Dança,
música, teatro e poesia, sem contar os elementos vindos
do circo. Quem ainda não ouviu falar do popular Teatro
Mágico? Muitos o conhecem, talvez alguns não,
mas o fato é que é impossível fechar os
olhos para essa representação da cultura livre,
que cada vez mais contagia crianças, jovens e adultos.
Os pequenos se encantam com a trupe de palhaços que,
embalados por muita música, agita o palco; já
os jovens admiram o ar de contestação e as músicas
melódicas, enquanto os mais velhos prestam atenção
nas letras filosóficas. Mas, no fim, todos acabam fascinados.
O Teatro Mágico nasceu na cabeça de um
músico-filósofo chamado Fernando Anitelli, que
conseguiu colocar tudo em prática com a ajuda de muitos
amigos. O grupo veio, como o próprio Fernando relembra
a cada show, “do mundo mágico de Oz... Osasco”.
A idéia, desde o princípio, foi baseada em ideais
humanistas, próximas do cotidiano urbano da realidade
brasileira, e fez nascer um espetáculo que tem o intuito
de “recriar o antigo mundo circense no dia-a-dia do mundo
contemporâneo”, como atesta o grupo em seu site.
Site que desde o início foi a forma mais eficaz de divulgação
da trupe independente, que hoje conta mais de 50 mil pessoas
em diferentes comunidades do Orkut, 500 vídeos no Youtube,
um espaço livre para postagem de vídeos e mais
de 40 mil CDs vendidos, todos feitos artesanalmente e vendidos
por módicos R$ 5, isso porque todas as músicas
ficam disponíveis no site do grupo para quem quiser baixar.
“Entrada só para raros”, esse é o
convite de Teatro Mágico. Mas como se dizer
um grupo aberto a todos se só raros podem entrar? Anitelli
explica: “Eu não sou igual a você e você
não é igual a ninguém, somos todos seres
raros que temos, cada um, o nosso valor”. E dessa forma
o teatro consegue contagiar, encantar e fascinar as gerações.

A
poesia denominada “... de ontem em diante” se assemelha
a uma oração em dia de culto, todos sabem de cor
e declamam em bom tom junto com Fernando, o protagonista do
espetáculo: “De ontem em diante serei o que sou
no instante agora/ Onde ontem, hoje e amanhã são
a mesma coisa/ Sem a idéia ilusória de que o dia,
a noite e a madrugada são coisas distintas/ Separadas
pelo canto de um galo velho...”. O texto ainda prossegue
e termina aos berros de “Da luta não me retiro/
Me atiro do alto e que me atirem no peito/ Da luta não
me retiro.../ Todo dia de manhã é nostalgia das
besteiras que fizemos ontem”.
Uma
filosofia toda própria é exposta nos shows, mesclando
ainda maracatu com samba, hip hop, rock e canções
eruditas. O palco abriga músicos, dançarinos,
cantores, trapezistas e malabaristas, todos vestidos de clown.
Violões, guitarra, baixo, percussão, flauta transversa,
gaita, bateria, piano, pik ups e sons eletrônicos, todos
juntos, na mesma área, diversos mas harmônicos,
como o público de Teatro Mágico.
Onde
está a magia?
Mas,
enfim, qual é a magia desse grupo? Nas últimas
apresentações realizadas no Centro Cultural Vergueiro,
nem o show extra conseguiu atender a demanda do público,
que enfrentou cinco, seis, sete horas de fila. Com sol escaldante
em um dia e chuva leve no outro. Horas infindáveis para
alguns, mas para os fãs a espera passa rápido.
Nariz vermelho, rosto branco, coração na bochecha,
olhos e boca ressaltados com lápis preto, lágrimas
desenhadas com pintura, roupas coloridas, ursinho no braço,
pantufa nos pés, cabelo trançado, chapéu
diferente. Preparam-se para o show como se fossem os próprios
artistas. E ali, de fato, o são. Quebrar a barreira público-banda
é um dos objetivos da trupe. E parece mesmo que eles
conseguem. Sem o público o espetáculo não
seria o mesmo, ou até deixaria de existir. O sentir-se
pertencente ao grupo, mesmo sendo diferente, atrai.
Porém,
não é tão simples fazer com que uma multidão
participe efetivamente do show. Talvez essa seja a magia. Veja
bem, a beleza e a harmonia do grupo são grandes atrativos,
mas isso não existe apenas na trupe de Oz. O que os diferencia
são as idéias. Mas também não só
as idéias. A grande sacada foi encontrar um problema
que há muito se discute e apresentar uma proposta –
solução viva, que existe.
O
raciocínio pode parecer um pouco confuso, mas é
tudo bem simples! Na sua concepção o Teatro
Mágico sonhava em levar a música e a cultura
para todos, isso porque percebia, e ainda hoje percebe, na mídia
em geral, um produto sempre à venda. Dessa forma, compra
quem tem poder de comprar. Quem não tem, fica sem! O
capitalismo é assim, a economia é a base de tudo,
é o alicerce do prédio que sustenta todas as outras
áreas, inclusive a cultura.
Desde
o início o grupo investiu na contestação,
mas não só contestou com palavras, como muito
se faz, concretizou sua inconformidade com atos. Um detalhe
que chama a atenção no final do espetáculo
e mostra um pouco desses atos que aqui se fala: Anitelli, ao
se despedir, avisa que do lado de fora as pessoas podem comprar
camiseta, CD e DVD e então fala, em alto e bom tom, “quem
não tiver cinco reais pra comprar o nosso CD, pirateie!
É isso mesmo, pode fazer cópia do amigo, baixar
da internet. O Teatro Mágico quer chegar a todos,
não importa como”.

Talvez
esse seja o ponto. Durante o show Fernando critica a poderosa
emissora global, fala da máfia das rádios, na
qual só as músicas que pagam a “taxa”
podem entrar, censura diversos programas e diz acreditar que
os meios de comunicação podem fazer algo positivo.
Mas, até aí, nada de novidade. O novo está
mesmo presente nas ações. O incentivo à
pirataria do próprio trabalho é um ponto. O famoso
abraço suado é outro, depois de duas ou até
três horas de espetáculo intenso, o protagonista
anuncia que a trupe vai estar do lado de fora pra dar um abraço
suado e conversar com quem se interessar.
Isso
tudo sem falar do clima que se cria. É como se, ao entrar
no show, a platéia vivesse um outro mundo, quase como
um exorcismo da realidade. A sociedade prega o individualismo,
o Teatro Mágico te faz prestar atenção
em quem está do seu lado. O mundo defende a frieza, a
trupe te faz olhar nos olhos e dizer “só enquanto
eu respirar vou me lembrar de você”. As leis da
natureza defendem que os opostos se atraem, Anitelli consegue
provar que “os opostos se distraem, os dispostos se atraem”.
A vida parece nos encher de necessidades, mas “se tudo
que eu preciso se parece, por que é que não se
junta tudo numa coisa só?”. Todas idéias
e expressões familiares ao “público mágico”,
que já tem tudo na ponta da língua. Expressões
carregadas de símbolos, gravadas na memória e
tatuadas no coração de cada pessoa que por ali
passa.