O Novo Oeste dos irmãos Coen
Lucas Rodrigues Pires

         Não há como não sentir o poder das imagens áridas dos irmãos Coen e a sensação que a narração em off do xerife prestes a se aposentar deixa de um mundo em transformação. Aliás, não mais em transformação, já transformado, pois caso contrário o nome original do filme não seria ‘No Country for Old Men’ (algo como “não há lugar para homens velhos”, ou na tradução do livro de Cormac McCarthy, “Onde os velhos não têm vez”, ou seja, trata-se de um lugar em que velhos e/ou fracos não têm chances). Na tragédia montada pelos irmãos Coen no velho Oeste (que de fato é novo), os mais velhos (ou fracos, na tradução para o português) não têm vez. Só lhes resta abandonar o barco e sonhar.

          É preciso captar a gênese do que está em jogo no filme Onde os Fracos Não Têm Vez. Não é apenas uma mala cheia de dinheiro, não apenas vidas em jogo. Há a construção – e, em contrapartida, a desconstrução – de um formato cinematográfico cujo espaço vital deixou de ser aquele dos anos de ouro do faroeste – o campo, o velho oeste, os ranchos e montanhas desertas – para migrar para um espaço um tanto urbanizado – ainda que não-moderno – em que as brigas não são por questões morais ou legais, mas sim puramente econômicas. Constrói-se um Novo Oeste em oposição à desconstrução do Velho Oeste. E seus jogadores estão bem colocados – o velho xerife a relembrar do passado glorioso do Velho Oeste vê passar diante de si um caso de perseguição que envolve matadores criativos e insanos e ambição que vai além da própria vida.

         Assim, o Velho Oeste de John Wayne e de John Ford transformou-se no Novo Oeste dos irmãos Coen – onde figuras lendárias como os cowboys com suas armas, botas, chapéus e conflitos internos morais foram substituídos por figuras frias, preocupadas com coisas materiais, num mundo marcado pela violência e dividido entre dinheiro e drogas, e que não têm nenhum problema em explodir cabeças ou peitos que atravessem seu caminho. Em compensação, para reforçar essa diferença, temos um personagem caracterizado como cowboy (chapéu, botas, rifles) sendo perseguido por um desconhecido de cabelo chanel de poucas palavras, mas com apetite de morte insaciável. Talvez soe como uma metáfora da derrocada do velho faroeste, a ser eliminado por essa nova onda, o mundo moderno pós-1968, em que comportamentos foram transformados. Em conversa com um amigo xerife, Bell, o velho xerife que narra o filme, ouve do amigo a descrição desse novo mundo, desse novo Oeste que eles estão vivenciando (a história se passa no Texas de 1980). E ele usa a expressão “abominável onda” para descrevê-lo. Eis a onda que varreu o Velho Oeste e o transformou.

         Esse Novo Oeste, como bem lembrou Inácio Araújo em sua crítica na Folha de S.Paulo, nasce após a Guerra do Vietnã. E o Vietnã, em cuja guerra o personagem perseguido serviu, transformou-se no grande pesadelo americano da segunda metade do século 20. E se ele foi um pesadelo, o Novo Oeste é sua reedição, só que agora não mais num país distante e cheio de selvas – o pesadelo está no coração da América, no espaço por excelência de ocupação e nascimento da belicosa e poderosa nação. Há algo sendo indicado aqui: se a América nasceu da ocupação do oeste americano, que América nasce justamente dessa transformação?

         Inácio Araújo fala também de uma substituição da épica do Velho Oeste pelo terror. É bem isso que vemos em Onde os Fracos Não Têm Vez. Há três personagens centrais, digamos: o perseguido, o perseguidor e o velho xerife que segue os rastros de sangue deixados por eles. É na figura do xerife que reside o ar nostálgico e que delineia essa substituição da qual fala o crítico (há o confronto entre o que ele conta e o que ele vê; em palavras, ele revive o Velho Oeste enquanto vê, passivamente e sem entender, o Novo Oeste... Na narrativa, o passado; na visão, o presente). É com uma narração em off dele que o filme abre; é com a narração de um sonho seu para a esposa que o filme fecha. Aqui é interessante fazer um parêntese sobre a narrativa, o ato de narrar.

