Na história das camisas, corpos
Larissa Ortiz

Pela roupa podemos estabelecer uma relação com o meio em que vivemos, utilizando diversos tipos de tecidos, modelagens, cores e estampas para aumentar, minimizar ou destacar as diversas partes constitutivas do nosso corpo.  No decorrer da história, estes artifícios sempre foram usados pelo homem para personificar a sua presença em diferentes contextos sociais.  Através do vestuário é possível compreender e revelar informações sobre os sujeitos que se constroem em diferentes discursos. Desta forma, o estudo da vestimenta masculina pode revelar como o homem usou a moda nas rearticulações significantes de sua presença no mundo.

Focando nosso estudo para a evolução da camisa, buscaremos os traços pertinentes da indumentária na reconstrução do corpo masculino, chegando à contemporaneidade em que o seu próprio desenho manifesta uma concepção do seu eu no mundo. A camisa acompanha a necessidade de colocar o corpo em evidência e se recicla mudando suas características formais e cromáticas, tornando-se uma peça importante no guarda roupa do homem do século XXI. No entanto, na história da vestimenta masculina, seu uso sempre foi para cobrir o corpo. Sua origem é polêmica, primeiramente era usada como proteção do contato do casaco com a pele e ficava totalmente coberta e só na Renascença começou a aparecer.

Na Fig. 1 de Francisco I da França, ela aparece discretamente no decote que era cortado quadrado e baixo, deixando aparente parte do colo masculino, e também nos punhos formando um delicado babado. Nota-se pela imagem que o tecido da camisa é leve em oposição ao resto da roupa, que era feita de tecidos pesados como veludo e peles. Isto porque seu uso era para proteger a pele proporcionando conforto ao usuário, dando à camisa uma função de oferecer bem estar ao corpo. Sempre na cor branca em contraste com os tons fortes dos casacos que a sobrepunham, a camisa guia o olhar para o rosto e as mãos do usuário. As mangas eram feitas com grande quantidade de tecido, colaborando para a produção de um efeito de sentido de um corpo grande e forte. Este traje explora a horizontalidade com um volume de tecido nas laterais que saem dos ombros para os braços. Estas sobreposições de estrutura arredondada oferecem volume ao corpo e criam a imagem de um tórax totalmente reconstruído pela plástica da vestimenta.

 

Imagem 01: Jean Clouet. Francisco I da França. Rei da França. Início do século XVI. Camisa aparente no decote e nos punhos
Imagem 02: Retrato de um homem desconhecido, anterior a 1540. A camisa mais aparente no decote com um cordão costurado nas pontas formando um leve franzido.

          Os decotes dos casacos começam a ficar mais baixos e quadrados e a camisa começa a ficar mais visível. Na fig. 2, verificamos que na extremidade do contorno do pescoço era colocado um cordão, que, quando puxado, formava pequenas pregas no sentido do pescoço e do rosto do usuário. No punho ela também aparece e dá às mãos a mesma importância do colo. Observamos o mesmo volume nos ombros e braços da imagem anterior, mas a parte superior do tronco é destacada pelo uso da camisa, o contraste da cor branca com o resto da roupa corrobora essa valoração que guia o olhar do observador para o rosto. O uso de tecidos pesados, como a pele e o veludo, e o jogo entre o claro e escuro, liso e quadriculado são usados para aumentar o volume nas laterais na parte superior dos braços.

         No final do século XVI a moda espanhola invade a Europa, trazendo o ajuste das formas e cores sóbrias, principalmente o preto, conforme imagem da fig. 3. Este ajuste, mormente no tórax, modifica a silhueta masculina. Ao contrário de antes, o corpo é ajustado e, nos ombros, um leve enchimento aumenta a região. Este aumento vai tornar-se ainda mais evidente com a cintura demarcada e, abaixo dela, as pregas salientam os quadris, dando volume a esta parte do corpo. A camisa passa a ter um papel importantíssimo, pois a sua materialidade é modificada de tecidos lisos e leves para o uso da renda extremamente trabalhada e engomada. A brancura e a riqueza do desenho significavam que a renda era mais cara, e seu uso passou a demonstrar status social. O contraste do branco da camisa com o resto da roupa guia o olhar do observador para o rosto e as mãos do usuário.   

