Bergman: "a experiência interior"
Martinho Junior

       

“A vida se perde na morte, os rios no mar e o conhecido no desconhecido. O conhecimento é o acesso para o desconhecido. O não-sentido é o resultado de cada sentido possível” [1] .

          Não são muitos os diretores de cinema que conseguem radiografar a vida de maneira tão complexa (de maneira cubista, quer dizer, visualizando ao mesmo tempo vários planos de uma pessoa) como Bergman. Entre os grandes temas, se é que assim podemos dizer, trabalhados pelo diretor vemos atravessar os relacionamentos, a vaidade, a arte, a morte, a crença, etc., portanto temas da comunicação humana. É verdade que neste aspecto equipara-se com Michelangelo Antonioni, sobretudo em filmes como A Noite e A Aventura, mas enquanto o italiano procura atingir mais os problemas interpessoais numa dada sociedade, o sueco, por sua vez, entra na trama individual para lá percorrer as aflições das paixões, dos estados de alma.

           A definição com a qual mais me identifico com o cinema de Ingmar Bergman não diz respeito à sua produção fílmica, nem mesmo a de qualquer cinema. Refiro-me a um livro de Georges Bataille intitulado L’expérience intérieure (A Experiência Interior). Para Bataille, tal experiência não conduz a nenhum lugar dado antecipadamente, nem possui nenhum fim pré-estabelecido; ao contrário, a experiência conduz para onde ela vai, e só.

           “Eu chamo de experiência uma viagem aos fins do possível do homem. Cada um pode não fazer essa viagem, mas se a faz, supõe negar as autoridades, os valores existentes, que limitam o possível. Já que ela é a negação de outros valores, de outras autoridades, a experiência tendo a existência positiva torna-se positivamente o valor e a autoridade” (Bataille, 1954: 19).

           Alguns mais atentos dirão que não há relação possível, já que Bataille finca suas idéias sobretudo por um lado filosófico e religioso. Entretanto, é exatamente este lado metafísico de Bataille que procuro afirmar em Bergman. Há, em diversos filmes de Bergman, uma vertente que pode ser entendida exatamente por esta “experiência interior”, da qual O Sétimo Selo é o exemplo mais cabal (e também o mais clichê). Neste filme de 1957, há elementos bem conhecidos, como a partida de xadrez travada entre a Morte e o cavaleiro Antonius Block. Entretanto, o que mais me chama atenção é o personagem Jof, um artista de uma companhia mambembe. A arte, representada por Jof, que na companhia é um ator, foi o que o permitiu conseguir enxergar os elementos extra-visuais da narrativa.

         A arte da representação, tão intimidada como algo fora da realidade, “pura ficção”, talvez seja o que dote Jof de sensibilidade suficiente para perceber o que de fato ocorre. Enquanto Antonius Block joga sua partida derradeira de xadrez contra a Morte, Jof é quem consegue vê-la, impaciente e pronta para cumprir sua sina. Porém, sua mulher, também atriz da mesma companhia mambembe, não consegue ver, visualizando apenas o cavaleiro que joga sozinho. Como não poderia ser diferente (pensemos na clássica anedota metafórica de Platão, na caverna, em que, saindo da escuridão e vendo o mundo real, o habitante da caverna ao voltar para contar aos outros do que vira fora da caverna, foi condenado como mentiroso e até louco), ninguém acredita em suas histórias de mortos, fantasmas e da própria morte. Pouco nos importa também saber se todas suas histórias são ou não verídicas, o que importa é que ele vê; e nós, espectadores, temos a certeza de que ele vê, pois a imagem denuncia sua visão (análoga àquela do cavaleiro). Por fim, sabendo que a morte levará todos que acompanham o cavaleiro, Jof, em companhia de seu filho e de sua mulher, consegue escapar do inevitável, ao menos por hora.

