A bola da vez
Martinho Junior

          Deixa que a minha mão errante adentre / Atrás, na frente / Em cima, embaixo, entre / Minha América, minha terra à vista / Reino de paz se um homem só a conquista / Minha mina preciosa, meu império / Feliz de quem penetre o teu mistério / Liberto-me ficando teu escravo / Onde cai minha mão / Meu selo gravo / Nudez total / Todo prazer provêm de um corpo / (como a alma sem corpo) sem vestes / Como encadernação vistosa / Feita para iletrados / A mulher se enfeita / Mas ela é um livro místico / E somente a alguns a que tal graça se consente / É dado lê-la. Eu sou um que sabe. Um, um

Augusto de Campos / Péricles Cavalcanti

           Vigiado pelos olhos da câmera de segurança, Fortunato encaçapa outra bola, uma amarela; agora lhe restam poucas. Embora tenha amigos ao seu redor, ele costuma jogar bola 8 sozinho. Seu olhar lá longe, nem percebe as risadas insistentes à beira da depravação de seus companheiros. Para sua atenção basta a bola da vez, a vermelha listrada. Fixamente, como um jaguar, mira na vermelha e pronto, mais uma tacada. Dessa vez não na caçapa, mas a deixou em situação muito boa, provavelmente vai matá-la na próxima tacada. Já é bem tarde, Fortunato tem os olhos avermelhados. Também pudera, não dormiu, trabalhou a noite toda em um evento – sobre tintas industriais para navio, sua composição química –, de manhã arrumou a casa e, à noite, óbvio, snooker

         Quem sempre toma conta às segundas-feiras do local é a filha do dono, Lizavieta, uma loura muito simpática que sempre recepciona seus clientes com um sorriso gratuito e atraente. Apesar do nome, a família não era russa, nem de nenhum lugar do leste Europeu. Seu pai, Salomão, tinha escolhido este nome para a filha, pois o achava muito bonito, “forte e meigo”, dizia ele. Foi em uma conversa com um amigo que adorava literatura russa; este amigo falou o nome de uma personagem e, subitamente, Salomão gostou e gravou o nome na memória. Lizavieta. De fato, o Z vindo em seguida do LI do nome é bem cortante e contrasta com o VIETA, que flui rápido em uma forma côncava.

        “Plict-Plat-Plô!!”, mais uma para a caçapa, mas não aquela vermelha que continua em situação ímpar, qualquer sopro a faz entrar. Espertamente ele tenta uma tacada audaciosa e, de chofre, põe a azul, distante de estar fácil, para a caçapa. Utilizando-se da bola adversária, primeiramente ele atinge sua bola para que esta ataque a adversária, finalmente acertando a recôndita azul. Fortunato já podia ser considerado um bom jogador, mesmo que a primeira vez naquele local tenha sido por acaso. Gostou, impulsionado por poder contemplar Zavi – um jeito secreto de chamá-la, numa intimidade utópica que ele gostava de cultivar – à distância (não era à toa que ele freqüentava o local às segundas-feiras).

        Eles se conheciam, mas as trocas de palavras são abundantemente simplórias. Nada contra, mas isso incomodava Fortunato em demasia. Às vezes, banhado de coragem, ele falava algo: “Olá, Lazivieta, hoje é você no comando?”. “É”, ela retrucava, “como todas as segundas”. E logo o papo se perdia no ar: “Bom, vou para a mesa”, “Bom jogo, Fortunato”. Nesta noite quase não foi diferente, salvo pelo comentário de Fortunato: “Seus cabelos estão diferentes, mais curtos”, “Ah, você gostou? Cortei um pouco, escureci um tanto, repiquei na frente e fiz escova”. Não preciso falar que Fortunato não percebeu nem um terço dessas mudanças, mas adorou o jeito simpático com a qual ela tinha lhe respondido.

        A câmera de segurança é moderníssima. Controlada pelo computador, gira 360º na vertical e na horizontal para garantir a segurança do estabelecimento, mas vigiava apenas Fortunato naquela noite.

        “Plat!”, direto para a caçapa, a última bola, a preta 8. Fim de partida e os amigos de Fortunato comunicam que vão embora, pois querem dar conta da saideira antes de se despedirem da segunda-feira. “Vou continuar um pouco mais”, diz baixo, quase moribundo, Fortunato. Sabendo que era prática comum do amigo, eles não ligam muito, embora um ou dois acenem vãs tentativas convidando-o mais uma vez. Cerca de dez minutos depois, a mesa era sua integralmente. Triângulo na mesa, disposição completa mais uma vez, uma nova partida solitária inicia-se.

