Odeio
acordar cedo. Não importa para qual objetivo. Odeio ter
hora pra comer, trabalhar e um espaço de tempo determinado
para dormir. Odeio prazos para ter boas idéias e número
determinado de caracteres para expressá-las. Odeio rotina.
Quem determinou nosso relógio biológico e as malditas
regras sociais? O capitalismo? A igreja? Nossa família?
De quem afinal é a culpa por vivermos estressados, diabéticos,
cardíacos, hipertensos, insones e no final das contas,
insatisfeitos? Porque temos que nos adequar a esse excesso de
ordem quando o progresso, na maioria dos casos, não é
necessariamente ligado a isso? Certa vez me disseram que para
uma sociedade evoluir ela necessita de um período de
caos para posteriormente se reorganizar de uma maneira melhor.
Nós também deveríamos sair do caos interior
melhorados. Pena que nem sempre a gente consegue, sequer, entrar
nele.
Excesso
de padrões. Acho que é disso que eu queria falar.
Não estou defendendo uma anarquia ou uma auto-regularização
individual da vida social, mas é que às vezes
a gente realmente tem vontade de quebrar as regras, faltar no
trabalho por pura preguiça, não tomar remédio
de 12 em 12 horas, não combinar a bolsa com o sapato
e tomar litros e mais litros de vitamina de manga batida com
leite (que, aliás, já provaram não fazer
mal algum!).

Desde
o nosso nascimento fomos ensinados a não falar palavrão
e a não falar de boca cheia. Tudo era muito feio. Pra
ser sincera, criança bem criada na minha época
era criança calada. Me reprimiram a sinceridade principalmente
quando se tratava de julgar a aparência física
dos outros. Palavras como gordo, vesgo e fedido não poderiam
ser proferidas por crianças bem educadas. E existiam
também as palavras proibidas, aquelas que por si só
já provocavam arrepios, como: sovaco, mijar, xereca...
Essas sim rendiam palmadas e castigos cruéis.
Tenho
certeza que entre um obrigado e um, por favor, você teve
que fingir, mais de uma vez, aquela expressão de enorme
satisfação quando te presenteavam com maravilhosos
pares de meia no auge dos seus seis anos de idade. Até
hoje estremeço ao ganhar pares de meia.
Os
padrões comandam a nossa vida de tal forma que nos esvaziamos
da espontaneidade. Engolimos aquilo que não gostamos
e defendemos tantas idéias sem acreditar de fato nelas
que muitas vezes deixamos as nossas próprias de lado.Padrões
podem ser enlouquecedores, já que toda a nossa sociedade
se regula por eles. Na verdade seria impossível viver
sem, mas torna-se insuportável à obsessão
provocada por seus exageros.
Aqueles
que não se encaixam nos devidos padrões sofrem
para conseguí-los. As gordinhas querem ser magras, as
baixinhas, altas. Os ricos lamentam a falta de tempo, enquanto
os desempregados lamentam a falta de dinheiro. As morenas desejam
ser loiras, o professor queria ser médico. Os descolados
queriam pensar um pouco mais no futuro, enquanto os bitolados
queriam ter curtido mais o presente. Os padrões que acabamos
nos encaixando ao longo da vida, e que nem sempre são
aqueles nos quais desejaríamos estar, aprisionam. Ninguém
parece conformar-se cem por cento em ser aquilo que é.
No fundo queria ser um pouquinho diferente...Estar fora do padrão
não seria mal.

Na
nossa busca incessante por aceitação e inserção
sabe-se lá aonde, conflitamos com problemas criados por
nós mesmos. Se a gente for pensar somos levados a crer
que somos tantas coisas e que não somos tantas outras
que maluquice é ter que se encontrar em um único
padrão. Temos a permissão divina de ser uma mistura
desconexa, você já deve ter ouvido falar em livre
arbítrio. Não precisamos aceitar o mesmo corte
de cabelo, os amigos que se tornaram inimigos, o amor que já
não se encaixa mais dentro do peito. Apesar da sensação
de que ao nos libertarmos dos padrões deixamos uma parte
de nós mesmos com ele nada nos impede de mudar. E agora
falando de coração, renovar, é preciso.