O documentário como cinema da não-realidade
Lucas Rodrigues Pires

         Há uma argumentação do documentarista Eduardo Coutinho que diz que todo documentário é uma obra de ficção e que, portanto, não deveria haver a distinção entre documentário e ficção. Ele se baseia na idéia de que tudo é cinema e, assim, mesmo os documentários são obras construídas pelos moldes da linguagem cinematográfica – uma narrativa com seleção de planos, montagem, sonorização etc.

         Em relação a um filme propriamente dito, o ponto de partida para diferenciar documentário de ficção pode ser o fato de o primeiro não ser basicamente uma encenação, não contar com atores profissionais que representam diante das câmeras. Também não ter um roteiro pré-determinado, ser filmado em locações autênticas, sem cenários. No documentário, a “matéria-prima” seria a realidade, o cotidiano, enquanto na ficção o “foco” estaria na criação/imaginação do roteiro e da forma de filmagem. Assim, supõe-se que os documentários são guiados por material filmado diante dos fatos, por entrevistas com personagens reais que falam sobre determinados assuntos e experiências (aqui já há controvérsias a respeito da intervenção do autor na realidade como procedimento válido para uma abordagem da realidade).

         Enquanto isso, na ficção não haveria espaço nem razão para entrevistas com pessoas reais, por exemplo. Ali, tudo seria encenado, pré-definido, e a equipe de produção teria controle sobre o que seria filmado e representado. A realidade faria parte da obra não como um fato direto, mas sim indireto, recriado. A realidade seria a da narrativa, contida apenas na diegese.

         Diante de tais colocações iniciais, deve-se partir para análises mais significativas e complexas, pois o cinema vai além de molduras conceituais pré-estabelecidas. Um exemplo simples de que não há uma demarcação clara a tal respeito é que muitas obras audiovisuais ditas de ficção apresentam momentos documentais, sendo também verdadeiro o inverso. Podemos citar, caso recente, a novela Páginas da Vida, que é uma ficção que ao final de cada capítulo apresentava um depoimento dito real – uma pessoa que falava sobre certo tema a partir de sua experiência. Ou seja, uma apropriação do documentário inserido na ficção. Pode-se lembrar também o filme Roma Cidade Aberta, de Rossellini, que no meio de sua narrativa dramática exibe cenas documentais do exército nazista nas ruas de Roma (mas sem explicitar que as são). Filmado às escondidas, seu diretor – com tal estratégia – quis dar maior veracidade à história contada.

         Pelo lado contrário, é notável o caso do considerado o primeiro documentário propriamente dito, aquele considerado o precursor do gênero, datado da década de 1920. Conforme Silvio Da-Rin relata em Espelho Partido – Tradição e Transformação do Documentário (Azougue Editorial, 2004), em Nanook of the North (1922), de Robert Flaherty, a verdadeira mulher do esquimó foi substituída por outra da preferência do diretor, além de os membros da comunidade encenarem diante das câmeras seus gestos cotidianos e mesmo encenarem “situações tradicionais que já não faziam parte da vida da comunidade, mas que serviam ao seu propósito central de representar idilicamente o conflito entre o homem e a natureza hostil” (pág. 52).

         Godard é um dos cineastas que experimentou os dois “lados” e também não acredita numa oposição entre ficção e documentário, ou ficção e não-ficção. Diz ele: “todos os grandes filmes de ficção tendem ao documentário, como todos os grandes documentários tendem à ficção. (...) E quem opta a fundo por um encontra necessariamente o outro no fim do caminho”.

         Mas neste momento o leitor pode questionar: e os filmes dos irmãos Lumière no início do cinema? Não eram eles documentais quando mostravam pessoas saindo da fábrica, um grupo de homens jogando carta sentados à mesa ou um trem chegando na estação? Sim, os Lumière, na história do cinema, carregam consigo a tradição de serem o “pai” do documentário, enquanto Georges Meliès ficou com o posto de o homem que descobriu o cinema como farsa, ilusão e espetáculo.

         Lumiére, ao criar seu cinematógrafo, idealizava o aparelho dentro de uma “vertente técnico-científica de pesquisadores do movimento”, como escreve Da-Rin, que completa que Louis Lumière perseguiu uma linha com esta trajetória, “dedicando-se a experiências de observação e registro do real executadas por vezes de forma sistemática e com a câmera oculta” (pág. 27-8).

          Assim, tem-se o cinema surgindo com o respaldo de reprodução do movimento, que se assemelha a um discurso da representação da realidade, em oposição ao cinema como encenação e espetáculo, que, aliás, foi condenado por Lumière. Novamente recorremos a Da-Rin, que reproduz trecho de entrevista de Louis Lumière em 1946 ao estudioso francês do cinema Georges Sadoul: “meus trabalhos foram trabalhos de investigação técnica. Jamais fiz o que se chama de ‘mise-en-scène’ (...). No cinema, o tempo dos técnicos acabou, agora é a época do teatro”.

