A Comunicação, o Grafite e a Mídia Secundária
Bianca Hayashi; Mariana Bezerra; Rebeka Figueiredo; Vivian Prestes

Sem a existência de um código ou
um conjunto de códigos de natureza
social, não seria possível a formação
e a manutenção de comunidades sociais.
(Norval Baitello Júnior)

          O movimento Hip Hop surgiu nos Estados Unidos, mais precisamente em subúrbios latinos e negros de Nova Iorque, como Bronx e Brooklyn, na década de 60. Começou como um movimento de jovens, que se encontravam nas ruas desses bairros – verdadeiros guetos, uma vez que eram bairros com muita pobreza, tráfico e, muitas vezes, violência – para se divertirem. Aos poucos, foram se organizando em gangues, com regras estabelecidas por e entre eles, se confrontando em lutas territoriais.

          O movimento é caracterizado por quatro elementos: o DJ (operador de discos e colagens musicais), o MC (mestre de cerimônia, porta-voz do gueto, atua como rapper), B.Boy ou Break Dance (dança de rua, a batalha que substituiu as armas) e o Grafite.

          O termo Hip Hop foi criado por Afrika Bambaataa, considerado o padrinho da cultura Hip Hop e conhecido como “Master os Records”, por sua vasta coleção de vinis. O DJ Hollywood foi o primeiro a usar MCs em suas festas, iniciando o rap. Já Taki 183 revolucionou a Big Apple ao espalhar suas assinaturas pela cidade. Chegou a ser noticiado no The New York Times.

         Essa atitude de Taki 183, apesar de chocante, não é nova. O grafite pode ser encontrado em paredes no império romano, por exemplo. A palavra deriva do italiano grafitti, que significa marca ou inscrição feita em muro.

         O grafite se destaca facilmente em centros urbanos. Alguns o consideram como ato de vandalismo, outros como uma forma de arte. Não podemos esquecer de que há diferença entre pixação e grafite, sendo o primeiro considerado - pela maioria das pessoas - como vandalismo e o segundo, como expressão artística.

         A pixação se inicia nas décadas de 70 e 80, em Nova Iorque, com as brigas entre gangues. Surge como forma de protesto ao enfatizar frases de cunho político, e na demarcação de territórios, quando há apenas a assinatura pessoal. Já o grafite tem uma preocupação estética, com suas cores fortes e relação com o ambiente urbano, sempre refletindo a rua. Os temas e técnicas usadas são diferentes dos da pixação. No Brasil, os grafiteiros inovaram a técnica com o uso da tinta látex.

         Com este trabalho, pretendemos mostrar como as teorias sobre mídia de Harry Pross se encaixam nessa forma de comunicação. Mais precisamente, analisaremos as maneiras como a mídia secundária se comunica, suas vantagens e desvantagens no processo comunicativo estudado.

A comunicação, o grafite e a mídia secundária

          Como nos lembra Ashley Montagu em seu livro Introdução à Antropologia, os homens são seres sociais e sentem prazer na associação. Para se organizar em grupos, o homem desenvolveu um sistema, a comunicação, que é o processo de receber e transmitir informações; Ashley a chama de unidade da situação social. A comunicação é feita através dos gestos e sons emitidos por um indivíduo, e dos códigos que foram criados a partir da comunicação corporal, como a língua. O grafite, objeto de estudo deste trabalho, é uma forma de comunicação criada pelo homem, é cultura, e, como tal, é um instrumento que atende às necessidades de expressão e de adaptação ao meio dos que o produzem.

          Norval Baitello Júnior, em A Mídia antes da máquina, refere-se à Harry Pross dizendo que o corpo, sendo a primeira mídia do homem, deve ser visto como texto capaz de comunicar. O livro em questão é de 1972, Medienforschung (Investigação da Mídia), no qual Pross realiza uma classificação dos sistemas de mediação. Neste sistema, o corpo é visto como primeira mídia do homem, ou mídia primária. Segundo Norval Baitello Júnior, é a partir desta primeira comunicação que podemos pensar na interação entre os indivíduos, que ocorre por meio do corpo e de suas múltiplas linguagens, como os gestos, os sons, os odores.

