O fascínio dos cowboys
Lucas Rodrigues Pires

         Se há gêneros cinematográficos para os quais os intelectuais torcem o nariz, um deles com certeza é o western, ou faroeste. Intelectual que é intelectual gosta de filme francês, se arrisca nos europeus e asiáticos independentes, mas os críticos mais recentes são avessos ao velho e bom faroeste. No centenário de nascimento de John Wayne, o cowboy dos cowboys, é preciso rever esse gênero que parece estar esgotado e rejeitado pelas massas. Não há mais espaço para os velhos vaqueiros, com pistola na cintura e se desafiando até a morte por uma moral ou para que a justiça prevaleça. Foram-se os personagens idealistas de James Stewart, como o Ransom Stoddard de O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA ou Will Lockhart de UM CERTO CAPITÃO LOCKHART; adeus às broncas, machistas e preconceituosas figuras interpretadas por John Wayne, como o Ethan Edwards de RASTROS DE ÓDIO e o Thomas Dunson de RIO VERMELHO. Em seus lugares tomaram corpo homens que viajam no tempo ou entre galáxias, armas a laser e com poderio de destruição total, tecnologias que fazem de tudo e mais um pouco aliada a personagens capazes de tudo, mais um pouco e mais um pouco ainda, como a nova roupagem de 007 e o agente de Missão: Impossível. Saem de cena os cavalos e as charretes, que deixam rastro de poeira, e invadem as telas as naves que viajam na velocidade da luz e que nem sinal de rastro deixam para trás. O mundo evoluiu rapidamente e substituiu o velho vaqueiro do século 19 do velho Oeste americano pelo cowboy hi tech do século 21. Não à toa o velho Clint Eastwood chamou um de seus filmes mais recentes de Cowboys do Espaço. Se antes as pessoas queriam ser John Wayne ou James Stewart pelo que representam na tela, hoje se aproximam e se identificam mais com Neo, Skywalker, Jack Bauer ou outras figuras heróicas que estão a salvar e ao mesmo tempo a destruir o mundo, tanto no cinema quanto na televisão.

         O faroeste no cinema hoje sobrevive como lenda, como lembrança de um tempo em que as coisas eram mais simples, desde as ruas de terra e as cidades – que se resumiam basicamente a um hotel, um saloon, a uma delegacia e uma igreja, com casas entre eles – aos meios de transporte (cavalos), de comunicação (basicamente um mensageiro a cavalo, pois o tempo dos grandes faroestes combina com o nascimento do telégrafo) e meios de se resolver um problema. A lei era o grande centro do faroeste, era em torno dela que os conflitos nasciam e se desenvolviam. Numa terra dita sem lei, era a tentativa de sua imposição que gerava os conflitos, e era nisso que residia o charme do faroeste – a lei não era cumprida ou alguém se achava acima dela e um personagem resolvia colocar ordem onde não havia até então. Era um tempo sem lei, mas não sem honra ou moral. Era um tempo em que a arma era a extensão do poder fálico do homem, mas mesmo assim era usada apenas no final (quando se tratava do mocinho), depois de esgotadas as demais alternativas e quando apenas o que restava eram os corpos em choque. O estopim era o clímax do filme, o duelo entre titãs, entre duas figuras míticas para ver quem era o mais rápido na complexa manobra de “sacar” e atirar, manobra cujo milésimo de segundo separava aquele que triunfaria daquele que morreria.

         Mesmo diante de um cenário em que as armas eram a lei, não deixa de ser saudosismo pensar no faroeste como um tempo de fato mítico, criado pelo cinema em torno da construção e ocupação de uma nação. Se Martin Scorsese fez sua versão urbana do nascimento da Nova York violenta de hoje em Gangues de Nova York, o faroeste não deixa de ser a versão rural da formação do “continente” América. Um tempo de formação que é repensado e recriado, chegando mesmo a reescrever a história, como na relação dos brancos civilizados anglo-saxões com os indígenas e os mexicanos. O ÁLAMO, dirigido por John Wayne, é exemplo de transformação de uma derrota em vitória de um só.

