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O
delírio
Martinho Junior

Nem
foi
nenhures, nem noite nenhuma, tampouco sabia definir o local.
Sei apenas que foi tudo rápido demais. Sei também
que corria desenfreada, incansavelmente. Jóia minha e
rara, momento verde bom de grande ternura. Havia muitas árvores,
todas gigantescas incomuns e quase animadas. Taí um fato
curioso, pois corria numa velocidade estonteante, não
sei como reparei nessas coisas, mas pudera: tais árvores
deveriam ter entre 15 e 30 metros de altura. Lá no alto
topo via-se aves também incomuns, só que extremamente
pequenas: podia jurar com todos meus patuás que se tratavam
de insetos, salvo pelo piar agudo e constante, cortante, vibrante.
Meus olhos pareciam equipados com binóculos, via o que
queria na distância que me apetecia, jóia! Um rosto
jovial e ainda muito belo – da idade que ainda há
de chegar – me veio à lembrança, demorei
a reconhecer que, na verdade, era minha própria imagem
que me vinha à memória, um eu outro de alhures.
Todas as sensações de mãos dadas; nada
escapava aos meus sentidos, à minha memória. Corria
muito, mas não suava, até que de chofre me dei
conta do sol que brilhava. Ele era enorme, pesado e dourado,
flamejante de força incomensurável; não
tardou para que o suor escorresse despudoradamente pelo rosto
e, poucos segundos depois, a camisa – tanto atrás
como na frente – se empestasse com ele. Quando, sempre
correndo, invadi um campo aparentemente infinito de tulipas
amarelas, sentia o cheiro daquele campo. Por pouco tempo, pois
aquele cheiro sentido não era de maneira alguma cheiro
do campo, era um cheiro que misteriosamente tinha sido roubado
de mim na juventude. Minha namorada, antes do casamento com
meu marido, me roubou. Nem foi nenhures, mas sei definir o local,
um campo quase infinitamente aberto à exploração,
deitava e rolava e descobria paixão nova e inconteste
impedida por todos; ali roubou meu cheiro, nunca mais o vi como
meu, como tudo que – mesmo ridiculamente pouco –
se referia a ela, passava a ser de posse dela. Logo meu corpo
também, esse mesmo que corre. Beira mar, seios lancinantes
que balangam, cheiro da chuva que ainda se aproxima, espalhando
muito prazer para pouco corpo. Toda situação que,
em comunhão, passa correndo, só na corrida para
acompanhar e sentir junto. Pisava na areia com força,
a marca que lá estive permanece de maneira fugaz, muita
gente desconhece, não se faz idéia de quem passou,
de que fui eu que passei, talvez fique meu cheiro, talvez o
pisar frenético na areia acarrete em alguma outra coisa,
talvez não. Voltei às árvores, não
sei como, achei que já estivesse perdida, embora não
saiba muito onde se localiza essas árvores, mas já
me são conhecidas e assim, não sei bem por que,
me traz uma certa segurança. Sempre gostei de prosa,
mas sem nunca esquecer a poesia, que brinca de palavras com
palavras e para as palavras, assim vejo também as árvores,
não apenas essas. Aliás, agora correndo um pouco
mais rápido, percebo que não são as mesmas
árvores de outrora, devo continuar perdida; sempre me
foi bom estar perdida, sempre, quase sempre, muito longe de
longe me aconteceram coisas formidáveis por estar perdida,
saudades de minha tia, que sempre me tratou como irmã.
Eu estou feliz por saber que ainda estou acompanhada dela, mesmo
não a vendo há séculos. Adoro hipérboles,
dá vazão ao pensamento contido! Esses pássaros-insetos
estão maiores, devo estar em outro local mesmo, é
bom correr, o barulho das solas dos pés esmagando as
folhas secas são como tocar um instrumento desconhecido,
dão vazão ao pensamento. “Gastar tanta energia
pra nada”, correndo desenfreada, procurando não
se sabe bem o que, “piaba”, vejo tantos peixes nadando
de lado ao outro nos intervalos das árvores num riacho
que deve ter quilômetros de extensão, mas bem que
no fim poderia nadar também, nunca aprendi direito, nunca
conheci meu corpo como deveria, como ele sempre pediu, talvez
seja tarde, talvez não. Não consigo parar de correr,
as pernas vão com consciência própria, quero
partir, não importa muito onde chegar, o importante é
ir. Tenho pressa de lá chegar para lá fazer algo
que vou descobrir; ventos fortes, extremamente fortes, me impedem
de correr na mesma velocidade, logo diminuo o passo e passo
a procurar uma fruta para a fome sair. Já passou, um
pássaro já passou, um daqueles pássaros-insetos
que dão vazão ao pensamento contido! Preciso voltar
a correr, estou com pressa, mas antes preciso esperar o vendaval
passar, preciso esperar a vontade voltar mais uma vez, finalmente
sinto meus músculos reclamarem da corrida, eu preciso...

BOLETIM MÉDICO
Declaração
sobre óbito
Nesta sexta-feira,
depois de dar entrada no hospital na segunda-feira, a paciente
deixou seu quadro de estabilidade. Depois de fortes dores no
abdômen, a comerciaria passou por uma febre epacmástica
que atingiu níveis alarmantes, provavelmente passou por
fortes delírios, o falecimento ocorreu na manhã
de hoje.
Diretor médico
do hospital
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