Único e padronizado
Ericka Rocha

         Odeio acordar cedo. Não importa para qual objetivo. Odeio ter hora pra comer, trabalhar e um espaço de tempo determinado para dormir. Odeio prazos para ter boas idéias e número determinado de caracteres para expressá-las. Odeio rotina. Quem determinou nosso relógio biológico e as malditas regras sociais? O capitalismo? A igreja? Nossa família? De quem afinal é a culpa por vivermos estressados, diabéticos, cardíacos, hipertensos, insones e no final das contas, insatisfeitos? Porque temos que nos adequar a esse excesso de ordem quando o progresso, na maioria dos casos, não é necessariamente ligado a isso? Certa vez me disseram que para uma sociedade evoluir ela necessita de um período de caos para posteriormente se reorganizar de uma maneira melhor. Nós também deveríamos sair do caos interior melhorados. Pena que nem sempre a gente consegue, sequer, entrar nele.

          Excesso de padrões. Acho que é disso que eu queria falar. Não estou defendendo uma anarquia ou uma auto-regularização individual da vida social, mas é que às vezes a gente realmente tem vontade de quebrar as regras, faltar no trabalho por pura preguiça, não tomar remédio de 12 em 12 horas, não combinar a bolsa com o sapato e tomar litros e mais litros de vitamina de manga batida com leite (que, aliás, já provaram não fazer mal algum!).

          Desde o nosso nascimento fomos ensinados a não falar palavrão e a não falar de boca cheia. Tudo era muito feio. Pra ser sincera, criança bem criada na minha época era criança calada. Me reprimiram a sinceridade principalmente quando se tratava de julgar a aparência física dos outros. Palavras como gordo, vesgo e fedido não poderiam ser proferidas por crianças bem educadas. E existiam também as palavras proibidas, aquelas que por si só já provocavam arrepios, como: sovaco, mijar, xereca... Essas sim rendiam palmadas e castigos cruéis.

         Tenho certeza que entre um obrigado e um, por favor, você teve que fingir, mais de uma vez, aquela expressão de enorme satisfação quando te presenteavam com maravilhosos pares de meia no auge dos seus seis anos de idade. Até hoje estremeço ao ganhar pares de meia.

         Os padrões comandam a nossa vida de tal forma que nos esvaziamos da espontaneidade. Engolimos aquilo que não gostamos e defendemos tantas idéias sem acreditar de fato nelas que muitas vezes deixamos as nossas próprias de lado.Padrões podem ser enlouquecedores, já que toda a nossa sociedade se regula por eles. Na verdade seria impossível viver sem, mas torna-se insuportável à obsessão provocada por seus exageros.

         Aqueles que não se encaixam nos devidos padrões sofrem para conseguí-los. As gordinhas querem ser magras, as baixinhas, altas. Os ricos lamentam a falta de tempo, enquanto os desempregados lamentam a falta de dinheiro. As morenas desejam ser loiras, o professor queria ser médico. Os descolados queriam pensar um pouco mais no futuro, enquanto os bitolados queriam ter curtido mais o presente. Os padrões que acabamos nos encaixando ao longo da vida, e que nem sempre são aqueles nos quais desejaríamos estar, aprisionam. Ninguém parece conformar-se cem por cento em ser aquilo que é. No fundo queria ser um pouquinho diferente...Estar fora do padrão não seria mal.

         Na nossa busca incessante por aceitação e inserção sabe-se lá aonde, conflitamos com problemas criados por nós mesmos. Se a gente for pensar somos levados a crer que somos tantas coisas e que não somos tantas outras que maluquice é ter que se encontrar em um único padrão. Temos a permissão divina de ser uma mistura desconexa, você já deve ter ouvido falar em livre arbítrio. Não precisamos aceitar o mesmo corte de cabelo, os amigos que se tornaram inimigos, o amor que já não se encaixa mais dentro do peito. Apesar da sensação de que ao nos libertarmos dos padrões deixamos uma parte de nós mesmos com ele nada nos impede de mudar. E agora falando de coração, renovar, é preciso.