A carniça
Martinho Junior

“E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça
Como uma flor a se entreabrir.
O fedor era tal que sobre a relva escassa
Chegaste quase a sucumbir.”
Charles Baudelaire, “Uma carniça” (Flores do Mal, XXIX).

          Já faz umas duas semanas que estou aqui, largado à beira deste lago. Um local desconhecido, que nem mesmo sei o nome, tampouco em que cidade. Não me lembro direito como vim parar aqui, todavia foi logo após aquele infeliz atropelamento que sofri numa noite com nevoeiros em demasia. Andava tranquilamente e despretensiosamente, tanto que nem me dei conta quando o frio metal negro do veículo em alta velocidade, atropelou minha carne quente de pele também negra, me arremessando e provavelmente quebrando a grande maioria de meus ossos. No fim da queda, devo ter perdido algo mais do que a pele que, no contato com o chão, raspou até onde músculos se escondiam. Também agora, não preciso contar quantos danos obtive, qualquer coisa além de minha consciência seria para lá de supérfluo.

          Pouco tenho a dizer sobre culpados; não posso indicar ninguém como tal: o condutor: certamente não, pois ele fazia seu caminho costumeiro na velocidade de sempre na estrada do dia-a-dia. Contudo, não posso me considerar culpado também: já que nunca soube distinguir ao certo o que é calçada e o que é estrada (diga-se de passagem que nunca soube também se poderia me enquadrar como pedestre ou outra coisa, inclassificável). Sempre segui instintos, assim fui feito e não sou nada (sobretudo agora) para julgar tais aspectos em torno da criação, seja ela acaso ou divina.

          Eu mesmo não me incomodo em estar no sereno, ao sol ou na chuva, o que me incomoda, na verdade, é que, raramente, uma alma viva aparece para fitar-me. Quando acontecem esses eventos (sempre detestei solidão), são extremamente fugazes e sempre repetitivos, em um processo quase mecânico: Aproximam-se, duas ou três palavras de consternação e pronto, seguem seu caminho e cá fico eu na imobilidade solitária que me é peculiar desde o acidente. Incomodado e envergonhado de verdade, ficaria, paradoxalmente, se alguém ficasse muito tempo ao meu lado e começasse a falar de meu mau cheiro.

          Felizmente ninguém, até então, o fez, mas é preciso dizer que tal cheiro pútrido começa perturbar até mesmo a meu nariz. Logo eu, acostumado a cheiros de carnificinas, comidas estragadas de todos os tipos, esgotos fétidos, excremento dos mais diversos animais, me vejo impressionado pelo meu próprio cheiro, o cheiro da decomposição, do desaparecimento, do ir ao pó. Também pudera, no estado em que me encontro, não poderia ser diferente. Embora o cheiro me perturbe, não consigo ter a exata noção de sua intensidade. Por uma razão bem simples: quando sofri o atropelamento, e como vocês já devem ter percebido, não reclamo por isso, minha cabeça tinha ficado esticada, longe do corpo, como um cão treinado que se finge de morto. Entretanto, numa reação motora, meus músculos, ainda traumatizados pelo forte choque, sem meu consentimento mudaram-me de posição, de tal modo que sinto o cheiro que vem exatamente de meu ventre. Minha cabeça foi deslocada, como se o pescoço estivesse quebrado (e eu não tenho certeza se ele foi ou não), uma posição incomoda que eu agradeço por não estar sentindo nada. O choque deve ter sido com tamanha força que mesmo depois de algumas semanas e com a massa corporal já bem diminuída, ainda sofro pelos músculos que ainda dão sinal de reflexo.

          Se ao menos eu estivesse de boca fechada, não salivaria na grama e os insetos que começam a tomar conta dessa carcaça falante não passariam por lá, isso é bem humilhante. Uma vez, quando corria de maneira desenfreada em um parque sabe-se lá onde, escutei um senhor já maduro, falando que morrer era como uma orquestra que está no fim de uma apresentação. A orquestração da até para entender o que ele talvez quisesse dizer com tal discurso. Mas quanto à beleza realmente eu não sei onde enquadrá-la, certamente ele não pensou em um destroço de maxilar aberto, no qual ele engoliria, sem querer e sem esforço, dos mais variados tipos de bichos repulsivos e nojentos. Mas, não o condeno e também não quero que ele passe por isso para mudar de opinião. Talvez quando tudo isso passar, eu mesmo mudarei de opinião e começarei ver arte em tudo.

