Causos da Mostra
Martinho Junior

       Preciso, antes de começar o texto, confessar que ele surgiu a partir do filme O Livro de Cabeceira de Peter Greenaway. A primeira impressão é que não há relação possível entre o que vocês lerão e o referido filme. Porém, o único ponto de intersecção que gostaria que fosse levado em consideração é o próprio livro de cabeceira (no qual são inseridas diversas listas de diversas coisas). Assim, pensei em organizar O meu livro de cabeceira apenas com a lista das coisas que não mais suporto. Aproveito então o ensejo do calendário de novembro para organizar esta lista de uma outra forma, contando causos que me chamaram atenção ou, pelo contrário, não despejei nem o mínimo comprometimento.

       Não faz muito tempo que freqüento a mostra internacional de cinema, que acontece anualmente em São Paulo. A 31ª (que acontece entre 19 de outubro e 1 de novembro) é a minha de número 7, ou seja, não há muito que contar, entretanto cada ano que passa mais interessante são os acontecimentos. Porém, algumas coisas são bem fáceis para criar generalizações, como, por exemplo, as reclamações, sempre abundantes e presente em todas as edições da mostra. As sessões privilegiadas por mim são basicamente de dois tipos: primeiro as que não entrarão em circuito; segundo as retrospectivas que dificilmente veremos nas salas escuras. Mas nem sempre (quase nunca) consegue-se manter a fidelidade nesse programa e acabamos por ver, inclusive, os que estrearão na próxima semana. Mas tudo isso é um outro assunto, agora voltemos ao nosso foco e, como prometido, vamos aos simples relatos nesse meu ex-futuro livro de cabeceira.

 

1.

Neste ano (não colocarei qual seção nem nomes para não zangar ninguém), em uma seção à tarde fui assistir um filme que estava esperando desde que foi lançado na França e apenas agora aparece por aqui. Foi uma decepção, não era nada daquilo que esperava (a espera é quase sempre injusta, as expectativas, etc.), mas o que me chamou atenção foi outra coisa. Antes de a seção começar, para variar, atrasou, cerca de 15 minutos. Mas eis que uma única voz, gritando raivosamente com os monitores, assessoria, cinema etc., reclamando o porquê de tanta demora, o que seria muito injusto já que programa-se para ver outros filmes e o atraso em um fura todo o esquema, sem contar que “na Europa, ou no Canadá, isso não ocorre, lá é outra coisa, funciona!”. Depois de se estressar bem, ele sai em disparada para provavelmente reclamar com quem estivesse lá fora. Assim que o dono da voz rouca saiu da sala, as luzes se apagaram e a seção não mais se protelou. Três minutos depois o dono da voz retorna e esbaforido sobe as escadas em velocidade estonteante (a sala já estava escura) e tomba quase no último degrau para a felicidade de algumas almas invisíveis.

2.

Camisas vermelhas do Che. Tudo bem, fez 40 anos de sua morte e, dizem, é preciso comemorar. Mas eu sempre fui muito chato, com tudo. E em toda mostra eu vejo de 8 a 10 camisas vermelhas do Che, daquela mesma pose muito mais que conhecida, o olhar perdido mirando o infinito, para frente, para o futuro. Não sei, mas me pergunto o que é usar uma camisa vermelha do Che, com a pose referida. Não tenho absolutamente nada contra, mas a mostra é como um imã para essas camisas.

 

3.

Teve um filme na 26º mostra que, aparentemente, não foi do agrado geral. Eu particularmente não sou habituado a deixar a sessão uma vez começada. No caso referido era uma visão contemporânea de um fato histórico, bíblico, se não me engano. Fila na porta, ingressos esgotados para a sala 2 do cinearte (hoje, cine bombril), gente entusiasmada para o evento. Nos 10 primeiros minutos era notório o desconforto geral, gente balançando em excesso em suas cadeiras, nos próximos 10 as primeiras desistências. 50 minutos depois um grupo inteiro se abstém do desfecho. Prefiro achar que vai melhorar, e me contento com essa expectativa (já falei sobre expectativas). No decorrer dos outros 50 minutos vi muita gente abandonar o barco. Quando enfim acabou (enfim mesmo, era ruim demais) e as luzes acenderam havia apenas 3 sobreviventes e eu era um deles. Perguntei para o sujeito do meu lado o que ele tinha achado: “muito bom, há poucos filmes assim hoje” e eu respondi: “é, realmente há poucos”. Votei (marquei um X abaixo do 1) e fui embora.

