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– Introdução
Vilém
Flusser (1920-1991), filósofo conhecido internacionalmente,
veio ao Brasil em 1940, fugido de Praga que sofria com a invasão
nazista e aqui ficou por 31 anos. Lecionou na USP, FAAP e fez
parte do Instituto Brasileiro de Filosofia. Tornou-se conhecido
por seus ensaios, recebendo diversas críticas e elogios.
Sempre deu importância a esse estilo, pois: “ele
é vivo, com o autor sempre presente e exprimindo a sua
própria vivência do problema sobre o que escreve.
O estilo acadêmico é impessoal, o ensaio um engajamento”.
(1985)
Para iniciar um panorama acerca do ensaio produzido por Vilém
Flusser, é interessante citar as duas versões
publicadas no Brasil. A primeira publicação ocorreu
em 1985 pela editora Hucitec a qual traz um prefácio
do próprio autor direcionado ao público brasileiro.
Já na segunda impressão, de 2002, editada pela
Relume Dumará, ocorreu uma mudança significativa
além da exclusão do prefácio do autor:
o glossário de grande importância para o entendimento
da obra, que no caso da primeira versão se encontrava
logo no início, foi transferido para o final do livro.
Essas considerações se dão por acreditar
que o livro seja um meio de comunicação e conhecimento.
Para tanto, modificações que aparentemente se
mostram pequenas comprometem a compreensão total de uma
obra. O prefácio de Flusser na primeira edição
traz uma apresentação de sua obra, citando os
motivos que o levaram a publicar o ensaio, bem como, sua função
de caráter hipotético com vista à não
citação de bibliografias para assim “criar
atmosfera para o campo virgem [...] As definições
do glossário não se querem teses para defesas,
mas hipóteses para debates”. (1985:7,8)
Filosofia da caixa preta trata de modo abrangente e profundo
questões que tomam por pretexto o tema fotografia,
carregando em si a intenção de um diálogo
filosófico sobre o aparelho fotográfico. Parte-se
da idéia de que a história do mundo, hipoteticamente,
pode ser observada se dividida em duas partes: a invenção
da escrita linear, como sendo a História propriamente
dita e a invenção das imagens técnicas,
como um modo de ser no mundo. É o que Flusser chama de
pós-história, sem possíveis e previsíveis
definições. De modo mais específico, o
ensaio aponta os conceitos-chaves: imagem, aparelho, programa
e informação.
1-
O percurso das imagens e dos textos
Vilém
Flusser introduz um pensamento onde a sociedade pós-industrial
passa a viver alienadamente em função dos aparelhos.
A alienação do homem nada mais é do que
a sua programação em função dos
aparelhos, onde o próprio homem pensa programá-los
para viver em função de uma liberdade sonhada,
mas inexistente.
Ora,
quando o homem deixa de ser o trabalhador que faz uso dos instrumentos
com intenção de modificar o mundo e passa a ser
o funcionário que vive em função dos aparelhos
pensando se tornar livre do trabalho, ele nada mais faz, do
que pensar que o aparelho lhe possibilita o “tempo livre”.
E vai assim, em busca do entretenimento que também é
gerado a partir de aparelhos. Um constante entorpecimento dos
sentidos e dos pensamentos.
Quando se fala da alienação do homem em relação
aos seus próprios instrumentos, pode-se dizer o mesmo
no que tange às imagens: elas são também
instrumentos que o orientam no mundo. O seu propósito
era direcionar o homem no mundo, mas o homem deixou de “consultá-la”
e passou a viver em função dela, idolatrando-a.
Para combater a idolatria das imagens cria-se a escrita linear
que tem o papel de explicá-las. Ocorre que, para explicá-las
se faz necessário o emprego de conceitos, que nada mais
são do que idéias. Tradução de cenas
em processo. Inicia-se a consciência histórica
e com ela uma nova crise: a textolatria. Gerando um esvaziamento
dos conceitos os textos se tornam supérfluos.
No entanto, a relação texto-imagem gera outra
crise. Os textos tendem a esconder as imagens tornando-as abstratas,
e o homem passa a ser incapaz de decifrar textos. Incapaz, porque
os textos também são mediações entre
homem e imagem, assim como a imagem é mediação
entre homem e mundo. Essa nova crise traz uma outra possibilidade:
a de superar tanto a crise das imagens que precederam a dos
textos, tanto quanto a crise dos textos que sucederam a das
imagens. Isso se dá pela introdução dos
aparelhos no mundo que geram as imagens técnicas. “Elas
imaginam textos que concebem imagens que imaginam o mundo”
(1985, p. 19).
