Não
há como não sentir o poder das imagens áridas
dos irmãos Coen e a sensação que a narração
em off do xerife prestes a se aposentar deixa de um
mundo em transformação. Aliás, não
mais em transformação, já transformado,
pois caso contrário o nome original do filme não
seria ‘No Country for Old Men’ (algo como “não
há lugar para homens velhos”, ou na tradução
do livro de Cormac McCarthy, “Onde os velhos não
têm vez”, ou seja, trata-se de um lugar em que velhos
e/ou fracos não têm chances). Na tragédia
montada pelos irmãos Coen no velho Oeste (que de fato
é novo), os mais velhos (ou fracos, na tradução
para o português) não têm vez. Só
lhes resta abandonar o barco e sonhar.

É preciso captar a gênese do que está em
jogo no filme Onde os Fracos Não Têm Vez.
Não é apenas uma mala cheia de dinheiro, não
apenas vidas em jogo. Há a construção –
e, em contrapartida, a desconstrução – de
um formato cinematográfico cujo espaço vital deixou
de ser aquele dos anos de ouro do faroeste – o campo,
o velho oeste, os ranchos e montanhas desertas – para
migrar para um espaço um tanto urbanizado – ainda
que não-moderno – em que as brigas não são
por questões morais ou legais, mas sim puramente econômicas.
Constrói-se um Novo Oeste em oposição à
desconstrução do Velho Oeste. E seus jogadores
estão bem colocados – o velho xerife a relembrar
do passado glorioso do Velho Oeste vê passar diante de
si um caso de perseguição que envolve matadores
criativos e insanos e ambição que vai além
da própria vida.
Assim, o Velho Oeste de John Wayne e de John Ford transformou-se
no Novo Oeste dos irmãos Coen – onde figuras lendárias
como os cowboys com suas armas, botas, chapéus e conflitos
internos morais foram substituídos por figuras frias,
preocupadas com coisas materiais, num mundo marcado pela violência
e dividido entre dinheiro e drogas, e que não têm
nenhum problema em explodir cabeças ou peitos que atravessem
seu caminho. Em compensação, para reforçar
essa diferença, temos um personagem caracterizado como
cowboy (chapéu, botas, rifles) sendo perseguido por um
desconhecido de cabelo chanel de poucas palavras, mas com apetite
de morte insaciável. Talvez soe como uma metáfora
da derrocada do velho faroeste, a ser eliminado por essa nova
onda, o mundo moderno pós-1968, em que comportamentos
foram transformados. Em conversa com um amigo xerife, Bell,
o velho xerife que narra o filme, ouve do amigo a descrição
desse novo mundo, desse novo Oeste que eles estão vivenciando
(a história se passa no Texas de 1980). E ele usa a expressão
“abominável onda” para descrevê-lo.
Eis a onda que varreu o Velho Oeste e o transformou.

Esse Novo Oeste, como bem lembrou Inácio Araújo
em sua crítica na Folha de S.Paulo, nasce após
a Guerra do Vietnã. E o Vietnã, em cuja guerra
o personagem perseguido serviu, transformou-se no grande pesadelo
americano da segunda metade do século 20. E se ele foi
um pesadelo, o Novo Oeste é sua reedição,
só que agora não mais num país distante
e cheio de selvas – o pesadelo está no coração
da América, no espaço por excelência de
ocupação e nascimento da belicosa e poderosa nação.
Há algo sendo indicado aqui: se a América nasceu
da ocupação do oeste americano, que América
nasce justamente dessa transformação?
Inácio Araújo fala também de uma substituição
da épica do Velho Oeste pelo terror. É bem isso
que vemos em Onde os Fracos Não Têm Vez.
Há três personagens centrais, digamos: o perseguido,
o perseguidor e o velho xerife que segue os rastros de sangue
deixados por eles. É na figura do xerife que reside o
ar nostálgico e que delineia essa substituição
da qual fala o crítico (há o confronto entre o
que ele conta e o que ele vê; em palavras, ele revive
o Velho Oeste enquanto vê, passivamente e sem entender,
o Novo Oeste... Na narrativa, o passado; na visão, o
presente). É com uma narração em off dele
que o filme abre; é com a narração de um
sonho seu para a esposa que o filme fecha. Aqui é interessante
fazer um parêntese sobre a narrativa, o ato de narrar.