 

4.

Palmas. Não me refiro àquelas ovações no fim do filme (para isto podemos ver o item 6), que não vou comentar para não perder o foco. Refiro-me as palmas relacionadas ao atraso das sessões. Eu me sinto em um grande congestionamento, em que alguns insistem em buzinar como se o trânsito estivesse parado por vontade do carro da frente e como, por um passe de mágica, o trânsito depois disso fosse fluir normalmente. As palmas tampouco fazem o filme rodar mais rápido, o que pode acontecer é que o problema (pois penso que, se a sessão não começou ainda se deu por algum problema técnico ou de outra ordem, admissível a meu ver), pode deixar as pessoas envolvidas mais intranqüilas e o erro mais difícil de ser corrigido. De qualquer forma, nesta mostra misteriosamente depois dessas palmas (10 minutos depois) o filme foi passado, será que realmente há um poder de cura nas palmas?

5.

Essa é bem nova – ontem. A sessão já estava para começar, na hora, sem grandes problemas. Então entra um monitor para passar um recado. Parece que foi tudo muito bem combinado, orquestrado; ele começa a falar: “pessoal. Atenção: preciso passar um recado, a sessão...”. Essas reticências são exatamente o retrato do que aconteceu, ao mesmo tempo em que a luz se apagava – já para começar o filme – o som entra junto (vinheta da mostra, propaganda etc.) e a voz do monitor se perde no ar. Resultado: muita gente ficou com medo do que poderia acontecer e saíram da sessão para perguntar, eu me reservei para ver o que aconteceria. Nada aconteceu, o filme passou sem problemas salvo o fato de ele possuir 89min. e na programação estar marcado 137min. Acho que era esse o recado do moço.

 

6.

Palmas. Refiro-me àquelas ovações no fim do filme. É no mínimo gozado, afinal de contas, estamos a ovacionar quem? O projetista, os monitores da mostra ou o serviço do cinema? Já que não há ninguém do filme presente só posso pensar que tais aplausos são destinados à imagem. Sim, cumprimentamos seres do virtual (que são apenas em potencialidade), imagens com tanta força (senão mais) do que aquele ser pulsante (que brinca com suas imagens junto com aquelas da tela) sentado ao lado.

 

7.

Não posso esconder certa ansiedade quando a mostra começa para ver a vinheta. Já adianto que, para mim, a da 28ª dificilmente será batida. Infelizmente (opinião particular), a deste ano e a do ano passado ficaram muito aquém das minhas expectativas. Apesar de que a idéia do homem-placa é muito feliz, aquele que oferece ouro para todos os passantes, mas também material ilícito, que não presta. Contudo, não fui fã da animação, diferente da música que a acompanha.

 

8.

“Foco!”. “Por favor, precisa de mais foco. FOCOOOO!!!”. Esse era o grito de uma senhora no início de uma sessão. Não havia sido transcorrido sequer 3 minutos do filme, mas o pedido foi ouvido por todos. A cena era mais ou menos assim: Num dia de chuva não vemos nada senão o pára-brisa do carro e as palhetas que vão e vem vagarosamente, a câmera é posta no interior do veículo. Menos de um minuto após a reclamação veio a continuidade do filme, e eis que em um zoom-out vemos o que para a senhora era pouco foco na verdade era o vidro do carro embaçado, evidentemente, por causa da chuva. Assim, depois de alguns risos contidos pudemos ver o restante do filme sem reclamações.

 

Posfácio

         Todos esses casos talvez venham protelar um assunto que me martela. Quanto mais vou à mostra mais saio insatisfeito, não pela organização ou seja lá o que for (nisso acho até que as coisas vão muito bem), mas pelos próprios filmes. Todo ano penso que há uma decadência progressiva nos filmes, tirando poucos (que devem ser achados a duras-penas – excluindo aqueles que vão estrear e dos já consagrados) não sobra muita coisa. Porém antes os via sem muito problema. Será realmente que há uma queda na qualidade dos filmes ou, ao contrário, sou eu que a cada ano, mais velho, fico mais chato?