Em
2000, ainda nos tempos de universidade, garanti a mim mesmo
que leria todos os clássicos de que sempre ouvi falar
e corajosamente citava sem nunca terminá-los, ou mesmo,
na grande maioria dos casos, sem nunca ter começado.
Claro que estou falando de lê-los em suas versões
íntegras, o mais perto possível da concepção
original e não resumos rasteiros de pré-vestibulares
ou edições fantasiosas que não guardam
nem meio por cento do sabor e da experiência da leitura.
Sem muitos critérios para trilhar um começo, optei
como início a afeição material: uma velha
edição de Os Lusíadas, presente
que tinha ganho uns 10 anos antes de meu pai. Edição
bonita, recheada de notas, fortuna crítica e bela introdução
sobre o autor. Na primeira tentativa, fracassei quando me dei
conta que, para a leitura em versos, necessitaria ser um pouco
mais atencioso, e assim adiei por alguns meses a minha epopéia
de escalada aos clássicos. No intervalo comecei uma outra
escalada, que também pode, por um outro viés,
ser considerada como de clássicos: a obra completa de
Kafka. Antes de voltar à “quem Nepturno e Marte
obedeceram”, devorei A Metamorfose e a coletânea
Narrativas do espólio, o escritor tcheco me
fascinava (e ainda o faz) de modo incrível: o absurdo,
o inevitável fado humano. Logo imaginei que aquela literatura
modificaria minha visão do que ler, do que selecionar.
Não demorei a resgatar um outro velho exemplar, dessa
vez os Contos de terror, de mistério e de morte
de Edgar Allan Poe. Desses, não preciso nem comentar
do impacto que O Gato Preto ou A queda do Solar
Usher provocaram. Entretanto, O Retrato Oval me
lembrava muito O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde:
as essências me pareciam próximas, da vida na morte,
ou vice-versa, os retratos (a arte) que são a própria
vida, rivalizam com ela e acabam por derrotá-la; mas
o conto era em poucas páginas, e o impacto me parecia
maior do que as muitas do romance do irlandês. É
evidente que a diferença entre essas escritas e aquela
de Kafka é um precipício, mas para mim o importante
era como as possíveis semelhanças me criavam teias
de conexão entre essas diferenças. Havia um universo
ao redor de Kafka, o mesmo acontecia com Edgar Allan Poe, com
eles conseguia visualizar quase materialmente o dialogismo bakhtiniano,
uma rede infinita de conexões que se cruzam e que se
remetem, mesmo sem fazê-lo.

Depois de uma proveitosa protelação, voltei a
Camões; segunda tentativa: outra vez fracassada, o grau
de conexões era imenso e intenso, logo compreendi que
perderia muito da obra se, renegasse ou deixasse para um segundo
tempo a leitura da Ilíada e da Odisséia
de Homero. Tratava-se de um embate do qual pensei que passaria
apenas em uma outra etapa da vida, mas bem, encarei. Ilíada,
uma tradução feita a partir da versão alemã.
Comentada e com vocabulário, e mesmo assim complicada.
Voltei diversas vezes diversas páginas e mesmo capítulos
para não perder o fio condutor. Quando acabei, comprei
a versão do Haroldo, traduzida direta do grego; a história
estava mais lapidada e não parei até que Tróia
ficasse em chamas. Da primeira versão, a fúria
de Aquiles talvez tenha sido o que mais me atraiu, já
na versão Haroldo de Campos, a morte de Pátroclo
tem uma densidade que parece ter esvaído na primeira
tradução, gostaria de reproduzir aqui, mas é
um tanto grande e perde sua força quando cortada, mas
aos curiosos deixo a indicação (Canto XVI, página
137 da referida versão). Já com Odisséia
o cuidado foi bem menor, a leitura foi mais rápida; talvez
o retorno de Odisseu não tenha me agradado tanto quanto
às horas finais de Tróia e de Héctor. Nesse
mundo descortinado, havia (e evidentemente que ainda há
mais do que foi) um grande buraco. Mas, ele, estranhamente,
não me caiu por conexões ou referências,
– apesar de que nosso amigo do Tejo faz referências
– mas pela arte. É a Eneida de Virgílio.
Tema clássico na história da arte: Ingres, Delacroix,
Rubens, Poussin, Guido Reni, Daumier, para falar apenas de alguns
dos mais famosos que se detiveram em cenas da Eneida,
para compor suas telas. Logo, o primeiro contato com Virgílio
foram suas traduções pictóricas, que me
levaram ao texto escrito. A história também focada
na Ilíada, na verdade a história começa
no ponto final da guerra, e conta a formação do
povo Latino por meio de Enéias, que foge com as últimas
esquadras troianas. Há um jogo interessante nisso, pois
o que Virgílio faz é indicar uma raiz helênica,
portanto toda a cultura clássica, impregnada na formação
de um novo povo, o de Roma. Deste ponto, é um pulo chegar
à Divina Comédia de Dante, já
que Virgílio faz companhia a Dante na travessia dos anéis
guardados por Minós no inferno. De novo, tudo fundamentalmente
diferente, mas que se envolvem de modo especial.

Théodore
Chassériau - Apolo e Dafne - 1850-1855
Ah! Agora poderia voltar, uma vez mais, ao canto do peito lusitano.
Dessa vez atravessei boa parte, mas foi encostado, motivo: resolvi
passear por Ovídio, tão importante quanto Homero,
e escrito de forma magistral, prazerosa. Não falo dos
poemas, mas das conhecidíssimas Metamorfoses,
de alguma forma era um complemento para Camões, que se
via de novo postergado. Já conhecia Metamorfoses de longa
data, mas como dito no início desse texto, não
muito lido. Nelas estão as histórias que permeiam,
ainda hoje, qualquer manual de histórias da mitologia
greco-romana: Acteão e Diana: o caçador
que comete um ato proibitivo sem querer e acaba como cervo;
Apolo e Dafne; Júpiter e Ío
e diversas outras histórias, sempre, claro, com algo
metamorfoseado. Mas, cansado de versos, fui para a monotonia
da prosa (pois se não é prosa é verso e
vice-versa, como já dizia o sábio Monsieur
Jourdain). E fui cavar Flaubert - Madame Bovary, como
sou muito jovem, fui despertado somente depois do filme de Chabrol,
com performance excepcional de Isabelle Huppert (para quem quiser
ler um texto dedicado às mulheres no cinema, vale a pena
clicar
aqui!). De fato o marasmo e o vácuo encontrados em
Ema Bovary são retratados de maneira exemplar por Flaubert,
sobretudo no suicídio que alterou até mesmo os
sentidos do escritor. Até mesmo autores que começaram
depois dos 40 entraram na epopéia, como Pirandello, tanto
suas peças quanto contos e romances, sobretudo, Um,
nenhum e cem mil, obra fantástica sobre o homem,
suas agruras seus medos e des/conhecimentos.
Apenas sei que continuo voltando
(numa fita de Möbius) aos Lusíadas, mas
confesso que cada vez mais, os intervalos na leitura vão
deixando o evento e a demora no ponto derradeiro muito mais
prazerosos. Vou recomeçar este ano a ler do zero, espero
ter intervalos proveitosos!