Este
texto surgiu por diversos motivos. O primeiro dá-se
as insistentes leituras que venho realizando ao redor da
noção de imagem. Em segundo lugar, ele surgiu
graças ao ingresso no doutorado, em história
da arte. Este pequeno rascunho trata de um texto que discute,
principalmente, um sub-capítulo de um livro de Régis
Debray Vida e Morte da Imagem, 1994.
Neste
livro, Debray objetiva estudar a imagem para além da
arte, sua ontologia. Neste aspecto cunha um rico diálogo
com teóricos como Hans Belting, sobretudo em seus livros
Antropologia da Imagem e Imagem e Culto[1],
e Georges Didi-Huberman, em Diante da Imagem e O
que vemos, o que nos olha[2]. Teóricos
que partilham com Debray um estudo que abrange o desenvolvimento
da imagem desde o seu nascimento – intimamente ligada
com o embate do homem com a morte – até discussões
sobre seu suporte (médium, para usar a expressão
de Belting). A idéia de suporte, aliás, é
cara tanto a Debray quanto a Belting. Se o primeiro –
que é um teórico múltiplo, cujo escritos
percorrem diversas áreas, utiliza o termo midiologia
para estudar os suportes, Belting, por sua vez, o critica
na medida em que para ele o estudo da imagem só poderá
ser eficiente se levarmos em conta sua tríade, uma
espécie de iconologia, a saber, médium-corpo-imagem.
Vida e morte da imagem se coloca assim como um livro
capital para o estudo da imagem e sua relação
com a arte.
No sub-capítulo deste livro, intitulado “A
era da arte”, que aqui comento, o autor se detém
no estudo da imagem na arte. Cabe ressaltar que, quando
ele diz era da arte, está situando uma era da imagem;
assim como há, para ele, a era do culto, da mídia
etc. Assim ele procura estudar o nascimento, ou a “liberação”
da arte. Se Kant observa o fenômeno da arte como próprio
ao homem, já que este sempre insere em suas obras
uma intenção, diferente da natureza, onde,
por exemplo, uma flor existe em seu estado puro, livre de
qualquer intencionalidade. Debray, por sua parte, nos coloca
que a arte como liberdade humana não pode ser encarada
como intenção e sim como liberdade que a civilização
realizou desvinculando-se do seu criador.

Esta
idéia deixa claro um fator extremamente importante
e fulcral na teoria de Debray: o advento da arte só
foi possível quando o homem (o artista) toma partido
para sua arte, quando sua voz se fala mais alto daquele
que a encomendou ou financiou. Portanto, uma “liberação”
a favor do desenvolvimento de sua arte.
Porém, podemos nos perguntar se esta “individualidade
assumida”, o tomar a voz na arte, não estava,
em algum momento presente nas imagens de culto. Debray aponta
para o papel – a consciência de tê-lo
– que o artista tem na sociedade, o que não
tem, segundo ele, absolutamente ligação com
o fato da assinatura de obras, tampouco a profissionalização
do artista.
Já para Belting em Imagem e Culto essa seria
uma idéia um tanto descabida, já que não
há como misturar as imagens de culto com aquelas
da arte. Belting pergunta-se como pode haver arte (obviamente
seu conceito, ou sua postulação) se ainda
não se tinha em mente uma produção
voltada à idéia de arte, muito provavelmente
“a era da arte” de Debray entra em acordo com
as imagens da arte de Belting, mas, me parece, que em alguns
casos contemplaria também aspectos do culto; o que
determina a arte mereceria um estudo individualizado da
obra, para perceber que “o artista é o artesão
que diz, convictamente, ‘eu’”.
Na era da arte existe esta idéia do artista que deixa
de ser um simples artesão quando se faz ouvir, ou
seja, está presente, há também um outro
elemento: a produção de um território,
ou seja, um espaço “ideal, físico e
citadino”. Entretanto esta produção
de um território é concomitante com a criação
de um espaço discursivo, fruto dos mediadores produzindo
discursos sobre seus lugares ideais. De certa forma andam
juntas a criação do território e o
espaço discursivo; quanto maior a incidência
de um, consequentemente maior a ocorrência do outro.
De modo quase temporal-evolutivo, Debray mostra-nos as passagens
dos territórios. Assim cantos que eram apresentados
em uma igreja, “ganham” autonomia e começam
a ser realizados em outros espaços construídos
exclusivamente para isso, como as projeções
dos Lumière que deixa as barracas da feira para,
com Méliès, se apresentar num antepassado
das salas de projeção.
O espaço territorial da arte é assim definido
e a era da arte se faz “livre” também
quando ela se reflete sobre si própria ampliando
juntamente com o espaço discursivo seu campo de atuação.
Notas:
[1]
Cf. Pour une anthropologie des images, Gallimard,
2004. A edição em português está
em fase de conclusão, Antropologia da Imagem,
será lançado pela Annablume com tradução
de Martinho Junior. Imagem e Culto disponível no
original, em Alemão, além das traduções
inglesa, francesa e italiana. Image et Culte, Le
cerf, 1999.
[2]
Cf. Diante da Imagem disponível em sua versão
original: Devant L'image, Les Éditions de
Minuit, 1990. O que vemos, o que nos olha, 34,
1998. Tradução de Paulo Neves.