         De fato, a ‘mise-en-scène’ seria o ar de encenação que tornou o cinema um grande contador de histórias e um grande espetáculo. A vertente a que pertencia Lumière acabou gerando frutos na União Soviética, principalmente com Vertov e seu O Homem com uma Câmera. Segundo Sadoul, em História do Cinema Mundial – das origens aos nossos dias, Vertov “pretendeu banir do cinema a realização, os argumentos, os atores, os estúdios etc., ao mesmo tempo que defendia a utilização exclusiva de elementos ‘captados ao vivo’ – os dos documentários ou das atualidades” (p. 225). Mas a importância do cinema de Vertov estava na montagem, processo no qual o sentido de uma obra nasceria. E aí, com a montagem, chegamos novamente a um ponto essencial da diferenciação: se cortamos e unimos planos diferentes, mesmo sendo filmados nos moldes preconizados por Vertov, podemos falar de uma ‘cinema-verdade’, de um tipo de cinema documentário que trabalha a realidade? Ou a realidade vista pelo espectador estaria condicionada pela montagem, pela condução dos planos e, conseqüentemente, dos sentidos?

         Mas deixemos de lado por enquanto esta argumentação, sem dúvida válida e corrente desde os primórdios do cinema. A tradição enxerga o documentário como um gênero específico, que apresenta sua própria forma de ação e que difere da ficção propriamente dita. Assim, permite que haja um certo “hibridismo” do audiovisual, esse encontro no fim do caminho de um com o outro, independentemente de qual se parta, conforme sugeriu Godard. E esse hibridismo é recorrente no cinema, o que demonstra que os limites e as imposições de cada gênero não estão fechados em si. Tanto que foi muito difundido o gênero intitulado "docu-drama", em que há documentário com dramatização dos fatos reais.

         Apesar dessas aproximações colocadas, talvez o argumento maior da tese defendida por Coutinho resida na própria linguagem do cinema, em sua natureza de representação. O cinema é uma imagem e, como imagem, indica a presença de uma ausência, ou vice-versa. Não é a idéia aprofundar aqui uma discussão acerca da natureza da imagem, mas é preciso ao menos recordar que a imagem cinematográfica é também uma imagem. E toda imagem é uma representação, o que de imediato já nos remete a uma não-realidade. Fugindo da constatação e crítica de um excesso de imagem e escassez de realidade, convém aqui apenas apresentar o fato de que mesmo os documentários são uma forma de representação, mas vendidos como realidade, como um “cinema verdade”, apesar de ser esta uma argumentação já ultrapassada.

         O documentário é cinema como outra obra qualquer, e por sua “gramática” constrói uma narrativa. Se não é encenado de forma propriamente dita, apesar desta fazer parte da própria filmagem (é só pensar se é possível alguém ser filmado sabendo estar sendo e não “atuar” para a câmera... O simples fato do conhecimento da presença da câmera traria uma “mudança” no agir, mesmo que inconscientemente), recorre aos atributos da montagem para criar seu significado. Assim, ao final, tem-se uma obra realizada da mesma forma que a ficção – ou seja, constrói seus sentidos através da montagem. Daí o questionamento quando da menção a Dziga Vertov. É na montagem que a mão do diretor mais se revela, pois ali reside o poder de gerar as significações. É ali, na hora de montar – que se explicita a seleção de material, o que entra, o que não entra, a ordem dos planos, de falas, de imagens. Constrói-se cena para se chegar ao objeto-filme final, tal qual num filme de ficção.

         Portanto, o documentário pode ser, e deve, ser considerado uma obra de construção de seu realizador. Mais do que isso, uma recriação de uma realidade observada e “filmada”, ou, como falou John Grierson, documentarista inglês dos anos 1930, o documentário seria o “tratamento criativo da realidade”.

        Não há como não lembrar de Fahrenheit 11 de Setembro, de Michael Moore. Neste filme, Moore é praticamente um personagem do filme, aparecendo em cena em situações em princípio não encenadas – em entrevistas, em lojas para comprar armas etc. Sendo um documentário, como não ver ali a construção de uma narrativa que recoloca fatos reais e tenta reconstruir um contexto das tragédias que o filme busca discutir? Há uma manipulação do material pesquisado e filmado para se provar a “tese” de seu autor. Realidade ou construção?

        Outro filme, para visitar o cinema brasileiro, é Ônibus 174. O diretor José Padilha, hoje elevado a estrela com seu Tropa de Elite, resgatou imagens da cobertura da tevê e da CET para reconstruir a tragédia do seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro. O desenvolvimento da narrativa é de tensão crescente, com a história evoluindo para o clímax, que é a tragédia. Reconstrói o cenário, contextualiza os “personagens”e prepara o espectador para o fim. Tudo isso pontuado por uma trilha sonora de tenso impacto dramático. A música no documentário tem fundo significativo na construção dos sentidos. Se inserida, acaba por criar dramaticidade ao espectador, manipulando emoções.

        O cinema de Coutinho busca ser um documentário puro, sem trilhas, sem manipulações de emoções. Aproxima a câmera, o entrevistador e o entrevistado. Talvez ele seja um dos poucos que poderiam defender a realização de um cinema-verdade nos moldes antigos, quase voltando a uma vertente iniciada por Louis Lumière. Mas não o faz, sabe que mesmo seu cinema é construção, reconstrução, representação. Trabalha a realidade de modo que não permite a realidade em si. Assim como todas as artes são formas de representação, o cinema documentário também o é. Nesse sentido, o documentário é uma obra de ficção como outra qualquer, mas apenas se referido a uma discussão que envolve o próprio meio cinema. Na superfície e no consenso popular, o documentário mantém-se com status de realidade, de exibidor de uma realidade. Portanto, diferente do filme de ficção em sua representação e em seus objetivos, mas a essência é a mesma.