          Há uma questão que ainda me deixa perplexo. Como minha carniça veio parar à beira deste lago? Não há nem vestígios de uma estrada pelas redondezas, não escuto barulho de nada parecido. Será que, aproveitando minha fragilidade depois do choque, tiveram a coragem de me colocar tão cuidadosamente aqui entre folhas secas para que o cadáver pudesse, com conforto, ser deflagrado pela natureza com suas leis impiedosas? Mas o que estou fazendo? São questões que não me interessam agora, superficiais. Pouco importa se houve compaixão ou descaso, amor ou indiferença: importa-me unicamente cada momento daqui para frente. O sol que brilha e seca a carne, que um dia esteve encharcada de sangue, é uma situação de torpor. No inicio era desagradável, depois passou a ser confortável, mas de uns dias para cá, não sinto mais nada, talvez porque o prazer repetitivo perde o gosto, talvez porque não há mais o que sentir nessa carne desalmada.

          Por mais absurdo que pareça, estou extremamente cansado, gostaria muito de poder dormir ao pé da árvore que está a poucos metros de meu despojo, mas creio que isso não seja mais possível.
Espere! Alguém vem lá!

“Vejam só o estado daquela criatura, no mínimo foi assassinada e jogada às traças. Deus do céu, que cheiro asqueroso, embrulha-me todo o estômago”.

         Esses senhores, principalmente este que mais se aproxima de mim, são diferentes, sinto que são. Entretanto, escutar claramente, só escuto deste mais próximo, que tem cara limpa, por certo não deve morar nas redondezas, no máximo um conhecido de algum desconhecido. Pelo barulho que seu cavalo faz ao andar, não possui grandes habilidades na montaria, além do mais está limpo, só não consigo identificar se cheira bem ou não, pois só absorvo a minha própria podridão. Bem portados, chapéu, dois ou três cavalos e pelo menos quatro senhoras, pois o zumbido atrás deles é notório, a conversa sobre algo que nem de longe é este despojo. Assim melhor, pois isso indicava também que, diferentemente deles, não sentiam meu cheiro.

“Isto está uma tremenda nojeira. Acho que devíamos fazer algo, está muito próximo à propriedade de seu Pai, e como amanhã haverá uma comemoração, devíamos dar um jeito nisso.”

          Agora escuto vários cochichos, ele se afastou de mim, deve estar discutindo, junto com aqueles outros estranhos meu destino. Devo admitir que sou uma presa fácil, para qualquer um, mas antes já estaria longe, nunca sofri um arranhão, nem de fuzil. Mas hoje tenho que assistir ao que decidirem.

          As vozes ficaram tão longes que já não escuto nada, provavelmente foram embora. Mais um daqueles que se aproxima vê a lástima do estado e some, sem mais. Mas não vou me queixar, se eu sempre reclamei da vida, não vou agora, neste estado, injuriar a morte, mesmo que tenha vontade. A vontade nesse momento era de devorar um belo pedaço de carne bem passado, como nos bons tempos, do qual salivava só de rememorar o cheiro da suculenta mistura que me aguardava. Ao menos ainda me resta a memória e a certeza que só ela me resta.

          Mais uma vez, mais barulho, outras pessoas. Difícil de acontecer no mesmo dia, pessoas diferentes visitarem-me.

“Acho que com isso poderemos dar um jeito”

         São os mesmos que a pouco saíram. Dessa vez trouxeram alguns equipamentos. Pá, enxada, picareta, vieram prevenidos.

“Vamos cavar aqui mesmo, perto do lago, embora seja úmido, creio que vai dar certo”.

          Ao menos o estado de torpor que o sol me deixava estava sendo substituído pelo frio do barro lamacento que cobria minha carcaça, cavaram uma cova pequena, pois assim ouvi dizer.

“Não é grande coisa, é só para esconder, sobretudo o cheiro”.

         Não sei o que prefiro. Neste momento confesso que o barro frio na carne seca e quente está gostoso, entretanto sei que vou me acostumar e logo não haverá gosto algum. Daí talvez sinta falta daquele lago, das folhas secas e do sol queimando minha carne podre e até mesmo das pessoas que reclamariam do cheiro insuportável que cada vez seria mais intenso, até chegar ao ápice e começar a declinar.