Com o surgimento do rufo, tipo de gola grande e rendada, que engomada ficava dura e levantada, conforme vemos na fig. 4, acentua ainda mais o valor do rosto e das mãos. Também usado na moda feminina, o rufo foi ficando cada vez maior, e a plasticidade do excesso de tamanho; da sofisticação da renda e do valor da cor branca mostra um sujeito que, pela roupa, assume uma postura do não fazer, o que é um indicativo de que, nesse período, os homens da corte não se preocupavam com o trabalho pesado e tinham uma função quase decorativa, por isso a vestimenta limitava os seus movimentos. O trabalho era considerado uma indignidade. A gola prendia totalmente o pescoço e fazia com que a cabeça se posicionasse para cima, obrigando o sujeito vestido a manter seu corpo em posiçãom posi seuorpo nunciat reta e elevada para o alto, assumindo uma postura de superioridade e altivez. A cabeça, então, era destacada pela gola, dando importância à mente e à inteligência dos homens. Os ombros eram acentuados pelo recorte e por um sutil enchimento, aparentando serem maiores, figurativizando a sua masculinidade. O tórax era emoldurado pelo tecido e recebia a aplicação de bordados que davam, por sua colocação, continuidade ao corpo.

 

 

Imagem 03: Pierre Quthe, de François Clouet, 1562. A materialidade da camisa indica status social.
Imagem 04: Richard Sackville, de Isaac Oliver, 1616. Postura elevada pelo uso do “rufo”.

As linhas retas levam o olhar para a região genital, apontando a importância não só da sua inteligência, mas também da sua virilidade. Nos estudos sobre a relação da moda com o corpo, Castilho identifica sinais claros de que o homem sempre exaltou a sua sexualidade através da plástica vestimentar: “resgatando o universo de criação vestimentar desde as civilizações arcaicas, na origem do traje, os órgãos sexuais se encontram sublinhados, destacados o que fez a sexualidade ser não só demarcada, mas também sublinhada” [1] .

Posteriormente, a silhueta masculina foi totalmente modificada. Os ingleses, no fim do século XVII, mantinham fortes relações com a Pérsia, e trouxeram à Europa o uso de túnicas e sobre elas um casaco solto. Com o uso do casaco a gola caída desaparece e dá lugar ao plastrom. Talvez o princípio da gravata, o plastrom consistia numa tira larga de tecido, usado em volta do pescoço e laçado abaixo do queixo.

Nas figuras 5 e 6, esta nova plasticidade no traje masculino é apresentada nas vestes (tipo de vestido até o joelho), nos casacos e no plastrom que seguem as linhas retas da continuidade do corpo, o que produz um efeito de alongamento da silhueta. O uso do sapato de salto alto e da peruca, que na parte superior da cabeça, aponta para cima, reiteram este efeito de sentido. As mangas são cortadas com um ajuste próximo aos ombros que se abre no punho.

Imagem 05: Duque de Borgonha, c.1695.
Imagem 06: Fidalgo tocando violoncelo, c. 1695. A moda “turca” com silhuetas na continuidade do corpo.

Após a Revolução Francesa a indumentária masculina sofreu grandes alterações. Na tentativa de encontrar uma vestimenta mais prática, confortável e econômica, foi-se diminuindo a largura das roupas e grandes enfeites e bordados foram substituídos por debruns estreitos e pequenos detalhes. No entanto, por volta de 1770, ao cortar parte das extremidades da frente da casaca, imitando o casaco de equitação inglês, surgiu o fraque, dando uma nova forma à silhueta masculina. Conforme fig. 7 o fraque constitui-se de linhas retas que começam na frente e terminam atrás, deixando o corpo esguio e ereto. A camisa colabora para este alongamento contornando o pescoço e aparecendo no término das mangas dando continuidade à casaca. O colete também foi encurtado e ajustado ao corpo.

Imagem 07: Trajes masculinos, 1834. Silhueta na verticalidade traçada ela modelagem acinturada e quadris arredondados. O comprimento do casaco no joelho alonga a altura do tronco. Produz efeito de crescimento do homem.

Segundo James Laver, em A roupa e a Moda [2] , por volta de 1840, acontece o desaparecimento da extravagância das roupas masculinas, as cores ficam escuras e as formas passam a ser mais justas ao corpo. Neste período, toda a Europa passa por uma grande crise econômica. A partir da Revolução Industrial, o homem passa a assumir mais responsabilidades. As roupas vistosas são consideradas deselegantes, o homem começa a se preocupar cada vez mais com os negócios e a vestimenta se adapta para esse contexto. Neste período, mais do que em outras épocas, a vestimenta masculina se diferencia totalmente da feminina, tanto nas formas como nos tecidos e nas cores. Os homens passam a abolir totalmente os exageros e são relegados a uma “existência sombria onde a beleza está ausente”. [3]

