La merde, a queda
Lucas Rodrigues Pires

         Foi só quando cheguei na casa de Suzana que percebi que tinha pisado na merda. Ao me sentar no sofá, cruzei as pernas; nesse instante senti um cheiro desagradável a me tocar o nariz. Olhei para o meu pé e lá estava ela – a merda – ocupando mais da metade da área livre do solado do meu tênis. Só podia ser de algum cachorro de madame que passeia pelas redondezas. Porra!!! Havia chegado àquela hora da rua com Suzana e não tinha percebido ainda.

         Suzana tinha ido para seu quarto vestir algo mais confortável. Por sorte, eu estava sozinho na sala quando tomei consciência da delicada situação em que me encontrava. Agora, já dentro da casa dela e plantado na sala, como fazer para tirar aquela substância asquerosa grudada embaixo do meu tênis sem que percebessem? Os pais de Suzana já estavam para chegar, pois tínhamos combinado de pedir uma pizza (era o dia em que conheceria os pais dela depois de quase dois meses de namoro).

         Decidi que não podia ficar na sala, pois o cheiro seria facilmente detectado quando alguém ali chegasse. O terraço, como se estivesse de braços abertos a mim, foi meu destino imediato. Ali eu teria a ajuda cúmplice do vento para despistar o indício maior do meu “crime”. Destino imediato só no pensamento porque, para minha desgraça, quando me direcionava para lá, Suzana adentrou a sala oriunda do quarto vindo em minha direção. Como eu já estava de pé, ela chegou me abraçando e beijando. Retribui com o gosto que sempre recebia um beijo seu, mas agora incomodado com o que tinha embaixo dos pés. Não deu tempo para um segundo beijo e percebi que ela deu uma fungada mais forte, torcendo o nariz logo em seguida. “Pronto, ela descobriu meu segredo”, pensei.

          “Lampião, não acredito que você fez coisa feia aqui na sala ao invés de usar o seu jornal! Não respeita nem as visitas!”, reclamou ela, voltando o rosto à procura do réu – o cachorro da família. O animal, em sua irracionalidade feliz, descansava sem preocupações no canto da sala, ao lado da poltrona preferida do pai de Suzana. Ao ouvir seu nome, Lampião, um beagle já velho e gordo como um nobre decadente oitocentista às vésperas da queda da Bastilha, nem ousou mexer o corpo esparramado do chão. Apenas suas orelhas se levantaram, e mesmo assim com certa dose de preguiça que só se vê nos gatos. Suzana sorriu para mim e largou minhas mãos. Desprendi-me do seu corpo e, enquanto ela se voltava a Lampião, corri para o terraço antes que ela desvendasse a verdadeira origem do mau cheiro (melhor seria dizer fedor).

        Estava aliviado que outrem levaria a culpa no meu lugar. O ideal seria que ninguém, a não ser eu, soubesse da situação, mas, dos males o pior, que Lampião levasse a culpa. Ele não saberia que estava sendo acusado, Suzana não saberia que culpava o bicho inocente e eu não passaria a vergonha de ser desmascarado na frente da menina que eu gostava e estava louco pra tirar a virgindade, sem falar nos pais dela que estavam para chegar. A ignorância liberta, como diria um amigo meu que detesta que não lhe contem as coisas.

         Suzana, então, foi à cozinha buscar um pedaço de jornal e a vassoura para recolher o suposto troço deixado pelo velho cão na sala. Nesse instante, já na sacada, tirei meu tênis e comecei a sacudi-lo no ar e depois a batê-lo contra a parede do prédio, como se aquilo pudesse ajudar em algum modo mais efetivo. A merda não saía, estava embrenhada nos sulcos do solado do tênis. Seria preciso um palito de sorvete ou algo do gênero para fazer um serviço que não deixasse pistas.

