introduzidos no Brasil pelas mãos de Norval Baitello Jr..

Na entrevista abaixo, Norval diagnostica um cenário de crise da visibilidade pelo excesso de imagens, do que ele chamou de “sonhos pré-sonhados” que nos são impostos e acabam por moldar nossa imaginação. Eis aí a idéia da iconofagia, sintetizada pelo autor em seu livro “A Era da Iconofagia” (Hackers Editores, 2005), uma via de mão dupla da relação homem-imagem, pois quanto mais devoramos imagens, mais servimos de alimento e somos devorados por elas. Comecemos, então, por devorar o pensamento de Norval Baitello Jr.

Os Editores


Entrevista realizada por Andréia Vilella, Pedro Mota, Rubens Pádua e Tamara Foresti

Quando o senhor começou a pensar e o que vem a ser o conceito iconofagia?

Norval: Iconofagia é um conceito curioso. Propus essa palavra em 1999, durante um simpósio em Berlim, mas no começo eu pensei em denominar esse processo de “imagofagia”. Nesse simpósio também estava o filósofo e amigo Dietmar Kamper, que pesquisou durante vários anos a relação das imagens com o corpo. E desse sociólogo veio a idéia de que nem sempre a relação das imagens com o corpo é uma relação construtiva; ela pode ser uma relação de morte mesmo. No fundo, originalmente, ela é uma relação de morte. Isso porque a palavra ‘imagem’ vem da palavra latina 'imago', que significa retrato da pessoa morta.

           Daí me veio a idéia da iconofagia, do conceito de que nós devoramos imagens, nós consumimos imagens, nós engolimos imagens. Até fisicamente mesmo. Muitas vezes a própria comida que a gente come é mais imagem do que substância nutritiva. A alimentação rápida do chamado fast-food é muito mais imagem do que comida. Existem inúmeros grupos que questionam o grau de benefício que essa comida nos traz e há situações em que intencionalmente o que se come é uma imagem. Por exemplo, o alimento artístico, em que o prato vem como uma verdadeira obra de arte. Esses pratos custam uma fortuna, algo impagável e eu não sei que gosto têm, mas é muito bonito de se ver, o chamado art-food. É imagem e as pessoas vão lá para comer uma imagem ou para serem comidas como imagem, porque quem vai lá provavelmente é muito badalado, provavelmente faz parte do circuito do grande circuito da mídia.

         Não precisa ser necessariamente físico, a gente tem que comer com os olhos e houve já um alguém que falou da capacidade dos olhos de devorar. E na própria língua quotidiana a gente fala “puxa, devorei este livro!”. Fala dos ratos de biblioteca daqueles que devoram livros e das pessoas que devoram quadrinhos, quadros, arte, revistas, no sentido de avidamente ver essas coisas e se apropriar delas.

         Nossa civilização, a do século XX, acabou sendo a civilização da imagem, com pequenas exceções de recantos muito escondidos. A imagem chega onde quer que a gente esteja e assim elas passam a ser companhias permanentes. E não falo apenas de imagens visuais. As imagens sonoras também nos acompanham e talvez elas tenham até um lugar maior. Pois bem, as imagens são tão evasivas que podemos dizer que elas nos envolvem, nos devoram. Nós acabamos sendo alimento para elas. Elas buscam, elas chamam nosso olhar, elas nos capturam. Esse é o conceito da iconofagia.

         Essa civilização da imagem é decorrência da ação da mídia? Foi isso que nos fez, digamos, consumidores de imagens?

Norval: Houve uma mudança enorme no século XX, já no início do século XX, na primeira década. As vanguardas históricas e as vanguardas artísticas - realismo, cubismo e sobretudo o dadaísmo - tiveram consciência disso, de que a quantidade de publicações ilustradas começou a crescer.