Na fig. 7, os trajes masculinos mostram o tórax acentuado pelo colete que se ajusta ao corpo e demarca a cintura. O casaco também é ajustado nas mangas e no corpo, e na parte de trás, as pregas que saem na altura da cintura elevam a postura do usuário. O uso da calça comprida alonga as pernas e, mais uma vez, a vestimenta produz um alongamento da silhueta e também indica a necessidade de mobilidade dos homens, que agora se preocupam com a agilidade de seus movimentos. O plastrom também é ajustado e dá lugar ao lenço que, cobrindo todo o pescoço, salienta a linha central do corpo reiterado pelo abotoamento do colete, que é continuado pelas linhas horizontais da calça.  O uso de acessórios como o chapéu e a bengala, com formas retas e compridas, contribuem para um efeito de sentido de alongamento do corpo.

No início do século XX, o corpo masculino é totalmente coberto pela plástica da vestimenta. A cintura, que antes era bem acentuada pelo ajuste da modelagem, agora não é mais vista, acentuando ainda mais a diferença entre a vestimenta masculina e feminina. Na fig. 8 observa-se o formato quadrado na região do tórax e mesmo o colete que antes era ajustado ao corpo, agora tem um formato amplo. O paletó fica mais curto e largo, quebrando a orientação vertical da calça.
Imagem 08: Terno masculino, 1902 Alongamento da silhueta pela calça. A cintura desaparece com o corte quadrado do paletó e do colete.
Imagem 09: Traje masculino, 1907. Tronco totalmente coberto pelo casaco, que ressalta o corpo retangular sem formas.

Nesse trajar a camisa só é evidenciada pelo colarinho e, sutilmente, nos punhos. Ainda sempre usada na cor branca, chama a atenção do olhar do observador para o centro do corpo próximo ao pescoço. Diferentemente de antes, em que o rufo e as mangas rendadas limitavam os movimentos das mãos e do pescoço, agora nos punhos quase não aparece e a gola é ajustada ao pescoço. Com o tecido enrijecido, o pescoço é emoldurado dando ênfase ao rosto do usuário. O uso do sobretudo, conforme fig. 9, expande a altura do homem na vertical pelo seu comprimento e aumenta o corpo na horizontalidade com o seu formato quadrado.

Por esses detalhes analisados, vamos apreender que a horizontalidade da vestimenta achata a silhueta e dificulta os movimentos do usuário numa relação de descontinuidade com o corpo, mostrando um não fazer do sujeito. Ao contrário disto, temos a verticalidade que alonga a silhueta, proporcionando uma mobilidade e agilidade na relação de continuidade do corpo, proporcionando assim o fazer daquele que a porta.

Desde a Revolução Industrial o homem veste uma nova plasticidade que é indicativa de uma mudança no seu modo de vida. Suas preocupações voltam-se cada vez mais para o mundo do trabalho e a vestimenta fica cada vez mais solta, indicando essa necessidade de articulação do corpo. A preocupação com a estética é colocada de lado e a vestimenta masculina fica praticamente intacta durante aproximadamente cem anos. Apenas nos anos 50 do século XX, após a II Guerra Mundial, ela começa a sofrer significativas transformações, quando os jovens do mundo ocidental assumem uma nova atitude. Nesse período, métodos cada vez melhores de produção industrializada de roupas prontas, levaram ao surgimento de grandes companhias nos Estados Unidos e o jeans explodiu em todo o mundo [4] . A camisa, que antes era usada como uma roupa interior, passa a ser usada com a camiseta, por baixo sem paletó. Ambos, jeans e camisa, formam uma nova maneira de se vestir. Com a popularização da televisão e do cinema, Hollywood, com suas estrelas, passou a instituir um padrão de beleza e a ditar novas tendências de moda em todo o mundo.

 Os jovens, que no fim da década de 50, haviam se rebelado contra a moral rígida, começam a se liberar sexualmente e aumenta o uso das drogas. As idéias desse período se refletem na produção cultural de diferentes maneiras, homens e mulheres expressam pela plástica da roupa a mudança de comportamento. Na figura 10, o ator Marlon Brando, símbolo mundial de uma “juventude transviada” e de um ideal de beleza, veste-se de maneira totalmente diferente dos padrões vigentes pelas formas, cores e materiais. A mudança na atitude se reflete no vestir, com o uso da camisa sem o paletó ou com a jaqueta de tecido quadriculado. A camisa começa a ser feita com novas cores e com outros tipos de tecidos.

