É
preciso cuidado para se analisar a figura singular de Fidel
Castro na geopolítica da segunda metade do século
XX. Antes de mais nada, é interessante que o leitor que
vá estudar ou ler algo sobre Fidel Castro e Cuba consiga
se desvencilhar dos pré-conceitos embutidos em sua mente
por anos e anos de propaganda anticastrista, anticomunista e
pró-liberal. É preciso ter ciência e criticidade
para ao menos tentar enxergar o lado de Fidel, o lado de Cuba,
em toda essa história que nos é contada desde
1959, quando aqueles jovens, barbudos e revolucionários
expulsaram o ditador Fulgencio Batista de Cuba e tomaram o poder.
A Revolução chegava ao poder, e isso a pouco mais
de 50 km da costa norte-americana.

Escrevo
sobre isto porque em breve teremos pipocando a notícia
sobre a morte de Fidel Castro e surgirão as conseqüentes
biografias e edições especiais. Eu mesmo como
jornalista fui autor de uma dessas revistas que estarão
nas bancas quando ele morrer. De fato, ela já está
nas bancas (revista Grandes Líderes da História
– Fidel Castro, n. 23, On Line Editora, para quem se interessar).
Não foi possível esperar ele morrer. Afinal, Fidel
é resistente como uma pedra, escapou de mais de 600 atentados
contra sua vida perpetrados pela CIA, o governo norte-americano
e cubanos-americanos contrários à sua política.
Mas minha preocupação maior, tanto como jornalista
como historiador – aliás, profissões que
caminham juntas – é com a memória que deixarão
de Fidel, como ele será retratado pela mídia mundial,
como os movimentos de esquerda e revolucionários o tratarão
e principalmente como a juventude o terá em conta. Ou
seja, qual a imagem que a humanidade terá de Fidel Castro?
Como as novas gerações o verão na História:
o último dos revolucionários do século
20 ou o ditador autoritário como o pintam as ditas democracias
ocidentais?

Se
a verdade é sempre relativa – e como prega Conjecturas,
ela própria não existe empiricamente – o
que teremos sobre Fidel são versões, constructos
que responderão a certos valores ideológicos e
expressaram o ideário de quem for o emissor daquele discurso.
Assim, para se analisar o regime cubano, não se pode
esquecer que é preciso estudar a história da Ilha
de Cuba, as relações entre ela e os Estados Unidos,
o processo de independência cubana e todo o contexto das
lutas latino-americanas que se iniciaram nas décadas
de 50 e 60, maioria delas resultantes em regimes ditatoriais
de direita, apoiados pelos norte-americanos. Sem o contexto
não se chega ao texto.
Dentro
desse caldo de Histórias, vencerá aquela que tiver
mais força política e respaldo midiático.
Quem berrar mais alto terá o privilégio de escrever
a História. Mesmo sendo ela deturpada ou manipulada.
Diante do cenário de predomínio da mídia
ocidental e norte-americana, qual deverá ser a voz da
História a sepultar as demais?
Importante
dizer aqui que não se faz uma defesa da figura e ações
de Fidel Castro, apesar de ser inegável certa admiração
pela Revolução em seus momentos iniciais (quem
ler a edição de “Grandes Líderes
da História – Fidel Castro” verá isso),
o que se busca é discutir e de certa forma teorizar sobre
o poder de se escrever a História. Desde o surgimento
da escrita, quando o saber escrever era uma forma de poder buscada
e mantida sob monopólio pelos donos do poder (faraós
egípcios, elite romana, Igreja na Idade Média,
regimes absolutistas na era moderna), pelo menos até
a invenção da prensa e da possibilidade de difusão
e transmissão do conhecimento e idéias com maior
abrangência, o saber escrever tornou-se fundamental. Os
textos canônicos da nossa História e cultura só
se tornaram tal porque sobreviveram ao tempo, porque resistiram,
por diversas razões, e chegaram-nos até hoje.
A versão de Homero para a guerra de Tróia, a história
dos hebreus segundo a Bíblia, os contos de cavalaria
medievais e todas as demais versões que temos de momentos
da história são formas poderosas de definir seu
tempo, marcar acontecimentos e eleger heróis e vilões.
Ou seja, são textos que de certa forma pontuaram a História
do homem e ajudaram-no a (re)escrevê-la.
Para
uma História ideal seriam necessários homens ideais
presentes a todo acontecimento que tivessem uma memória
ideal para só aí escrever um relato total dos
fatos. Seria preciso muita ingenuidade para acreditar num homem
ideal que deixaria de lado suas crenças e ideologias
na hora de demarcar a história futura (sim, pois os documentos
de uma época são demarcações, ranhuras
do homem em seu tempo para o estudo e interpretação
futura). Claro que ninguém age hoje pensando no que descobrirão
amanhã. A equação não é tão
exata assim, mas certamente temos ações que visam
um futuro esclarecedor ou um olhar futuro incapaz de ver com
clareza o presente que se tornará passado.

Das
ranhuras, do que deixam os homens nasce a história. Desse
olhar ao passado (percebam, é um olhar no presente para
fatos e objetos do passado, ou seja, a História não
deixa de ser um ato presente) afloram as versões. Esse
olhar é sempre parcial, pois muita coisa se perdeu no
tempo – propositadamente ou não. Assim, todo produto
do olhar ao passado (a historiografia) é parcial, pois
reflete uma interpretação baseada em algo parcial.
Quando não parcial no sentido de partidário.
Pensando
nisso, a figura de Fidel Castro parece fadada a ter sua memória
decretada pelo poder midiático, que tomou à força
o poder da escrita no decorrer do século 20. Talvez não
seja a historiografia que dê a versão final e mais
coerente sobre Fidel, sobre o socialismo em Cuba, o que seria
o mais adequado, mas sim a própria mídia, capaz
de silenciar vozes coerentes e dar microfones a certas vozes
conforme seus interesses. Já estou preparado para o que
virá quando Fidel vier a morrer. A História sofrerá
mais um atentado e ficará provado que nem mesmo mais
ela é capaz de estabelecer padrões de pesquisa
e julgamento do passado.
Na
sociedade do espetáculo, do efêmero e do tempo
real, o jornalismo fará o julgamento no lugar da história.
A mídia ocidental será o carrasco da figura pública
e da memória de Fidel Castro. Aliás, como foi
desde 1959.