         A mídia primária é limitada enquanto meio de comunicação no sentido de que depende da presença dos indivíduos para que a mensagem seja transmitida. O homem,então, desenvolveu formas de aumentar sua capacidade de comunicação, como diz Norval Baitello Júnior, a partir da criação de suportes ou aparatos que amplifiquem o alcance de suas mensagens e que atuem como substitutos do corpo.

         Para compreender a informação transmitida, o receptor não precisa de recursos tecnológicos ou suportes para decodificá-la. O grafite classifica-se, então, como mídia secundária, já que é uma forma de comunicação humana que utiliza um suporte extra-corpóreo para difundir sua mensagem a um número maior de receptores e por um espaço de tempo maior. Também é mídia secundária o impresso, a gravura, a fotografia, a escrita, a vestimenta, entre outros.

        Si se dispone de um aparato es posible la duración, ya sea como imagen o como escritura, ante la existencia del lenguaje. Desde la primera transcripción fonética de los sumérios, la escritura ha reforzado sobre todo la duración de la expresión. Lenguas antiguas que ya nadie habla se han podido reconstruir gracias a la escritura, y con la difusión efectuada por las posibilidades de la comunicación ha llegado a más personas que en la época de su fijación.[...] La comunicación tiene tendencia a la transmisión temporal (BETH, PROSS, 1990, p. 163-4).

         Para que as informações pudessem ser transmitidas sem a presença do emissor, o homem desenvolveu, e continua desenvolvendo, técnicas e tecnologias que ampliam sua capacidade de expressão. A utilização de suportes para a transmissão de conteúdos contribuiu para o desenvolvimento da inteligência humana e para a preservação da cultura produzida.

As fases do Grafite e Pixação

          O grafite, sendo ele inicialmente considerado qualquer tipo de pintura em muro na rua, está ligado ao movimento do hip hop, como foi dito anteriormente. É usado por grupos oprimidos para revelar ao governo e à sociedade em geral as violências que sofrem; um protesto que obriga a cidade a contemplar sua miséria (Juny KP). A lei permite que seja feito em tapumes de obra ou construção espalhados pela cidade.

         Já a pixação, com x, é o rabisco de um patrimônio. Não visa à estética, mas sim a demarcação do território e influência, como data sua origem na década de 70 pelas gangues de Nova York. Perante a lei brasileira (art.65, lei 9.605/98), é vandalismo e crime ambiental, com pena de até um ano e multa. O rabisco é caracterizado como marca, popularização de um nome. Assim se explicam os diversos estilos, sombreados, formas e contornos, pois, mesmo que pareçam ilegíveis para a maioria, e até para outros pixadores, serve como logotipo do autor e do grupo que quer impor-se naquele local.

          No começo a pixação e o grafite confundiam-se. Depois de fazer um grafite num muro, o grafiteiro assinava, e essa assinatura na obra, ou solta pelos muros, era considerada pixação. Visualmente a pixação e o grafite são muito diferentes: as pixações são iniciais, palavras soltas, e não buscam uma beleza estética. Os materiais utilizados são sprays, tintas e rolinhos. O grafite busca uma beleza estética, é geralmente muito colorido, com desenhos mais elaborados e variados. Utiliza uma quantidade maior de material, somando fitas, bicos diferentes de spray e solventes para criar efeitos.

         Um meio muito usado como difusor do movimento, especialmente nos EUA e Europa, foi o metrô, pois ao ser pintado em uma estação, tinha o seu significado levado a todos os outros cantos da cidade, passando por todas as linhas. O próximo passo foi o trem, que permitia a divulgação das mensagens ultrapassando o “dentro” para chegar no “entre” municípios.