         Um psicoterapeuta brasileiro brilhante chamado José Ângelo Gaiarsa, hoje com uns 80, 85 anos e ainda na ativa, deu um depoimento de que, em sua vida, ele percebeu a passagem dos livros com poucas ilustrações, com poucas figuras, para os livros fartamente ilustrados, das revistas e jornais em que uma foto era considerada grande novidade para os jornais e revistas que só tem fotos, quase não tem textos. Existem teóricos da comunicação e do jornalismo do começo do século XX que falavam ironicamente "Eu não leio jornais com figurinhas", pois eram considerados pouco sérios. Eles gostavam do texto, o chamado "deserto do chumbo" porque o tipo tipografia era feito de chumbo, então muito chumbo tinha de estar no jornal. Uma metáfora maravilhosa, nós saímos do chumbo para as cores, não é?! Houve uma mudança radical na nossa maneira de perceber as coisas e da nossa maneira de ser, porque a leitura exige tempo. E é um tempo lento, porque ler implica um gesto lento de acompanhar uma linha, pequenas imagens representativas de sons que ocorrem e que se formam em linhas. Temos que ler linha após linha e depois passar a página e ler de novo linha após linha. Esse tempo é o tempo da formação das nossas imagens internas, da formação e de reflexão do questionamento sobre essas imagens do pensar sobre elas. Nós também consumimos os livros quando lemos, mas por um tempo em que nós temos tempo de digerir.

         Agora, as imagens possibilitam, em um piscar de olhos, a captura de uma realidade, de um fato, de um momento que levaria pelo menos 20, 30, 50, às vezes 100 vezes mais do que se fossemos ler sobre aqueles fatos. Então, a imagem faz parte de um processo de aceleração da vida e do processo de aceleração da comunicação. Ela possibilita colocar mais coisas em menos tempo, ela possibilita congestionar o oceano de nossos olhos. Congestionar a nossa visão e a visão congestionada, deixamos de enxergar. A gente não vê mais nada, só vemos o próprio congestionamento.

          Isso levou a um empobrecimento do conteúdo?

Norval: Esse processo de congestionamento, de acumulação de excesso das imagens, levou a uma menor possibilidade nossa de participar da própria imagem. Ela já vem pronta, quando nós ouvimos as imagens acústicas do rádio e processamos mentalmente, tinha tempo de construir essa imagem, modificá-la, pensar sobre ela. A mentalidade televisiva espalhou-se pela cidade e esta passou a ser um canteiro de outdoors. E as imagens externas, no momento em que a gente está querendo processá-las, elas já nos atacam com a imagem pronta. Elas acabam fazendo a gente sonhar um sonho pré-fabricado, um sonho pré-sonhado. Hoje existe um desequilíbrio: muita imagem externa que acabam atropelando o processo da geração das imagens internas. Esse processo de geração das imagens internas chama-se imaginação. Então, ela acaba atropelando a nossa capacidade de imaginação, de gerar as nossas próprias imagens.

        Como que isso afeta a visão do próprio corpo, principalmente do das mulheres diante desse cenário de exploração do corpo feminino atual?

Norval: Dentro da história da humanidade, a mulher sempre esteve associada à maternidade, à fertilidade. E também com a terra, com o solo, de onde brotam as coisas. O que a mídia fez com o corpo da mulher foi torná-lo objeto de suporte de imagens. Esse suporte de imagens acabou obrigando as pessoas a transformarem seus corpos em imagens de corpos. Os corpos, que são reais - um maior, outro menor, outro mais gordo, outro mais magro - foram transformados em imagens de corpos.

         Falamos da mulher, mas agora também o homem está sendo pego por essa onda. O número de homens que se obriga a se transformar aumenta a cada dia. E não são apenas jovens, homens de 40, 50, 60 e até 70 anos cuidam do corpo como suporte de imagem, querem seu corpo como manda o figurino, ou seja, como imagem. Não por razões de saúde, mas por razões de estética.

        E por que isso?