A camisa de cambraia de linho, (Fig. 10) que, também conhecida no Brasil como “camisa panamá”, tem na sua materialidade o amassado do uso da peça, próprio dos tecidos feitos com a fibra do linho. Nota-se que o usuário passa a usá-la sem estar totalmente abotoada e a gola fica naturalmente solta, o que indica um jogo em mostrar ou não partes do corpo. O tecido cai sobre o corpo, que, apesar de escondido pela camisa, é valorizado pela leveza da materialidade. Na fig. 11, James Deam, outro símbolo de beleza e ousadia das décadas de 50 e 60, usa a camisa aberta com a camiseta branca, peça considerada íntima, que fica aparente, aumentando o tórax. Nesse período, o corpo começa sutilmente a ficar evidenciado pela plástica da camisa.

 
Imagem 10: Marlon Brando com a camisa sem o paletó expondo o tronco.
Imagem 11: James Deam Com a camisa solta deixando ver a camiseta (roupa íntima).
A camisa perde aquela rigidez, em especial nas golas e nos punhos. Desde sua criação sempre foi usada debaixo de alguma peça e neste momento passa a ser uma vestimenta única e por isso fica mais evidente. Com o uso de outros tecidos e cores torna-se uma peça inserida no cotidiano masculino.
Na década de 70, a vestimenta masculina realmente passou a exteriorizar a nova maneira de viver. A visualidade da imagem dura que perdurou por tanto tempo, com o uso de calça, camisa com gravata, colete e paletó, é colocada de lado. O movimento hippie teve grande influência na mudança da vestimenta. No Brasil, surgiu o Tropicalismo que, através da irreverência, deboche e improvisação, criticava o governo e lutava pela liberdade de expressão do povo brasileiro. Os tropicalistas influenciaram não só a música e a política, mas também o comportamento, a moral, o sexo, e o modo de se vestir. Surgiu, então, uma contracultura que colocava em dúvida valores centrais vigentes e instituições da cultura ocidental.

Imagem 12: Músico trajado com vestuário hippie.

No movimento hippie, com influência oriental de caráter religioso e místico, as camisas se transformam em “batas”, sem a abertura central da frente, sem as golas e os punhos, usadas para fora da calça, e podiam ser de vários comprimentos e de diversas cores. A sua materialidade é constituída de cambraia de algodão, tecido de estrutura muito leve, nunca antes usada na indumentária masculina. Com linhas retas e soltas alongavam a silhueta masculina e proporcionavam conforto, dando mobilidade de expressão. A cabeça é destacada pelo uso de cabelos compridos e fitas amarradas sobre a testa, chamadas de “caê”,  ressaltando a importância da mente. É o valor: a intelectualidade voltada para a espiritualidade, expressa no pensamento oriental “mente sã, corpo são”.   

Posteriormente, as formas começam a se ajustar ao corpo novamente, conforme Fig. 13. A calça é usada na modelagem “boca de sino” cujo corte é justo na parte de cima, valorizando a região da coxa e depois se abre do joelho pra baixo, alongando as pernas. A região do tórax é evidenciada, com o ajuste das formas. A camisa é usada desabotoada e aberta, como se quisesse sair de baixo do colete e do paletó, figurativizando um homem em busca da liberdade não só dos seus pensamentos, mas dos seus movimentos. Esse universo da saúde e das coerções das formas do corpo a um modelo de elegância ditado pela atualidade reaproxima o homem do universo da aparência e da moda. Retorna o culto do eu, que elege o corpo como sua grande síntese.


Imagem 13:John Travolta, anos 80 do século XX. A camisa em preto mais aparente.

No entanto, é apenas no início do século XXI que observa-se uma grande e significativa mudança na vestimenta masculina. Aliado a uma mente saudável, há o próprio culto ao corpo pelo qual se edifica a busca por um padrão de medidas ditado pelas campanhas publicitárias de todas as áreas e pelos ícones da moda. A estética do corpo contemporâneo torna-se tão importante no nosso cotidiano, que é o centro do debate com os novos métodos de cirurgias plásticas e próteses artificiais, exercícios de musculação e tratamentos estéticos para homens e mulheres. Essa preocupação aproxima o homem do mundo da moda e a aparência passa a receber cuidados especiais.

