Receita
fácil para conseguir notoriedade no meio da massa virtual:
1-
Comece fazendo uma coisa imbecil, tipo embebedar-se, dar em
cima da mãe do seu amigo e assediar um transeunte qualquer.
2- Garanta que alguém esteja filmando, sabe, só
pra você poder se recordar de como suas ações
são edificantes para o mundo.
3- Tenha certeza de que por algum meio mágico (ou tecnológico,
se você preferir acreditar que as coisas funcionam assim)
aqueles minutinhos de gravação tenham acesso público
gratuito na internet.
4- Deixe fermentar por algum tempo e espere que um “marketeiro”
(alguma pessoa com pouca coisa pra fazer e muito tempo de sobra)
ache o vídeo e pense:
- Nossa, eu não queria ser ele... Aposto que o pessoal
vai adorar ver isso.
Pronto. Você é uma celebridade instantânea.
Com alguns indivíduos que se enquadrem nestas características
é possível contar com uma rede própria
de divulgação mais eficiente que muitos assessores
de imprensa.
O
Youtube, um dos mais incríveis acervos de imbecilidades
digitais, conquistou em pouco tempo a função de
espaço público para a divulgação
das mais excêntricas personalidades na internet. Tudo
bem, antes que alguém reclame, admito que o site possui
vídeos realmente interessantes e até mesmo úteis
(aprendi a dobrar minhas camisetas com um japonês muito
simpático, por exemplo).

“ÊiêiÊ... Se eu pudesse eu matava mil”.
Frase do trôpego Jeremias José do Nascimento, nativo
de Caruaru, Pernambuco, em momento de profunda reflexão
exibido no programa policial da cidade, "Sem Meias Palavras".
Seria só mais uma reportagem sem conteúdo (outra
discussão, para outro dia e outro texto) – correr
atrás de um bêbado para mostrar como é divertido
não ser ele –, mas alguma alma astuta decidiu que
seria muito relevante colocar isso na internet e transformar
um momento de embriaguez em diversão mundial.
É
engraçado pensar que mesmo no mundo virtual o que realmente
conta para a divulgação e imortalização
destes personagens seja na verdade um tipo de propaganda boca-a-boca
– ou e-mail a e-mail, scrap a scrap, mouse a mouse, ou
qualquer outra medida que preferir. Quanto tempo demora? Não
tenho nem idéia, mas sei que funciona. É interessante
que, mesmo com os sintomas da virtualidade, como o afastamento,
a superficialidade e fragilidade das relações,
um fenômeno tão único dependa do estabelecimento
de vínculos, mesmo que seja somente o de enviar aquele
spam para sua lista do Orkut. Ainda são seus “amigos”,
o que pressupõe algum contato.
Mas
para você que discorda de tudo o falei e ainda acha que
o Jeremias nem é tão conhecido assim, pois nunca
ouviu falar dele, peço que lembre de um nome: Ruth Lemos.
Onde você
ouviu o célebre “Sanduiiiiiche iche”? Aposto
que não foi ao vivo na Globo, nem que descobriu sozinho
o vídeo.
A
falta de articulação da empregada Sônia
é uma das mais recentes sensações do site.
É realmente engraçado ver como uma pessoa atropela
letras em um termo “comum” para qualquer internauta:
-
Sônia, fala www.youtube.com
- Dablu, dablu, dablu, dablu, pontu IuIutubi pontu com?
Os
padrões do divertimento são outros agora. A febre
no mundo é saber que qualquer um pode participar como
produtor de conteúdo, mostrando o cotidiano. Tudo pode
ser transformado em diversão. A realidade vira espetáculo.
Outro
grande exemplo é o “Tapa na pantera”, no
qual uma senhora afirma veementemente que seus “tapinhas”
não fazem mal e como ela não é viciada,
mesmo que consuma diariamente há trinta anos. O vídeo,
feito com uma atriz, debocha do real de maneira tão verdadeira
que ainda o torna polêmico.
Graças
aos recursos multimídia, que têm seu apogeu na
internet, surge a possibilidade de congregar diversos meios
de comunicação em uma só plataforma. Cada
pessoa tem a oportunidade de criar seu próprio espaço
e tempo sem sair de casa. É possível apreender
o mundo, acrescentá-lo e até mesmo ficar famoso
sem levantar da cadeira.
Agora,
com licença, preciso ir fazer alguma besteira e filmar
pra ver se funciona comigo. Onde será que eu deixei a
furadeira?