          Mas o que seduz no faroeste não é apenas o fato de transportar o espectador a um tempo mítico, de fundação, um tempo e espaço claramente dividido entre heróis e vilões. Há nos grandes westerns muito mais em jogo, e é aí que reside a sedução do gênero. Quando vemos filmes como OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (SHANE para os mais familiarizados no gênero), ONDE COMEÇA O INFERNO, MATAR OU MORRER e DUELO DE TITÃS, vemos fases distintas do filme de faroeste, desde sua concepção considerada clássica até sua corrente modernizante com mais suspense e tensão, que a historiografia cinematográfica chamou de “faroeste adulto” ou psicológico, mas dentro de todos eles o que se destaca sempre foi a questão da honra, da lei a ser imposta e cumprida, da busca por justiça aos moldes cowboy. Ou seja, há um fator subjetivo e ontogênico em pauta, a discussão de uma moral que pode ser subjetiva mas que envolve na verdade uma moral globalizante, maior, de caráter filogênico. É por essa moral, em torno desse ethos do velho Oeste, existente apenas no cinema, que gira toda a magnificência do gênero.

          Este texto nasceu após seu autor assistir ao filme DUELO DE TITÃS, de John Sturges, com Kirk Douglas e Anthonny Quinn. Para quem quer ver materializado algo do que foi dito neste texto, busquem tal filme e assistam. Sintam a força do personagem de Douglas, o dilema do de Quinn, dividido entre o filho e o amigo, a moral que o impõe a defender o filho por ser seu sangue e não por merecimento, a morte rondando todos eles, uma moral a ser quebrada e outra a ser mantida a qualquer preço, mesmo sem saber ao certo como a fará. Kirk Douglas é Matt Morgan e expõe com frieza o heroísmo/idealismo do xerife em busca de justiça; Quinn é Craig Belden, que carrega em seu estilo latino-europeu a rudeza e exigência com que trata e exige do filho para ser um legitimo cowboy. E é justamente esse peso do pai sobre o filho que gera o conflito. Bem disse o personagem de Quinn ao final quando diz ao de Douglas que a culpa pelo acontecido (o filho de Quinn estupra e mata a mulher de Douglas, este busca justiça e vai prender o assassino, mesmo sabendo que ele é filho de seu grande amigo, papel de Quinn) era dele e não do filho.

          Ao final de DUELO DE TITÃS, como toda fábula moralista – mas, como dito, no faroeste a moral responde a apenas seu universo mítico e não cabe fora dele – a justiça sobe ao altar, mas no espectador fica o gosto do injusto ao vermos o duelo final. Duelo este esperado, desejado, ansiado desde o início, mas que quando chega é preferível que não tivesse chegado. Não queremos ver o final do filme, dar adeus àquelas figuras titânicas em cena, não queremos ver o saque e a morte de um. O adeus a um deles, impreterivelmente o vilão. “Saque!”. “Não me faça fazer isso, Belden”, pede Morgan. “É o que me resta”, responde ele. “Então saque você”, responde Douglas. Sturges filma com a câmera um pouco atrás de Douglas, pegando este em primeiro plano e mais à esquerda, com Quinn ao fundo, no meio da tela. O trem a percorrer toda a extensão da tela, a ajudar na plasticidade da cena, a impressão de profundidade. Trem, aliás, que é presença onisciente até então, pois por ele o xerife chegou e com ele irá embora na hora marcada. Essa questão temporária, assim como em Matar ou Morrer, ajuda na construção da crescente tensão do filme, pois desde o início se sabe quando o conflito irá de fato explodir. E tão rápido quanto a locomotiva para o tempo das diligências, tão rápido quanto as transformações trazidas por ela para uma sociedade pré-industrial, Quinn saca o revólver. Mas Douglas saca também e é mais rápido. O som de dois tiros, movimentos do saque praticamente parelhos, mas apenas um irá ao chão. Não mais que um segundo e já vemos Quinn cambalear e ir ao chão. O ruído do trem avisando da partida do trem, dentro do qual o herói estará, conforme avisado desde sua chegada naquela manhã à cidade de Gun Hill. Ar imponente, ciente do dever cumprido e da impossibilidade de não ter matado o amigo, Douglas sobe no trem e dele vê a garota Linda sobre Quinn, garota esta dividida entre o amor a Quinn e o desejo pelo desconhecido e por vê-lo triunfar. Não há como não admirar Morgan, ou Kirk Douglas, e mesmo por um instante se imaginar naquele mundo mitológico habitado por titãs, onde a moral e um ideal superam o poder das balas e do revólver, mas não sem a ajuda do próprio revólver. Afinal, seja mocinho, herói ou titã, no mundo do faroeste pouco ou nada se resolve sem a arma e sem o ritual da morte, que é o saque. Talvez resida aí a alma do gênero.