          Os estilos mais trabalhados, conhecidos como Bombs ou Grapixo (pixação com efeitos de grafite), começaram com letras mais cheias e arredondadas em blocos (Bubble), depois aparecem os inspirados em metais (Mechanical), Throw-ups (letras contornadas e coloridas, tidas como “vômitos”) e, por último, o Wild Style / Pieces (letras fundidas, mais complexas e beirando o grafitismo, já que exigiam desenhos e maior variedade de tintas e técnicas). Os trabalhos completos de um texto único e amarrados com o grafite, ambientando com legenda a mensagem, são chamados de Produções. Já as letras simples e sem adornos são denominadas Tags, feitas, geralmente, como assinatura e não tanto como mensagem social. A multiplicação destas foi motivada pelo surgimento dos marcadores (variando de 1 a 5 centímetros), com uma tinta difícil de sair e fácil de ser escondido.

          A escrita entra como personagem vivo perante a morte do homem, servindo como instrumento semiótico para suas idéias criarem sua cultura.

A cidade tatuada e o conflito com a arte

         Os grafiteiros e pixadores definem seus atos como action painting, e, segundo o pixador Juny KP, usam a cidade como uma tela, com o objetivo de tirar as pessoas do delírio alienante de suas falsas realidades, desalinhadas com a verdadeira alma do mundo. Querem acabar com a simulação e adentrar na intensidade da mensagem.

          No Brasil, a pixação não se desenvolveu muito nos trens e metrôs, mas exibiu-se no alto dos edifícios, escalando os andares para assinar acima das cabeças das pessoas, alterando a hierarquia social vigente, protestando contra falsa ordem alegada. Já o grafite fixa-se apenas no térreo e subsolo, já que não é possível a fácil locomoção das latas de tinta e os detalhes se perdem na distância dos olhos.

         Esse confronto com a ordem vigente é também contra a arte, dita domesticada por cubículos elitizados (galerias de arte) e tratados como mercadoria, entendida pelo valor econômico, perdendo o valor existencial do artista verdadeiro, inspirador de idéias.

          Entretanto, o grafite começa a invadir o mundo da moda. A marca de roupas Ellus, contratou 20 grafiteiros para produzir os cartazes da propaganda de inverno 2006, além disso, alguns grafites estamparam algumas peças da coleção.

          A tendência do grafite, hoje, é mais artística. Vários grafiteiros estão produzindo para o mundo fashion, e o grafiteiro do momento é Titi Freak, que já produziu para a Ellus, para a Loja das Camisetas, entre outras. Os irmãos grafiteiros OsGêmeos também produziram modelos de tênis.

         O grafite brasileiro tem ganhado espaço nas galerias de artes do Brasil e do mundo. OsGêmeos chegam a vender quadros por 18 mil dólares, e, além disso, já expuseram em galerias de Nova York, Milão, Los Angeles, Londres, Hong Kong, Tóquio e Paris. No Brasil, a galeria Choque Cultural já expôs várias obras de grafiteiros.

Repressão e criação

          No Brasil não há repressão ativa contra os pixadores, diferente do que acontece na Europa e nos EUA. Lá, para agilizar a divulgação e evitar de serem pegos pelas autoridades, criou-se o Sticker, processo semelhante ao lambe-lambe (propaganda em papel colada diretamente na parede). Feitos em gráficas ou impressos em papel contact, são rápidos e fáceis de aplicar e esconder. Geralmente são carregados de desenhos e tem um visual mais urbano-elitista, devido ao custo elevado, em comparação com as latas de spray.

Papel político no Brasil

          A pixação aparece durante a ditadura militar, mais precisamente na abertura política, em nome da democratização das opiniões, em frases como ABAIXO A DITADURA, Anestesie , Abaixo a Vida Dura.

         Já na década de 80 e 90, aparece com o movimento punk, divulgando seus ideais: Vote Nulo, Não Sustente Parasita, além dos nomes das bandas do momento (Ramones, Sex Pistols, Cure).

