Se
há gêneros cinematográficos para os quais
os intelectuais torcem o nariz, um deles com certeza é
o western, ou faroeste. Intelectual que é intelectual
gosta de filme francês, se arrisca nos europeus e asiáticos
independentes, mas os críticos mais recentes são
avessos ao velho e bom faroeste. No centenário de nascimento
de John Wayne, o cowboy dos cowboys, é
preciso rever esse gênero que parece estar esgotado e
rejeitado pelas massas. Não há mais espaço
para os velhos vaqueiros, com pistola na cintura e se desafiando
até a morte por uma moral ou para que a justiça
prevaleça. Foram-se os personagens idealistas de James
Stewart, como o Ransom Stoddard de O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA
ou Will Lockhart de UM CERTO CAPITÃO LOCKHART; adeus
às broncas, machistas e preconceituosas figuras interpretadas
por John Wayne, como o Ethan Edwards de RASTROS DE ÓDIO
e o Thomas Dunson de RIO VERMELHO. Em seus lugares tomaram corpo
homens que viajam no tempo ou entre galáxias, armas a
laser e com poderio de destruição total, tecnologias
que fazem de tudo e mais um pouco aliada a personagens capazes
de tudo, mais um pouco e mais um pouco ainda, como a nova roupagem
de 007 e o agente de Missão: Impossível.
Saem de cena os cavalos e as charretes, que deixam rastro de
poeira, e invadem as telas as naves que viajam na velocidade
da luz e que nem sinal de rastro deixam para trás. O
mundo evoluiu rapidamente e substituiu o velho vaqueiro do século
19 do velho Oeste americano pelo cowboy hi tech do
século 21. Não à toa o velho Clint Eastwood
chamou um de seus filmes mais recentes de Cowboys do Espaço.
Se antes as pessoas queriam ser John Wayne ou James Stewart
pelo que representam na tela, hoje se aproximam e se identificam
mais com Neo, Skywalker, Jack Bauer ou outras figuras heróicas
que estão a salvar e ao mesmo tempo a destruir o mundo,
tanto no cinema quanto na televisão.

O
faroeste no cinema hoje sobrevive como lenda, como lembrança
de um tempo em que as coisas eram mais simples, desde as ruas
de terra e as cidades – que se resumiam basicamente a
um hotel, um saloon, a uma delegacia e uma igreja,
com casas entre eles – aos meios de transporte (cavalos),
de comunicação (basicamente um mensageiro a cavalo,
pois o tempo dos grandes faroestes combina com o nascimento
do telégrafo) e meios de se resolver um problema. A lei
era o grande centro do faroeste, era em torno dela que os conflitos
nasciam e se desenvolviam. Numa terra dita sem lei, era a tentativa
de sua imposição que gerava os conflitos, e era
nisso que residia o charme do faroeste – a lei não
era cumprida ou alguém se achava acima dela e um personagem
resolvia colocar ordem onde não havia até então.
Era um tempo sem lei, mas não sem honra ou moral. Era
um tempo em que a arma era a extensão do poder fálico
do homem, mas mesmo assim era usada apenas no final (quando
se tratava do mocinho), depois de esgotadas as demais alternativas
e quando apenas o que restava eram os corpos em choque. O estopim
era o clímax do filme, o duelo entre titãs, entre
duas figuras míticas para ver quem era o mais rápido
na complexa manobra de “sacar” e atirar, manobra
cujo milésimo de segundo separava aquele que triunfaria
daquele que morreria.
Mesmo
diante de um cenário em que as armas eram a lei, não
deixa de ser saudosismo pensar no faroeste como um tempo de
fato mítico, criado pelo cinema em torno da construção
e ocupação de uma nação. Se Martin
Scorsese fez sua versão urbana do nascimento da Nova
York violenta de hoje em Gangues de Nova York, o faroeste
não deixa de ser a versão rural da formação
do “continente” América. Um tempo de formação
que é repensado e recriado, chegando mesmo a reescrever
a história, como na relação dos brancos
civilizados anglo-saxões com os indígenas e os
mexicanos. O ÁLAMO, dirigido por John Wayne,
é exemplo de transformação de uma derrota
em vitória de um só.