Norval: Porque, na era das imagens, o corpo é imagem. Não basta fotografar o corpo real, é necessário fotografar o corpo que é imagem. Tem o exemplo curioso de uma atriz famosa da televisão brasileira, um pouco idosa já e ainda muito bonita, que foi fotografada há algum tempo pela Playboy. Imaginem uma mulher de 50 anos, é impossível apagar a idade. É impossível apagar as marcas do tempo no corpo, em todos os sentidos. E essas marcas do corpo, que são do tempo, têm sua beleza. Dercy Gonçalves, por exemplo, é uma atriz de 100 anos que tem uma beleza amigável, no seu gesto, na sua maneira de falar, na sua maneira de ser, e é sim possível notar isso.

         No caso da Playboy, os processadores de imagens retocaram a imagem tanto quanto possível e publicaram na revista. Evidentemente, ficou uma imagem maravilhosa, de uma mulher que todo mundo sabe que tem 50 anos, mas aparenta 30. Em alguns momentos, com um pouco de imaginação as pessoas podem ver até uma mulher de 20. Ela pegou a imagem, levou para o cirurgião plástico e pediu "faça isso". E aí nós temos um belo exemplo de corpo e imagem, fabricação do corpo-imagem.

          Dizem que os homens são muito mais visuais, a mulher é mais do toque, mais gesto. Isso é verdade e qual a relação disso com tantas revistas que exploram o corpo da mulher?

Norval: Geneticamente é verdade, o homem é mais receptivo visualmente porque, na evolução da nossa espécie, os homens tiveram um papel do ataque, da caça, da guerra e era muito importante estar muito alerta, e a visão é o sentido do alerta e distância. É um sentido de comunicação à distância, diferente do toque, diferente do olfato que é um sentido de proximidade e diferente do paladar, que é um sentido de proximidade. A audição e a visão são sentidos de distância, portanto as comunicações auditivas quanto a visual são a comunicação predominante na nossa civilização, são comunicações de distância. E os homens foram moldados por essa tarefa social, portanto, eles têm um maior alerta visual.

          Temos de colocar uma vírgula. Como a civilização não é parada, como as mulheres assumiram, já há alguns séculos, pelo menos a partir da Revolução Industrial, funções ativas profissionais e agressivas, elas estão sendo forçadas a desenvolver o sentido da visão. Ou seja, como um sentido de alerta, tal qual os homens a fizeram.

          Essa “exigência” e mesmo desejo de ter um corpo perfeito por parte das mulheres é em razão do homem ou poderíamos dizer que mais por razões midiáticas?

Norval: Eu diria que é mais um fenômeno midiático porque é um fenômeno da relação entre masculino e feminino, entre homem e mulher. Tanto os homens quanto as mulheres tem as suas preferências diferenciadas. De repente você gosta de uma determinada pessoa e aquela pessoa está fora dos padrões midiáticos da beleza. Aliás, quem não está fora dos padrões midiáticos da beleza? Todos nós estamos fora. 2 cm a mais aqui, dois ali, 20 cm a mais de gordura, pneuzinho disso e daquilo. Ou talvez a pele de uma determinada cor ou um cabelo assim ou assado. A verdade é que estamos todos fora dos padrões idéias de beleza.

         Segundo um colega comunicólogo, o padrão desses corpos que aparecem nas revistas não existe. Eles são irreais, são fabricados. Então, eu não diria que é uma exigência dos homens ou das mulheres, pois a mídia também fabrica mentes e corações. E existem aqueles homens e aquelas mulheres que incorporaram tanto o sonho de beleza midiático que acabam devorados por esse sonho de beleza midiático. Esse sonho de beleza midiático acaba se tornando o sonho deles próprios. É o sonho da mídia e é isso que eu chamo de sonhos pré-sonhados.

         O senhor acha que tem volta? Tem como não ser "enfeitiçado" pela mídia em relação ao corpo?