         Narração, o contar algo a outrem, o verbalizar, o dar linearidade a um acontecimento da forma que o narrador bem entender. Narra-se com palavras, com imagens, com gestos ou mesmo com pensamentos. Fato é que há a palavra, a formulação de uma idéia e um pensamento. Mas um ato de ação pode ser meramente passivo quando seu autor não está inserido da história contada (como a história contada pelo xerife Bell à esposa do perseguido sobre problema de um fazendeiro quando abatia um boi e como até nisso as coisas podem dar erradas). E é justamente esse elemento passivo da narrativa que temos no xerife. Ele não está no meio da ação, não é presença física diante da perseguição. Por mais que queira ajudar o perseguido a se livrar do assassino cruel, frio e destemido, ele sempre está atrasado frente aos outros dois elos do filme, ele sempre está um passo atrás – e está atrás apenas na ação, pois como se percebe ele consegue fabular perfeitamente o caso e o que está acontecendo. Ele deduz as coisas – corretamente conclui e delineia as personagens envolvidas, inclusive a própria – e trabalha em cima delas, mas é como que seu poder de ação estivesse aquém de sua experiência em pensar e executar as coisas. Ele não é capaz de entender e enfrentar o novo.

        Bell, o xerife, não deixa de lamentar a perda da aura dos velhos tempos, quando um xerife não precisava de arma para fazer seu trabalho; o que movia as pessoas, mesmo bandidos, era de caráter moral e não apenas financeiro. Por sinal, o perseguido acaba entrando nessa teia trágica por uma questão moral – quando encontra o dinheiro, há um moribundo pedindo-lhe água. Ele não tem e vai embora. No meio da noite, incomodado, ele vai até o local onde o homem estava com uma garrafa de água. Eis o impasse que o coloca no caminho de Chiburgh, o matador de cabelos chanel de Javier Bardem. E, nesse novo mundo, quem tem alguma amarra moral que não seja a da violência e do terror (a de Chiburgh, a da morte a quem estiver na frente, o terror do jogo do cara ou coroa pela própria vida), acaba por sofrer, pois além dela há a fraqueza. Quem tem moral no Novo Oeste é fraco e não tem vez. Eis a moral (?!) dos irmãos Coen.

        É essa perda de identidade, essa mudança de patamar do faroeste, da moral de épocas distintas, que está sendo mostrada pelos Coen. A substituição da figura de um xerife dos velhos tempos por uma dinâmica moderna em que tecnologia e velocidade aliam-se à criatividade e ao sangue frio em matar, coisas tidas como comuns, até ordinárias, no filme. É o terror que se instala quando temos uma evolução nas técnicas de matar, é a morte em escala industrial sem amarras morais – e não há como não lembrar do despudor nazista, de sua “solução final” e suas “justificativas”, e instituições que não evoluíram suas formas de combater essas mesmas técnicas. É algo similar ao que vemos no Rio de Janeiro entre traficantes e policiais. É a mesma lógica mostrando que não apenas os EUA vivem esse crepúsculo de um velho mundo que se tornou não só obsoleto como incompatível com as novas normas de ação do “Mal” – e aqui pensamos a violência e o mundo das drogas, pois é nisso que seus personagens estão inseridos.

         O xerife se aposenta diante de sua incapacidade de agir e proteger as pessoas. Suas formas de correção do Mal não são mais páreas para o Novo Oeste. Algemas já não seguram bandidos. Se antes tínhamos cowboys que viviam dramas psicológicos intensos e morais – muitos sabendo que sua vida acabava ali –, passamos a ter perseguidores implacáveis sem nenhum escrúpulo ou esgar de ordem moral. O que vale é tudo para se obter o que se quer, e o que se quer é quase sempre dinheiro ou suas metamorfoses contemporâneas – drogas principalmente.

        Mas talvez o que tenha sido decisivo para o herói do Velho Oeste sair de cena é que, no Novo Oeste, o herói é coadjuvante, o ser moral não tem vez e o bandido não morre no final. Só resta ao herói sonhar com o pai, com os tempos em que o bem era capaz de vencer o mal e com a certeza de que uma fogueira ao lado do pai era sinônimo de boas histórias. Afinal, a última história do xerife Bell não era bem uma história que ele gostaria e teve orgulho em contar.