A partir daí, Flusser passa a verificar o funcionamento
das nossas sociedades pós-históricas, ou seja,
das nossas sociedades marcadas pelo colapso dos textos e pela
hegemonia das imagens.
O
aparelho e suas implicações
O
aparelho fotográfico é definido pelo autor como
caixa preta. Um sistema complexo que talvez, nunca
será totalmente penetrado. Os fotógrafos são
funcionários desses aparelhos, e estes, funcionam através
de seus programas aptos a gerarem imagens técnicas.

O
funcionário lida apenas com o input e o output
das caixas pretas. Ele sabe que para manipulá-las
deve-se clicar no botão para que o dispositivo cuspa
as imagens desejadas. Ao construir sua cena, ele acredita possuir
certa liberdade em relação aos aparelhos, pois
ele elege as categorias dentre as quais estão disponíveis
no sistema, aquelas que lhe parecem mais adequadas. Essa idéia
de liberdade não ocorre de fato, pois sua intenção
já esta inscrita dentro das possibilidades que o próprio
aparelho gera. Seus gestos, portanto, são técnicos.
Ele só fotografa o que é fotografável.
Mas nem por isso o fotógrafo, em especial o experimental,
deve deixar de sentir a máquina em suas mãos,
olhar ao seu redor e se convencer de que é possível
manipulá-la em seu favor. Brincar na relação
fotógrafo-aparelho. O fotógrafo visa eternizar-se
através de suas imagens, e o aparelho visa programar
a sociedade que, por intermédio das imagens, gera um
comportamento que lhe permita o seu constante aprimoramento.
Para Flusser, “enquanto não existir crítica
fotográfica que revele essa ambigüidade do código
fotográfico, a intenção do aparelho prevalecerá
sobre a intenção humana” (1985, p. 49).
A
fotografia enquanto objeto não possui valor algum. O
valor está na informação contida na imagem
que, por sua vez, é distribuída pelos meios aos
quais elas são inseridas. Sejam eles jornais, folhetos,
obra de arte e outros. Assim, as imagens serão sempre
‘eternas’. Jamais será gasta a informação
produzida, por ser eternamente copiável. Porém,
não se pode ocultar que os meios de distribuição
também são aparelhos. Aparelhos que funcionam
subordinados a outros aparelhos. Um sistema hierárquico
sem a possível visualização de quem está
no comando. Funcionam automaticamente, programaticamente, pois
o seu propósito está em se tornar independente
do homem, para que esse funcione dependente dos aparelhos.
“Aparelhos, processos e suportes decorrentes das novas
tecnologias interferem em nossos sistemas de vida e de pensamento,
em nossa capacidade imaginativa e em nossas formas de percepção
do mundo” (Machado, 2001, p. 55). Eis que urge a conscientização
do homem no que tange à sua liberdade. Viver em função
dos aparelhos é continuar a viver sobre a superfície
de caixas pretas, obscurecidos pelo enfraquecimento
dos sentidos. Conquistar a liberdade é conscientizar-se
das estruturas que regem as imagens, as informações,
os programas e os aparelhos. Flussser diz que “a tarefa
da filosofia da fotografia é dirigir a questão
da liberdade aos fotógrafos. [...] Filosofia urgente
por ser ela, talvez, a única revolução
ainda possível” (2001, p. 83 - 84)
Filosofia
da caixa preta e a comunicação
A comunicação é um processo complexo que
trata da conexão, informação e vínculo.
Ela “começa muito antes dos meios da comunicação
de massa, muito antes da imprensa, do rádio, da televisão.
Antes mesmo da invenção da escrita” (Baitello
jr, 2005, p. 31). Para Harry Pross, tais processos comunicativos
– não importando quantos aparelhos sejam usados
– começam no corpo e terminam no corpo. Eles acontecem
“por meio de inúmeros vínculos, inúmeros
canais, inúmeras relações, conexões
e linguagens”. (2005, p. 32) Logo, vemos que a questão
da comunicação não é somente anterior
ao conceito reducionista de mídias, como também
demanda uma revisão.
Para tanto, as questões que rondam as ciências
da comunicação e os processos comunicativos ainda
se encontram na produção tecnicista. Desenvolveram-se
máquinas e técnicas para produzir uma ‘melhor’
comunicação, não é por acaso que
as primeiras teorias da comunicação eram antes
de tudo teorias matemáticas da comunicação.