Norval: Se há um retorno? Há um retorno! Eu não posso ser pessimista nesse caso. Nós temos de ser pessimistas no diagnóstico e temos de ser otimistas no prognóstico. Chegamos a um ponto em que, aparentemente, as coisas se tornaram tão graves que começaram a morrer pessoas em função da fabricação desse corpo-imagem. O próprio aparato midiático da moda, da televisão, das revistas, da fotografia, acabou percebendo que estão sendo cometidos excessos e começou a valorizar a diversidade dos corpos. E a diversidade dos corpos é real. Não é possível falar "vou deixar meu corpo aqui e agora e vou comprar outro". Não existe isso. O meu corpo sou eu. Este sou eu. Não é com meu corpo, é EU corpo. Não dá para jogar fora, tenho de ser do jeito que sou. Daí acabamos por valorizar a diversidade e, por esse gesto, acabamos também por resistir à iconofagia. Saudavelmente, a gente acaba dizendo não. Pra cima de mim, não! Eu não quero!

          Quando os sonhos pré-sonhados interferem no padrão e a gente quer ter uma comunicação de proximidade com corpos idealizados, torna-se muito mais difícil. Quantos homens e quantas mulheres desejam uma imagem de homem ou mulher? Claro, pois a imagem de homem não tem as chatices. Ou a imagem de mulher não tem os caprichos, não tem isso, não tem aquilo. Pensar no outro como imagem atrapalha muito.

         Essa imagem não está tomando mesmo o lugar do corpo na própria relação comunicacional humana?

Norval: Comunicação de distância, excesso de comunicação de distância, pode significar falta de comunicação de proximidade. O que não significa que nós tenhamos que ter comunicação de proximidade com todas as pessoas no trabalho, por exemplo. Não dá para chegar e beijar e abraçar todo mundo. Isso nem é desejável, mas chegar e apertar a mão, olhar para as pessoas, sentir a presença é uma comunicação social de proximidade e essa comunicação social de proximidade também acaba sendo prejudicada. Quantas pessoas que chegam me dão a mão e já estão com o olhar perdido, e não olham no olho quando nos encontram?

          A ciência da comunicação pode ajudar muito no diagnóstico dessas questões que vamos chamar de moléstias da civilização, enfermidades da civilização. Excessos da comunicação que podem conduzir e, em muitos casos, estão conduzindo a uma perda gradativa do contato com o próprio corpo. A perda do contato com o próprio corpo ocasiona a perda do contato com o corpo do outro. Do parceiro, da parceira, do irmão, do filho, da filha. E tudo isso é um empobrecimento enorme. Existem pesquisas muito bem fundamentadas sobre a importância da comunicação de pele. Por exemplo, dos pais com os filhos, criança que é muito abraçada, que é muito acariciada, que é massageada, que tem contato físico com a mãe e com o pai, é muito mais calma, se desenvolve com mais segurança.

          Há pouco tempo saiu uma notícia de criaram um programa de computador em que a menina se filma, como se ela estivesse fazendo sexo oral em um homem, e ela tem uma espécie de um pênis conectado no computador com sensores que passam pelo computador. E o homem, lá da casa dele, escolhe ela e no computador dele tem um dispositivo que chama “the role”, o buraco, em que ele encaixa no pênis e sente o que ela estava fazendo. O que você acha que pode acontecer?

Norval: Fiquei curioso, mas esse é o conceito de mídia. É o sexo com a mídia, que fica entre um corpo e outro, onde na verdade não deveria ter nada. O corpo em contato com o corpo, mas neste caso descrito por vocês existe a mediação. Passa a ser sexo em mídia terciária. Uma entrada triunfal da mídia sobre o terreno da comunicação primária. São brincadeiras, experimentos tecnológicos que não substituem jamais a comunicação primária do corpo. Então, como todos os aparatos e fetiches que inventaram para ter a indústria dos sex shops, não vão jamais eliminar o sexo ao natural e ao vivo, com toda certeza. Eu sou um otimista ou não?

