Número 10: Cultura clarividente
A
vida é curta, mas as complicações que ela
nos traz fazem com que os intervalos entre uma edição
e outra de Conjecturas fiquem mais longos.
Melhor assim, pois mais expectativas depositam-se nela. E esperamos
não decepcionar.
Esta
edição está um tanto diversificada, pois
nosso editor Martinho Junior resolveu aparecer em somente duas
atrações das nossas disponíveis. Martinho
assina o mundar O mesmo pedaço, e mostra como
a obsessão pela fragmentação moderna do
homem pode chegar mesmo ao amor; um amor não ao outro,
mas ao detalhe que este pode oferecer. Em outra intervenção
do nosso multiartista, de uma visita ao cemitério de
Montparnasse ele flagrou árvores melancólicas
que absorvem a tristeza que marca a despedida nos cemitérios.
E ao lado do nosso outro editor, Lucas Pires, criou um clipe
reflexivo sobre a morte e a memória humanas em um dos
nossos Imagemar.
Aliás,
se foi dito acima que Martinho não apareceu tanto, retiramos
o dito. Afinal, ele também é o responsável
pela série sobre Bergman – Dez Lições
sobre Bergman – que chega à quarta lição
com “Imagens Endógenas”, as imagens internas,
dos sonhos, dos devaneios do homem tão próximas
e ao mesmo tempo postas culturalmente como distantes.
Se
a temática são as imagens, Cláudia Fraga,
agora armada e titulada com nota máxima, apresenta e
discute a tal filosofia da caixa preta de que escreve Vilém
Flusser em seu famoso livro. Oras, estamos falando de produção
de imagens, de imagens técnicas que inundaram o mundo
com seus simulacros de realidade, deste modo a revisão
do debate entre o aparelho (que podemos estender para além
do aparelho fotográfico) e seu funcionário sempre
se faz necessária.
Fugindo
um pouco dos estudos mais filosóficos ou acadêmicos,
um exercício precioso de observação e jornalismo
temos em Escritos no viaduto. Rosangela Santos desnuda-se
e dá letras à experiência humana de buscar
desvendar o futuro por meio das cartas de tarô, signos
que, antes de qualquer coisa, estão lá, postos,
prontos a serem interpretados pela cultura, ou pelo repertório
daquele que lê. Charlatanismo ou futurologia, os resultados
que ficam ao menos renderam um belo texto, ao mesmo tempo melancólico
e espirituoso, sem os disfarces que o jornalismo dito informativo
impõe às novas gerações.
Na
mesma toada, Amer Houchaimi resolve sair de seu mundo para mergulhar
em seu mundo em Jornada ao quarto de Amer. Muito mais
que descrição de um lugar pouco visitado, pois
proibido à maioria – só possível
aos Escolhidos por Amer – eis uma jornada no tempo, pela
história da cultura dos anos 80 e pela evolução
dos videogames. Retrato de um excêntrico de quase 30 anos,
o agora formado jornalista Amer se coloca na berlinda abrindo
seu espaço nas páginas de Conjecturas, e o resultado
está longe daquelas visitas de Caras à casa dos
ditos famosos, ou ao seu castelo.
Para
Conjecturas, Amer, Rosangela, Renan ou as meninas
do grafite são os verdadeiros donos da fama e da verdade.
Cada um deles com a sua verdade, nós com a nossa e vocês,
leitores, com as vossas. É assim que Conjecturas
sobrevive e segue em frente, mesmo com lapsos de memória
e espasmos de branquidão. Mas verdadeiros, isso que importa.
PS
– Aproveitamos para informar que Renan de Simone, que
assina o mundar Insônia, acaba de ser promovido
a também autor no Textar. Já nesta edição
os leitores que acompanham os fragmentos de pensamento que os
editores ali depositavam (não assiduamente, devemos admitir)
terão preciosidades do jovem que está na Austrália
em busca de aventura, experiência e histórias para
contar. Daí uma de suas características em seus
textar ser o choque cultural, como podem ver nesses textos iniciais.
A RdeS, como o chamamos naquele espaço, um bem-vindo
e congratulações.