Vigiado
pelos
olhos da câmera de segurança, Fortunato encaçapa
outra bola, uma amarela; agora lhe restam poucas. Embora tenha
amigos ao seu redor, ele costuma jogar bola 8 sozinho. Seu olhar
lá longe, nem percebe as risadas insistentes à
beira da depravação de seus companheiros. Para
sua atenção basta a bola da vez, a vermelha listrada.
Fixamente, como um jaguar, mira na vermelha e pronto, mais uma
tacada. Dessa vez não na caçapa, mas a deixou
em situação muito boa, provavelmente vai matá-la
na próxima tacada. Já é bem tarde, Fortunato
tem os olhos avermelhados. Também pudera, não
dormiu, trabalhou a noite toda em um evento – sobre tintas
industriais para navio, sua composição química
–, de manhã arrumou a casa e, à noite, óbvio,
snooker
Quem sempre toma conta às segundas-feiras do local é
a filha do dono, Lizavieta, uma loura muito simpática
que sempre recepciona seus clientes com um sorriso gratuito
e atraente. Apesar do nome, a família não era
russa, nem de nenhum lugar do leste Europeu. Seu pai, Salomão,
tinha escolhido este nome para a filha, pois o achava muito
bonito, “forte e meigo”, dizia ele. Foi em uma conversa
com um amigo que adorava literatura russa; este amigo falou
o nome de uma personagem e, subitamente, Salomão gostou
e gravou o nome na memória. Lizavieta. De fato, o Z vindo
em seguida do LI do nome é bem cortante e contrasta com
o VIETA, que flui rápido em uma forma côncava.
“Plict-Plat-Plô!!”, mais uma para a caçapa,
mas não aquela vermelha que continua em situação
ímpar, qualquer sopro a faz entrar. Espertamente ele
tenta uma tacada audaciosa e, de chofre, põe a azul,
distante de estar fácil, para a caçapa. Utilizando-se
da bola adversária, primeiramente ele atinge sua bola
para que esta ataque a adversária, finalmente acertando
a recôndita azul. Fortunato já podia ser considerado
um bom jogador, mesmo que a primeira vez naquele local tenha
sido por acaso. Gostou, impulsionado por poder contemplar Zavi
– um jeito secreto de chamá-la, numa intimidade
utópica que ele gostava de cultivar – à
distância (não era à toa que ele freqüentava
o local às segundas-feiras).

Eles se conheciam, mas as trocas de palavras são abundantemente
simplórias. Nada contra, mas isso incomodava Fortunato
em demasia. Às vezes, banhado de coragem, ele falava
algo: “Olá, Lazivieta, hoje é você
no comando?”. “É”, ela retrucava, “como
todas as segundas”. E logo o papo se perdia no ar: “Bom,
vou para a mesa”, “Bom jogo, Fortunato”. Nesta
noite quase não foi diferente, salvo pelo comentário
de Fortunato: “Seus cabelos estão diferentes, mais
curtos”, “Ah, você gostou? Cortei um pouco,
escureci um tanto, repiquei na frente e fiz escova”. Não
preciso falar que Fortunato não percebeu nem um terço
dessas mudanças, mas adorou o jeito simpático
com a qual ela tinha lhe respondido.
A câmera de segurança é moderníssima.
Controlada pelo computador, gira 360º na vertical e na
horizontal para garantir a segurança do estabelecimento,
mas vigiava apenas Fortunato naquela noite.
“Plat!”, direto para a caçapa, a última
bola, a preta 8. Fim de partida e os amigos de Fortunato comunicam
que vão embora, pois querem dar conta da saideira antes
de se despedirem da segunda-feira. “Vou continuar um pouco
mais”, diz baixo, quase moribundo, Fortunato. Sabendo
que era prática comum do amigo, eles não ligam
muito, embora um ou dois acenem vãs tentativas convidando-o
mais uma vez. Cerca de dez minutos depois, a mesa era sua integralmente.
Triângulo na mesa, disposição completa mais
uma vez, uma nova partida solitária inicia-se.
“Piqli!”, tacada inicial! Pouca coisa se mexe na
mesa, três bolas à direita e uma à esquerda,
péssimo começo. Mas, como está sozinho,
quem comanda, faz as regras e improvisa novas no decorrer do
jogo quando achar necessário é ele mesmo, de modo
que pega o triângulo e dá novo início a
uma nova partida. “Tóh!”, “assim sim”,
ele pensa aliviado, quase tudo mexeu ficando em posição
de ataque. Ele para diante da mesa e fica por volta de um minuto
analisando as possibilidades.
