Número 9: Do Conan aos Coen

          Depois do carnaval, como todo o seu glamour das bacantes, aparece nossa nona edição. Se precisássemos rotular esta edição, hesitaríamos entre cultura e violência. Não que um esteja em oposição ao outro ou que sejam complementares, mas pela gama de textos publicados. Por certo alguém poderia dizer que um pertence ao outro, o que não negaríamos, mas o que ressaltamos é exatamente o foco do texto. O caso fica claro quando, por exemplo, lemos a bela explanação histórica de Larissa Ortiz sobre a história das camisas masculina (Na história da camisas, corpos). O objetivo do texto é claro: como corpos são alterados (ou melhor, idéias de corpos) a partir da vestimenta, no caso a camisa masculina, o que estamos discutindo não é outra coisa senão a própria cultura que, ao desenhar roupas, desenha no mesmo instante corpos. O que, por este viés, já seria um bom motivo para acompanharmos a terceira lição de Bergman (A mulher). Poderíamos pensar nos trajes como constituintes de personalidades, posições sociais etc. Mas o que mais chama atenção nesses pedaços, verdadeiras citações de Bergman, é o íntimo, a alma, uma porção de algo totalmente recôndito e passado a limpo pelo cineasta. Talvez seja aqui que tenhamos a condensação maior entre a cultura e a violência.

         Violência não é bem o foco do texto sobre os quadrinhos de Conan, estudo de Rafael Lenzi, mas é implícito que, no decorrer das referências mitológicas e históricas para sua interpretação, há o uso descomunal da força pela violência. Entretanto, um ponto bem fértil deste trabalho é exatamente a aparição de mitos de outrora, um tanto como Aby Warburg determinava a “pós-vida” das imagens. Assim, Lenzi identifica, por exemplo, a sobrevivência de mitos não apenas nórdicos, mas gregos e também egípcios, como do deus Seth, transfigurado em Set nos quadrinhos. Se por um lado a violência não é o foco da análise em Conan, no filme dos irmãos Coen não é bem assim. Lucas Rodrigues Pires demonstra que, nesse novo Oeste exibido nas telas, o importante é uma violência totalmente diversa daquele do tradicional “velho oeste”. Não há mais conflitos internos morais, estes foram “substituídos por figuras frias, preocupadas com coisas materiais, num mundo marcado pela violência e dividido entre dinheiro e drogas, e que não têm nenhum problema em explodir cabeças ou peitos que atravessem seu caminho”. Tudo isso ao mesmo tempo em que um novo modo de se pensar os tradicionais faroestes é construído.

         Em compensação, não é neste mundo frio que um extraterrestre desembarca em Deuses, ficção de Renan de Simone (que já é sócio e possui carteira vip aqui na conjecturas), mas é igualmente vazio: o rápido bate-papo parece ser estabelecido entre dois interlocutores de tempos distintos. O antigo encontra o novo e não sabe identificar as “marcas” culturais desse novo tempo marcado pela globalização, mercantilização de corpos e produção serial de celebridades. Bêbado, ou não, o homem que recebe o ET reflete em mundo em constante mutação, explana a ele novos valores deste mundo que não é mais o mesmo, tal qual o xerife de “Onde os Fracos Não Têm Vez”, que se vê perdido num mundo que ele não encontra mais morada. Fato é que, mesmo num mundo vazio de legítimos reis e ídolos, há diversas e múltiplas culturas a envolver nosso amigo “clorofílico”. A ele, resta desejar um pouso em paragens que lhe sejam menos modernas. Talvez uma viagem no tempo seja a solução para ele. O então que ele vista a camisa e aprenda que a cultura humana está em constante renovação e transformação. E que os significados viajam no tempo e no espaço tal qual sua nave superpoderosa (assim acreditamos, ao menos).

Como de costume, uma boa leitura a todos!

Os Editores