Mas
o que seduz no faroeste não é apenas o fato de
transportar o espectador a um tempo mítico, de fundação,
um tempo e espaço claramente dividido entre heróis
e vilões. Há nos grandes westerns muito
mais em jogo, e é aí que reside a sedução
do gênero. Quando vemos filmes como OS BRUTOS TAMBÉM
AMAM (SHANE para os mais familiarizados no gênero), ONDE
COMEÇA O INFERNO, MATAR OU MORRER e DUELO DE TITÃS,
vemos fases distintas do filme de faroeste, desde sua concepção
considerada clássica até sua corrente modernizante
com mais suspense e tensão, que a historiografia cinematográfica
chamou de “faroeste adulto” ou psicológico,
mas dentro de todos eles o que se destaca sempre foi a questão
da honra, da lei a ser imposta e cumprida, da busca por justiça
aos moldes cowboy. Ou seja, há um fator subjetivo
e ontogênico em pauta, a discussão de uma moral
que pode ser subjetiva mas que envolve na verdade uma moral
globalizante, maior, de caráter filogênico. É
por essa moral, em torno desse ethos do velho Oeste,
existente apenas no cinema, que gira toda a magnificência
do gênero.
Este
texto nasceu após seu autor assistir ao filme DUELO DE
TITÃS, de John Sturges, com Kirk Douglas e Anthonny Quinn.
Para quem quer ver materializado algo do que foi dito neste
texto, busquem tal filme e assistam. Sintam a força do
personagem de Douglas, o dilema do de Quinn, dividido entre
o filho e o amigo, a moral que o impõe a defender o filho
por ser seu sangue e não por merecimento, a morte rondando
todos eles, uma moral a ser quebrada e outra a ser mantida a
qualquer preço, mesmo sem saber ao certo como a fará.
Kirk Douglas é Matt Morgan e expõe com frieza
o heroísmo/idealismo do xerife em busca de justiça;
Quinn é Craig Belden, que carrega em seu estilo latino-europeu
a rudeza e exigência com que trata e exige do filho para
ser um legitimo cowboy. E é justamente esse
peso do pai sobre o filho que gera o conflito. Bem disse o personagem
de Quinn ao final quando diz ao de Douglas que a culpa pelo
acontecido (o filho de Quinn estupra e mata a mulher de Douglas,
este busca justiça e vai prender o assassino, mesmo sabendo
que ele é filho de seu grande amigo, papel de Quinn)
era dele e não do filho.
Ao
final de DUELO DE TITÃS, como toda fábula moralista
– mas, como dito, no faroeste a moral responde a apenas
seu universo mítico e não cabe fora dele –
a justiça sobe ao altar, mas no espectador fica o gosto
do injusto ao vermos o duelo final. Duelo este esperado, desejado,
ansiado desde o início, mas que quando chega é
preferível que não tivesse chegado. Não
queremos ver o final do filme, dar adeus àquelas figuras
titânicas em cena, não queremos ver o saque e a
morte de um. O adeus a um deles, impreterivelmente o vilão.
“Saque!”. “Não me faça fazer
isso, Belden”, pede Morgan. “É o que me resta”,
responde ele. “Então saque você”, responde
Douglas. Sturges filma com a câmera um pouco atrás
de Douglas, pegando este em primeiro plano e mais à esquerda,
com Quinn ao fundo, no meio da tela. O trem a percorrer toda
a extensão da tela, a ajudar na plasticidade da cena,
a impressão de profundidade. Trem, aliás, que
é presença onisciente até então,
pois por ele o xerife chegou e com ele irá embora na
hora marcada. Essa questão temporária, assim como
em Matar ou Morrer, ajuda na construção da crescente
tensão do filme, pois desde o início se sabe quando
o conflito irá de fato explodir. E tão rápido
quanto a locomotiva para o tempo das diligências, tão
rápido quanto as transformações trazidas
por ela para uma sociedade pré-industrial, Quinn saca
o revólver. Mas Douglas saca também e é
mais rápido. O som de dois tiros, movimentos do saque
praticamente parelhos, mas apenas um irá ao chão.
Não mais que um segundo e já vemos Quinn cambalear
e ir ao chão. O ruído do trem avisando da partida
do trem, dentro do qual o herói estará, conforme
avisado desde sua chegada naquela manhã à cidade
de Gun Hill. Ar imponente, ciente do dever cumprido e da impossibilidade
de não ter matado o amigo, Douglas sobe no trem e dele
vê a garota Linda sobre Quinn, garota esta dividida entre
o amor a Quinn e o desejo pelo desconhecido e por vê-lo
triunfar. Não há como não admirar Morgan,
ou Kirk Douglas, e mesmo por um instante se imaginar naquele
mundo mitológico habitado por titãs, onde a moral
e um ideal superam o poder das balas e do revólver, mas
não sem a ajuda do próprio revólver. Afinal,
seja mocinho, herói ou titã, no mundo do faroeste
pouco ou nada se resolve sem a arma e sem o ritual da morte,
que é o saque. Talvez resida aí a alma do gênero.