        “Piqli!”, tacada inicial! Pouca coisa se mexe na mesa, três bolas à direita e uma à esquerda, péssimo começo. Mas, como está sozinho, quem comanda, faz as regras e improvisa novas no decorrer do jogo quando achar necessário é ele mesmo, de modo que pega o triângulo e dá novo início a uma nova partida. “Tóh!”, “assim sim”, ele pensa aliviado, quase tudo mexeu ficando em posição de ataque. Ele para diante da mesa e fica por volta de um minuto analisando as possibilidades.

         Quando podia (como era o caso nesta noite), sempre escolhia uma mesa azul. Achava a combinação perfeita, ficava imaginando as bolas que percorriam a mesa como um cosmo, com seus buracos negros, estrelas, galáxias etc. Mas isso só era possível na mesa azul; uma verde ou vermelha não lhe davam essa sensação. Além do mais, o azul lhe dava sorte, dificilmente perde uma na mesa azul, vira jogos perdidos com extrema facilidade, sua confiança aumenta e a dos adversários diminui, todos viram uma presa fácil nessas condições.

        Ainda analisando suas jogadas virtuais, quase decidido a tapear com o taco a bola 15, pensando em uma rápida tabela para alcançar o objetivo ele percebe que Lizavieta passa pela mesa. Até então tinha frisado apenas o cabelo que lhe estava particularmente bonito naquela noite. Mas, ao vê-la caminhando, a silhueta coberta com um vestido florido, parecia que a qualquer momento o vento iria carregá-la como um dente-de-leão, com um sopro sem força modelando o corpo. Pouco se sabe sobre Lizavieta, praticamente tudo que sabemos foi Salomão que contou, sempre em tom de piada. Na verdade não se pode acreditar muito nele, não se tem como perceber onde termina a piada e onde começa uma possível seriedade. Assim, por exemplo, não sabemos se seu namoro de oito anos com um vendedor de pasta de dentes é verdade ou não, pois Salomão sempre terminava com uma piada sobre vendedores, pondo em xeque tudo que havia dito. Dizia-se que foi um namoro muito pesado, com brigas e birras, mas que mesmo assim quase se casaram; as más línguas logo apelidaram de mulher de malandro.

         Fortunato não acreditava nessa história, não que ela não tenha namorado com um vendedor de pasta de dentes, mas toda essa história de violência mútua lhe parecia mais papo de quem não quer cuidar de suas próprias feridas. Então, ele tinha uma Lizavieta específica, quase de verdade. Ela, que tinha ido buscar ou arrumar alguma coisa no fundo do bar, quando retorna fica imóvel muito próxima à mesa de Fortunato, na verdade a dois passos. Simplesmente para ver qual será a próxima jogada de seu cliente. Ele sente a presença de Lizavieta e, com medo, a olha de soslaio. Ela responde com um gesto e com um pequeno sorriso, como quem procura dizer: “Jogue, quero vê-lo atuar com meus próprios olhos”. Ele virou a cabeça em direção de sua galáxia, que ainda estava completa, e procurou esquecer que Lizavieta estava bem ao seu lado, olhando para ele e esperando sua jogada. Era uma situação muito importante para Fortunato, não que ele devesse acertar ou criar uma jogada maravilhosamente bonita, mas queria conversar com Zavi, queria tocar-lhe as mãos e o rosto, mas no momento só tinha aflição.

         Aquela impressão floral que o vestido tinha lhe dado, conjugado com aquela parada inesperada, deixou-lhe com o sangue fervendo, o que resultou no enrubescimento de seu rosto e no repentino gelar de suas mãos e nuca. Esforçando-se para que ela não percebesse como ele se sentia incomodado por não saber o que fazer perto dela, partiu para a jogada, não aquela que vinha pensando, mas uma improvisada – certamente nem sabia mais, era uma jogada qualquer, sem pensar. “Flih!”, a tacada sai espanada. É o suficiente para Lizavieta perguntar: “Poxa, errou só porque estou aqui?”. Uma pergunta-comentário que lhe gelou a espinha. Sem que mirasse seus olhos, Fortunato passa alguns segundos olhando a bela jogada e não sabe bem o que responder, mesmo assim conclui: “Costumo errar quando jogo desatento”.

         Lizavieta parece que ficou chateada com a resposta, sai mansinho procurando pequenas sujeiras pelo chão, sem mais trocar palavras ou olhares com Fortunato. Pouco tempo depois volta ao computador, à câmera de segurança. Enquanto isso Fortunato continua o jogo, bem que não executara mais nenhuma jogada depois que Zavi tinha deixado a mesa. Ele fica insistentemente pensando: “depois não reclama, seu trouxa!”. O jogo pouco rende, logo demora muito mais, Lizavieta percebe lá da câmera a situação embaraçosa de Fortunato.

