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Os
Bons Companheiros
Renan
de Simone
Atrás
de um grande homem sempre há uma grande mulher. Isso
é um tanto estranho, um tanto verdade, sim, mas me soa
como uma forma de controle. Já é mais que sabido
que as mulheres tentam controlar os homens e, diga-se de passagem,
conseguem. Não que não saibamos da manipulação,
é que sempre sobram duas opções: é
mais fácil se deixar levar por ele (o controle) do que
lutar contra, ou realmente o queremos, porque, inevitavelmente,
existiria aí algo de bom, uma recompensa. Isso porque
ser controlado te dá um rumo, retira responsabilidades
e facilita encontrar caminhos.
Se a companheira souber seu papel e, consequentemente, o homem
souber o dele (não excluindo aí casais homossexuais
em que sempre alguém assume o papel feminino e o outro
o masculino – por mais suave que seja essa execução
de papéis), nasce daí uma grande relação
entre dois seres e, por que não?, uma relação
efetiva também com o ambiente, pois se funcionam juntos,
passam a funcionar com outros também, elevando um deles,
ou mesmo ambos, ao sucesso.
Aquele que está “por trás” do sucesso
do outro funciona como um guia, alguém que controla seus
passos, dá um rumo para as ações, controla
quando e como suas atitudes serão executadas. É
um radar. Entretanto, uma relação tem um retorno,
um feedback, e nessa volta é que se notam determinados
limites. Se por um lado um é controlador e espera respeito
às suas imposições, deve também,
por sua vez, proporcionar determinadas regalias em certos momentos,
mesmo que seja recompensar aquele que se propôs a “andar
na linha”. Na sua linha.
Foi passando nas belas vias bem pavimentadas da marginal que
senti este pensamento me ofuscar. Por essa São Paulo
um tanto apressada, um tanto parada e sempre em movimento. Na
verdade, pergunto-me se foi o pensamento que me ofuscou ou se
foi o flash do radar fotográfico de velocidade quem o
fez. Com aquela atenção desatenta que só
temos quando fazemos coisas às quais já estamos
mais que acostumados (quem nunca se pegou cantando uma música
e, de repente, percebeu que tinha se esquecido que a estava
cantando, mas não parou de dizer as frases? Um ato falho
musical, por assim dizer), foi que me dei conta do que tinha
ocorrido. Levara uma multa, simples assim.

Fui verificar e vi que já tinham sido instalados mais
de 200 radares pela cidade (que conste aqui que a verificação
foi feita depois, em meu lar – que me perdoem os prevenidos,
mas não me é um costume carregar estatísticas
ao bolso). Radares estes que já aplicam mais de 60 mil
multas por mês e, tirando minha distração,
são cerca de 59 mil motivos diferentes por mês
reduzidos a um argumento único e simplista: “estavam
acima da velocidade permitida”.
Radares controlando nossa velocidade, agora controlando se estamos
parando ou não sobre a faixa de pedestres. Como um argumento
maquiavélico, estes aparelhos se apresentam a nós,
não como uma grande pena, mas, segundo “o rei do
príncipe”, como a certeza da punição,
o que, pelo que me consta até o momento, não evitou
infrações. E eles continuam ofuscando algumas
noites velozes e desatentas.
São Paulo é nossa cidade, nossa companheira, um
tanto promíscua se formos contabilizar todos os seus
11 milhões de companheiros, mas mesmo assim a grande
companheira por trás de seus habitantes. Ela nos controla,
entre outros meios, por seus radares. Todavia, temos aí
um problema paradoxal, contraditório, principalmente
a partir do momento em que aceitamos a afirmação
inicial sobre companheirismo, guias e recompensas por manipulação
aceita. Ela não é leal!
Trafegar acima da velocidade permitida é infração
e deve ser punida como manda a lei, ficando bem claro que não
quero me isentar de nenhuma culpa aqui. Entretanto, é
inevitável me sobrar uma questão escorregando
de alguns pensamentos derretidos por esse calor do concreto
um pouco mais cinza sem as propagandas: não há
lealdade, fidelidade, ao contrato subentendido. Fazendo algumas
verificações (também num outro momento
que não o do carro no instante do flash), lembrei da
legislação de trânsito e vi que, se é
proibido trafegar acima da velocidade permitida, também
é proibido trafegar abaixo da metade da velocidade máxima.
Ou seja, se num local é estabelecido uma velocidade de
80 km/h, é considerado infração passar
por ali numa velocidade abaixo de 40 km/h.
Agora, depois de tantas questões feitas, tentem responder
mais uma que a unilateralidade de um texto escrito só
deixará ecoando uma voz na mente. Quantas vezes você
já não se viu andando, ou rastejando (se é
que isso é possível com um veículo motorizado),
por essas mesmas marginais? Quantas e, o mais importante, lembrem-se
que a velocidade estava praticamente zero, ou seja, abaixo da
legislada naqueles locais. Sim, esse relampejo que tiveram foi
como aquele flash, talvez um pouco menos decepcionante pra vocês
que não tiveram de pagar a infração. Contudo,
não me apedrejem ainda.
Caso minha afirmação tenha funcionado da maneira
errada, vocês devem estar pensando que minha sugestão
é multar todos os veículos parados forçosamente
no trânsito. Não! Essa não é a idéia,
o que quero dizer é mais óbvio ainda. Se a legislação
faz duas afirmações quanto à velocidade,
tanto para mais quanto para menos, compreende-se que, entre
outras questões, está envolvida a segurança
e uma relação intrínseca entre o estado
das pistas e condições de locomoção
da cidade e a velocidade em si. Dessa forma, se nessas pistas
é proibido trafegar acima de determinada velocidade e
as pessoas são punidas caso desobedeçam essa regra,
isso quer dizer também que as rotas da cidade estão
preparadas para abarcar um tráfego que não fique
numa velocidade abaixo da metade da máxima permitida,
algo que o empirismo irônico do dia-a-dia já nos
provou não ser verdade.

Nesse ponto temos a deslealdade: se a companheira controla,
mas não recompensa, ela não cumpre com sua parte
no contrato. Se é um radar, mas só com a função
ofuscante, de nada adianta. O controle que aceitamos dessa gigante
cinza é em vão porque perde sua função,
deixamos parte das escolhas e intimidade, somos invadidos para
que ela não cumpra com sua parte no plano. Como disse,
um paradoxo contraditório.
Dizem que por trás de todo grande homem tem uma grande
mulher. Assim, pode-se dizer que por trás de grandes
cidadãos, existe uma grande cidade companheira. Acontece
que já ouvi uma vez que, por trás de todo homem
fracassado, existem duas mulheres (o que representa uma maximização
do controle e redução da recompensa). Ou seja,
por trás desses cidadãos que se descortinam à
nossa frente, existem radares e mãos de ferro suaves,
com controles que parecem abraçar, mas não um
abraço terno de uma companheira, um abraço eterno
de quem rouba a carteira.
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