         Nessa época, também, começaram os recados pessoais, brincadeiras e enigmas exibicionistas perante a sociedade, revelando uma desagregação e o individualismo dos ideais da metrópole, cada um com sua crítica, desunida e alienante perante os outros segmentos sociais, são as chamadas “inscrições urbanas”.

Pixação X Propaganda

          O questionamento que se faz é: qual a diferença entre uma pixação no muro e uma propaganda pintada no mesmo lugar? Ambos divulgam uma mensagem, seja de interesse público, protesto ou pessoal. Por que considerar a pixação um ato de vandalismo e não a propaganda forçada?

          A marqueteira política Rosana Marquês nos revelou que considera esses rabiscos como violência urbana, já que os autores não pagam pelo espaço usado, e afirmou ainda que os pixadores são mais excludentes que excluídos, já que ao divulgarem suas mensagens, fazem de maneira que o público não saiba o que realmente significam, mantendo-se fechados e isolando, propositadamente, o grande público. Rosana diz, ainda, que se eles querem protestar, pois que protestem para quem tem a concessão a fazer, e não ao público que paga o imposto para ter o mesmo que ele, com a condição de ver seu patrimônio depredado por um grupo e a um grupo exclusivo. Não tenho obrigação de ver o que eles rabiscam. Questionada quanto ao fato da obrigação de ver tanto a pixação quanto a propaganda de forma explícita, sem permissão de todos os passantes em tal lugar, Rosana alegou que a publicidade visa um “bem comum”, já a pixação visa a “depredação mental-visual”.

          Qual o limite entre o público e o privado e que direitos o cidadão tem ao andar pelas ruas da cidade parecem não vir ao caso. Cabe lembrar de que

(...) a cidade é o lugar do olhar. Por este motivo que a comunicação visual se torna o seu traço característico. Supera-se a velha dicotomia (para mim sempre ambígua), entre comunidade e sociedade: o olhar significa não somente olhar, mas também ser olhado. E a grande cidade desenvolve ao máximo esta dialética, inserindo este duplo olhar sobre um outro duplo panorama, intrinsecamente metropolitano: os panoramas eletrônicos e a sua réplica ou conflito nos panoramas visuais urbanos. Por isso, os olhares desejados estão dentro da metrópole e não genérica rede mundial da cable-society, onde falta o exagero sedutor de observar e ser observado (CANEVACCI, 1997, p. 43).
Conclusão

          O grafite/pixação tem como objetivo, portanto, denunciar a violência sofrida ante o governo e a sociedade em si. Seja pela auto-afirmação; propaganda pessoal, pela intenção de popularizar seu nome-marca, demarcar território/influência, buscar, simbolicamente, alterar a hierarquia social no topo dos prédios ou contestar a ordem política vigente, é preciso saber que a mensagem existe e tende a ser divulgada.

          Essa divulgação almeja ultrapassar os limites dos “guetos” oprimidos; os pixadores querem ampliar seu alcance para além do espaço e tempo físico do autor. Eis as bases da mídia secundária: o uso de um suporte extra-corpóreo (tintas, marcadores, stickers, sprays) para difundir a mensagem a um maior número de receptores (todos os passantes pelo local grafitado/pixado), por um espaço de tempo maior (enquanto a mensagem continuar exposta nos muros).

          Há de se lembrar, porém, de que o grafite é uma comunicação frágil, visto que o meio urbano se mantém em constante alteração, com reformas e construções. Dependendo do local escolhido, será apagado ou hospedará outro grafite por cima, alterando a mensagem inicialmente proposta. O grafite/pixação interage com a mutabilidade da cidade e da condição que as pessoas vivem, assim como a da mídia que se transforma diante de novas tecnologias.

         Assim, dá-se a existência da linguagem, com a conseqüente transmissão e preservação das denúncias que se pretende registrar. A escrita e o desenho substituem o corpo do artista e atingem aqueles que vivem ou não naquela situação propagada, constituindo um verdadeiro sistema de comunicação e o criar de uma cultura.


Bibliografia

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