         Sempre segundo Salomão, Lizavieta gostava muito de se dedicar uma vez por semana ao negócio do pai, e realmente era o que transparecia; sua simplicidade e sua disponibilidade eram latentes. Não era raro, por conta disso muito provavelmente, que muitos fregueses, uns de longa data, viviam de conversa mole, muitas vezes ofensivas que trafegavam entre um “como vai essa boneca” ou “ainda chupo esses peitinhos”. Quando aconteciam comentários como este último, ela ficava particularmente irritada, não somente por este estupro verbal ser inaceitável, mas sabia que seus esforços eram em vão. Pois, tendo seios pequenininhos, animava-se em disfarçar com roupas e equipamentos próprios para isso. Esse pequeno detalhe, que não tira em nada, nem mesmo 0,5% de sua beleza e simpatia, incomodava-lhe terrivelmente a ponto de doer mais o fato de terem percebido o tamanho de seus seios do que a ofensa verbal.

         Por conta dessas histórias, Fortunato presumiu que a melhor coisa a se fazer era não tentar uma aproximação, pois ela já estava cansada dessas investidas infundadas. “Acontece”, completava seu pensamento, “que qual mulher não está inundada de investidas”. Era um paradoxo que ele não sabia resolver e, se se prostrasse mais nessa questão, logo desistiria de todo tipo de conversa com intenções mais que amigáveis com qualquer mulher.

         Fortunato não é do tipo que costuma contabilizar o número de mulheres com que se relaciona. Não que não quisesse, mas achava-se incapaz disto. Suas conversas, quase sempre, resultavam em nada. É bem verdade que nunca teve muito tino com as mulheres. Em compensação, não tinha mulheres por um dia, seus relacionamentos foram mais duradouros, ele se confortava acreditando que se conquista para sempre e não para um dia, mas no fundo sentia falta de aventuras que eram contadas com furor e entusiasmo por seus amigos.

         Ele tinha se levantado duas vezes e voltado a se sentar perto da janela. Não parecia mais animado com sua galáxia e começava a duvidar da sorte cósmica que rondava aquela mesa. Zavi, que o acompanhava pelas lentes distorcidas e p&b da câmera, decide ir à galáxia. Atitudes como esta são louváveis na mulher, que tanto procura seu espaço, mas não percebe que é tão analfabeta quanto o homem quando se trata de sentimentos ou relacionamentos. Entender um ao outro é questão de sobrevivência, o corpo que pulsa, mas que não apenas pulsa; o corpo das imagens que fantasia, chora, sonha e não se entende. Ela se aproxima, mas parece ser bem tímida, não sabe o que dizer, lança então: “Você não quer beber nada, Fortunato? Parece chateado. Não quero que se chateie com minha inconveniência, não quis atrapalhar o seu jogo. Averiguando a casa pelo sistema de segurança, não pude deixar de ver que está cabisbaixo desde aquela sua tacada que espanou”.

         Atônito, Fortunato encara Lizavieta. Ele não esperava algo deste naipe. Primeiramente sente-se constrangido: “Oi Lizavieta, não a vi chegando, mas posso subitamente responder que você está longe de me atrapalhar em algo”. Ele tinha em mente o fato de comparecer exclusivamente por causa dela, mas não tinha coragem de admitir. Ficou um clima desértico, ninguém mais trocou palavras, a mesma sensação de antes da tacada invadiu Fortunato mais uma vez. Lizavieta insistiu novamente: “Poderíamos conversar mais de vez em quando”. Há coisas que não se pode explicar, cada um tem sua ontogenia que determina seu modo de pensar e agir. Claro que tem outras coisas no caminho, mas isso é outro assunto que conto oportunamente sobre Fortunato.

         Acontece que, depois de ver Lizavieta tentar tomar conta da situação – certamente cansada de esperar ações por parte dele –, ele murchou. Entretanto, ela não o pegou pelo colarinho e disse: “Vem, me beija!”, queria apenas conversar, e se lembrarmos era o que ele tinha medo. Como disse, há coisas que não se pode nem tentar explicar. Então, Fortunato simplesmente não troca mais palavras ou olhares com Zavi, concentra-se de novo em sua galáxia, fixamente, como um jaguar. Trinta segundos depois: “Plôt”, uma encaçapada direta de ponta a ponta, numa bola bem difícil. Lizavieta continuou ali imóvel mais umas três jogadas, depois retornou ao seu posto; e por mais três jogadas a câmera de segurança também fixou os olhos em Fortunato, tudo em vão.

         Só existia ele e a mesa azul e algumas bolas que em pouco tempo sumiram também. O jogo acabou, Fortunato, com cara fechada, pagou sua conta, deu um tchau seco a Lizavieta e foi embora. Desde então, não há notícias de que ele voltou ao estabelecimento, ao menos não de segunda.