Abril
Despedaçado tem uma forma
bem nítida – é circular. Sua estética
se baseia no ritmo e na forma cíclica. Como todo filme,
apresenta uma problemática. No Nordeste de 1910, onde
a lei do Estado não chega, duas famílias (Breves
e Ferreira) seguem a vendeta de vingança matando uns
aos outros numa escala cíclica sem fim. O filme traz
a vez de Tonho vingar Inácio, seu irmão mais velho.
Com o sangue da camisa do morto amarelada, ele deve realizar
seu dever (na cena, a velocidade da perseguição
faz as plantas em primeiro plano perder a profundidade e o foco,
tornando-o estático como uma pintura de riscos, e a movimentação
incessante de presa e caçador em segundo plano dá
a impressão de serem duas imagens sobrepostas). Cumprida
a obrigação, ele deve aguardar: é o próximo
a ser morto por um indivíduo do clã vizinho.
Walter Salles adaptou o romance homônimo do albanês
Ismail Kadaré. Das frias montanhas da Albânia para
o árido sertão nordestino, Salles intensificou
a dramaturgia da obra inserindo nela o pequeno Pacu –
a criança que narra a história e pelos olhos de
quem vemos os fatos. Pacu transforma e divide a narrativa entre
a fábula e a tragédia. O livro que recebe de uma
passante inserirá o elemento necessário à
fabulação e à libertação
da imaginação. Nesse sentido, o livro representaria
a fuga daquele mundo rígido, arcaico e imóvel.
Enquanto Pacu sonha com uma sereia que virá ao sertão
buscá-lo, seu amor ao irmão Tonho – e o
conseqüente medo de perdê-lo – martela como
o sol que nasce e avisa seu irmão de que em breve ele
morrerá. Em contraposição, há a
figura do pai, austero, rígido e rústico como
o chão de terra batida e a bolandeira que gira pesada
e sem brilho. Se o pai é sobrevivente da guerra entre
as famílias, que já matou mais de 20 gerações,
o instinto paterno se enfraquece diante do código de
vingança estabelecido na região, que se fortalece
ainda mais pela ausência de um Estado regulador (no livro
de Kadaré, tal código chama-se Kanun e é
o instrumento que regulamenta os crimes de sangue na Albânia),
como se o dever moral estivesse acima da própria vida.
Na verdade, é exatamente isso que acontece com os Breves:
Tonho se vê dividido entre o amor e a liberdade que recém-brotara
em seu coração e o dever de morrer pela honra
da família. De um lado, a vida que de fato se inicia;
de outro, a morte pela rigidez e tradição do código
milenar.

Essa dualidade das coisas e sentidos é confirmada mesma
pelo diretor: “Procurei arquitetar Abril Despedaçado
na oposição entre estados diferentes: imobilidade
e movimento, arcaísmo e modernidade, ordem impingida
pelo pai e a desordem anunciada por Pacu”. Tal contraste
se evidencia no drama do protagonista, que tem sua vida enraizada
à terra – por conseguinte, à família
e ao código de honra (matar e morrer). Submeter-se e
morrer ou libertar-se das engrenagens que certamente o levarão
à morte?
Também na estética se percebe a dualidade. Filmagens
com o personagem em primeiro plano escurecido, ressaltando a
silhueta frente o fundo claro, são constantes, principalmente
nas cenas em externas. Em compensação, as internas
preconizam o contrário: o fundo na escuridão e
a iluminação recaindo de cima sobre o personagem,
destacando apenas seu papel em cena.
A
bolandeira – metáfora da tragédia anunciada
Em
duas cenas, Walter Salles definiu um aspecto crucial da narrativa
– sua circularidade. Na hora de moer a cana, cada membro
da família tem sua função: o pai faz os
bois girarem a bolandeira; estes andam em círculo, não
deslumbram novos caminhos e suas vidas serão sempre a
repetição da repetição cíclica.
Tanto que, numa cena posterior, Tonho vê os bois rodarem
em volta da bolandeira sem nenhum estímulo externo, e
tal fato repercute dentro dele e o faz buscar outro rumo. Apenas
a força imutável do hábito. O filho mais
velho força a cana no maquinário, a mãe
recolhe o bagaço do outro lado da moenda e o caçula
prepara a cana para ser moída. A câmera de Salles
praticamente adentra as engrenagens da bolandeira, ora girando
junto dela, ora focando as engrenagens, o que resumiria toda
robustez, dureza e imobilidade do trabalho e da vida da família.
A outra parte que explicita o dilema de Tonho está na
aventura no ar de Clara, que gira presa a uma corda no alto
como se quisesse se lançar num vôo libertário.
Tonho aprecia de baixo, maravilhado com a coragem e espontaneidade
da moça. Representativamente, Clara é a jovem
circense desprendida de raízes que perambula pelo sertão
com seu padrasto como uma trupe circense, um casal de saltimbancos.
Já Tonho é o mecanismo estático, fincado
no chão seco e improdutivo que faz a roda de sangue e
morte girar. Ela, a liberdade admirada e sonhada; ele, o confinamento
e o motor da engrenagem. Ele é parte ativa do código
e, até aquele momento, alimentava toda a tragédia
que se anunciava.

A partir de certo momento, Abril Despedaçado
indica que o círculo em que vivia os Breves está
prestes a romper. A moenda da cana se interrompe com um dos
bois caindo e não agüentando mais girar; Clara,
a cuspidora de fogo, erra num número do circo, deixando
em Salustiano a semente de uma brusca mudança a vir;
a corda do balanço de Pacu e Tonho se rompe quando este
“voava” sem medo e culpa. Tais acontecimentos preconizam
o início da tragédia e o fim daquela guerra absurda
que dilacerava todos. Salustiano resumiu o absurdo da vendeta:
“Preferem acabar um com o outro a acabar com isso”.
E o fim trágico chega com a chuva que inunda a noite
no sertão. O sertão viraria mar, assim como anunciava
a profecia?
Por menos que o espectador queira, a morte anunciada por um
código de honra soa irrevogável. Os Breves até
tentam apaziguar o conflito, mas a resposta do outro lado é
a promessa de mais sangue. “Sua vida está agora
dividida em duas: os 20 anos que você já viveu
e os poucos dias que lhe resta viver”. A tarja preta presa
ao braço é o atestado de que a morte não
tarda. Entre a morte e a alegria de viver um amor, Salles modifica
o livro. Foge da inevitabilidade da rigidez dos códigos
arcaicos e insere o elemento sacrificial, que se instala para
romper com aquele ciclo infinito. O sacrifício fraterno
liberta a possibilidade do amor carnal e, de certo forma, vence
a morte pela própria morte, encerra o ciclo de violência
sem fim, mesmo que se mostre cruel e libertadora naquele final
de abril.