Estava
sentado tomando umas e outras. Havia brigado com a mulher. Ela
lhe dissera que era um bêbado sem correção.
Ele discordou gritando e foi tomar sua caixa de cervejas no
alto dum morro deserto. Terminou uma lata, jogou-a fora e abriu
outra enquanto olhava o céu.
Atrás dele observou-se um clarão súbito
e, de uma aeronave de forma circular, espocavam luzes que nunca
vira antes. Uma comporta se abriu com bastante fumaça
dentro e dela desceu um ser estranho, de pele esverdeada, o
que dava àquela figura um ar cômico, grandes olhos
e corpo mais comprido que o comum. Mexendo num aparelho que
adaptou à voz, disse:

- Leve-me ao seu rei – o rapaz então
tomou um tom formal.
- Desculpai-me, oh viajante amigo, mas não posso –
o rapaz ficou estarrecido, sem acreditar, mas continuou tranqüilo.
Há anos que não brigava com a esposa, se aquilo
acontecera naquele dia, nada mais o impressionaria.
- Não me faças perder meu resoluto tempo. Leve-me
agora.
- Entendas que meu rei há muito partiu e ainda não
voltou.
- Compreendo-te, é mais um religioso cristão que
espera por Jesus?
- Não sou. Mas vejo então que conheces nossas
histórias, clorofílico ser – o ser do espaço
já não compreendia bem as expressões.
- Conheço todos os deuses, deusas e tradições.
E sei que o atual líder mundano está vivo, mas
não sei onde se encontra.
- Impressiona-me tua audácia. Então conheces o
deus de nossas plantações?
- Sim, Deméter, senhora dos trigais, é sua representante
grega.
- Errou, meu gafanhoto amigo, Monsanta é nossa representante
internacional.
- Não entendo o que tu dizes.
- Temos ótimos otorrinolaringologistas por aqui.
- Se não é Deméter a das plantações,
quer dizer que Hera não é aquela que lhes protege
o lar?
- Essa eu desconheço, mas sobre proteção
temos a Car System.
- Estás me confundindo. Então o deus do martelo
não é Thor?
- Não sei. Tem o seu Abreu da carpintaria da esquina
de casa.
- Mas assim não vale. Quem é teu deus da guerra?
- Depende, o que nos defende ou promove?
- O que a promove.
- Quem gosta de encrenca é o Edmundo.
- Não consta em meus dados. E quanto ao outro, o defensor?
- Quem defendeu nossa honra foi Pelé.
- Nunca ouvi esses nomes de deuses.
- Então é melhor se informar, faz mais de anos
que eles estão por aí e você não
vai sobreviver desse jeito.

- Teus deuses caminham por vossas terras?
- É... a maioria anda de carro, mas dá pra trombar
o Romário nas praias do Rio.
- Praias em um rio?
- Você não imagina quantas.
- Vou-me embora, ainda sabemos muito pouco sobre este planeta.
- Se quiser, te arrumo um álbum de figurinhas da Copa
de 70.
- Agradeço, peço apenas que me esclareça
quem é teu rei.
- Romântico ou de ritmo?
- Os dois.
- Roberto Carlos e Elvis.
- E onde estão? – perguntou numa última
tentativa.
- Acho que hoje um está na Europa e o outro morto.
- Desisto, adeus.
- Dirija com cuidado!
O ser verde se afastou, foi tragado pela nave, a luz se fez
forte e depois já não havia mais nada que anunciasse
sua presença outrora ali.
O homem terminou calmamente de tomar sua cerveja, jogou a lata
fora mas não abriu outra. Por via das dúvidas
era melhor parar com aquilo.