        Vi o vulto de Suzana passar pela porta da sala e imediatamente baixei meu tênis e sentei-me sem delongas numa das cadeiras que ali ficavam para seu pai se acomodar enquanto fumava um de seus charutos fedorentos. Alguns tocos ainda estavam sobre a mesa, num cinzeiro de algum motel cujo nome eu não conseguia identificar devido ao desgaste na superfície do objeto. Pensei em usar um deles para a tarefa ingrata de cavoucar o coco batido do meu tênis. Desisti da idéia.

        Na sala, ela não encontrava nada, nem o cheiro estava mais lá. “Lampião, Lampião, onde foi que você fez coco, querido?”, falava ela, enquanto procurava o dejeto pela sala. “Chico, você por acaso viu onde o Lampião fez o coco?”, ela se virou pra mim delicadamente, com a voz desamparada e carente. Prontamente respondi: “Su, você já procurou em tudo. Provavelmente o Lampião, quando você foi pra cozinha, comeu o próprio coco”. Diante da minha resposta imbecil, ela me olhou franzindo os olhos, como quem pergunta o que eu queria dizer com aquilo.

        “O falecido Bigão comia sua própria merda depois que fazia quando era pequeno”, eis a única coisa que me veio à cabeça dizer naquele momento delicado em que quase pus tudo a perder. “Pô, Chico, mas o Lampião é um velho ranzinza e preguiçoso, que só come ração”, respondeu ela. Sim, Lampião era um porra dum cachorro burguês que não fazia nada o dia inteiro e ainda recebia mil carinhos de todos – Suzana, a mãe dela, o irmão caçula. Menos o pai, que era um daqueles tipos formais nada chegados a animais e nem a brincadeiras. Não à toa que era eleitor ferrenho do Maluf (defendia o cara com unhas e dentes contra quem ousasse dizer que era ladrão e todas as coisas que se falam dele regularmente).

        Calei-me para não piorar minha situação. Naquele instante, deveria voltar minhas preocupações para o meu tênis todo cagado e não para as opções políticas do pai dela. Ele que se foda, o Maluf não ganha nunca mesmo. Voto perdido.

        “Desisto”, enfim ela resmungou, levantando-se de debaixo da mesa de jantar após cirúrgica inspeção. Levantou-se e foi para a cozinha guardar a vassoura.

        Foi ela virar as costas e eu já espancava o tênis na parede branca do prédio. Mesmo assim, a merda permanecia lá, grudada e pastosa como nunca. Peguei o tênis e esfreguei no capacho ao chão. Um rastro de merda ficou nele, mas esse estratagema só serviu para condensar ainda mais a substância na superfície da sola (soube, dias depois, que a empregada perguntou se o Lampião sabia limpar a bunda). O excesso eu havia tirado, faltava retirar a essência.

        Voltei com meu tênis para a sacada, local mais seguro e menos perigoso de cair alguma coisa dentro do apartamento. Como estava com certo nojo e medo de me sujar (cuidado nunca é pouco) – vai que algum pedaço dela respingasse na minha mão –, afrouxei os dedos e, no que o bati contra a parede, numa derradeira tentativa desesperada de salvar minha reputação frente a Suzana, senti-o se desprender de minha mão, como se adquirisse vontade própria para de meus dedos se desgarrar. Ele foi caindo lentamente do sexto andar daquele luxuoso prédio dos Jardins. Se fosse um filme aquilo, o diretor faria uma montagem paralela do meu rosto em absorto terror com o tênis, cagado, caindo em câmera lenta, como se fosse uma pluma levada pelo vento.

        Claro que alguns truques de efeitos especiais, ao melhor estilo Matrix, poderiam ser utilizados para explorar a queda (que também era a queda da minha honra) daquele calçado, cagado. Algo do tipo a câmera girar 360o no ar mostrando meu tênis de todos os ângulos e, na tela, percebermos o rastro da trajetória de meu tênis manchado no espaço. Mas como aquilo era a realidade, o tênis caiu sem rodeios, numa queda retilínea e uniforme. Seu encontro com o chão foi a minha extrema-unção.