         No livro de Bataille, profundamente em um esquema desordenado, afirma-se que “é apenas morrendo que, sem fuga possível, eu perceberei a ruptura que constitui minha natureza e na qual eu transcendi ‘o que existe’”. Neste ponto obscuro, o momento de compreensão se daria na morte, momento único, intransferível e fugaz fornecendo o conhecimento do além (em sua oração derradeira Antonius Block reza para que ele possa conhecer os elementos do além-vida, um além-vida que nem mesmo a própria morte sabe o que é). O eu-que-morre está por todos os lados em O Sétimo Selo, não apenas no cavaleiro e seus amigos, mas também na peste que consome a todos. Mas, ao ver a morte de perto (não se trata de uma metáfora, Jof realmente a viu), o artista se dá conta da amplitude do eu-que-vive. A amplitude da certeza da ilusão, já que todos estamos no estado do eu-que-morre. A experiência interior, no caso de O Sétimo Selo, está bem fincada em termos não apenas da consciência da certeza da morte, mas na morte diária que faz sairmos da inércia que o eu-que-vive perceberia somente muito mais tarde. Para tomar conhecimento desses fatores, a arte (da representação, notadamente) é uma via possível para a experiência interior.

          Para Bergman, a separação da arte com o culto é a maior razão pela perda de um “impulso criador”. Certamente, ele pensa na figura do artista, que de tão importante que se tornou acabou por devorar a própria arte. Assim, ele nos fala:

“Pondo de lado as minhas crenças e as minhas dúvidas, que não têm importância neste caso, é a minha opinião que a arte perdeu seu impulso criador básico no momento em que se separou do culto. Ela cortou um cordão umbilical e leva agora uma vida estéril, gerando-se e degenerando-se. No passado o artista permanecia ignorado e sua obra existia para a glória de Deus. Ele vivia e morria sem ser mais importante do que outros artesãos; ‘valores eternos’, ‘imoralidade’ e ‘obra prima’ eram expressões não aplicáveis no seu caso. A capacidade de criar era um dom. Num mundo assim floresciam a convicção inabalável e a humildade natural”. [2]

          Contemplamos assim uma idéia bastante plausível da perda do elemento mais importante da arte: a própria arte. Para os artesões, a arte funcionava também como força motriz para sua experiência interior, como uma ligação ao divino. Ao desfazer este elo, o artista deixa de frisar sua arte, para frisar seu ego, seu nome dentro de uma história (da qual Vitta, de Giorgio Vasari, de certa forma inicia).

          Mas O Sétimo Selo não é o único filme de Bergman a trazer esses elementos fulcrais ao cinema. Persona, de 1966 (com uma atuação, a meu ver, ímpar de Liv Ullmann), é tão importante quanto. A questão da arte, de novo aquela da representação, se coloca em primeiríssimo plano. Elisabeth Vogler – interpretada por Liv Ullmann – é uma atriz que resolve, não se sabe bem o porquê, não mais falar. Então uma enfermeira se encarrega dos cuidados necessários, logo viajam ao litoral para que Vogler possa descansar. Porém, o silêncio de Vogler se dá exatamente por sua profissão, cansada de representar, decide se calar. Dessa vez não é o artista vidente (como no caso de O Sétimo Selo), mas o artista fatigado de ser persona (não nos esqueçamos que este nome deriva do grego e designava as máscaras usadas pelos atores no teatro). Não fica clara a relação mantida entre a enfermeira e a atriz (por vezes aparentemente homossexual), uma paixão na surdina, onde gestos e olhares são os grandes protagonistas. Uma experiência da qual precisa-se, com urgência, deixar de representar para se encontrar mais uma vez; os problemas psicossomáticos de Vogler são reflexos de sua vida que se tornou um grande não-sentido. Este limbo da qual ela se encontra poderia ser enquadrado em nossa perspectiva como a procura de um sentido, de um conhecimento que ela perdeu. Há a possibilidade de encontrá-los, mas é preciso saber que serão efêmeros, e logo o não-sentido e o desconhecido voltarão mais fortes.

          O embate com o cinema de Bergman, de natureza completamente pessoal, não me deixa não pensar na experiência interior, onde me perco, encontro o não-sentido e o desconhecido, elementos não-visuais a partir de um meio essencialmente da visão. Ir de encontro com aquilo que em nós já não se percebia ou se via é minha própria experiência interior, desordenada, tênue, rizomática, tal qual o livro de Georges Bataille, pensador, assim como Bergman, inclassificável.



Notas:

[1] Bataille, Georges. L’expérience Intérieur. Paris, Gallimard, 1954, p. 119.

[2] Igmar Bergman, na introdução de seu roteiro para O sétimo selo. Apud: Bragg, Melvyn. O sétimo selo (det sjunde inseglet). Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1995, p.11.