          O senhor acha que as mulheres "eleitas" como ideais são um exemplo desse sonho já pré-sonhado que as pessoas "compram"?

Norval: É um sonho pré-sonhado. Quando se escolhe uma determinada apresentadora de televisão de acordo com um padrão, na maior parte das vezes loira, com ao menos 1,75 cm de altura, de preferência olhos azuis ou com variações, como uma lente de contato, isso significa impor um sonho, um padrão de desejo. Muitos homens que cresceram assistindo determinados programas de televisão têm no seu inconsciente aquele sonho já pré-sonhado e, evidentemente, vão cair de boca no chão quando encontrarem uma mulher desse tipo.

          É a desvantagem de todos os outros milhões de mulheres reais que existem e que não têm aquele tipo de corpo. Não só pra elas, mas acaba sendo um inferno para todos: para a própria pessoa e para o homem que só deseja aquilo e que vai quebrar sua cara porque nada vai ser igual àquela imagem (afinal, a mulher que ele encontrar vai ser uma mulher real, que acorda descabelada e que em algum momento vai frustrá-lo).

          Não sei se vocês já conversaram com alguma loira, o inferno que é a vida das loiras. A vida das loiras é um inferno, as pessoas acabam vivendo torturadas por isso. Nós temos um grande mito, o da Marilyn Monroe, que era uma mulher absolutamente torturada, se achava feia, horrorosa, mas era assediada dia e noite a ponto de ter se suicidado. A coisa está caminhando para uma direção muito quente da iconofagia

         Esse cenário de excesso de imagens, de um bombardeio de imagens, vai tornando as pessoas cada vez mais insensíveis?

Norval: Vai! Essa coisa vai anestesiando a nossa capacidade de enxergar, se instaura uma coisa chamada crise da visibilidade. Veja o que o atual prefeito de São Paulo está fazendo na cidade de São Paulo. A retirada dos outdoors é uma atividade muito inteligente, porque a quantidade de outdoors que existia já tinha nos tornado cegos para eles. Nossa capacidade de ver diminuiu. Limpar a cidade é a melhor medida para encontrar outros caminhos para a publicidade. Tornar a cidade, com isso, um pouco mais agradável e descansar os nossos olhos para que eles possam enxergar a publicidade em outros lugares.

         Os últimos outdoors tinham muitas imagens de mulheres peladas. Como que o sexo vende produtos?

Norval: As imagens sexuais são imagens de forte poder de captura porque evidentemente, elas prometem comunicação de proximidade e a comunicação de proximidade massageia. Ela faz bem, por isso as imagens nuas têm um grande poder de captura, porque elas significam uma promessa de comunicação de pele. Mas, colocando em todos os outdoors, não demora uma semana para se desgastar. Isso se chama hiperaquecimento, a gente hiperaquece essa mídia e ela queima.

         O senhor acha que nossa sociedade é mais devorada ou mais consciente?

Norval: Nós estamos em um momento em que somos muito devorados pela mídia. Mas podemos começar a reagir. Porque a gente se cansa dessas imagens que aparecem.

         Então o futuro nos reserva cada vez mais consumo de imagens?

Norval: A gente poder fazer cenários em relação ao futuro. Um dos cenários mais prováveis é que nós não vamos retornar. Nós não vamos voltar para trás e jogar fora as televisões. Pelo contrário, essas coisas tendem a se aperfeiçoar, a se desenvolver e a estar cada vez mais onipresentes e a responder a determinadas necessidades que vão sendo geradas. Hoje, por exemplo, filmar é algo tão simples que qualquer estudante tem acesso a uma filmadora. Vai haver uma oferta cada vez maior, então vai haver também uma segmentação. Essa segmentação exigirá seletividade, e seletividade no sentido de que quando eu tiver quatrocentos canais de televisão, eu vou passar por dois canais e, quando não passar nada que me atrai em nenhum dos dois, eu vou desligar a televisão.