A tragédia libertadora de Walter Salles
Lucas Rodrigues Pires

         Abril Despedaçado tem uma forma bem nítida – é circular. Sua estética se baseia no ritmo e na forma cíclica. Como todo filme, apresenta uma problemática. No Nordeste de 1910, onde a lei do Estado não chega, duas famílias (Breves e Ferreira) seguem a vendeta de vingança matando uns aos outros numa escala cíclica sem fim. O filme traz a vez de Tonho vingar Inácio, seu irmão mais velho. Com o sangue da camisa do morto amarelada, ele deve realizar seu dever (na cena, a velocidade da perseguição faz as plantas em primeiro plano perder a profundidade e o foco, tornando-o estático como uma pintura de riscos, e a movimentação incessante de presa e caçador em segundo plano dá a impressão de serem duas imagens sobrepostas). Cumprida a obrigação, ele deve aguardar: é o próximo a ser morto por um indivíduo do clã vizinho.

           Walter Salles adaptou o romance homônimo do albanês Ismail Kadaré. Das frias montanhas da Albânia para o árido sertão nordestino, Salles intensificou a dramaturgia da obra inserindo nela o pequeno Pacu – a criança que narra a história e pelos olhos de quem vemos os fatos. Pacu transforma e divide a narrativa entre a fábula e a tragédia. O livro que recebe de uma passante inserirá o elemento necessário à fabulação e à libertação da imaginação. Nesse sentido, o livro representaria a fuga daquele mundo rígido, arcaico e imóvel. Enquanto Pacu sonha com uma sereia que virá ao sertão buscá-lo, seu amor ao irmão Tonho – e o conseqüente medo de perdê-lo – martela como o sol que nasce e avisa seu irmão de que em breve ele morrerá. Em contraposição, há a figura do pai, austero, rígido e rústico como o chão de terra batida e a bolandeira que gira pesada e sem brilho. Se o pai é sobrevivente da guerra entre as famílias, que já matou mais de 20 gerações, o instinto paterno se enfraquece diante do código de vingança estabelecido na região, que se fortalece ainda mais pela ausência de um Estado regulador (no livro de Kadaré, tal código chama-se Kanun e é o instrumento que regulamenta os crimes de sangue na Albânia), como se o dever moral estivesse acima da própria vida. Na verdade, é exatamente isso que acontece com os Breves: Tonho se vê dividido entre o amor e a liberdade que recém-brotara em seu coração e o dever de morrer pela honra da família. De um lado, a vida que de fato se inicia; de outro, a morte pela rigidez e tradição do código milenar.

           Essa dualidade das coisas e sentidos é confirmada mesma pelo diretor: “Procurei arquitetar Abril Despedaçado na oposição entre estados diferentes: imobilidade e movimento, arcaísmo e modernidade, ordem impingida pelo pai e a desordem anunciada por Pacu”. Tal contraste se evidencia no drama do protagonista, que tem sua vida enraizada à terra – por conseguinte, à família e ao código de honra (matar e morrer). Submeter-se e morrer ou libertar-se das engrenagens que certamente o levarão à morte?

          Também na estética se percebe a dualidade. Filmagens com o personagem em primeiro plano escurecido, ressaltando a silhueta frente o fundo claro, são constantes, principalmente nas cenas em externas. Em compensação, as internas preconizam o contrário: o fundo na escuridão e a iluminação recaindo de cima sobre o personagem, destacando apenas seu papel em cena.

 

A bolandeira – metáfora da tragédia anunciada          

         Em duas cenas, Walter Salles definiu um aspecto crucial da narrativa – sua circularidade. Na hora de moer a cana, cada membro da família tem sua função: o pai faz os bois girarem a bolandeira; estes andam em círculo, não deslumbram novos caminhos e suas vidas serão sempre a repetição da repetição cíclica. Tanto que, numa cena posterior, Tonho vê os bois rodarem em volta da bolandeira sem nenhum estímulo externo, e tal fato repercute dentro dele e o faz buscar outro rumo. Apenas a força imutável do hábito. O filho mais velho força a cana no maquinário, a mãe recolhe o bagaço do outro lado da moenda e o caçula prepara a cana para ser moída. A câmera de Salles praticamente adentra as engrenagens da bolandeira, ora girando junto dela, ora focando as engrenagens, o que resumiria toda robustez, dureza e imobilidade do trabalho e da vida da família.

           A outra parte que explicita o dilema de Tonho está na aventura no ar de Clara, que gira presa a uma corda no alto como se quisesse se lançar num vôo libertário. Tonho aprecia de baixo, maravilhado com a coragem e espontaneidade da moça. Representativamente, Clara é a jovem circense desprendida de raízes que perambula pelo sertão com seu padrasto como uma trupe circense, um casal de saltimbancos. Já Tonho é o mecanismo estático, fincado no chão seco e improdutivo que faz a roda de sangue e morte girar. Ela, a liberdade admirada e sonhada; ele, o confinamento e o motor da engrenagem. Ele é parte ativa do código e, até aquele momento, alimentava toda a tragédia que se anunciava.

           A partir de certo momento, Abril Despedaçado indica que o círculo em que vivia os Breves está prestes a romper. A moenda da cana se interrompe com um dos bois caindo e não agüentando mais girar; Clara, a cuspidora de fogo, erra num número do circo, deixando em Salustiano a semente de uma brusca mudança a vir; a corda do balanço de Pacu e Tonho se rompe quando este “voava” sem medo e culpa. Tais acontecimentos preconizam o início da tragédia e o fim daquela guerra absurda que dilacerava todos. Salustiano resumiu o absurdo da vendeta: “Preferem acabar um com o outro a acabar com isso”. E o fim trágico chega com a chuva que inunda a noite no sertão. O sertão viraria mar, assim como anunciava a profecia?

          Por menos que o espectador queira, a morte anunciada por um código de honra soa irrevogável. Os Breves até tentam apaziguar o conflito, mas a resposta do outro lado é a promessa de mais sangue. “Sua vida está agora dividida em duas: os 20 anos que você já viveu e os poucos dias que lhe resta viver”. A tarja preta presa ao braço é o atestado de que a morte não tarda. Entre a morte e a alegria de viver um amor, Salles modifica o livro. Foge da inevitabilidade da rigidez dos códigos arcaicos e insere o elemento sacrificial, que se instala para romper com aquele ciclo infinito. O sacrifício fraterno liberta a possibilidade do amor carnal e, de certo forma, vence a morte pela própria morte, encerra o ciclo de violência sem fim, mesmo que se mostre cruel e libertadora naquele final de abril.