A evolução tecnológica não cessa.
Os estudiosos da comunicação na atualidade pensam
nos suportes que a geram, ou seja, na mídia (meio), o
que está entre uma coisa e outra. E as relações
humanas como princípios da comunicação
deixaram de serem pensadas. Assim, os vínculos, dados
nas trocas entre corpos e estabelecidos desde o nascimento de
um bebê, ou ainda, durante o período de gestação
tornam-se deficitários. É a sua ausência
que transforma a comunicação num processo reducionista.
E a informação também se reduz a um fim
único: a de atribuir função, utilidade.
Eis que, é no funcionalismo que as ciências da
comunicação se perdem.
Baitello Jr., no livro A era da iconofagia diz que
“os espaços do aconchego, da proteção
e do acolhimento ficam inabitáveis por estarem perfurados
e permitirem a entrada invasiva do ‘furacão da
mídia’” (p. 48). Doravante, a proximidade
provinda das relações de interação
entre os homens provoca o distanciamento entre eles em função
da mídia, em função dos aparelhos geradores
da mídia. E os sentidos e as percepções
se esvaem. Retoma-se então, a idéia apresentada
por Flusser, onde os aparelhos manipulam os homens (funcionários),
que pensam manipular os aparelhos. Onde há rompimento
das interações humanas há um rompimento
do ato de pensar e de sentir.

O que cabe às ciências da comunicação
investigar? A resposta está diretamente ligada à
crise da visibilidade no mundo, conseqüência direta
dos aparelhos que permitiram uma reprodutibilidade técnica
da imagem. Uma visão, que de tão exagerada, institui
a cegueira. A visão é um sentido de distância,
ao contrário de outros sentidos, por exemplo, do tato,
que é proximidade. A visão, portanto, não
pede presença física, já os sentidos de
proximidade pedem a presença física da mídia
primária, o corpo. E enquanto o privilégio e o
valor suporem as imagens produzidas por aparelhos, e só
por eles, distribuídas através das mídias
(mídias terceárias) como a internet, televisão,
jornais e outros, continuaremos a encarar senão erroneamente
a comunicação, com certeza, renegando uma parte
que precisamente foi esquecida até então.
Filosofia
da caixa preta traz
aos seus leitores e pesquisadores um desconforto concernente
às questões da automaticidade dos homens. Desconforto
esse apontado por Maria Lília Leão – divulgadora
dos trabalhos do autor – como urgente para a transformação
e aprimoramento humano: “Flusser sempre faz pensar. E
pensar dói.” (Brill, 1986). Sobretudo o ensaio
trata de sua influência direta no que tange a comunicação;
pois de certo modo, se a comunicação funcionalista
visa obviamente apenas a sua função, não
somos outra coisa senão funcionários deste grande
aparelho.
É imprescindível a retomada dos sentidos como
conjunto de vínculos, com suas características
históricas, políticas, sociais, antropológicas
e psicológicas para desautomatizar e desprogramar o homem,
para que ele finalmente, possa melhor compreender as estreitas
vias da comunicação que Flusser denuncia e critica
veemente. As imagens técnicas oriundas de seus aparelhos
carecem de serem encaradas não como problemas técnicos
de seu suporte, e sim da própria ontologia das imagens.
Por este viés, Flusser é fundamental para repensar
os valores inseridos em tais imagens, e o que elas fazem com
quem as produz e as consome.
Bibiliografia
BAITELLO
JÚNIOR, Norval. A era da iconofagia. Ensaios de comunicação
e cultura. São Paulo: Hacker Editores, 2005.
BRIL,
Stefania. “As relações futuras do homem
com a máquina”, in Revista IRIS. 1986.
Referência obtida na internet. <http://www.fotoplus.com/fpb/fpb013/b013c.htm>
(12 de junho de 2006)
FLUSSER,
Vilém. Filosofia da caixa preta. São
Paulo: Hucitec, 1985.
FLUSSER,
Vilém. “O instrumento do fotógrafo ou o
fotógrafo do instrumento?”, in Revista IRIS,
1982. Referência obtida na internet. <http://www.fotoplus.com/fpb/fpb017/b017c.htm>
(12 de junho de 2006)
MACHADO,
Arlindo. O quarto iconoclasmo e outros ensaios hereges.
Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2001.