Narração, o contar algo a outrem, o verbalizar,
o dar linearidade a um acontecimento da forma que o narrador
bem entender. Narra-se com palavras, com imagens, com gestos
ou mesmo com pensamentos. Fato é que há a palavra,
a formulação de uma idéia e um pensamento.
Mas um ato de ação pode ser meramente passivo
quando seu autor não está inserido da história
contada (como a história contada pelo xerife Bell à
esposa do perseguido sobre problema de um fazendeiro quando
abatia um boi e como até nisso as coisas podem dar erradas).
E é justamente esse elemento passivo da narrativa que
temos no xerife. Ele não está no meio da ação,
não é presença física diante da
perseguição. Por mais que queira ajudar o perseguido
a se livrar do assassino cruel, frio e destemido, ele sempre
está atrasado frente aos outros dois elos do filme, ele
sempre está um passo atrás – e está
atrás apenas na ação, pois como se percebe
ele consegue fabular perfeitamente o caso e o que está
acontecendo. Ele deduz as coisas – corretamente conclui
e delineia as personagens envolvidas, inclusive a própria
– e trabalha em cima delas, mas é como que seu
poder de ação estivesse aquém de sua experiência
em pensar e executar as coisas. Ele não é capaz
de entender e enfrentar o novo.
Bell, o xerife, não deixa de lamentar a perda da aura
dos velhos tempos, quando um xerife não precisava de
arma para fazer seu trabalho; o que movia as pessoas, mesmo
bandidos, era de caráter moral e não apenas financeiro.
Por sinal, o perseguido acaba entrando nessa teia trágica
por uma questão moral – quando encontra o dinheiro,
há um moribundo pedindo-lhe água. Ele não
tem e vai embora. No meio da noite, incomodado, ele vai até
o local onde o homem estava com uma garrafa de água.
Eis o impasse que o coloca no caminho de Chiburgh, o matador
de cabelos chanel de Javier Bardem. E, nesse novo mundo, quem
tem alguma amarra moral que não seja a da violência
e do terror (a de Chiburgh, a da morte a quem estiver na frente,
o terror do jogo do cara ou coroa pela própria vida),
acaba por sofrer, pois além dela há a fraqueza.
Quem tem moral no Novo Oeste é fraco e não tem
vez. Eis a moral (?!) dos irmãos Coen.
É essa perda de identidade, essa mudança de patamar
do faroeste, da moral de épocas distintas, que está
sendo mostrada pelos Coen. A substituição da figura
de um xerife dos velhos tempos por uma dinâmica moderna
em que tecnologia e velocidade aliam-se à criatividade
e ao sangue frio em matar, coisas tidas como comuns, até
ordinárias, no filme. É o terror que se instala
quando temos uma evolução nas técnicas
de matar, é a morte em escala industrial sem amarras
morais – e não há como não lembrar
do despudor nazista, de sua “solução final”
e suas “justificativas”, e instituições
que não evoluíram suas formas de combater essas
mesmas técnicas. É algo similar ao que vemos no
Rio de Janeiro entre traficantes e policiais. É a mesma
lógica mostrando que não apenas os EUA vivem esse
crepúsculo de um velho mundo que se tornou não
só obsoleto como incompatível com as novas normas
de ação do “Mal” – e aqui pensamos
a violência e o mundo das drogas, pois é nisso
que seus personagens estão inseridos.

O xerife se aposenta diante de sua incapacidade de agir e proteger
as pessoas. Suas formas de correção do Mal não
são mais páreas para o Novo Oeste. Algemas já
não seguram bandidos. Se antes tínhamos cowboys
que viviam dramas psicológicos intensos e morais –
muitos sabendo que sua vida acabava ali –, passamos a
ter perseguidores implacáveis sem nenhum escrúpulo
ou esgar de ordem moral. O que vale é tudo para se obter
o que se quer, e o que se quer é quase sempre dinheiro
ou suas metamorfoses contemporâneas – drogas principalmente.
Mas talvez o que tenha sido decisivo para o herói do
Velho Oeste sair de cena é que, no Novo Oeste, o herói
é coadjuvante, o ser moral não tem vez e o bandido
não morre no final. Só resta ao herói sonhar
com o pai, com os tempos em que o bem era capaz de vencer o
mal e com a certeza de que uma fogueira ao lado do pai era sinônimo
de boas histórias. Afinal, a última história
do xerife Bell não era bem uma história que ele
gostaria e teve orgulho em contar.