Quando podia (como era o caso nesta noite), sempre escolhia
uma mesa azul. Achava a combinação perfeita, ficava
imaginando as bolas que percorriam a mesa como um cosmo, com
seus buracos negros, estrelas, galáxias etc. Mas isso
só era possível na mesa azul; uma verde ou vermelha
não lhe davam essa sensação. Além
do mais, o azul lhe dava sorte, dificilmente perde uma na mesa
azul, vira jogos perdidos com extrema facilidade, sua confiança
aumenta e a dos adversários diminui, todos viram uma
presa fácil nessas condições.
Ainda analisando suas jogadas virtuais, quase decidido a tapear
com o taco a bola 15, pensando em uma rápida tabela para
alcançar o objetivo ele percebe que Lizavieta passa pela
mesa. Até então tinha frisado apenas o cabelo
que lhe estava particularmente bonito naquela noite. Mas, ao
vê-la caminhando, a silhueta coberta com um vestido florido,
parecia que a qualquer momento o vento iria carregá-la
como um dente-de-leão, com um sopro sem força
modelando o corpo. Pouco se sabe sobre Lizavieta, praticamente
tudo que sabemos foi Salomão que contou, sempre em tom
de piada. Na verdade não se pode acreditar muito nele,
não se tem como perceber onde termina a piada e onde
começa uma possível seriedade. Assim, por exemplo,
não sabemos se seu namoro de oito anos com um vendedor
de pasta de dentes é verdade ou não, pois Salomão
sempre terminava com uma piada sobre vendedores, pondo em xeque
tudo que havia dito. Dizia-se que foi um namoro muito pesado,
com brigas e birras, mas que mesmo assim quase se casaram; as
más línguas logo apelidaram de mulher de malandro.
Fortunato não acreditava nessa história, não
que ela não tenha namorado com um vendedor de pasta de
dentes, mas toda essa história de violência mútua
lhe parecia mais papo de quem não quer cuidar de suas
próprias feridas. Então, ele tinha uma Lizavieta
específica, quase de verdade. Ela, que tinha ido buscar
ou arrumar alguma coisa no fundo do bar, quando retorna fica
imóvel muito próxima à mesa de Fortunato,
na verdade a dois passos. Simplesmente para ver qual será
a próxima jogada de seu cliente. Ele sente a presença
de Lizavieta e, com medo, a olha de soslaio. Ela responde com
um gesto e com um pequeno sorriso, como quem procura dizer:
“Jogue, quero vê-lo atuar com meus próprios
olhos”. Ele virou a cabeça em direção
de sua galáxia, que ainda estava completa, e procurou
esquecer que Lizavieta estava bem ao seu lado, olhando para
ele e esperando sua jogada. Era uma situação muito
importante para Fortunato, não que ele devesse acertar
ou criar uma jogada maravilhosamente bonita, mas queria conversar
com Zavi, queria tocar-lhe as mãos e o rosto, mas no
momento só tinha aflição.
Aquela impressão floral que o vestido tinha lhe dado,
conjugado com aquela parada inesperada, deixou-lhe com o sangue
fervendo, o que resultou no enrubescimento de seu rosto e no
repentino gelar de suas mãos e nuca. Esforçando-se
para que ela não percebesse como ele se sentia incomodado
por não saber o que fazer perto dela, partiu para a jogada,
não aquela que vinha pensando, mas uma improvisada –
certamente nem sabia mais, era uma jogada qualquer, sem pensar.
“Flih!”, a tacada sai espanada. É o suficiente
para Lizavieta perguntar: “Poxa, errou só porque
estou aqui?”. Uma pergunta-comentário que lhe gelou
a espinha. Sem que mirasse seus olhos, Fortunato passa alguns
segundos olhando a bela jogada e não sabe bem o que responder,
mesmo assim conclui: “Costumo errar quando jogo desatento”.
Lizavieta parece que ficou chateada com a resposta, sai mansinho
procurando pequenas sujeiras pelo chão, sem mais trocar
palavras ou olhares com Fortunato. Pouco tempo depois volta
ao computador, à câmera de segurança. Enquanto
isso Fortunato continua o jogo, bem que não executara
mais nenhuma jogada depois que Zavi tinha deixado a mesa. Ele
fica insistentemente pensando: “depois não reclama,
seu trouxa!”. O jogo pouco rende, logo demora muito mais,
Lizavieta percebe lá da câmera a situação
embaraçosa de Fortunato.
Sempre segundo Salomão, Lizavieta gostava muito de se
dedicar uma vez por semana ao negócio do pai, e realmente
era o que transparecia; sua simplicidade e sua disponibilidade
eram latentes. Não era raro, por conta disso muito provavelmente,
que muitos fregueses, uns de longa data, viviam de conversa
mole, muitas vezes ofensivas que trafegavam entre um “como
vai essa boneca” ou “ainda chupo esses peitinhos”.