Desde meados do século XX o homem está em processo de transformação, em lugar da rigidez, o vestir se dá na busca pela leveza e fluidez da forma. Se antes quase não havia grandes alterações entre uma estação e outra, sendo lançadas apenas duas coleções ao ano, (primavera-verão e outono-inverno), hoje a agilidade é comparada aos lançamentos da moda feminina e, mais ou menos a cada três meses uma nova coleção precisa chegar às lojas. Este novo homem é atento aos lançamentos internacionais, conhece e lê sobre o assunto e por isso, fica cada vez mais exigente e quer novos produtos para se sentir atual e inserido no grupo.     
O escritor e jornalista Mark Simpson, em novembro de 1994, estudando o comportamento do gênero masculino desde o século XX, abordou pela primeira vez a palavra “metrossexual” no artigo: “Here come the mirror men” (Aí vêm os homens do espelho), no jornal inglês  The Independent, no qual previa um novo tipo de gênero masculino surgido nas grandes cidades. Em 2002, o colunista voltou a abordar o tema no texto “Meet the metrosexual” (Conheça o metrossexual), na revista online Salon, ocasião em que o termo foi vulgarizado e ficou conhecido em todo o mundo. “Metrossexual” une as palavras metrópole e heterossexual para definir um consumidor específico. Simpson nomeia o aparecimento do homem urbano que gasta 30% do seu salário com cosméticos e roupas; freqüenta manicure/pedicure e adora fazer compras no shopping. Seria o inverso do conceito de “retrossexual”, ou seja, aquele homem que gosta de carros, cerveja e futebol, termo este também criado pelo escritor. Em entrevista à revista Veja online de agosto de 2004 [5] Simpson, explica que o metrossexual “desfez-se de todos os códigos oficiais de masculinidade inculcados nos últimos cem anos” e afirma também que este homem é extremamente egocêntrico e narcisista.
Apenas dois anos depois de popularizar o termo, o mesmo autor propõe agora um novo conceito, o “uberssexual”, para definir a nova tendência de masculinidade. Segundo o autor, o novo termo está ligado à recuperação de um certo estereótipo de masculino que, na opinião do estudioso, perdeu-se nos últimos anos. Assim, o “uberssexual” será aquele que confia em si mesmo sem se tornar egocêntrico, tem um aspecto masculino, mas com muito estilo.

As discussões e pesquisas para entender o gênero masculino deste novo século são de grande valia para este trabalho, que busca entender de que forma a plástica vestimentar vem se alterando para atender aos anseios e desejos desta nova maneira de viver e como esses diversos tipos de homens utilizam a moda para exteriorizar este novo comportamento.

O homem faz da moda uma forma de expressar o seu novo modo de ser. Nas figs 14 e 15, o corpo é colocado para ser visto pela maneira como o usuário veste a camisa. Num jogo de sedução, entre estar ou não vestido, o corpo é quase que oferecido àquele que o observa. Na fig.15, a camisa apresenta um brilho pela sua cor intensa, dando destaque à pele bronzeada. A cueca aparece acima da calça, ficando parcialmente exposta. O corpo “sarado” é apresentado como o “ideal de beleza” e torna-se mais importante do que a própria roupa.

Imagem 14: A camisa mais justa e curta, Mário Queiroz - 2004.
Imagem 15: A camisa dá destaque a pele bronzeada Zoomp- 2007.
  Evidentemente que o culto aos novos padrões de medidas de um corpo “ideal”, ajusta as formas das roupas para colocá-lo em evidência. A materialidade e a modelagem se adaptam a essas necessidades, e as indústrias têxteis e de confecção investem em novas tecnologias para atender aos desejos deste novo consumidor.
Com este breve histórico da indumentária masculina, conforme observamos nas imagens acima, constata-se que a camisa perdurou por todas as épocas e ainda é hoje considerada uma peça fundamental no guarda roupa do homem contemporâneo. A vestimenta masculina vem sofrendo grandes transformações para acompanhar esta nova maneira de viver, em que a preocupação com o corpo está em primeiro lugar. Neste novo século, o homem vem buscando novos hábitos, e torna-se cada vez mais versátil nas suas atividades profissionais e sociais, e a camisa pode estar presente em todos estes momentos. A moda já não é tão segmentada pelas diferenças sociais, mas por modos de vida e de presença no mundo.


Notas

[1] Káthia CASTILHO, "Configurações de uma plástica: do corpo à moda". Dissertação de Mestrado. Comunicação e Semiótica. PUC-SP, 1998, p 72.

[2] James LAVER, “A roupa  a moda, uma história concisa”. São Paulo. Trad. Glória M. de Mello Carvalho. Cia das Letras, 2002.

[3] Gilda de MELLO e SOUZA “O Espírito das Roupas”. São Paulo: Cia das Letras, 1987, p. 71. 

[4] Fonte: http: //pt.wikipedia.org. acesso em 16/11/2006

[5] Dados coletados no site: www.veja.com.br - 8/12/2006