Quem escreverá a história de Fidel Castro?
Lucas Rodrigues Pires

         É preciso cuidado para se analisar a figura singular de Fidel Castro na geopolítica da segunda metade do século XX. Antes de mais nada, é interessante que o leitor que vá estudar ou ler algo sobre Fidel Castro e Cuba consiga se desvencilhar dos pré-conceitos embutidos em sua mente por anos e anos de propaganda anticastrista, anticomunista e pró-liberal. É preciso ter ciência e criticidade para ao menos tentar enxergar o lado de Fidel, o lado de Cuba, em toda essa história que nos é contada desde 1959, quando aqueles jovens, barbudos e revolucionários expulsaram o ditador Fulgencio Batista de Cuba e tomaram o poder. A Revolução chegava ao poder, e isso a pouco mais de 50 km da costa norte-americana.

          Escrevo sobre isto porque em breve teremos pipocando a notícia sobre a morte de Fidel Castro e surgirão as conseqüentes biografias e edições especiais. Eu mesmo como jornalista fui autor de uma dessas revistas que estarão nas bancas quando ele morrer. De fato, ela já está nas bancas (revista Grandes Líderes da História – Fidel Castro, n. 23, On Line Editora, para quem se interessar). Não foi possível esperar ele morrer. Afinal, Fidel é resistente como uma pedra, escapou de mais de 600 atentados contra sua vida perpetrados pela CIA, o governo norte-americano e cubanos-americanos contrários à sua política. Mas minha preocupação maior, tanto como jornalista como historiador – aliás, profissões que caminham juntas – é com a memória que deixarão de Fidel, como ele será retratado pela mídia mundial, como os movimentos de esquerda e revolucionários o tratarão e principalmente como a juventude o terá em conta. Ou seja, qual a imagem que a humanidade terá de Fidel Castro? Como as novas gerações o verão na História: o último dos revolucionários do século 20 ou o ditador autoritário como o pintam as ditas democracias ocidentais?

         Se a verdade é sempre relativa – e como prega Conjecturas, ela própria não existe empiricamente – o que teremos sobre Fidel são versões, constructos que responderão a certos valores ideológicos e expressaram o ideário de quem for o emissor daquele discurso. Assim, para se analisar o regime cubano, não se pode esquecer que é preciso estudar a história da Ilha de Cuba, as relações entre ela e os Estados Unidos, o processo de independência cubana e todo o contexto das lutas latino-americanas que se iniciaram nas décadas de 50 e 60, maioria delas resultantes em regimes ditatoriais de direita, apoiados pelos norte-americanos. Sem o contexto não se chega ao texto.

         Dentro desse caldo de Histórias, vencerá aquela que tiver mais força política e respaldo midiático. Quem berrar mais alto terá o privilégio de escrever a História. Mesmo sendo ela deturpada ou manipulada. Diante do cenário de predomínio da mídia ocidental e norte-americana, qual deverá ser a voz da História a sepultar as demais?

         Importante dizer aqui que não se faz uma defesa da figura e ações de Fidel Castro, apesar de ser inegável certa admiração pela Revolução em seus momentos iniciais (quem ler a edição de “Grandes Líderes da História – Fidel Castro” verá isso), o que se busca é discutir e de certa forma teorizar sobre o poder de se escrever a História. Desde o surgimento da escrita, quando o saber escrever era uma forma de poder buscada e mantida sob monopólio pelos donos do poder (faraós egípcios, elite romana, Igreja na Idade Média, regimes absolutistas na era moderna), pelo menos até a invenção da prensa e da possibilidade de difusão e transmissão do conhecimento e idéias com maior abrangência, o saber escrever tornou-se fundamental. Os textos canônicos da nossa História e cultura só se tornaram tal porque sobreviveram ao tempo, porque resistiram, por diversas razões, e chegaram-nos até hoje. A versão de Homero para a guerra de Tróia, a história dos hebreus segundo a Bíblia, os contos de cavalaria medievais e todas as demais versões que temos de momentos da história são formas poderosas de definir seu tempo, marcar acontecimentos e eleger heróis e vilões. Ou seja, são textos que de certa forma pontuaram a História do homem e ajudaram-no a (re)escrevê-la.

         Para uma História ideal seriam necessários homens ideais presentes a todo acontecimento que tivessem uma memória ideal para só aí escrever um relato total dos fatos. Seria preciso muita ingenuidade para acreditar num homem ideal que deixaria de lado suas crenças e ideologias na hora de demarcar a história futura (sim, pois os documentos de uma época são demarcações, ranhuras do homem em seu tempo para o estudo e interpretação futura). Claro que ninguém age hoje pensando no que descobrirão amanhã. A equação não é tão exata assim, mas certamente temos ações que visam um futuro esclarecedor ou um olhar futuro incapaz de ver com clareza o presente que se tornará passado.

          Das ranhuras, do que deixam os homens nasce a história. Desse olhar ao passado (percebam, é um olhar no presente para fatos e objetos do passado, ou seja, a História não deixa de ser um ato presente) afloram as versões. Esse olhar é sempre parcial, pois muita coisa se perdeu no tempo – propositadamente ou não. Assim, todo produto do olhar ao passado (a historiografia) é parcial, pois reflete uma interpretação baseada em algo parcial. Quando não parcial no sentido de partidário.

          Pensando nisso, a figura de Fidel Castro parece fadada a ter sua memória decretada pelo poder midiático, que tomou à força o poder da escrita no decorrer do século 20. Talvez não seja a historiografia que dê a versão final e mais coerente sobre Fidel, sobre o socialismo em Cuba, o que seria o mais adequado, mas sim a própria mídia, capaz de silenciar vozes coerentes e dar microfones a certas vozes conforme seus interesses. Já estou preparado para o que virá quando Fidel vier a morrer. A História sofrerá mais um atentado e ficará provado que nem mesmo mais ela é capaz de estabelecer padrões de pesquisa e julgamento do passado.

          Na sociedade do espetáculo, do efêmero e do tempo real, o jornalismo fará o julgamento no lugar da história. A mídia ocidental será o carrasco da figura pública e da memória de Fidel Castro. Aliás, como foi desde 1959.