       Estava tão atordoado que nem percebi quando Suzana entrou no terraço. “Que foi, amor? Que que você está olhando lá pra baixo?”, perguntou-me ela, toda amorosa. Tomei um susto com o toque de seus dedos em mim. Definitivamente, Suzana era a última pessoa que queria ao meu lado naquele instante. E, como não há nada tão ruim que não pode piorar, era com ela que aquilo tudo estava me acontecendo (muitas vezes, sinto que a Lei de Murphy é mais exata que a de Newton).

        Como explicar para ela, garota inteligente e que, mesmo com poucos meses de namoro, já me conhecia o suficiente para saber quando estava escondendo algo, que meu tênis, que idealmente deveria estar no meu pé, descansava agora no playground do prédio dela?

        “Ah, Su, você não vai acreditar, mas deixei meu tênis cair lá em baixo”, respondi com um sorriso sem graça no rosto e voz autopiedosa.

        (Quando você estiver numa situação como esta, se faça de bobo, não demonstre vergonha e aja naturalmente, rindo e se auto-ironizando. Outra alternativa é questionar, de preferência assuntos que levem a conversa para outro lado, deixando em segundo plano o papo original. Seu interlocutor não vai questionar muito e você poderá sair ileso da ocasião. Claro que, muitas vezes, isso não dá certo).

        Ela me olhou como quem olha para um filhote de cão, com aquela voracidade para acariciar e pegar no colo. “Você não tem jeito, você e sua mania de tirar o sapato em tudo quanto é lugar”, decretou ela, ao que não repliquei e deixei que as explicações cessassem. “Vamos buscá-lo”, continuou Suzana, me encarando não mais com piedade, mas sim com um rosto sapeca. Em seguida, umedeceu os lábios com a língua, insinuando um desejo que lhe brotara naquele instante. Percebi o que ela pensava, nem precisava de muito raciocínio para entender que ela queria aproveitar a deixa para, no elevador, explorarmos a intimidade um do outro.

        Eu estava descalço de um pé, só com a meia branca que minha mãe comprara numa promoção de seis pares por 10 reais. Queria a todo custo manter a meia limpa, afinal, já basta um pé de tênis sujo de merda, não precisava arriscar a meia também. Com todo cuidado, tomei a dianteira e caminhei apressado para o playground, a fim de poder encontrar o dito cujo antes que ela pudesse perceber o que havia grudado em sua sola.

        Chegando no playground, vi crianças brincando por ali e nem sinal do meu tênis. De onde o tinha visto lá de cima ele não mais se encontrava. Suzana chegou e começou a procurar também. “Porra, e agora, e se ela achar a merda (literal) do tênis antes de mim?”, pensei. Nessa hora, já não sabia se procurava o tênis ou se vigiava Suzana para que ela não o encontrasse. Foi quando um garoto de uns oito anos, morador do andar de cima de Suzana, apareceu do meio de uns arbustos com meu tênis na mão. Paralisei, mais ainda quando o vi vindo em nossa direção com um riso guardado no rosto. “Ah, Paulinho, você achou o tênis do Chico!”, exclamou Suzana. Paulinho, que eu não conhecia mas já detestava, chegou perto e disse:

        “Ah, Suzana, seu namorado deixou o tênis cair porque pisou na merda!”. Imediatamente avancei sobre ele para recuperar o que me pertencia, mas também para fugir do vexame do olhar zombador de Suzana que, com certeza, já se voltava para mim. O garoto soltou o tênis e saiu correndo, saltando e rindo uma gargalhada gostosa de dar inveja. Ainda gritava “o Chico pisou na bosta, o Chico pisou na bosta, lá lá lá lá lá lá!”.

        Foi só quando peguei o tênis que percebi que Suzana ria como uma garotinha, como se fosse um dos amiguinhos cúmplices do garoto. Com o tênis em riste, fui limpá-lo na grama do jardim sem demora, agora que minha reputação estava escancarada a todos e eu, Chicão, desmoralizado perante Suzana. Ela apenas ria e me olhava como quem tinha aprontado uma travessura bem-sucedida.

        Ao fundo, pude ver os pais de Suzana já dentro do prédio e vindo em nossa direção.