Quando aconteciam comentários como este último,
ela ficava particularmente irritada, não somente por
este estupro verbal ser inaceitável, mas sabia que seus
esforços eram em vão. Pois, tendo seios pequenininhos,
animava-se em disfarçar com roupas e equipamentos próprios
para isso. Esse pequeno detalhe, que não tira em nada,
nem mesmo 0,5% de sua beleza e simpatia, incomodava-lhe terrivelmente
a ponto de doer mais o fato de terem percebido o tamanho de
seus seios do que a ofensa verbal.
Por conta dessas histórias, Fortunato presumiu que a
melhor coisa a se fazer era não tentar uma aproximação,
pois ela já estava cansada dessas investidas infundadas.
“Acontece”, completava seu pensamento, “que
qual mulher não está inundada de investidas”.
Era um paradoxo que ele não sabia resolver e, se se prostrasse
mais nessa questão, logo desistiria de todo tipo de conversa
com intenções mais que amigáveis com qualquer
mulher.
Fortunato não é do tipo que costuma contabilizar
o número de mulheres com que se relaciona. Não
que não quisesse, mas achava-se incapaz disto. Suas conversas,
quase sempre, resultavam em nada. É bem verdade que nunca
teve muito tino com as mulheres. Em compensação,
não tinha mulheres por um dia, seus relacionamentos foram
mais duradouros, ele se confortava acreditando que se conquista
para sempre e não para um dia, mas no fundo sentia falta
de aventuras que eram contadas com furor e entusiasmo por seus
amigos.
Ele tinha se levantado duas vezes e voltado a se sentar perto
da janela. Não parecia mais animado com sua galáxia
e começava a duvidar da sorte cósmica que rondava
aquela mesa. Zavi, que o acompanhava pelas lentes distorcidas
e p&b da câmera, decide ir à galáxia.
Atitudes como esta são louváveis na mulher, que
tanto procura seu espaço, mas não percebe que
é tão analfabeta quanto o homem quando se trata
de sentimentos ou relacionamentos. Entender um ao outro é
questão de sobrevivência, o corpo que pulsa, mas
que não apenas pulsa; o corpo das imagens que fantasia,
chora, sonha e não se entende. Ela se aproxima, mas parece
ser bem tímida, não sabe o que dizer, lança
então: “Você não quer beber nada,
Fortunato? Parece chateado. Não quero que se chateie
com minha inconveniência, não quis atrapalhar o
seu jogo. Averiguando a casa pelo sistema de segurança,
não pude deixar de ver que está cabisbaixo desde
aquela sua tacada que espanou”.

Atônito, Fortunato encara Lizavieta. Ele não esperava
algo deste naipe. Primeiramente sente-se constrangido: “Oi
Lizavieta, não a vi chegando, mas posso subitamente responder
que você está longe de me atrapalhar em algo”.
Ele tinha em mente o fato de comparecer exclusivamente por causa
dela, mas não tinha coragem de admitir. Ficou um clima
desértico, ninguém mais trocou palavras, a mesma
sensação de antes da tacada invadiu Fortunato
mais uma vez. Lizavieta insistiu novamente: “Poderíamos
conversar mais de vez em quando”. Há coisas que
não se pode explicar, cada um tem sua ontogenia que determina
seu modo de pensar e agir. Claro que tem outras coisas no caminho,
mas isso é outro assunto que conto oportunamente sobre
Fortunato.
Acontece que, depois de ver Lizavieta tentar tomar conta da
situação – certamente cansada de esperar
ações por parte dele –, ele murchou. Entretanto,
ela não o pegou pelo colarinho e disse: “Vem, me
beija!”, queria apenas conversar, e se lembrarmos era
o que ele tinha medo. Como disse, há coisas que não
se pode nem tentar explicar. Então, Fortunato simplesmente
não troca mais palavras ou olhares com Zavi, concentra-se
de novo em sua galáxia, fixamente, como um jaguar. Trinta
segundos depois: “Plôt”, uma encaçapada
direta de ponta a ponta, numa bola bem difícil. Lizavieta
continuou ali imóvel mais umas três jogadas, depois
retornou ao seu posto; e por mais três jogadas a câmera
de segurança também fixou os olhos em Fortunato,
tudo em vão.
Só existia ele e a mesa azul e algumas bolas que em pouco
tempo sumiram também. O jogo acabou, Fortunato, com cara
fechada, pagou sua conta, deu um tchau seco a Lizavieta e foi
embora. Desde então, não há notícias
de que ele voltou ao estabelecimento, ao menos não de
segunda.